21 Contos Sobre O Fim Do Mundo
7 A voz suave que era uma lágrima
Notas iniciais
Uma biografia
A voz suave que era uma lágrima
Todos os dias acordava e sentia um susto profundo ao ver-se no espelho tão real e viva, feita de carne e osso, provando o gosto amargo da verdade. Logo ela, que vivia pelo e para o inconsciente.
Via-se, depois de esfregar os olhos e se sentar na cama, emoldurada na parede junto a figuras mundialmente importantes, via-se bem no meio, com suas olheiras profundas mostrando quem era a nova geração coca-cola.
(Você está no mesmo patamar que elas, criança-ouviu tudo outra vez).
Mas isso era só no curto período em que ela precisava para se levantar da cama, no resto do dia colocava uns óculos terríveis, que a faziam ver tudo errado (ou certo demais) e que a afundava na mais profunda tristeza.
Ainda assim costumavam encontrá-la sempre sorrindo, se é que algum dia alguém a encontrou, como se aquele sorriso tivesse sido carimbado na sua face. Não tinha um sorriso bonito, era daqueles forçados que logo se destroem ao primeiro olhar curioso.
Bebia que só ela; bebia livros, tentando sugar um pedacinho de sabedoria, bebia fotografias, tentando absorver alguma beleza, bebia música, tentando levar melodia para sua vida. Porque também não era bonita, mesmo que alguns dissessem que era sábia.
(Nunca vi alguém mais racional que você, criança–ouvia tudo outra vez).
Todavia já há algum tempo havia parado de ler. E de ouvir música.
–É o fim, acabou-se tudo.
Às vezes ela escrevia, procurando vomitar suas loucuras escondidas e incompreendidas num papel frágil.
(Você vai ser escritora quando crescer, criança- ouvia tudo outra vez).
Mas também parara de escrever. Parou de fazer tudo quando o fim foi anunciado, acusando-se de ter fracassado na vida e em seus objetivos. Sequer tivera um grande amor.
Acusava-se sozinha em casa, bebendo água salgada, temperada pelas lágrimas que insistiam em cair. Ora droga, o mundo ia acabar. Acabar. E talvez para ela fosse difícil de aceitar isso, anarquista que era tentando acreditar que os humanos chegariam à plena liberdade. Mas o mundo ia acabar. Acabar.
E a liberdade era uma porra naquele momento.
(E a liberdade existe, criança? - ouvia tudo outra vez).
Iniciou-se a eutanásia... pois questionamentos feitos perto do final de uma vida só magoam. Ela estava magoada, bastante. Com o fim, com ela.
Seu nome era Fátima... Só era coincidência que rimasse tão bem com lágrima.
E Fátima questionava: Qual a razão disso tudo, meu Deus?
(Você acredita em Deus, criança?- ouvia tudo outra vez)
Ela sabia qual era a resposta, sabia que era sim, mas não podia acreditar. Não naquela hora finda, em que tudo ruía, que Deus existia.
(Você é uma revolucionária, criança – ouvia tudo outra vez).
E onde estava a revolução? Nela? No mundo, que se rebelava contra eles, os humanos, seus dominadores?
Não tinha feito a sua amada revolução. Fora impotente.
Ficou triste, chorou, esperneou. Gritou. Acionou em si todos os botões de ataque, que falharam cruelmente, e Fátima chorou de novo, mas dessa vez foi por instinto; a terra tremia.
(Nunca vi você chorar, criança- ouvia tudo outra vez).
Questionamentos não foram respondidos, não houve tempo... Ela escorregou para dentro do buraco da fantasia... aquele que fora aberto pelo tremor do chão... e morreu... mas morreu com um sorriso... um sorriso um tanto revolucionário.
'' Fátima (Aborto Elétrico)
Vocês esperam uma intervenção divina
Mas não sabem que o tempo agora está contra vocês
Vocês se perdem no meio de tanto medo
De não conseguir dinheiro pra comprar sem se vender
E vocês armam seus esquemas ilusórios
Continuam só fingindo que o mundo ninguém fez
Mas acontece que tudo tem começo
E se começa, um dia acaba
Eu tenho pena de vocês
E as ameaças de ataque nuclear
Bombas de nêutrons não foi Deus quem fez
Alguém, alguém um dia vai se vingar
Vocês são vermes, pensam que são reis
Não quero ser que nem vocês
Eu não preciso mais mais mais mais mais mais
Eu já sei o que eu tenho que saber
E agora tanto faz
Três crianças sem dinheiro e sem moral
Não ouviram a voz suave que era uma lágrima
E se esqueceram de avisar pra todo mundo
Ela talvez tivesse um nome e era Fátima
E de repente o vinho virou água
E a ferida não cicatrizou
E o limpo se sujou e no terceiro dia
Ninguém ressucitou''
Notas finais
Gostaria de opiniões... E críticas.
MAY! Oh, May, gostei tanto da sua recomendação!! Gostei mesmo, você foi tão meiga e fofa!! Até agora eu tô em êxtase total! OBRIGADA! Muito obrigada, May. Espero te ver por aqui, sumiu num foi?
Fale com o autor