20 Primaveras
32 Praia Grande - final-
Notas iniciais
— Eu não quero ir embora! – reclama Letícia.
Nesse exato momento, essa mulher de 20 anos estava simplesmente pirraçando para não entrar dentro do carro para voltarmos para casa. Sim, isso mesmo! Letícia se encontrava com os braços estendidos impedindo que a porta de trás do carro pudesse ser fechada. Com a raiva que eu já estava, minha vontade era pegar impulso e dá-lhe uma portada na mão, pra ver se assim ela nos faz parar de passar vergonha.
— Letícia, coopera vai! – disse para ela que me ignorou.
Tinha que arrumar uma forma dela se distrair.
— Oi Gustavo... a Letícia? Tá aqui dentro do carro agindo como uma cria... – Letícia nesse momento queria sair do carro desesperada.
Ela foi logo colocando as mãos sobre a minha boca. Não tinha Gustavo nenhum vindo em nossa direção, apenas fiz isso para ela querer sair do carro ao pensar que ele poderia ver essa cena infantil dela. Quando ela fez menção de sair a empurrei para dentro e fechei a porta a travando em seguida.
— REBECCA! Abre logo essa porta! – pestanejava Lê. – Eu preciso ver o Gustavo, ele está vindo! – disse desesperada e eu comecei a rir.
— Para de rir! – ordenou.
De nada adiantou porque eu continuei rindo dela. Nessa hora ela se virou e procurou Gustavo pela janela do carro e não o viu. Aliás ela não viu ninguém porque dentro daquela garagem só estávamos eu e ela.
— Você não fez isso. – comentou e semicerrou os olhos.
— Sim, eu fiz! – afirmei e vi suas mãos se fecharem em punho.
— Eu vou te dar um soco! – avisou e eu fechei a porta do passageiro e deixei a louca lá dentro, escorrendo o rosto pelo vidro.
— Era a única forma de você relaxar o braço para eu conseguir fechar a porta, caramba! Estava parecendo uma criança de 2 anos. Se continuar com essa palhaçada, te deixo aí e vou lá falar para o Gustavo não me passar o número dele para eu passar pra você. – disse sendo bem séria com ela.
Para resumo da ópera, Letícia esqueceu de pedir o número do Gustavo. Não sei, mas acho que ela se distraiu tanto com aqueles olhinhos castanhos e nem lembrou desse detalhe que era preciso para futuras comunicações.
Ela bateu abriu o vidro do carro.
— Faz assim não. Eu prometo que fico quietinha aqui, mas pede o número do Gu, amiga. – pediu. – Mas eu agi assim, porque você sabe como eu gosto de praia e deixar esse paraíso aqui não vai ser fácil – argumentou.
— Ok, eu vou pedir. Mas você vai ficar quietinha aí dentro. Você já se despediu dele e depois arrumou essa palhaçada aqui dentro. – disse e saí.
Ela ficou batendo palminhas e dizendo:
“YES!”
Fui até lá me despedi de todo mundo e pedi o número do Gustavo. Ele logo me passou e me disse que assim que chegasse ligaria para Lê, para marcarem alguma coisa. Anotei mentalmente esse recadinho e fui embora da casa com o Gui.
— Por que a Letícia pediu para você pedir o número do Gustavo? – perguntou curioso e ciumento.
Ignorei o ciúmes (coisa que eu detestava) e fui direto ao assunto.
— Porque eu deixei ela presa dentro do carro. – disse.
Guilherme me olhou confuso.
— Como? – perguntou.
— Ela estava irredutível para ir embora, quando consegui trancá-la dentro do carro não deixei mais ela sair. Se não fosse por isso eu estaria até agora tentando fechar a porta e ir lá te chamar. – comentei e sorri.
Guilherme me acompanhou e eu fui contando como foi à cena para ele.
— Pegou o número! – disse Letícia arrancando o papel da minha mão.
Delicadeza e educação é com a Lê.
— Pessoas educadas dizem: obrigada. – disse irritando a Letícia.
Ela fez língua para mim depois me deu um beijo na bochecha e sussurrou a palavrinha mágica no meu ouvido. Linda ela, né?
Fomos o caminho todo calados. Bem, não é bem isso. Gui foi cantarolando uma música aleatória e Letícia e eu fomos mexendo no celular. Eu estava louca para acessar a internet de novo, não que por lá não tenha sinal, nem é isso. Mas é porque com tanta vontade de aproveitar ao máximo e me adaptar aquela correria nem tive um tempinho sequer para ter um encontro com o WiFi.
— Ele te disse se me ligaria? Ou será que sou eu quem terá que ligar de novo? – perguntou entediada.
O negócio era um seguinte. Letícia era a pessoa que sempre ligava para os pretendentes. Eles nunca faziam isso, creio eu que por falta de interesse mesmo.
— Gustavo disse que te ligaria assim que chegasse em SP, para vocês marcarem algo. – disse despretensiosa.
— Ah meu Deus! Ele é o primeiro que fará isso. Mas só vou comemorar depois de receber a ligação, por enquanto vou tratá-lo com descaso. Dessa vez não vou ligar se ele não ligar. – disse convicta.
— Tem certeza? – questionei.
Ela nunca conseguia se segurar e sempre ligava.
— Sim, absoluta. – afirmou. – Te disse que não faria papel de trouxa de ficar implorando mais, se quer bem se não amém! – soltou essa expressão clichê.
Concordei com tudo o que ela disse e ficaria de olho para ver se ela não quebraria o encanto, da donzela que está amadurecendo. Espero que não.
Chegamos em casa. Me despedi do Guilherme e subi junto com a Letícia, fomos cada uma para nosso apartamento. A primeira coisa que fiz foi entrar debaixo do chuveiro. Lavei meus cabelos e os hidratei. Água salgada detonava os fios, e os meus pediam socorro!
Decidi pegar alguns livros da faculdade para dar um atualizada na matéria. Seria semana de prova então definitivamente ficaria sem tempo para nada. Depois de um feriado sempre era assim, pegavam pesado com a gente mas vida adulta tinha dessas coisas.
Não sei aonde irei com a minha Faculdade, faço tudo relacionado a ela no modo automático. Gosto do curso e só me sinto mais motivada a ir porque sei que lidarei com palavras e estudo aprofundado sobre elas. Mas sabe quando você sente que sua vontade não é essa? É dessa forma que me sinto.
Quero muito ter a escrita na minha vida mas não dessa forma. Queria viver da arte, da pintura a qual é a minha verdadeira paixão, porém não sei se serei aceita pelos meus pais se fizer essa escolha. Bem, na verdade eles nunca aceitaram bem essa ideia e papai sempre fechou a cara quando eu, por ventura, tocava nesse assunto. Não é como ele quer me ver, como ele mesmo me disse. Quer algo que me traga retorno financeiro.
Mas fico no dilema porque não sei se o que me trará retorno financeiro trará minha felicidade.
Não quero exercer minha profissão como uma pessoa formada em Letras e não sei como arranjarei motivação caso seja obrigada a fazer isso. Sinto como se meus dias estivessem sendo mal aproveitados, ao cursar algo que eu apenas gasto dinheiro mas não tenho a mínima pretensão de viver disso.
Pretendo não tomar a decisão errada. Todavia sinto que a qualquer momento vou chutar o balde. Momento esse quando o meu coração decidir seguir o que ele realmente quer. Ser feliz. É isso que ele e eu queremos.
Fui até aquela parte do meu apartamento onde estão algumas coisas de pintura. Um pequeno quarto que guarda todos os meus sonhos. Depois de tantos anos contendo a minha enorme vontade de fazer daquela tela uma arte, não me privei mais. Coloquei o avental e respirando fundo comecei a separar as tintas.
É bem mais forte que eu essa vontade de preencher qualquer espaço em branco com cores. Faz parte de mim esse desejo de viver no meio de tudo que possa fazer os olhos de alguém se emocionar. Trazer felicidade.
Comecei a pintar e mesmo depois de muito tempo parada, até que dava pro gasto o que eu ainda conseguia fazer. Claro que estava longe de ser o que eu tenho capacidade, mas com o tempo a habilidade vai voltando, porque amor por essa arte é o que não falta.
Mas manterei em segredo cada pincelada. Não contarei para Lê, Gui ou meus pais. Prefiro que ninguém saiba para não receber apelidos de “Louca!”
Sei que Gui e Lê sempre me apoiaram, meus pais também. Porém com a intenção de que isso fosse apenas um Hobby, não uma profissão. Por isso vou voltando a fazer o que eu amo aos poucos e aproveitando cada momento livre para fazer isso.
Larguei os pinceis e analisei o pequeno desenho que se formava. Fechei esse quarto, lavei minhas mãos e me emaranhei no meio dos livros mais uma vez. Tinha que estudar para ir bem na prova. Mas dessa vez não estou disposta a deixar meu amor e minha vontade de pintar em segundo plano. Minha felicidade eu que sinto, logo eu que busco.
E estou decidida a manter o meu segredo só pra mim. Até o dia em que eu me sinta confortável a falar para todos que eu não vou fazer o que querem, mas sim o que me faz feliz.
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