2025
8 Crepúsculo
Notas iniciais
ROBERTO ESTAVA COM SEU PIJAMA DE URSO PANDA OUVINDO AMÉRICA CHORAR. Ela chegou à noite passada, com lágrimas nos olhos e molhada pela chuva. Roberto sentou-se à cama e esperou sua amiga terminar de tomar banho e vestir um dos pijamas dele. “Porquinhos ou girafas?”, perguntou ele, numa tentativa de fazê-la sorrir.
– Porquinhos. – Foi tudo o que ela falou antes de deitar na cama e dormir. E Roberto ficou ali, vendo seu peito subir e descer com a respiração compassada, parecendo um anjo. “Ela não merece nem um pouco desse sofrimento. Nem um pouco mesmo”. Ele se levantou da cama e foi fazer um pouco de café. Não via Aaron em lugar algum; Provavelmente estava roncando em seu quarto.
E aquilo era um ritual para Roberto. Botar a água na chaleira para esquentar, misturar o café, o aroma subindo silenciosamente como uma cobra esperando para dar um maravilhoso e fatal bote, enquanto ele pegava o coador. Ver o café entrando no coador e saindo com um cheiro delicioso o acalmava mais que remédios para dormir.
Ele se sentou à mesa e desatou a pensar em tudo. Lembrou-se de seu passado. Quando ainda era um moleque, brincando no quintal de sua casa, no Brasil, com o sol da manhã o chamando para mais um dia de alegria com seus amigos. Lembrou-se também de quando cresceu e passou a se interessar por outras coisas.
De quando sua mãe pegou suas revistas adultas e desatou a brigar com o menino, apesar de já ser maior de idade. Roberto apenas ria de sua mãe, vendo o medo nos olhos dela, medo de que seu filho já estivesse crescido o suficiente para sair de debaixo de suas asas.
E assim ocorreu: ele deixou a família, a namorada, os amigos, tudo, para tentar uma vida boa nos Estados Unidos, e era o que ele havia conquistado. Um bom amigo, um bom lugar para morar, um bom emprego, uma boa amiga... Mas apesar de tudo isso, Roberto sempre sentia falta de casa. Sempre iria sentir falta de sua casa.
Ele queria ligar para ouvir a voz deles, mas eles estariam dormindo. Roberto sempre se perguntou o porquê de se sentir tão... Depressivo, preso, dentro das paredes de seu apartamento, ao ar livre, trabalhando com América. Ele não entendia como não conseguia ser feliz. Ele precisava ser feliz. Ele levava uma vida boa, por que não estava feliz então?
Ele se levantou e foi para o sofá. Olhava para o teto, se mexia constantemente... Ele respirou fundo e decidiu: no dia seguinte faria tudo, tudo o que quisesse, se divertir, junto de seus melhores amigos. Ele fechou os olhos e dormiu assim, com essa imagem na sua cabeça, os três no mesmo carro, com o sol iluminando-os, enquanto dirigiam pelas ruas da cidade sem um destino em mente.
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Quando Roberto acorda, ele sente o cheiro de café. “CAFÉ!”, grita uma vozinha na cabeça dele. “DORMIR!”, grita outra. E essas vozinhas permanecem nessa luta, até que ele decide levantar.
– Não precisava fazer café, Aaron. Que horas são? – Diz ele, esfregando os olhos.
– Bem, a não ser que da noite para o dia eu tenha criado um pênis no meio das pernas, eu continuo sendo América. E mesmo que tivesse criado um, não me chamaria Aaron. Seria muita baixaria por o mesmo nome que o dele. Além do que, você teria dois melhores amigos chamados Aaron. E a propósito, são nove e meia da manhã.
Roberto gargalha e se levanta para poder pegar uma xicara de café.
– Desde quando você sabe fazer café, América?
– Bom, são nove e meia... Eu diria que desde uns vinte minutos atrás.
– Vinte minutos é muito tempo mesmo para se aprender a fazer café. Mas eu aprendi em dez minutos.
– Bom, isso não conta aqui.
– Conta sim.
– Conta não.
– Já chega, a voz de vocês dois brigando está atrapalhando meu processo de hibernação! – Grita Aaron de dentro de seu quarto, e os dois começam a rir, principalmente quando ele surge na cozinha com seu pijama de sapos e o cabelo desarrumado. – Meu objetivo era dormir até 2025. Mas vocês me atrapalharam. Então, enquanto eu penso com qual dos dois eu ralho primeiro, alguém poderia me servir uma xicara?
– Existe essa palavra? – Sussurra Roberto para América.
– Que palavra?
– Ralhar. – E aí os dois começam a rir pela terceira vez, mas dessa vez mais baixo para que Aaron não fique irritado.
Quando todos já estão sentados à mesa, Roberto decide falar para seus amigos o plano que traçara enquanto planejava sair com eles na noite anterior. Porém, quando ele abre a boca para expor suas ideias, a campainha do apartamento toca e os três olham para a porta ao mesmo tempo. Aaron se levanta e tenta arrumar os cabelos desgrenhados, sem nenhum sucesso. Ele olha pelo olho mágico e sorri, abrindo a porta sem hesitação.
– Bom dia, meu... – Diz ele, abrindo os braços para abraçar Philip.
– Agora não, Aaron. Liga a televisão! – Philip senta no sofá, com os cabelos cacheados todos bagunçados e o rosto vermelho. Roberto olha para Aaron, silenciosamente perguntando “que merda está acontecendo aqui?”, e Aaron lhe responde com um sussurro “depois”.
– Hum, com licença, Philip. – Diz América, completamente envergonhada de estar falando com Philip Morrison de pijamas de porquinhos. Ela observa Philip mudando de canal freneticamente, procurando algo que só ele tem conhecimento.
– Amor, diga o que você está procurando, podemos ajudar. – Diz Aaron.
– Dá pra calarem a boca e esperar?! – Todos se espantam e esperam até Philip achar o que procura na TV. – Pronto, achei.
– Esse é o noticiário. O que houve? – Pergunta Roberto. Eles param e observam a repórter de pele morena cor olha só eu vou para clinicas de bronzeamento artificial falar. “Hoje, obtivemos informações exclusivas do atual líder do Conselho Presidencial, Maxwell Williams, sobre a atual situação da economia estadunidense. Segundo suas próprias palavras, a economia segue um ritmo catastrófico, caindo cada dia mais. Os impostos estão subindo e os investimentos aplicados em nosso país estão sumindo. Mas, segundo Maxwell, a previsão é de que a situação mude quando Adolf Amilcare retorne de sua viagem para local desconhecido, daqui a mais ou menos dois meses. Isso é tudo, e tenha um bom dia”.
Todos ficam olhando petrificados para a televisão, esperando que alguém dê o primeiro passo. Mas ninguém o faz. Todos estão chocados demais com a noticia.
– E agora? – Sussurra Roberto.
– Bom, eu só sei que vou para casa tomar uma boa dose de vodca. Alguém vem junto? – Responde Philip.
– Eu. – Diz Roberto, América e Aaron, juntos, como um coro ensaiado.
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Todos foram para a casa de Philip, no carro de Aaron, tomar uma dose de vodca. Estão calados, cada um com um copo na mão. América tem os olhos vermelhos de tanto chorar, Roberto e Aaron permanecem calados, Philip olha pela janela, contemplando o sol que começa a se por. Ele é o que se remói por dentro; Se tivesse assumido a presidência, nada disso estaria acontecendo. O país estaria normal, sua vida também, nada disso estaria acontecendo. Mas aí Aaron não ia estar sentado no seu sofá, bebendo, acompanhado de seus amigos, que agora também são amigos dele.
– Você não pode se culpar, Philip. – Diz Aaron. – Não teria modo de impedir isso. Alá quis assim. Ou Deus. Você decide.
– Eu tenho medo, Aaron. Medo! Sabe por quê? Se isso tudo for minha culpa, eu passarei todos os dias da minha vida me remoendo, me encolhendo sempre que lembrar que poderia SIM impedir isso.
– Aaron tem razão, Philip. Tem coisas que não podemos prever, não podemos imaginar que vão acontecer. Não podemos ver o futuro, algo tão incerto quanto o que virá, e isso é bom. – América se levanta do chão. Começa a se aproximar de Philip, sentando ao lado dele na beira da janela. – Isso é bom, pois crescemos a cada dia. Como seres humanos. Como espíritos. Como seres e simplesmente seres. Aprendemos com isso.
– América está certa. Pensa só: se nada tivesse acontecido desse modo, você não teria conhecido Aaron, eu e América. Bom, agora nós meio que somos uma família. Completamente estranha, problemática, desconhecida... Mas agora sabemos que podemos contar uns com os outros.
– Como você tem tanta certeza disso, Roberto? – Pergunta Philip.
– Bem... Estamos aqui tomando vodca juntos enquanto o país passa por uma crise lá fora.
Foi o suficiente para arrancar um sorriso maroto dos lábios de Philip. Ele se levanta do parapeito da janela, abraça América, abraça Roberto, abraça Aaron. Pensa em acordar Jonas, apenas para abraça-lo, mas seria algo completamente desnecessário. Ele senta no chão, e, involuntariamente, lágrimas brotam.
– Porque está chorando? Foi algo que eu disse? – Pergunta Roberto.
– Sim, foi sim. – Philip sorri mediante a expressão incrédula de Roberto. – Mas não é choro triste não. Sabe quanto tempo faz que eu não tenho uma família, Roberto?
– Não... Desde quando?
– Desde sempre.
E a conversa termina. Philip levanta, pega a chave do carro, abre a porta e deixa a brisa do fim da tarde entrar. Ele faz um gesto de “vamos” e todos o seguem para o carro de Aaron.
Sem pestanejar, eles fecham a porta da casa, como se todas as noticias ruins pudessem ficar lá dentro se eles desejassem com muita força. Eles andam lentamente pelo caminho de pedras, pedindo com muita vontade que tudo desse certo para eles daqui para frente.
Eles entram no carro, sentem o couro, o cheiro do calor, do sol, da esperança, invadido lhes os pulmões, penetrando cada célula que luta para viver em seus corpos. Por que o ser humano é assim, busca uma maneira de se agarrar a realidade, como um náufrago busca desesperadamente uma maneira de não afundar, não definhar ao mar.
Todos ficam calados, ouvindo suas respirações pesadas. “O que está acontecendo?”, todos estavam se perguntando. O que aconteceu, o que está acontecendo, o que vai acontecer... O passado, o presente, o futuro, irmãos, amigos, parentes distantes, pessoas misteriosas no meio de um mar de pessoas.
E é apenas isso que os move. Um desejo de desvendar esse passado, desbravar esse presente, abraçar o futuro. Por que tudo o que eles têm está no aqui e no agora. Eles não podem se dar ao luxo de pensar nas possibilidades. Aaron tem Philip, que tem Jason e Aaron, que tem Roberto, que tem América, que tem Philip e Aaron e Roberto, e isso se torna um ciclo viciosamente bom.
Eles fecham os olhos, e ficam ali. Vendo o céu ficar laranja, depois rosa, o crepúsculo caindo, cobrindo seus corações com calma e serenidade. Tudo o que eles não possuem agora. Se pensarmos bem, o crepúsculo é como o que eles desejam desbravar: o presente. Está ali, agora, nesse exato momento, os convidando a abraçar a vida noturna, o futuro, com todos os seus monstros e medos e escuridão. Incerteza.
– Para aonde nós vamos, Philip? – Pergunta Aaron. E essa pergunta se repete inúmeras vezes. “Para aonde nós vamos, para aonde nós vamos, para aonde nós vamos, para aonde nós vamos...”.
“Para aonde nós vamos, Philip”, ele mesmo se pergunta. “Você quer abraçar seu futuro? Essa coisa incerta, misteriosa... Você está preparado? De verdade?”. “Cale a boca” é a resposta dele.
– Eu vou falar uma palavra e vocês dizem outra, a primeira que vier a cabeça. Formaremos um lema. Um hino. Um segredo – Diz Philip. – Eu começo. Paz.
– Família. – Diz Roberto.
– Amor. – Diz América.
– Medo. – Diz Aaron. – Qual a frase?
– Vocês querem mesmo saber?
– Claro. Nosso lema, nosso hino, nosso segredo.
– Nossa frase é uma palavra. – Philip liga o carro, abaixa as janelas, acelera o máximo que pode, espera o vento açoitar seus cabelos. Olha pensativamente para o crepúsculo que o encara do outro lado do vidro e grita a todos os pulmões. – FODA-SE!
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