20 Primaveras
13 Eu sou grata por ter você
Notas iniciais
Parecia que eu já estava em outro mundo, nunca me senti tão decepcionada e arrasada como agora quando eu vi que quem abriu a porta foi a arrumadeira, dizendo assim pra mim:
“Ops, a pessoa que você procura já não se encontra presente”
Ela não disso, mas bem que a cara foi de quem pensou assim.
— É... obri... – gaguejei – obrigada, eu me enganei de quarto... eu acho – disse para a arrumadeira que me fuzilava com os olhos.
Acho que ela me olhava assim, porque viu a cara de nada que eu estava. Ela deve ter pensado:
“Eu não recebo para ficar aguentando pessoas assim, interrompendo meu serviço.”
Não tiro a razão dela. Meus olhos deviam estar mais inchados do que tudo, meu nariz devia estar vermelho como o de um palhaço e ainda por cima quando eu abria a boca não sabia completar uma frase. Ah, isso sem contar no meu cabelo, que deve estar todo bagunçado.
Eu balancei a cabeça de um lado pro outro, olhei pra ela mais uma vez e virei as costas e fui indo pro elevador. Antes que eu me afastasse muito ela me gritou;
— Mas tem gente aqui ainda – disse a arrumadeira.
Nessa hora eu parei de andar e fiquei parada aonde eu estava, com a boca aberta e com as lágrimas escorrendo. Por que essa mulher não falou isso antes?
Eu voltei correndo pra porta do quarto e ela me olhou.
— Você está procurando um rapaz? – perguntou e eu confirmei com a cabeça.- Ele está aqui- disse.
Nessa hora eu não sabia se eu ria, se eu chorava, se eu agradecia a ela, ou batia nessa mulher que me deixou quase derreter e escorrer pelo chão de tanto desespero, quando ela podia só falar essas palavras que ela acabou de dizer:
“Ele está aqui.”
— Mas... por que você está aqui? Até onde eu sei arrumadeiras arrumam quartos vazios – perguntei e ela me encarou e sorriu.
— Arrumadeiras também limpam sujeiras dos hóspedes, principalmente quando eles fazem um estrago como o desse quarto fez- me disse e eu olhei confusa pra ela.
Ela saiu da minha frente e eu pude ver que havia destroços de um vaso e flores esparramados pelo chão.
Ela me explicou que ele apenas ligou para a recepção e disse que havia acontecido um acidente e que tinha um objeto quebrado no quarto. Eu perguntei a ela onde ele estava e ela me disse que ele havia saído e ido comprar curativos na farmácia, porque pelo o que parece o acidente não foi tão acidente assim.
Parece que em um momento de fúria ele jogou o vaso contra a parede e se machucou com o ato. Nessa hora ela olhou pra mim como se tentasse descobrir se eu pudesse ser a causadora daquele fúria repentina nele.
— Por que será que ele fez isso? – perguntei a ela.
Ela no fundo sabia que não era coincidência eu estar ali em prantos procurando o cara daquele quarto, enquanto esse mesmo hóspede quebra um objeto do quarto por raiva de alguma coisa.
— Será que a jovem não sabe? – ela me respondeu jogando outra pergunta e eu engoli seco.
— Eu acho que não. – respondi- Ou talvez eu saiba e esteja querendo que uma estranha que está conversando e tendo toda a paciência do mundo comigo, me diga o que eu devo fazer- confessei e recebi dela um sorriso singelo.
Ela devia ter seus 40 anos, e eu no começo achei que ela fosse rude, mas não, ela conversava delicadamente comigo e me escutava também.
— Coração está machucado é? – me perguntou agora me chamando pra dentro do quarto, como se fosse a casa dela
Ela se sentou na poltrona e eu na cama, nessa hora eu lembrei do dia que eu estava aqui com o Guilherme.
—O coração está machucado, a cabeça está confusa e a vontade de ter ele por perto... já não cabe em mim- disse para ela, começando a chorar novamente.
O quanto eu já chorei hoje dava para encher uma piscina olímpica. Ela me abraçou e depois me disse:
— Não impeça a existência de um amor bonito. Poucos são os que tem a segunda chance de viver um mesmo amor, porém com mais intensidade e mais amadurecimento. Eu perdi essa chance quando eu tinha a sua idade e pra ser sincera... é o maior arrependimento da minha vida. – pausou por um momento, ganhando ar para continuar.
— Eu deixei ele por ir porque pensei que merecia coisa melhor. O melhor que eu tenho hoje é ser casada com um homem que me ama mas que eu não amo de volta. É vazio, sabe? Eu sinto que todo o amor que eu tenho aqui dentro, não é capaz de passar pra esse outro alguém, isso, porque esse amor já tem dono, um dono que eu ignorei a anos atrás.
— disse essas palavras e eu escutei atentamente a cada coisa e ela chorava lembrando do erro cometido.
Depois das palavras da arrumadeira eu percebi que ela tem o dom de organizar camas, roupas, limpar as coisas, mas não tem o dom de organizar o lado amoroso e até mesmo a própria vida. E eu não quero quando estiver mais velha, me sentir arrependida do que eu não vivi mas tive chance de viver e só deixei escapar, por orgulho.
Eu acho que é válido, você escutar outras pessoas, se aventurar nas histórias alheias e ver que o amor não é um bicho de sete cabeças. Nada na vida é. Mas a gente tem o dom de complicar o que é fácil, e por isso muitas vezes somos decepcionados por nossa própria conta.
Se você observar um pouco o amor e suas inúmeras histórias, você percebe que de alguma forma sempre vai haver alguém que passe ou já tenha passado pela mesma situação que a sua. E que desses momentos ou elas carregam pro resto de suas vidas, o arrependimento misturado com mágoa, ou trazem o orgulho e a certeza de que tomaram o caminho certo. Eu com minhas 20 Primaveras, afirmo que eu não quero deixar passar esse amor sem tentar, sem saber se ele daria certo ou não.
Agradeci a arrumadeira pelos sábios conselhos, ela terminou de limpar o estrago do Guilherme e eu pedi para que ela me deixasse esperá-lo ali dentro. Ela aceitou e saiu. Eu fiquei inquieta andando de um lado pro outro, lembrei do estado do meu rosto e fui até o banheiro e dei um jeito naquela situação para estar mais apresentável. A chuva caia na mesma força e eu já estava ficando preocupada com o Guilherme e a sua demora.
Fiquei folheando uma revista que estava em cima da mesa e depois de um tempinho, escutei um barulho da maçaneta. Gelei, parei de respirar e quase morri.
Esses eram os Guilherme’s efects, em mim. Não era normal a forma como esse homem, parava o meu mundo, só de saber que ele estava chegando.
Eu fiquei encostada na mesa e assim que ele abriu e porta direcionou seus olhos pra mim e parou. Eu olhei diretamente para suas mãos e vi que haviam faixas na mão direita.
Ficamos nos olhando como se ele quisesse entender sem perguntar nada, o porquê que eu estava parada em pé, na sala do quarto do hotel que ele estava. E eu quisesse saber o porquê ele fez essa idiotice de quebrar o vaso e acabar se machucando.
Ele fechou a porta do quarto, e voltou a me olhar.
— O que você faz aqui? – perguntou parando... longe de mim.
Eu continuei onde eu estava, olhei em seus olhos, respirei fundo e sabia que agora era a hora.
— Me escuta apenas. – pedi e ele deu permissão para que eu começasse a falar.
— Eu passei todas as horas pensando em você. Desde o momento que nos vimos da última vez, eu pensei milhares de vezes em pegar o telefone e te pedir pra me desculpar, mas eu já estou cansada da distância, de deixar para ela resolver tudo, e de deixar o tempo curar as cicatrizes. Eu sou capaz, sabe? De vir aqui, olhar pra você e dizer tudo o que eu quero dizer. Eu não perdi a liberdade com você, eu não perdi a vontade de ter você, então porque eu manteria essa barreira entre a gente se eu sei que o que eu menos quero é me afastar de você? – fiz essa pergunta mais para mim do que para ele, nesse momento deu uma risada nervosa.
— Não seria justo com você, comigo nem com o nosso amor. Guilherme, eu sei que eu não sou a pessoa mais fácil de lidar, e também não sei lidar com o amor, não sei lidar com despedidas, com chateações e nem com nada que atrase a vida. Mas eu sei que como todo ser humano que se preze eu preciso entender que as coisas nunca serão do meu jeito. Você é outra pessoa, tem suas vontades, e eu devo respeitar isso. Eu vou falar muito agora, aguente porque eu preciso esclarecer tudo a você. – disse tentando alertá-lo que demoraria.
Dei um tempo para ele me expulsar dali, dizendo que não quer ouvir nada. Mas já que ele não conseguia se mover assim como eu, decidi continuar.
— Eu chorei muito, te julguei demais e me odiei por ter amado você, me esqueci do quanto você me fez bem e decidi que era hora de te odiar, desprezar e me fechar pra esse sentimento. Eu saí com outros caras, beijei outras bocas, mas nunca deixei que passasse disso porque eu não queria amar de novo. De alguma forma eu sabia que esse coração mesmo que em pedaços ainda era seu, e que se foi você que o deixou assim você que deveria consertar. Mas eu acho que eu usava isso como uma desculpa a mais para nunca te esquecer. E eu te esperei para fazer isso, com isso o tempo foi passando, a saudade aumentando e o desespero também. – me calei, lembrando de como isso tudo me machucou.
—Nessa hora eu vi que precisa tomar uma decisão, e nos meus planos de vida, um deles era esquecer você! E eu havia decidido isso... eu juro que havia decidido. Mas do nada, naquela festa você aparece e eu vejo que se eu tivesse te “esquecido” esse lapso só duraria o tempo que a minha vida não desse de encontro com a sua, como foi o que aconteceu aquele dia. Você não é fácil de esquecer sabia?- brinquei com ele que me deu um tímido sorriso.
— Gui, você me conhece bem e sabe que o meu coração não é fácil de se apaixonar, se entregar, e com você eu senti total liberdade para fazer isso e hoje eu mudo o que eu disse, eu não me arrependo por ter me apaixonado por você. Ao contrário eu sou grata por tudo isso, eu sou grata por ter você. Mesmo que eu quisesse criar todos os muros possíveis para me manter longe de você isso não adiantaria, você conseguiria derrubar todos e eu não fim te agradeço por isso. – finalizei o meu “discurso”.
Guilherme estava chorando a essa hora e eu abaixei a cabeça e deixei o choro sair livre, levantei o meu rosto e ele não dizia nada, apenas me olhava firmemente nos olhos.
— Não vai dizer nada? – perguntei.
— Agora é você quem vai me escutar – disse Guilherme respondendo a minha pergunta e colocando um pouco de medo.
Que ele não diga que eu não quer mais... que não seja isso... por favor!
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