Curt estava no chão, branco pálido, seus cabelos estavam caindo, havia alguns dentes dele no chão, suas unhas estavam todas no chão. Ele estava de quatro na frente da porta, babava muito. Seus olhos perderam o brilho de esperança e do menino sonhador que ele era. Então ele veio na nossa direção. Não consegui me mexer, nem ao menos dizer alguma coisa. Minha boca estava aberta, mas não saia nenhum som dela. Carlos me puxou pelo braço antes que Curt pudesse pega-lo. Me puxou para trás, cai no chão e ele trancou a porta novamente.

- Fernanda, infelizmente ele foi contaminado. Aquela coisa o mordeu. Infelizmente não podemos fazer nada. Lamento.

Fiquei perplexa e nem me mexia. Encolhi as pernas, abracei-as e fiquei ali, olhando para a porta. Ele estava tentando abrir a porta, batia, com a cabeça acho e ficava lá tentando horas e horas e urrava quando não conseguia nada. Sei que aquele não é mais meu amigo, mas apenas uma criatura que faz parte dessa nova natureza.

Arrumamos tudo. Carlos disse para a gente entrar no carro, pois ele queria abrir a porta do quarto e deixar Curt seguir seu caminho atrás de comida ou alguém mais para contaminar. Nada disse durante a nossa arrumação. Depois de alguns minutos, Carlos corria de volta ao carro e Curt atrás dele, corria e babava. Estava sem cabelo e seus dedos sangravam igual a sua cabeça, aparentemente por causa das tentativas de se libertar do quarto antes. Seguimos viagem em silêncio, apesar de Jack sempre tentar puxar algum assunto comigo. Depois de algumas tentativas, ele desistiu. Então sua atenção se voltou para Carlos.

- Fale mais desse seu amigo e o que ele descobriu.

- Devemos chegar até lá daqui a alguns dias. Mas ao nosso devido local, só depois de três dias.

- Chegar lá aonde? – Perguntou Joanna

- No porto. Devemos pegar um barco, pois não dá pra ir de carro até lá e muito menos nadar. A não ser que queria virar um mutante.

- Não obrigada. – Disse Joanna. – Acho que já basta Curt ter ficado para trás.

Por que ela foi falar assim?

- Não mencione o nome dele com esse tom de voz e muito menos nesse tipo de conversa. Não fale dele, se não vai se ver comigo.

- Calma pugilista. – Disse Carlos. – Não fique assim. Ela não teve essa intenção, certo Joanna?

- Certo. – Ela respondeu, se voltando para a janela.

O silêncio voltou a tomar conta do carro. Naquela noite, quando paramos para acampar, não comi nada, apenas li novamente a carta de mamãe e fiquei lembrando de Curt e nossos momentos de fugas.

“-Será que terá água por ai novamente? – Perguntou ele, olhando para onde era o mar, com os olhos sonhadores.

- Talvez. – Respondi, tentando imaginar o mundo do jeito que Carlos descrevia para a gente.

- Será que tem mais pessoas por ai? – Dessa vez a atenção dele estava voltada para mim. Olhei para ele e seus olhos tinham lágrimas, mas não eram de tristeza ou felicidade. Era algo diferente disso, talvez fosse preocupação de um dia ter de ficar totalmente sozinho por esse mundo catastrófico. Pegue em sua mãe e sorri.

- Talvez aja pessoas em outro lugar, tendo os mesmos pensamentos que os nossos.

Ambos nos abraçamos e começamos a chorar.

- Não quero ficar sozinho nesse lugar. –Ele dizia.

- Nem eu! – Falei.

Então, ficamos ali, abraçados e chorando.”

Agora, estou sozinha nesse lugar, não tem ninguém que me entenda como meu melhor amigo/quase irmão, Curt.