21 Contos Sobre O Fim Do Mundo
4 A bêbada e o equilibrista
Notas iniciais
A bêbada e o equilibrista
Ouviu passos ocos serem impostos na madeira desgastada. Ela havia chegado, soube, junto com seu odor de tequila velha.
Não lembrava realmente de quando aquela mulher entrara na sua vida, nem como havia a conhecido ou quando ela tinha virado pseudo-humana. A vida inconstante dos dois sempre lhe parecera natural e muito bem provida de drogas alucinógenas.
Fred continuou caminhando na corda bamba, esperando que a mulherzinha desaparecesse. Mas os passos continuaram, cada vez mais devagar e próximos.
–Bom menino?- sussurrou um fio de voz cansado- Bom menino?- choramingou.
Foi ao ouvir as palavras nostálgicas e amargas que ele a sentiu; sentiu a garota louca, budista e a mulher fria e racional.
–Bom menino. — Chamou-lhe insegura e tocou-lhe o braço, fazendo- o desequilibrar.
O homem deixou uma pequena lágrima percorrer o seu rosto antes de virar-se tentar penetrar nos olhos duros da pequena mulher.
–Descumpriu sua promessa, menina má. Voltou.
Ela o olhou com seus olhos vermelhos de álcool e sorriu, seus dentes amarelados. Sentou-se na única cadeira da sala, levantou a saia puída e estendeu as pernas finas.
–Por quê? No fim?
–Não podia pensar em uma pessoa melhor para compartilhar meu último trago, bom menino.- Deu uma golada na garrafa pequenina que se agarrava, e lambeu os lábios finos.- No fim, mesmo que toda loucura seja plausível, é o fim. E não cometerei os mesmos erros, Freud.
–Nunca foi justo, você sabe. Não cheguei a saber o seu nome, menina má.
O homem falou emotivo, continuando a andar na corda bamba, se equilibrando para não cair. Se o fizesse, perderia os seus últimos traços de lucidez.
–Fred, meu bom menino, isso jamais foi necessário.
–Chegou a me amar?- Gritou abafado, enquanto caia do cordão da morte.
A menina má não respondeu, não achava, em toda sua complexidade, que isso necessitasse de resposta. Ela o viu parado mirando-lhe, com seus olhos fracos e as roupas poucas, tentou sorrir cinicamente, como sempre fazia, mas apenas tentou.
O bom menino fitou-lhe o rosto uma vez, e depois outra, a deixando levemente desconcertada.
–Esse é o fim...- Murmurou então, permitindo que sua mão fria tocasse o rosto cansado da mulher.- Nunca pensei no fim, não antes de você aparecer aqui. Achava que seria uma coisa natural, o mundo caindo, à proporção que me equilibrava e sabia que em algum lugar você andava bambeando pelas ruas. O fim. Parece que chegou, e fico feliz de estar aqui, minha menina má, terei a eterna lembrança de nós, juntos, como uma alma e não que a perdi para os quatro ventos.
–Morgana.- A mulherzinha disse quando se jogou, pela primeira vez e última, nos braços de Fred.- O meu nome é Morgana, bom menino. O nome da bruxa má.
– Morgana, ingênua Morgana.
Ela afastou-se dele, com o suor se encontrando com as lágrimas solitárias. Os dois fecharam os olhos, quase que como num instante sagrado, e deixaram que as memórias, ou a falta delas corressem livres pela mente.
Corressem livres, como seus espíritos enfadados, que agora encontravam o céu dos perdidos e loucos; o inferno . Um ao lado do outro.
''Ainda que mal pergunte,
Ainda que mal respondas;
Ainda que mal te entenda,
Ainda que mal repitas;
Ainda que mal insista,
Ainda que mal desculpes;
Ainda que mal me exprima,
Ainda que mal me julgues;
Ainda que mal me mostre,
Ainda que mal me vejas;
Ainda que mal te encare,
Ainda que mal te furtes;
Ainda que mal te siga,
Ainda que mal te voltes;
Ainda que mal te ame,
Ainda que mal o saibas;
Ainda que mal te agarre,
Ainda que mal te mates;
Ainda assim te pergunto
E me queimando em teu seio,
Me salvo e me dano: amor.'' --- Drummond
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