Seguimos a viagem em silêncio. Um silêncio sufocante. Pensativo, diferente, mas só se ouvia o motor do carro. Esse silêncio estava me matando, me deixando nervosa, tinha tanto pra perguntar, mas estava tudo preso na minha garganta e nada queria sair de lá. Li e re li a carta de mamãe várias e várias vezes, não poderia aceitar uma coisa daquelas. Aquilo era doloroso demais para mim. Mas sempre temos de fazer sacrifícios e mamãe fez vários. Mas não foi só ela quem fez: Carlos também teve de se sacrificar e muito pra criar eu e Curt sozinho. Afinal, ele não tinha experiência e sua noiva estava morta.. A mãe de Curt também se sacrificou; alías, toda a nossa geração passada fez sacrifícios até o final.

Chegamos numa parte da cidade em que tivermos de usar mascaras porque o ar era muito ruim mesmo. Tinha áreas da cidade que o ar era podre demais ou rarefeito. Nesse caso, nem respirar conseguíamos. Mas a situação nessa cidade que passávamos era diferente, o ar era tão sujo, mais tão sujo que uma fungada poderíamos nos considerar mortos na mesma hora! Jack trocou de lugar com Carlos quando anoiteceu. Eles estavam se revezando nessa parte de caminho. Carlos estava ficando muito cansado de dirigir por muito tempo e tínhamos que sair logo dessa cidade com o ar podre. Jack dormia boa parte da manhã e a tarde toda pra aguentar a noite toda e trocava de novo de lugar com o Carlos quando era de manhã, lá quando o sol estava ficando alto. Ia fazer duas semanas que estávamos naquele carro sem paradas. Não tomava um banho a duas semanas! A minha roupa estava virando uma segunda pele. Alias, o carro estava ficando com um cheiro terrível. Carlos disse que era cheiro de suor, choro e cachorro molhado.

- Quando sairmos desse canteiro de obras radioativo, vamos todos tomar um longo banho de espuma e deixar o carro de molho por dois dias. Afinal até ele precisa respirar um pouco.

Eu ri e Carlos, cansado, sorriu pra mim. Curt e Joana estavam dormindo, era de madrugada e como disse que estava dirigindo era Jack. Ele parecia estar prestando atenção em outras terras, outras coisas. Não havia muitas coisas para se pensar, vai saber o que se passava pela a cabeça dele. Será que era sobre o passado? Ou como eu, ele estava querendo respostas? Ou será que era sobre o futuro? O que nos aguardava nesse lugar que Carlos descobriu? Bate um medo em todos nos, de que ao chegarmos lá, não ter nada, ser mais deserto do que a nossa antiga casa. Imagine só a desventura que seria isso? Decidi afastar esse tipo de pensamento e olhei pela janela do carro, que estava suja por causa do ar. Havia muitos bichos e monstros lá fora. Pessoas deformadas também viviam, mas pareciam não viver mais. Não vi nada realmente se mexer lá fora. Dá uma pena de pensar que um dia esse lugar foi um ponto turístico desse país. O Cristo Redentor.