20 Primaveras
9 Isso era demais para mim
Notas iniciais
Já havia alguns dias que eu não entrava em contato com meus pais, eles sempre foram presentes na minha vida mas com a correria eu acabei nem tendo tempo de ter uma conversar decente com eles, e eu decidi fazer isso agora. Mamãe atendeu o telefone e nada me acalmava mais do que ouvir aquela doce você me chamando de “filhinha”, era extremamente acolhedor, independente da minha idade eu sempre seria a pequenina dela, e a eterna menininha do papai, isso pra mim não tem preço.
Nós conversamos sobre tudo, contei como andava a faculdade e que minha notas estavam ótimas, não havia necessidade já que sempre eram enviados para eles o meu aproveitamento na faculdade, afinal eram eles que financiavam , então nada mais justo. Pedi para mamãe mandar um beijo para meu pai quando ele chegasse, ele não estava em casa, como sempre trabalhando muito e batalhando para manter meus estudos e eu tinha muito orgulho dele e ele sabia disso.
Enquanto conversava ao telefone rabiscava um papel qualquer e hora e outra era um rabisco em formato de coração e aí que me que veio a vontade de falar com mamãe sobre Guilherme que ele estava na capital e nós havíamos nos encontrado. Ao tocar no assunto com ela recebi um silêncio e um suspiro do outro lado da linha.
— Eu imaginei que isso fosse acontecer.
— Como assim, mãe? – perguntei logo após minha mãe começar a falar em um tom de voz pesado.
— Ele esteve aqui em casa uns dias antes de ir para a capital, pediu a nossa permissão para ir atrás de você e fomos nós que demos o seu endereço a ele, espero não ter causado nenhum problema para você. Mas ele se mostrou sincero em cada palavra que disse e percebemos como seus pais que ele queria apenas esclarecer as coisas, sabíamos muito bem como você havia ficado e contamos para ele por alto e o alertamos que a sua reação ao ver depois desses dois anos, poderia, não ser das melhores – finalizou.
— E não foi – afirmei – não sabia que já sabiam que ele viria atrás de mim, você não me avisou nada e nem precisou que ele viesse ao meu apartamento para me encontrar, nos vimos em uma festa e eu não acreditei na pessoa que estava diante dos meus olhos, depois marcamos de nos ver e ele esclareceu muitas coisas e eu percebi que nada foi como eu pensei, Lê um dia depois clareou minhas ideias e me fez entender que atrás da decisão que ele tomou o único objetivo era me proteger, do pouco que ele estava disposto a me dar- disse para mamãe.
Ela disse outras coisas e me pediu para tentar conversar com ele seriamente, sem brigas, acalmar os ânimos e engolir um pouco do atrevimento que em mim, era algo que transbordava e colocar em prática a educação que ela me deu. De que sempre que alguém falasse comigo eu abaixasse as “orelhas” e escutasse, era dessa forma mesmo que ela dizia e era dessa forma que ela exigiu que eu agisse, e assim eu faria. Conselho de mãe é aviso de Deus e eu sempre escutei com muita atenção o que ela dizia e agora, não seria diferente.
— Mãe – a chamei pelo telefone depois de escutar muito bem o que ela disse – você acha.. que.. o Gui... ainda me ama? – perguntei pausando mais do que o normal, mas meu coração gelava só de pensar que poderia vir um não como resposta.
— Você quer a verdade? – perguntou séria.
— Sim- respondi torcendo para que a verdade fosse de acordo com o que eu queria escutar.
— Sei que sente raiva dele, mas eu acho sim que ela te ama. Filha, você precisava ver como os olhos dele brilhavam e como suas mãos suavam quando ele veio aqui em casa, seu nome na boca dele saía como uma música e tenho certeza que a nossa permissão soou com o som mais lindo que ele já ouviu. Se ele não te ama, eu realmente nos meus 50 anos, não sei o que é amor – completou rindo um pouco.
— Obrigada mãe, muito obrigada! – disse animada o que fez minha mãe gargalhar- Era isso que eu queria ouvir, era isso que eu torcia e precisava ouvir, que esse homem ainda me ama porque eu sei que não é mistério para ninguém que eu nunca o esqueci – completei a acompanhando no riso.
— Mamãe? Você por acaso tem o endereço do Gui, aqui na capital, sei que já deu para perceber muito bem que eu necessito encontrá-lo- afirmei.
— Ele por acaso – disse a última palavra meio duvidando do tal acaso- deixou aqui comigo, segundo ele se fosse preciso entrar em contato – falou.
— Me passa? – perguntei ansiosa.
— Claro meu bem – mamãe disse.
Já com o telefone anotado na palma da mão, no papel rabiscado e na minha agenda, falei mais algumas coisas cordiais com mamãe perguntando como estava a família e logo após depois de muitos beijos, beijos, beijos e fica com Deus, finalizei a ligação.
Bom eu já tinha em minhas mãos literalmente o número do Guilherme e a casa aonde ele estava morando, agora eu só precisava ensaiar bastante o que eu tinha que falar para agilizar a conversa e não ficar travando o assunto, o que seria relativamente(para não dizer completamente) difícil.
Mas aonde eu treinaria todas as minhas falas? Espelho! Isso no espelho.
É só eu ir na frente no espelho, fixar o olho em um ponto e imaginar que são os olhos do Guilherme e começar a falar, com calma e destreza o que eu precisava e treinei tanto para dizer. Eu fiquei pensando um tempo por onde começar e assim que abri a boca não parei mais, saiu palavras trocadas, xingamento, ofensas, tudo e mais um pouco do que eu não deveria falar. Me acalmei, respirei fundo e comecei a falar novamente.
— Você está ofegante, parece que correu a maratona da São Silvestre. Se acalma, não é nenhuma situação estressante, é apenas o Guilherme, o seu ex namorado o qual você ainda é louca por ele – falou a voz do além da Letícia, que estava no batente da porta com uma maçã na boca.
O que essa garota comia e não engordava não era brincadeira. Eu só de pensar no prato de comida da Lê já me sentia satisfeita mesmo sem nem ao menos ter comido nada.
—Como você consegue entrar sem fazer um mínimo barulho? –perguntei me virando para ela me apoiando também no batente da porta e a encarando.
— Ué, eu tenho a chave do seu apartamento não sei se você lembra. Aí eu estava com vontade de comer algo e lá em casa só tem coisas enlatadas, e como não sou aqueles gatos de comercial de TV eu não comeria aquilo. Lembrei que minha linda amiga sempre faz mercado e vim aqui, filar uma boia com você. Gostou da surpresa?- disse com a maior cara de pau do universo, terminando de comer a maçã.
Eu fui atrás dela, enquanto ela fazia o percurso do banheiro até a cozinha, para jogar no lixo o talo da maçã.
A expliquei o que estava fazendo em detalhes, contei que consegui o endereço dele com a minha mãe e também contei tudo sobre a conversa com ela, Lê ficou de boca aberta quando soube que ele pediu permissão aos meus pais. Me disse que iria comigo até o endereço dele e que ficaria do lado de fora me esperando, caso eu precisasse de socorro, exagerada como sempre, companheira como nunca.
A gente iria essa noite até lá, e eu já tinha reunido toda a coragem que existia em mim e inventei a que faltava, para ir até o Guilherme, encarar de novo aquele rosto só que agora sem vontade de bater nele, agora disposta a escutar e falar também.
É, havia chegado a hora...
— Moço, anda logo com esse carro – Letícia usava de toda a sua gentileza para ordenar com que o taxista acelerasse o carro mais do que já estava acelerando para conseguirmos chegar mais rápido na casa do Guilherme.
Eu precisava chegar lá, só que seria conveniente que chegasse inteira e principalmente com vida, porque se não seria complicado tentar um relacionamento se não fosse assim. Demoramos o tempo necessário que era preciso para atravessar São Paulo por inteiro, não sei se era destino ou impressão da minha cabeça, mas sempre Guilherme e eu tínhamos que ter uma distância para estragar com tudo.
Paguei o taxista um preço absurdo pela corrida, a crise estava afetando todo mundo e o preço da gasolina não estava barato, mas dei o dinheiro com aquela vontade de pegar de volta de verdade, mas me contive. Entreguei o dinheiro e puxei a Letícia de dentro do táxi que discutia com o moço reclamando o preço que ele cobrou, se eu era uma pessoa que fazia de tudo para não pagar micos Lê compensava tudo isso, sempre que podia me fazendo passar vergonha.
— Já imaginou se ele abrir a porta só de cueca? – disse a pervertida da Letícia.
Prefiro ignorar 90% das coisas que a Letícia diz, mas até que eu não acharia ruim se isso acontecesse.
— Fica quieta, eu te chamei para me ajudar não para colocar coisas pervertidas na minha cabeça – disse para ela.
— Ah, não banque a santa! Até parece que você não gostaria – afirmou.
Letícia me conhecia muito bem e sabia das minhas vontades, mas não era para isso que eu havia ido até a casa do Guilherme e sim para a gente conversar: com roupas.
—Você fica aí em baixo agora, que eu vou subir – disse para Lê, barrando-a com os braços.
Ela assentiu, me desejou boa sorte, eu pedi para ser anunciada. Era um hotel aonde ele estava ficando, achei que ele morasse em casa ou apartamento, não sei o porquê ele não fez isso, era muito mais útil, confortável e econômico. Na hora que a recepcionista disse meu nome no telefone, ela ficou em silêncio e repetiu novamente. Creio eu que esse silêncio foi provocado, pelo susto que o Guilherme deve ter levado ao saber que eu estava ali. Depois dessa pausa, ela disse que eu poderia subir.
Minhas pernas estavam mais bambas do que duas varas verdes como diria mamãe, mas consegui manter o controle e aguentar ir subindo pelo elevador. Cheguei ao andar onde Gui estava, procurei o número e fiquei de frente para a porta do quarto dele.
Agora era só uma porta que me afastava das verdades e esclarecimentos que eu queria dar e escutar. Respirei fundo umas 15 vezes e bati a porta. Todo o ar foi tomado de mim quando a porta foi aberta mostrando a pessoa que estava lá dentro... Isso era demais pra mim.
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