20 Primaveras
29 Praia Grande - parte 1 -
Notas iniciais
Já estamos na estrada para Praia Grande e tudo está correndo bem até agora. Letícia está jogada no banco de trás dormindo, Gui no volante e eu estou mexendo no celular para passar o tempo.
— Vamos nos divertir muito – comentou Gui enquanto tocou minha perna.
— Claro que vamos! Ainda mais porque estamos levando uma comediante conosco, tornando assim impossível não ter diversão – disse me referindo a Lê.
Guilherme abafou o riso e continuou prestando atenção na estrada. Tocava uma música qualquer na rádio e eu batia meus pés no ritmo da canção. Lê se remexeu no banco e começou a acordar, fiquei reparando os seus movimentos e ela ficou deitada de barriga para cima olhando para o teto do carro.
— Hey! – disse e a cutuquei – O que foi? – perguntei.
Ela me olhou e fechou os olhos.
— Nada – afirmou – só estou com sono – disse.
Eu não acreditei naquele “nada” que ela disse. Mas não creio que seja pelo mesmo motivo de ontem que ela está assim, está acontecendo algo mas ela não quer me contar. Podia afirmar com toda a certeza que ao olhar para ela de relance após me virar para frente, vi uma lágrima escorrendo pelo canto dos seus olhos.
Preferi não comentar, quando chegássemos lá eu tentaria descobrir o que está a deixando assim. Letícia sempre foi uma pessoa despreocupada e que não sofre sem motivos. As únicas coisas que a afetam sem dúvidas é ocorrer qualquer tipo de problema com a família dela. Mas até onde sei eles estão todos bem.
Respirei fundo e fiquei olhando pela janela. Gui percebeu minha inquietação.
— Algum problema? – perguntou atencioso.
— Nada, estou bem – respondi como a Lê havia feito a minutos atrás.
Não menti, eu não tinha nada. Quem estava com possíveis problemas era a Letícia o qual eu precisava descobrir.
Perdida em pensamentos e especulações sobre o que poderia estar havendo, tive minha atenção direcionada a placa que indicava que havíamos acabado de chegar em Praia Grande.
— Mocinha, levanta e arruma esse cabelo – disse para Letícia que esboçou um sorriso.
— Ok – disse e se levantou.
— É muito longe da entrada, amor? – perguntei a Gui, me referindo a casa do seu amigo.
— Não minha linda, em torno de 10 minutos estamos lá – disse e piscou.
Dei mais uma olhada no meu celular e vi que havia uma mensagem. Era da mamãe.
“ Letícia está melhor? Como ela reagiu após a notícia? Os pais dela e nós estamos preocupados, ela não deu sinal de vida após conversar com a mãe.”
Essas eram as palavras que continham na mensagem. Como assim se a Lê está melhor? Se eu já estava preocupada agora estou mais. O que ela está escondendo?
Olhei para ela que me deu um sorriso, agora muito mais animado ao olhar a praia a sua frente. Retribui o sorriso e sai do carro.
Gui saiu do carro também e Lê fez o mesmo. Cumprimentamos todos e fomos entrando na casa, que era maravilhosamente linda. Nos mostraram os nossos quartos e não sei porque o meu quarto e o do Gui ficou grudado no quarto da Letícia. Mas controversas a parte decidi tomar um banho para relaxar os músculos, meu sono já não existia mais após ver toda aquela beleza de lugar diante dos meus olhos.
— Amor, vamos descer? O pessoal vai dar uma passada na Praia – disse Guilherme.
Peguei minha canga e conferi a bolsa para ver se estava tudo direitinho. Bati na porta do quarto da Lê que abriu e saiu junto conosco.
A carinha dela já estava melhor e seu sorriso era sincero, porém eu ainda não sosseguei, nem esqueci a lágrima e o que dizia aquela mensagem. As pessoas que estavam com a gente nessa casa eram absurdamente animadas e simpáticas. Haviam 4 casais e mais 5 homens solteiros, devem ser esses que o Gui comentou comigo que estavam atrás de curtição. Todos muito lindos, não posso negar.
Vi que um não tirava os olhos da Letícia e fui logo aprontar para ela.
— Tem um bonitinho ali que não tira os olhos de você – disse para ela.
Estranhamente ela não havia reparado que ele a admirava e muito menos correspondeu as olhadelas dele quando eu disse isso.
— Ah sim, depois vejo o que faço – comentou mexendo na bolsa.
— Como assim depois vê o que faz? – perguntei e a virei para mim – Letícia, o que está acontecendo? – perguntei muito séria.
Ela apenas me olhou, balançou a cabeça, largou a bolsa na praia e saiu de lá . Fiz um sinal para Gui indicando que iria acompanhá-la e fui atrás. Ela entrou dentro da casa de novo e começou a subir as escadas correndo quando viu que eu não a deixaria em paz. Como havia dito a casa desse amigo era de frente para o mar, distância de 5 minutos.
— Letícia, não corre de mim! – gritei – Que coisa, o que há com você – perguntei depois de conseguir alcançá-la.
Ela se virou para mim com uma certa raiva e lágrima descendo sem dó.
— Eu já disse que não é nada Rebecca! Que coisa digo eu, me deixa! – disse e tentou puxar seu braço.
Eu já estava mais confusa que tudo. A levei para dentro do quarto e tranquei a porta. Ela não sairia dali enquanto não me dissesse o que aquela mensagem queria falar.
— Mamãe me mandou uma mensagem, perguntando se você estava melhor e que todos estavam preocupados com você, porque depois de conversar com a sua mãe pela última vez não deu mais sinal de vida – disse tudo bem rápido.
Ela se sentou na cama e eu a acompanhei. Fiquei do seu lado e vi quando ela abaixou a cabeça e murmurou algo.
— O que você disse? – perguntei pegando em seu ombro.
— Não era para você ficar sabendo – disse e me olhou chorando.
Ok, agora eu já estava uma pilha de preocupação.
— O que eu não poderia saber? – perguntei.
Letícia respirou bem fundo e encarando a janela do quarto com aquele lindo sol lá fora balançou a cabeça como se quisesse espantar um pensamento.
— Meus pais estão se divorciando – disse de supetão porém em baixo tom.
Eu gelei na hora. Como assim os pais dela iriam se separar?
— Como? – foi o que eu consegui dizer depois daquele susto.
— Minha mãe ligou a 3 dias atrás, eu contei a ela animada que tudo com a Faculdade ia bem, que você e o Gui estavam grudados e também que eu estava sentindo que o amor da minha vida estava prestes a chegar... ela sorriu como sempre das minhas insinuações e se calou ao telefone – pausou por um momento para limpar a lágrima que escorria – Quando vi que ela ficou em silêncio perguntei sobre o meu pai e nessa hora ela me disse que tinha que me informar de uma coisa, mas Becca... – disse e me abraçou.
Retribuí o abraço e senti meu ombro molhar pelas lágrimas dela.
— Eu nunca pensei que ela fosse me dizer que o que ela tinha que me informar era que meu pai e ela decidiram se separar! Como eu posso acreditar e aceitar que o meu casal preferido vai simplesmente seguir a partir de hoje cada um o seu caminho? Onde meu conto de fadas foi parar? – me questionou ao me soltar.
Queria eu ter as respostas para essas perguntas e conseguir amenizar nem que fosse um pouquinho a dor que ela estava sentindo naquele momento. Mas sou apenas a amiga dela e não posso interferir na decisão dos meus Tios.
— Lê, fica calma! – disse – Eu queria nesse momento fazer com que isso não estivesse acontecendo mas eu não posso. Se eles decidiram é porque sentem que não dá mais. Mas isso não quer dizer que o seu conto de fadas acabou, todo o amor que eles demonstraram todos esses anos foi impecavelmente sincero. – afirmei.
— E é preferível que eles se separem do que ficarem juntos e vivendo uma guerra. É isso que você quer, que seus pais finjam que está tudo bem? – a perguntei.
— Não. – disse e limpou as lágrimas – Eu quero que eles sejam felizes. Mas concorda comigo que não vai ser fácil vê-los separados? – me perguntou.
Eu concordei com a cabeça e peguei em suas mãos.
— Sabe, sei que não vai ser fácil quando você for visitá-los e se deparar com a cena de que cada um agora tem a sua casa. Que não vai ser no mesmo espaço que os dois estarão e que você não vai poder dormir abraçada com eles. Mas por outro lado, os dois trarão no rosto um sorriso de felicidade ao te verem chegar, como eles sempre fizeram. – comentei na esperança de fazê-la enxergar outros pontos.
— Independente de estarem juntos ou não como um casal, eternamente estarão ligados por esse laço que é você! Amiga, mesmo sem perceber você é o que seus pais mais amam nesse mundo, a bonequinha linda e frágil, que o pai defende dos garotos maus e que a mãe aconchega quando tem um coração partido. – disse a ela acariciando suas mãos e ela me olhava com ternura e atenção.
— Seus pais nesse momento também estão sofrendo. Não é porque já são maduros que não sofrem com um fim, porque o sentimento nunca envelhece junto com a idade. E eles terão um imenso carinho para sempre um pelo o outro. Mas tenho certeza que para isso ser mais fácil, precisam ver que o bem mais precioso que eles possuem os apoia nesse momento de divórcio. Eles deixaram de ser um casal, mas sempre, escuta bem sempre, serão os seus pais. – finalizei e não me contive e derramei uma lágrima.
Logo Letícia a limpou e me deu um beijo no rosto.
— Obrigada! – disse sem chorar – Já sou uma mulher e posso muito bem lidar com essa situação. Ligarei para minha mãe e direi que estou viva! – disse em tom de brincadeira –
—E também direi, que estou aqui com eles nesse momento da mesma forma como eles sempre estiveram ao meu lado. Somos uma família e por mais que agora eles não morem na mesma casa, viverão para sempre juntinhos em um imenso espaço no meu coração. – disse e sorriu.
Um sorriso tão sincero, com tanto amor que eu vi naquele momento que ela havia entendido a situação. Não sei quando essa dor vai passar, mas quem sabe daqui a um tempo ao ver que eles seguiram felizes essas tristeza que o divórcio a trouxeram seja amenizada.
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