20 Primaveras
40 Mundo real
Notas iniciais
Ando com canetas, papéis e calculadora em mãos o tempo inteiro. Estou cortando tudo que possa ser supérfluo e gastando só o que dá e é necessário. Consegui uma entrevista de emprego depois de dias e mais dias procurando. Guilherme sempre vem me ver e tem a mania de querer pagar as minhas contas, coisa que eu não admito de maneira nenhuma. Ele tem os gastos dele e eu os meus, não posso ficar me escorando nos outros, já deixei de ser uma criança há tempos e preciso lidar com a minha realidade.
O emprego o qual vou a entrevista é aquele típico: mil e uma funções e apenas uma pessoa para realizá-lo. Sim, é bem puxado, mas não estou podendo selecionar o melhor, o melhor é o que vier primeiro e que me ajude a me sustentar. Pelo que vi no jornal o salário é razoável, nada que vai me deixar a possibilidade de guardar uma quantia todo fim de mês, porém pelo menos honrarei minhas contas.
O que dificulta é que fica em uma rua a duas horas da minha casa. Ou seja, terei que pegar no mínimo 3 ônibus para chegar até lá no horário correto. Tá certo, eu vou conseguir.
— Eu tenho uma entrevista marcada.
A recepcionista me olhou com cara de desdém e me fez um sinal para esperar. Havia uma mesinha bem pequena em frente à mesa dela, deve ser ali que a pessoa que conseguir o emprego irá trabalhar. Vendo aquele belo e sorridente rosto todos os dias assim, de uma forma bem privilegiada, só que não.
— Ô menina! O patrão disse que pode entrar.
Dei um pequeno sorriso e recebi em troca uma virada de rosto nada amigável. Ignorei e fui em direção a sala do chefe.
— Bom dia, com licença.
— Entre. – disse o patrão.
— Sou a Rebecca, vim pela vaga de emprego que anunciava o jornal.
— É óbvio que veio aqui para isso, para me ver que não seria, né? – respondeu de uma forma grosseira.
Se fosse em outra era, eu já teria saído dali, mandando ele e sua secretária nada simpática irem pro inferno e teria ligado para minha família pedindo socorro. Mas como falamos do agora, eu respirei bem fundo e fiquei ali. Eu precisava e sabe, quando as pessoas sabem que você precisa de algo, geralmente algumas não todas, tendem a usar isso a favor delas. E aqui pra nós, elas pisoteiam e te fazem de tapete, porque pensam que você não é ninguém, é um alguém que não precisa de respeito. Mas eu não vou me deixar vencer. Se passo por tudo isso agora é porque a vida que de mim força, e é isso que eu vou ser: forte!
Ele pegou minha ficha escolar e analisou. E eu mantive minha postura ereta e séria, não demonstrando em momento algum que eu estava insatisfeita com a situação.
— Você não tem experiência, certo?
— Ainda não. Nunca trabalhei.
“Agora é que ferrou tudo” – pensei
— Não tem problema, aqui eu não preciso de gente com uma ficha extensa e sem conteúdo. Você parece ser esperta e faz Faculdade, então pelo menos escrever você sabe.
— Com certeza, o senhor não irá receber relatórios com palavras erradas e um português não culto, pode ficar despreocupado.
Disse firme e ele balançou a cabeça.
— Eu vou te dar uma chance, mas qualquer erro resulta em uma única coisa: rua! – finalizou e eu senti um frio na barriga.
Eu não estava em hipótese alguma acostumada com tanta frieza assim. Será que ele chegou a ter esse escritório de contabilidade, sendo rude assim com todo mundo?
— Está mais do que entendido.
Ele estendeu um contrato para mim e lá estava o salário. Pelo menos tinha vale transporte, o que já economizaria um pouco do dinheiro tão suado que eu teria que ganhar.
— Esse salário é por período trabalho integralmente? – questionei.
— Sim, é claro. Por quê?
— Bem, eu faço Faculdade pela manhã e no caso eu teria que trabalhar apenas no período da tarde.
Ele me olhou de uma forma bem séria e raivosa.
— Olha aqui menina, não sei o que você está pensando, mas...
— Diminua um pouco do salário. Pague proporcionalmente apenas pelo meio período trabalhado, mas por favor, me dê esse emprego.
Falei da forma mais sincera que podia, eu não tinha como escolher. Preferia que ele diminuísse o salário do que me deixasse voltar para casa sem emprego.
— Está certo, preciso de alguém com urgência e não posso ficar escolhendo por muito tempo. Já que só tem você procurando a vaga, ela é sua. Mas preste atenção: você tem uma cota de trabalho por dia, caso não consiga realizá-lo e me entregar todos os relatórios que ficaram na sua responsabilidade, você se vira nos 30. Porque no outro dia cedo eu quero todos na minha mesa.
Engoli seco. Mas aceitei. Eu daria o meu melhor, me viraria do avesso, mas não daria a ele o gostinho de em momento algum, enquanto eu trabalhar para ele, de me chamar a atenção ou me demitir.
Assinei o contrato, com o salário já diminuído pela metade e fui embora. Passei pela secretária e dei um curto sorriso, como fiz quando cheguei. Meus olhos ardiam e eu andei o mais rápido que pude para sair daquele escritório e poder chorar. Não é fraqueza, mas a vida por vezes assusta e te cobra um força que na hora, como agora, você não tem.
Chorei o quanto eu quis, sentada na calçada do outro lado da rua. Nunca quis tanto um abraço como agora e nunca desejei tanto que me chacoalhassem me acordando, dizendo, que era apenas um pesadelo. Mas eu sei que tudo vai ficar bem, por mais que demore, a hora de tudo entrar no trilho acaba chegando.
Peguei os 3 ônibus e voltei para casa. Fui para o quarto de pintura e nas telas, eu extravasei tudo o que estava sentindo. Aos poucos fui formando um rosto feminino que por uma lado sorria e pelo outro chorava, decifrando bem o que eu estava sentindo agora. Tenho a necessidade de estar bem para meus pais, mas quem está perto de mim por aqui sabe bem como ando mal.
“Posso ver minha linda namorada, hoje?”
Guilherme, ah Guilherme. Se você não existisse eu te pintava e me casava com a tela que levasse sua pintura.
“Claro que pode. Até porque sua linda namorada(vulgo, eu) precisava muito do seu abraço hoje.”
Mandei a mensagem e deixei o celular na cadeira. Saí do quarto de pinturas e fui tomar um banho.
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“ O que houve?”
Questionou Gui por uma mensagem.
“ Problemas rotineiros, nada demais. Até porque mesmo estando nos meus melhores dias eu não recusaria um abraço seu.”
“Mais tarde eu chego aí. Fica com Deus.”
“Permaneça com ele.”
Enviei e fui ver o que poderia fazer para o jantar. Escuto a porta sendo aberta e já sei que o pimpolho da Letícia está chegando.
— Good noite!
— Good noite, Lê!
Acho que como já sabem, Lê e eu nunca fomos as pessoas mais normais do universo. E também não somos as melhores quando se trata de inglês.
— Como foi a entrevista?
— Eu consegui a vaga.
— Yeahhhhhhh!!!! – Letícia começou a rodopiar pela cozinha, porém parou quando viu que eu nada festejei.
— Não tá feliz?
Perguntou.
— Por ter conseguido o emprego sim, claro que estou! Tirei uma peso das minhas costas, mas só vou receber metade do salário e o chefe e minha colega, a secretária, não são tão bons assim.
— Amiga, quando a gente cresce fica meio difícil termos pessoas que parecem algodão doce de tão fofas que são. Quando éramos crianças, nossas professoras soltavam arco- íris pela boca quando falavam, mas infelizmente, isso não acontece depois que a gente cresce.
Eu estava tentando acompanhar esse raciocínio bem adocicado da Lê.
— As pessoas se tornam mais resistentes e rudes, é normal. Vai saber se essa sua colega não é frustrada por alguma coisa? E que seu chefe não tenha mais nada na vida além de dinheiro? Já pensou nisso? Me estranha você, que é tão realista se assustando por não ter sido recebida com chuva de confetes quando foi para essa entrevista. Nós estamos no mundo real e adulto, onde nem todo mundo é tão bacana assim.
Eu queria saber de onde a Letícia tira tanto raciocínio bem articulado assim. Gente, ela com essas palavras e forma de pensar faz a vida ser tão mais leve, que eu até esqueço que estava triste e inconformada com alguma coisa.
— O salário será pouco, eu sei Becca. Você não estará fazendo o que ama, porém terá que aprender a amar o que faz. Circunstâncias da vida, amiga. Vai aprendo e tirando lições, porque as coisas serão para sempre assim: situações novas, que te colocarão a prova e você terá que ser forte e otimista. Tenha fé, tudo vai melhorar.
Corri e dei um abraço de urso nela. Não canso de falar que a Letícia merece o que a vida tem de melhor para ela, e que eu, não saberia o que fazer sem esses conselhos.
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