2025
3 Radicado
Notas iniciais
ROBERTO CASANOVA ACABOU DE CHEGAR AO SEU APARTAMENTO, QUE DIVIDE COM SEU AMIGO AARON. Ele tirou seus sapatos, o casaco que usou para ir à casa de América, e joga seus 1,90m na sua cama. Roberto lembra-se de sua amiga chorando, e se imaginava se ela sentia saudades de casa.
Ao pensar nisso, a mente dele o levou ao seu país, ao país que tanto ama, o Brasil. Ao sol matinal aconchegante como um abraço de mãe, sua pequena família, apenas pai e mãe... Mas um dia, exatamente oito anos atrás, ele decidiu abandonar sua pátria. Veio para os Estados Unidos sem ter para onde ir, até que Aaron o ofereceu um lugar no apartamento.
Também se lembrou do dia em que conheceu sua melhor amiga, América. Ele estava em uma agência de modelos, atrás de qualquer emprego, e avistou a gueixa de cabelos ruivos. Perguntou, descontraidamente, se ela ia tentar algo para modelo, e ela riu como se ele fosse doido. Começaram a conversar, e logo ele percebeu que ela merecia algo mais do que qualquer emprego em uma agência de modelos.
E então ela começou a consolidar uma carreira como modelo enquanto ele se formava em Economia e passava a ser seu empresário: marcando ensaios fotográficos, desfiles, vendo as melhores ofertas, conhecendo as pessoas que ofereciam as propostas...
Ele olhava para o teto azul do quarto e deixou sua mente viajar. Estava cansado, suas costas doíam, tudo doía em seu corpo, em seu espirito. Logo, Roberto estava fechando os olhos e deixando o sono invadir seu corpo.
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A claridade fez Roberto abrir os olhos lentamente. Ele não estava usando as roupas com as quais deitou, e muito menos no seu quarto. O gramado era verde, limpo, e pessoas caminhavam lentamente, muitas com cachorros grandes de pelagem dourada e com carrinhos de crianças.
Ele se levantou e começou a caminhar. As pessoas passavam e não faziam questão de olhar para Roberto, como se ele fosse invisível. Até que ele esbarrou em alguém; Ou achou que esbarrou. Ele apenas atravessou o ombro de um rapaz branco, com cabelos pretos arrepiados, olhos alegres. Roberto era um fantasma.
Ele começou a correr, o medo o invadiu, ele não sabia por quê. Até que ele chegou ao limite do que parecia ser um pedaço de terra flutuando no nada. Acima, uma luz branca, muito forte. Abaixo, apenas escuridão, escuridão e algumas estrelas. Mas Roberto reparou que não, não eram estrelas. Até que sentiu uma vontade de pular, pular através da beirada, do limite, e se encontrar com as estrelas. Quando ele pulou o tempo pareceu parar, ele foi descendo devagar e sentiu terra firme sobre os pés.
Ali, naquele lugar, ele só via prédios destruídos, ruínas de algo que uma vez fora uma bela cidade. E destroços jogados pelo chão. Vários destroços. Mas não destroços qualquer, reparou Roberto. Eles mexiam os ombros como se estivessem respirando pesadamente. Ele chegou ao mais próximo e tocou a superfície áspera.
E então, um rosto se virou para ele. Um rosto magro, de olhos brancos, pele caída. Negro. Então todos os destroços se levantaram, e eram zumbis negros, perseguindo-o com braços esqueléticos e olhos vidrados, enquanto lá em cima as pessoas, todas brancas, zombavam de Roberto e de todos os negros zumbis que o perseguiam.
Roberto acordou suando frio. Seu pesadelo havia despertado nele um desespero que não sentia havia muito, muito tempo. Horas deviam ter se passado; O sol já nascia do lado de fora de sua janela. Ouviu barulho vindo da cozinha, e se assustou. “Acalme-se”, ele disse para si mesmo. “É apenas Aaron”.
Ele saiu pela porta e procurou pela cozinha. Aaron estava de pé, com seu habitual uniforme de trabalho: terno, gravata e calça social. O cheiro de seu café impregnava o ar e acalmava o coração de Roberto. Café foi uma bebida da qual Aaron não gostava, mas Roberto, com sua mania de tomar pelo menos uma xicara pela manhã, viciou o amigo.
– Bom dia Rob. – Disse Aaron com sua voz calma. Parecia narrador de desenhos infantis.
– Bom dia para você também, Ron. – Roberto pegou uma xicara de café e se sentou à mesa que ambos partilhavam.
– Você precisa ler o jornal Rob. Todos estão com medo. Adolf não tem nem previsão de retorno, estamos com um Governo Provisório, isso não existe. – Aaron parecia apreensivo. Trabalhava como advogado particular de George, e, com o presidente morto, não sabia o que o futuro lhe reservava.
– Aaron, você não é o único com medo. Metade da população está nervosa e preocupada e a outra metade preocupada e nervosa. Não há nada que possamos fazer. Enquanto isso você fala com Philip. Ele deve estar ocupando o papel do falecido no momento não?
Aaron apenas balança a cabeça e sussurra um “você tem razão”. Roberto se mostra visivelmente preocupado com o melhor amigo. “Somos todos humanos. Apenas isso. Impossível não sentir medo”. Mas Roberto já não sabia mais definição de medo. Seu coração batia lentamente desde o pesadelo que tivera e isso não soava bem para ele.
Aaron levanta-se da mesa, diz um tchau para seu amigo e sai pela porta.
– Boa sorte Ron. – Sussurra Roberto, como se de alguma maneira o vento pudesse levar seu sussurro aos ouvidos de seu amigo.
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