Notas iniciais
Oi, tudo bem? Bora pegar o caderninho e ir anotando as lições desse capítulo, ok? Prometo que lhes serão úteis.

—Becca, estou entrando – me avisou Letícia ao entrar no meu apartamento.

Ela tinha as chaves, eu nunca vi problema nisso, até porque eu também tenho as chaves do apartamento dela. Eu sempre as usava quando precisava pegar alguma roupa dela, isso é claro depois dela me dar permissão pra isso.

Veio até mim, me cumprimentou e ficou parada na minha frente, esperando que eu perguntasse como tinha ido.

— Como foi lá? – fiz a tão sonhada pergunta a ela.

Fez toda uma cena, se sentou, respirou fundo, cruzou as pernas, endireitou o corpo, e colocou as mãos sobre os joelhos. Eu fiquei atenta a cada movimento dela e me mantive parada em frente a pia da cozinha.

—Ele se chama Diego, tem 22 anos, cursa Bioquímica, tem olhos da cor verde, um sorriso branquinho e uma hálito muito bom – disse me passando a ficha do cara.

—Ah, e como você sabe que ele tem uma hálito muito bom? Só por conversar com ele de longe? – perguntei já sabendo bem da resposta.

Letícia olhou pro chão e começou a dar uma risadinha.

— Você é incrível Becca.- disse rindo – Digamos que nós fomos ao shopping e teve um momento desse passeio que ficou propício para um beijo, e assim foi, eu não iria deixar passar a oportunidade de beijar um monumento daqueles – disse.

Agora era eu que tinha que rir, monumento, que expressão mais antiga parece até minha avó falando.

—Tudo bem Lê, você fez certo eu não te julgo – a acalmei.

—Obrigada pela compreensão. Mas e você ficou fazendo o que esse tempo todo? – perguntou comendo uma maçã.

Fiz um sinal para ela esperar, fui até meu quarto e peguei as coisas do Blink-182 que eu havia comprado pro Gui.

Voltei pra cozinha e mostrei para ela. Arregalou os olhos e ficou me olhando surpresa.

— Você comprou tudo isso pro Guilherme? Ele vai enlouquecer quando ver que você vai presenteá-lo com objetos da banda favorita dele – disse empolgada.

Letícia parece que se lembrava também da loucura do Gui por bandas de Rock e agradeci mentalmente por ter acertado no presente.

— Então você acha que ele vai gostar?- perguntei receosa.

— Claro que vai Becca, vai ser como se você tivesse comprado um carro pra ele – disse e eu tive que rir da comparação absurda dela.

Mas assim, eu tinha mandado pro Guilherme uma mensagem de que o surpreenderia, porém eu apenas tinha comprado coisas da banda favorita dele. Mas qual seria o complemento disso tudo? O que eu poderia fazer para entregar esse presente a ele?

— Como você vai entregar esse presente? –perguntou Letícia.

Essa garota tinha horas que parecia que entrava na minha mente e captava tudo o que eu estava pensando.

—Bem... eu não sei – confessei fazendo uma careta. – Me ajuda a pensar em algo? – pedi.

— Poxa vida Rebecca só você mesmo, sempre fazendo as coisas pela metade – disse e deu uma risada. – Mas a sua sorte é que tem uma amiga muito gênio e que sempre está aqui para te ajudar – disse sendo a mesma convencida de sempre.

Ela ficou pensando, pensando, pensando, demorou tanto pensando e exercitando seu lado gênio que dava para eu dar a volta ao mundo com a maior tranquilidade da vida.

Deve ser por isso que os gênios segundo a lenda, só concedem 3 desejos, com essa demora realmente não daria para ser mais.

— Vai deixando pistas pelo caminho do térreo do prédio até o seu apartamento. Deixa bilhetes com dicas do que ele tem que fazer até chegar a surpresa, não precisa ser nada muito elaborado, mas escreva em cada bilhete coisas que irão fazendo com ele vá lembrando do passado que você disse que não quer e não vale a pena ser esquecido.- começou me explicando.

— Foi o primeiro beijo de vocês, não pense que eu esqueci eu lembro perfeitamente bem de como você chegou na minha casa com um sorriso de orelha a orelha me dizendo que havia o beijado. Então faz assim, dando pistas do que você quer que ele lembre. Se foi ao som da banda favorita dele e como foi o primeiro beijo de vocês, você pode ter certeza que ele não esqueceu. – finalizou o ideia que ela tinha tido.

Pior que a Letícia estava certa, essa era uma forma fofa e eficaz do que eu queria. Com esse suspense de cada bilhete escrito com uma palavra que o force a lembrar, ele vai conseguindo criar na cabeça dela a cena do nosso primeiro beijo. E de pouco a pouco a cada passo que der ele vai estar mais perto, de descobrir a surpresa e de mim.

— Você definitivamente não brinca em serviço – disse para Lê que jogou o cabelo.

Essa garota era uma peça e não tinha vergonha nenhuma na cara. Mas eu amava muito essa minha amiga.

— Nós vamos ter que sair para comprar os papéis – me lembrou Letícia.

Concordei com ela e fui correndo pegar minha bolsa e ela foi como um relâmpago para o apartamento dela fazer o mesmo. Nos encontramos no corredor e fomos como duas loucas para conseguir um táxi.

— Aonde nós vamos? – perguntei para Letícia já dentro do carro e mexendo no celular.

— Em uma papelaria pequena, vai ser melhor para achar as coisas e para o nosso coração. – disse e eu a olhei – Porque o preço cobrado é bem menor, não ganhamos na loteria não meu bem! Não sei se você se lembra disso. – disse debochando da minha cara e o taxista sorriu.

Ignorei a vontade da Letícia de ser engraçada, e continuei no celular. O taxista foi parando em uma papelaria pequena, porém bem bonita, pagamos e saímos. Disse pagamos, mas quem pagou fui eu porque a Letícia saltou do carro e já foi entrando na papelaria.

A segui e fui olhando uns papéis, ela me ajudou a escolher tudo o que era preciso e fomos no caixa pagar.

Até aí tudo bem, tudo muito lindo, a não ser o fato da Lê ficar encarando o moço — creio eu que dono da papelaria — como se ele fosse um pedaço de bolo de chocolate com calda. Ele lançava umas olhadelas na direção da Lê e ela retribuía perfeitamente bem e eu ficava servindo de vela.

—É só isso, muito obrigada pelo atendimento, o ambiente é muito agradável. – me intrometi no meio daquela bolha de amor que estava se criando ali.

— Letícia estava certa quando disse que os preços eram ótimos. – disse agradecida e virei as costas para ir embora.

O moço agradeceu, e quando eu já estava juntando as coisas para ir escuto mais uma das pérolas da Letícia.

—Descobri hoje que não são apenas os preços que são ótimos por aqui não. As pessoas que trabalham também... com todo o respeito. – disse.

Que todo respeito o quê! Ela tinha jogado na cara do dono que achava ele gostoso e que se ele der mole ela pega.

O dono sorriu sem graça e minha cara caiu no chão. Se tivesse um buraco ali eu enfiaria minha cabeça.

— Vocês precisavam de mais alguma coisa? – perguntou educadamente.

Parece que ele havia achado a Letícia interessante, mas estava ficando sem graça com as indiretas que ela estava mandando na direção dele.

— Sim, você! Claro,se possível- essas belas palavras saíram da boca da Letícia.

Nessa hora eu tive vontade de dar uma vassourada nela e dar todo o corretivo que ela não ganhou quando era criança.

Além de juntar as sacolas, juntei a Letícia também e com a cara mais vermelha do mundo eu saí daquela papelaria.

— Você ainda me mata de vergonha! – disse para ela, ao sair da papelaria.

—Amiga, um homem daqueles não tem como deixar passar batido- disse na maior naturalidade.

Ela continuou olhando lá para dentro e nessa hora o dono sorriu, chamou um outro atendente e saiu da vista da Letícia.

— Você deixou o homem envergonhado, caramba! Ele até que tinha se interessado por você, mas na hora que viu as coisas que você disse, acabou se assustando. – disse essa verdade a ela.

Ela me olhou como se quisesse dizer:

“ Não estou nem aí.”

É, realmente essa louca não estava nem aí para nada.

— Vamos embora que temos coisas, interessantes e importantes para fazer. — disse a ela.

Claro que ela bufou, bateu o pé e foi embora comigo. O caminho todo tagarelava sobre a surpresa que eu faria pro Gui, e já havia esquecido o cara da papelaria. Mesmo depois de anos de amizade eu não sabia como funcionava o coração e a cabeça da Letícia.

Parecia que ela via o cara, se apaixonava, mas depois ao ficar com a imagem dele na mente, refletia bem e criava situações imaginárias com ele. E fazia uma análise critica de tudo, já apontando os defeitos e possíveis qualidades dele e decidia por si só que não valeria a pena entregar o coração dela para alguém que poderia magoar tanto.

Não sei como funciona com o outros, mas vendo como ela vive a leveza que ela tem, e aquela capacidade de sempre correr o risco de entregar a chave do coração dela pra outro. Mas nos 44 do segundo tempo, ela para, pensa e torna a colocar a chave na caixinha de novo e não deixar ninguém pegar. Ela tem o coração dela como um joia rara e quem dera se todos fôssemos assim, quem sabe haveriam menos amores roubados, menos lágrimas e menos amargura. Quem sabe assim saberíamos que o amor tem que acrescentar, nunca nos diminuir.

Chegamos ao meu apartamento e começamos a fazer as frases. Eu estava ansiosa, nervosa e torcendo para ele gostar. Letícia comia um pão enquanto pensava em como fazer as frases, em letras diferentes, acho que já deu para perceber que a Lê é um traça pra comer, e segundo ela pensa melhor de barriga cheia. Ok, irei fingir que acredito.

Notas finais
Quem aceitaria a Letícia como a professora do desapego? hahaha, seria uma boa! Comentem, fantasminhas que leem essa história... percam a vergonha e comentem aí pra mim. Beijos!