2035 - My Future
13 Capítulo 13
- Bem, — Começou Santos. Estávamos sentados na varanda da casa dele. Estava de noite, muito fresca e aconchegante, estávamos fartos de comida e água. Estávamos bem limpos, afinal, passamos horas no banho, me sinto até culpada por ter passado tanto tempo naquela água quente, mas se aquilo era errado, não queria estar certa. Santos havia nos conseguido algumas roupas limpas para dormimos. Jack falou que Santos nos devia uma história e queríamos mesmo ouvir, então, fomos todos para a varanda, ouvir como chegamos naquela situação. – Tudo começou a decair a partir de 2012, tudo entrou em colapso, a economia geral, sabem? Antes, o que movia o mundo todo era algo chamado dinheiro, tinha enorme valor para todos nós e não podíamos fazer nada sem ele. Então chegou o dia em que o dinheiro perdeu o seu valor. Foi uma loucura total, todos afundado ao mesmo tempo, pequenas e grandes empresas, ricos ficando pobres, pessoas pobres ficando mais pobres ainda... Horrível demais... – Ele suspirou e seus olhos refletiram a dor daqueles dias tenebrosos. – Naquela época, eu era criança, mas entedia tudo o que estava acontecendo. Acho que tinha a sua idade Fernanda. Meus pais, vizinhos, todo mundo corria que nem loucos sem saber o que fazer. Houve suicídios, assassinatos, roubos, tudo de ruim acontecia ao mesmo tempo. Amigos virando inimigos mortais... Então o presidente dos Estados Unidos surtou e brigou com a Rainha da Inglaterra, começou a criticar o país e seus modos, se desencadeou a 3ª Guerra Mundial por esse motivo, depois, por falta de suprimentos, água e outras coisas. Meus pais tentaram esconder a mim e aos meus irmãos menores no subterrâneo de casa, meu pai sempre achou uma boa ideia montar aquele pequeno esconderijo embaixo de casa, minha mãe achava bobagem, que nada iria acontecer para termos de usar aquele buraco no chão. Tsc... Acabou que tivemos mesmo que ficar abrigados lá. Tinha um enorme estoque de enlatados e de água. As pessoas estavam tão desesperadas e enlouquecidas que chegavam ao cumulo de trocar os próprios filhos por alimentos e um pouco de água e tinham aqueles que, bem, se alimentavam daqueles que um dia chamaram de “meus amores” ou até mesmo “meus pequenos anjinhos”, mas sempre os chamavam de “meus filhos”.
Terrível. O poder da loucura e do desespero nas pessoas era horripilante, nunca imaginaria alguém que tivesse a coragem de comer seus próprios filhos... O mundo é um lugar terrível, acho que estamos muito melhor agora. Jack, Joanna e eu olhávamos Santos horrorizados com essa história, queríamos perguntar coisas, mas nossas vozes não saiam da boca, um nó pedia em minha garganta e Joanna parecia que ia começar a chorar a qualquer momento. Carlos estava apenas ouvindo, mas seus olhos indicavam que ele voltara para aqueles dias e relembrava tudo, mas não queria interromper o que Santos dizia.
- Nossa. – Foi o que Jack conseguiu falar. Apenas isso.
- Pois é. Depois dessa temporada sinistra de uns atacando os outros, o governo tentou acalmar seu povo, mas nem eles conseguiram se controlar e colocou o exercito contra eles e outros países, tudo estava uma confusão. Ouvíamos pelo rádio de papai. Acho que passamos um bom tempo naquele esconderijo. Talvez uns três anos. Quando saí de La, já era um homem, mas mesmo assim ainda pensava como uma criança. Meu pai e eu um dia saímos para ver se conseguíamos mais algumas coisas para o nosso estoque de comida, que tinha sido preparado e organizado para uma família de seis pessoas sobreviverem por sete anos. Éramos cinco pessoas, então a comida poderia durar um pouco mais. Pegamos o carro e rodamos a cidade, que tinha pessoas mortas por todos os lados, canibais faziam fogueiras e arrastavam os corpos daqueles com mais carne. Olhávamos as paredes enquanto passávamos, tinha textos por todas elas, poemas dizendo o que o mundo se tornar, palavras incentivando a nos atacarmos, atacarmos a todos, frases como: “agora é cada um por si.”, “não confie no seu pai”, “ódio ao governo” e uma que nunca saiu da minha mente durante todos esses anos: “Pai, por que nos abandonastes.” – Seus olhos estavam cheios d’água. Os meus também. – Era... Triste demais aquilo tudo, as pessoas perderam a fé e eram poucos que ainda a tinham. Fomos aos armazéns atrás de comida, havia algumas caixas com alguns poucos alimentos, alguns até vencidos. Na volta, papai se virou pra mim e disse, enquanto olhava as pessoas em volta:
- Sabe, filho, nós vamos embora.
- Pra onde? Como assim pai? – Aquele momento eu fiquei muito confuso com o que ele dizia, não entendia nada.
- Vamos viajar.
- Como pai? Não tem mais ninguém por ai!
- Eu piloto
- Você não sabe!
- Mas eu li alguns livros, na teoria, eu sei tudo, agora é só testar na prática.
Naquele momento, eu soube o que ele queria. Ele queria se isolar de todos para não enlouquecer como eles. Quando chegamos em casa, falamos com a mamãe e com meus 2 irmãos e nos organizamos. Depois de algumas horas, de tarde, fomos ao aeroporto, com o nosso estoque de comida e muito tudo mais. Nós entramos em um avião, estava em bom estado. Papai colocou gasolina do carro nele e depois as bagagens nele. A viagem foi um pouco turbulenta, afinal, papai nunca havia pilotado um avião e nem era piloto, apenas passava o tempo lendo e alguns livros eram sobre aviões e o modo de pilotá-los. Naquele dia, meu pai virou o meu maior herói e queria ser igual a ele.
Ele realmente se emocionou. Levantou e sussurrou um “já volto” e se retirou da varanda. Fiquei imaginando um avião. Carlos já tinha dito que eles lembravam enormes pássaros de metal que não mexiam as asas. Adoraria ver um de perto e voar de verdade, como eles faziam antigamente... Quem sabe um dia?
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