21 Contos Sobre O Fim Do Mundo
13 Flor
Notas iniciais
(Pois eis que eu antes de morrer escreverei).
Em uma opinião sobre o amor, nasce tal flor.
Nasce naquele trilho abandonado, sem muita razão de viver nem de existir puramente (era daquelas que existem por não ter opção aparente).
A mim restou descrevê-la, para que sua quase existência não passe em branco. Suas pétalas e sua corola e seu caule e sua decadência, todos pequenos, frágeis e quebradiços, ígneos, redundantes... Pois agora me lembro; era branca.
(Se és cristão, ela era o espírito santo).
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A moça deixava que o vento levasse o seu vestido branco para um transe.
Flor pensava em João.
Eu também pensava em Flor.
(Não falarei de nós porque é o fim. E o fim não é hora de citar Camões).
Flor pensava que João estava perdido naquele mar de palavras. E que ela estava afogada naquelas palavras dele. Mas que, agora, ela era trem e trens vão embora correndo de cada destino. Correu então do destino dela e de João.
... O cabelo agarrando o sol aos poucos... Os sonhos em decadência pelo fim.
Flor caminhava naqueles trilhos de trem, fingia voar; voava.
Voava naquela dança que só ela sabe. Dança de leve, sutil e pausada... algum tipo de valsa misturada com blues.
A Flor não era conveniente andar naqueles pedaços de ferro embutidos na terra, estavam quentes e ela, descalça. Mas Flor era só contradição, da entranha até a derme.
Veja; ainda não falei do fim... Não sei se devo falar. Flor não era daquelas pessoas que morriam fácil, nem sei se ela morreu no fim ou mais depois. Não. Não falarei do fim (ainda que você saiba que Flor findou-se dia desses).
Imagino que ela brincava com uns átomos dispersos e que seu rosto continuava com cheiro de pizza. Imagino que ela e seu vestido, todos tão leitosos, se camuflavam nas nuvens. Imagino que ela me tirava para dançar e dizia que sou daqueles que segue o ritmo dos outros. Imagino que ela me chamava de velho e depois chorava, porque era frágil e não aguentava lembrar a existência do tempo.
A moça sabia do fim (sei lá como sabia, talvez numa daquelas suas abortivas incertezas), mas não se preocupava. Fim era termo, e termo não existe.
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Aquela flor do trilho ainda estava lá, como se parada tivesse visto todo o mundo.
As pétalas tão pequenas a invaginar, o caule com uma empáfia gigantesca de quem sabe ser quebradiço, as raízes tão curtas a ponto de torar.
Foi nesse estado que a flor sentiu a confusão: era tanta gente correndo, que deus existisse, era uma agonia daquela gente só e cansada do tempo.
Não nego que quando vi o fim vindo, corri também e que agoniei aquela flor como todos os outros (prova de que no fim, somos todos iguais, não importa o que digam).
A flor, a flor, a flor quebroumorreumurchousumiuchorou com a correria. Quem era ela, no seu trilho abandonado para sentir tamanhos impulsos? Se quiseres, culpa-me. Pois há em mim o assassínio de tal flor.
Pisei-a, como todos os outros que vieram atrás de mim, e a matei. Tirei a vida da flor de Buda, como se não fosse bastante: matei-a por nada, não escapei do fim.
Não escapo. Mato a flor, mato as flores e me vou para algum lugar sem flor morrer.
Peço desculpas por ter matado a criatura mais frágil, que não pôde fugir de mim e do fim.
–João
Áspero amor, violeta coroada de espinhos,
cipoal entre tantas paixões eriçado,
lança das dores, corola da cólera,
por que caminhos e como te dirigiste a minha alma?
Por que precipitaste teu fogo doloroso,
de repente, entre as folhas frias de teu caminho?
Quem te ensinou os passos que até mim te levaram?
Que flor, que pedra, que fumaça, mostraram minha morada?
O certo é que tremeu a noite pavorosa,
a aurora encheu todas as taças com seu vinho
e o sol estabeleceu sua presença celeste,
enquanto o cruel amor sem trégua me cercava,
até que lacerando-me com espadas e espinhos
abriu no coração um caminho queimante.
–Neruda
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