23 dias
1 Homem sem vida
Saber que chegou sua hora não é nada reconfortante. Foi isso que aconteceu comigo.
Há algum tempo, recebi uma mensagem da minha irmã, ela disse que teve uma revelação: Quando eu me reconciliasse com Deus, ele me chamaria para ficar ao seu lado. E claro que eu fiquei irado com ela, oras! Onde já se viu ela dizer algo de tamanha gravidade? Eu sou um bom marido e um bom pai, não há motivos para eu ir embora deste plano. Mas, no momento em que menos esperamos, levamos um tapa no rosto. Estava dando uma caminhada pelo bairro, em minha rotina de sempre e, ao passar pela igreja vi uma luz, uma luz intensa, muito intensa, porem sua intensidade não afetava minha vista, não ardia. Entrei na igreja e ouvi o culto pacientemente. Quando o pastor pediu para que, quem sentisse muita dor, se aproximasse do palco, fui, afinal tenho muita dor nas costas. Ao me olhar o pastor perguntou se eu estava de bem com Deus. Afirmei indignado. Já não bastasse o que minha irmã disse, agora tem este pastor que acha que sabe alguma coisa, porém, sua reação foi diferente do que eu esperava. Ele balançou a cabeça negando.- Tu estás muito enganado. A anos que não visitas a casa do Senhor. Por quê? Por que deixastes de visitar tua moradia?- Antes que pudesse responder ele disse.- Mas tudo bem... Ele sabe pelo que tu passaste, sabe de suas batalhas. Ele te perdoa por um erro tão banal como este. Agora sim!- Afirmou o pastor- Agora tu estás reconciliado com o Senhor nosso Deus. Agora tu podes dormir em paz, sem mais dor, fome, angustia, preocupação. Agora seu sono será tranquilo.- termina dizendo o pastor. Em contraparte eu disse. — Gloria a Deus, meu Senhor, minha vida, meu tudo ou nada. Glória! — Todos que estavam na pequena igreja se levantaram e glorificaram o nosso Senhor.O pastor estava certo, naquela noite eu dormi feito um bebê e, como os bebês, eu acordei chorando de dor em uma das pernas. Era tarde quando minhas filhas me levaram ao hospital para ver do que se tratava mas, antes de tudo, pedi ao médico que mentisse a elas, e falasse somente a mim o meu real estado de saúde. Só para mim. Ele disse que eu estava com uma doença grave, em um estágio muito avançado. Também disse que não pode deixar de contar para minhas filhas. Elas ficaram muito preocupados e, elas lutaram bravamente para me manter feliz junto a elas. Não pude sair do hospital e, naquela noite, tive um sonho, uma imagem, na verdade. Durante a noite inteira. Era um número, o vinte e três. Eu sabia do que se tratava, só não queria acreditar. No dia seguinte, as onze, veio minha filha mais velha. Ela me explicou tudo, achando que o médico não tivesse me alertado sobre meu estado clínico. Eu fingi estar surpreso, mas não aflito, nem nervoso. Ela me disse que não iriam desistir de mim, que seria difícil nossas jornadas, mas o final seria bom. Eu já sabia o que tinha que fazer.A tarde veio minha filha caçula, chorara e soluçava muito. Isso só me deixou mais certo em minha decisão. Ela estava gravida, não pude deixar que minha condição afetasse o meu neto. Então eu a perguntei como estava sua relação com o pai do bebê. Ela me disse que haviam terminado, eu a xinguei. Ela não gostou mas prosseguiu com outro assunto, dizendo que sua mãe, minha esposa, estava reclamando muito em casa e brigando com ela e as irmãs. Eu, estúpido, disse que era dever e responsabilidade dela de cuidar de, sua mãe. Ela não gostou nem um pouco e saiu furiosa comigo. Era o que eu queria.Na noite que seguia fiquei acordado ouvindo os gritos e gemidos dos outros "detentos", não entendo por que lutar contra a ordem divina. Se for sua hora não há motivos para tentar negar.No segundo dia pela manhã veio minha xodozinha, uma das minhas últimas filhas. Tive de demostrar força, embora ainda com dor na perna. Ela é muito sensível e não reage bem a dor emocional. Fica bem agitada e raivosa. Então engoli a dor, botei um sorriso no rosto e quando chegou, fui correndo ao seu encontro. Ela ficou muito feliz, principalmente porque eu não estava "mal". Me contava sobre seu trabalho de sustentar a casa, já que era a única filha que trabalhava e ainda morava com minha esposa, estava lamentando não poder me ver todos os dias ao chegar em casa, abracei — a . Já à tarde, no mesmo dia, iria uma filha que não via à muito tempo. Eu não podia parecer feliz pois ela não daria valor depois que eu fosse. Então eu devo realmente demonstrar o que sinto, a dor agonizante na perna. Ela precisa ver meu sofrimento para aprender a dar mais valor a seus pais, e seus irmão. Embora esteja sofrendo sozinha, eu sei que logo ela retornara para o seio familiar.Hoje é a Páscoa e já se passou 14 dias dos 23. Pela manhã veio meu único filho homem. Lembro-me de quando ele era um garoto, naquela época eu mimava-o. Nunca briguei com ele e sempre fiz seus desejos, nunca precisou lavar uma louça, ou varrer a casa. Não, esse era o trabalho de suas 7 irmãs. Me arrependo de cria-lo de tal modo. Hoje, ele precisa de mais juízo, dar mais valor a sua mulher e respeitar suas irmãs. Precisa ver que já não depende mais de minha ajuda. Admito que ele é assim por minha causa, mas não hoje.Ainda na páscoa, iria minha segunda filha. Ela era muito apegada a mim, eu costumava chama-la de meu xerox, de tão parecido que somos. Trouxe chocolate, mesmo sabendo que não posso comer. Minha filha sempre foi sensitiva. Ela já sabia. A única que já sabia de como seria o desenrolar dessa historia. Ela tinha medo, e não queria acreditar. Mostrei a ela que estou certo de minha decisão e não me arrependo.Já é o 16 dia e, a partir de agora, os dias vão passar voando, a começar pela minha piora de estado clínico. Fiquei irreconhecível. Meus filhos mais problemáticos me viram assim. Espero que eles, vendo meu sofrimento, se ajudem. Chegou o tão esperado vigésimo segundo dia. E finalmente sou trasferido para o hospital que é especialista no meu problema. Mesmo de nada adiantando. Uma de minhas filhas que mora longe veio ao meu encontro, desnecessário! Meu corpo já avia se entregado pela manhã. Já não conseguia mais responde-lá, vê-la, ouvi-lá e nem toca -lá. Sentia um aperto forte em umas de minhas mãos, logo soube que era ela. O tempo foi passando e pediram para ela se retirar. Sem demora 6 de minhas filhas e seus maridos chegaram no hospital. Meu "eu" estava distante do meu corpo físico. Quando me deparei com meu corpo, percebi toda a aflição de minhas filhas.
Passeando pelo mundo espiritual, encontrei-as fazendo uma oração. Foi uma oração tão bonita, incrível. Qualquer um iria chorar se visse a emoção delas. A luz que me chamou para dentro da igreja apareceu novamente. Agora ela representava uma energia de serenidade. Era calorosa me chamava para seu abraço, seu conforto. Logo olhei para minhas filhas e vi que elas me encontraram na sala de emergência. Elas estão olhando meu corpo por uma pequena janela. A luz ficava cada vez mais próxima de mim. Já não tinha mais nada ali, já não via mais nada. Não ouvia mais nada. Não sentia mais nada. Além de paz!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
Fale com o autor