Ele voltara com um copo de água e uma pequena coisinha branca. Olhei curiosa para ele sem falar nada, apenas de boca levemente aberta e olhos sonhadores, a cabeça levemente torta.

- Aspirina. – Santos dissera. – Serve para dor de cabeça. É um remédio sabe?

- Sei... – Lembrei do quite de primeiros socorros de Carlos e de que às vezes ele nos dava coisas parecidas, mas nunca havia dito o nome para a gente.

Ele tomou o remédio, o copo de água todo, suspirou e perguntou:

- Onde estávamos?

- O avião. – Disse Joanna.

- Ah sim... Viajamos durante algumas horas, mas chegamos a uma cidade grande e pessoas organizadas em pequenas comunidades, lá eu conheci o Carlos, ele tomava conta de uma moça que estava grávida.

“A mãe de Curt” refleti.

- Linda moça mesmo. Nos abrigamos por lá, depois as coisas pioram novamente. Aconteceram bombardeios e tudo mais... Minha família toda morreu e eu fiquei assim. – Ele se exibiu tristemente. – Mas decidi que iria me safar disso tudo. Não iria deixa ninguém mais sofre ali, iria construir um lugar para abriga a todos. Juntei algumas pessoas comigo e Carlos disse que iria para outro lugar. Disse para nunca perdemos o contato, que seria bom continuarmos nos falando e trocando informações. Ele concordou. Daí veio à troca dos computadores. Eu fui por um lado e Carlos e umas criancinhas por outro. Praticamente, eu e o meu grupo de sobreviventes começamos a entrar em um matagal e construir esse lugar. Aprendemos a caçar, fizemos plantações, mas o nosso maior problema sempre fora onde encontrar água. Alguns diziam que poderíamos encontrar debaixo da terra, no subsolo. Outros disseram que talvez ainda houvesse algum rio, riacho, cachoeira por ali. Então fizemos o seguinte: Dividimos-nos em 3 grupos de 10 pessoas. Éramos 30 homens prontos para por a mãe na massa, 12 de nós eram casados e estavam com suas famílias, 8 solteiros e 10 adolescentes. Tinham 17 mulheres no total e 13 crianças e 2 bebês gêmeos. – Ironicamente, esses gêmeos corriam com um cachorro nesse momento. Já estavam grandes. – Um grupo construía casa, outro ia explorar a mata e outro cavava para ver se encontravam água. As mulheres solteiras e sem filhos iam atrás de alimentos, como frutas e verduras, cuidavam também das hortas. As mães cuidavam das crianças, incluindo as órfãs. Estávamos muito bem organizados, com o tempo, a pequena comunidade foi crescendo, afinal, algumas vezes, as pessoas se conheciam melhor entre si e os casados se conheciam melhor. As crianças foram crescendo e tudo mais... Enfim, era um novo começo, mas a água ainda era problema. Um dia, eu atravessei as montanhas de avião e achei uma pequena cachoeira perto das montanhas. – Ele apontou para atrás dele. Lá havia algumas montanhas. Por isso aquele lugar era aconchegante, não era tão quente e nem tão frio. – Voltei e avisei que iríamos nos deslocar novamente, mas que não destruíssemos as casas que já havíamos construído. Juntamos tudo e começamos tudo de novo aqui... – Ele abriu os braços. – Com o tempo, algumas pessoas começaram a subir também e começamos a abrigá-las. Temos bastante gente por aqui e estamos bem racionados. Vivendo com os nossos primeiros ancestrais, sem tecnologia, coisas que agridem o ambiente e estamos bem! Quase não adoecem pessoas por aqui, a água é limpa que nem... o vento das montanhas, somos felizes e não enlouquecemos por aqui! Rá, querem mais o que? Até a fé algumas pessoas recuperaram e isso, meus caros, em tempos como esses, é maravilhoso!

Ele ria e chorava, Carlos ria também. Joanna e Jack se abraçaram fortemente e sorriam um para o outro. Eu só queria que meu melhor amigo, praticamente irmão, estivesse aqui, compartilhando dessa felicidade com a gente. Então todos nós fomos dormi, mas eu não conseguia. Fique um bom tempo na varanda ainda. O céu estava começando a clarear, aparentemente, deveria ser umas quatro ou cinco da manhã. Passei a noite em claro. Carlos apareceu que nem um fantasma, levei um susto quando ele surgiu:

- Pensando no Curt, certo?

- Refletindo sobre tudo isso, a história toda, sabe?

- Claro, pequena. Vou te dizer algo, talvez te incentive a fazer uma coisa que eu iria fazer: Todos merecem uma segunda chance e isso tudo é a nossa. Por que você não monta algo para informar para os outros que eles não estão sós lá embaixo?

- Como?

- Mensagem.

Ficamos um tempo pensando e até que não era má ideia, seria bom relatar a aquelas pessoas confusas lá embaixo de que o paraíso estava bem próximo deles, realmente, acima de nossas cabeças, nesse caso, da cabeça deles. Concordei com a ideia e Carlos montou o seu notebook [aprendi a falar direto e escrever corretamente também.] Passamos horas escrevendo essa carta e relatando tudo o que nos aconteceu. Se você está lendo deve saber que não está só, estamos aqui vivos e felizes, comemorando a nossa segunda chance. Aprendendo a conviver com a natureza, como sempre deveria ser. O melhor de tudo, é que nós não enlouquecemos e não nos atacamos. Se estiver doente, temos remédios e iremos lhe receber de braços aberto.

Uma história de Fernanda, uma sobrevivente.

25/09/35.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!