20 Primaveras
4 Eu preciso aprender a esquecer
Notas iniciais
“Eu só queria entender como a gente tem a capacidade de amar quem não nos ama e o pior de tudo, apesar de tudo, esse amor não perder sequer um pouquinho da força.”
— A Letícia ainda continua sendo a mesma doida de antes... algumas coisas continuaram da mesma forma de quando eu fui embora – disse ele dando uma olhada no ambiente da festa e logo após redirecionando o olhar pra mim. – Não vai dizer, nada? – perguntou.
Eu não conseguia me mover, minha cabeça estava mais confusa do que de costume. Era o Guilherme ali na minha frente, com o mesmo lindo sorriso de sempre e o mesmo cabelo bagunçado. Se o meu psicológico já não suportara isso quando éramos namorados quem dirá agora, que a saudade já mora comigo a dois anos e levanta a plaquinha com o nome dele todos os segundo dos meus dias.
— É você mesmo? – foi a única coisa ridícula que eu consegue falar naquele momento.
Era óbvio que era ele, ninguém deixaria minha pernas tão trêmulas, se não fosse ele.
— Claro que sou eu linda, quem mais seria? Sou eu mesmo de carne, osso e... coração. – finalizou pegando minha mão e colocando sobre seu peito e sorrindo olhando diretamente pra mim.
— O que faz aqui? – perguntei dessa vez séria.
Eu não podia ficar com cara de boba na frente dele, eu sabia que ele ainda era o cara que eu amava mas ele não precisava saber disso.
— Eu vim pra capital estudar também, assim como você e a Letícia fizeram, não é? – disse mas logo continuou nem me deixando dizer nada – Está fazendo Letras, e a Letícia Veterinária, fiquei sabendo, moram no mesmo prédio mas não dividem o mesmo apartamento e também sei que seus pais estão muito orgulhosos de você... e eu também estou – quando ele falou tudo isso eu fiquei impressionada.
— Parece bem informado Guilherme, o que é está trabalhando no FBI? Foi embora, sumiu, terminou comigo e aí arriscou uma profissão nova? Desistiu da Administração como seus pais queriam e decidiu agora virar detetive?- perguntei tudo de uma vez.
Ele sempre sorrindo, eu não sabia do que ele achava tanta graça, parece que meu desconcerto e meu nervosismo na sua frente o faziam achar aquele momento cômico.
— Digamos que eu tenha os meus contatos, Becca. – disse.
Como se fosse a coisa mais normal do mundo, um ex namorado saber de tudo da sua vida, depois de anos fora, de ter te dado um fora simplesmente voltar sabendo até o que eu comi no almoço. Isso é demais pra mim, eu preciso sair daqui. Quando já ia me levantando o descarado me segura pelo braço.
— Aonde vai? – perguntou, arqueando uma sobrancelha.
— Ué, embora! Ou não posso? Ah, deve ser porque você também sabe que eu não dirijo e estou indo embora com um amigo, mas não se preocupe ele não vai tentar me agarrar. – disse cinicamente enquanto tentava inutilmente me livrar de suas mãos.
— Rebecca, porque está assim? – perguntou como se realmente não soubesse.
— Eu não tenho nada – disse sendo fria.
Nunca havia olhado para um copo de bebida com tanta vontade de entorná-lo na cabeça de alguém como eu estou agora. Mas eu prefiro não perder a pose e ir embora daqui. Eu faria isso, se não fosse a minha linda amiga Letícia trocando as pernas de braços dados com o bonitão, vindo em nossa direção.
Ela se aproximou de nós e ficou naquela coisa de abre e fecha o olho freneticamente como se tivesse tentando ver se era mesmo a pessoa que ela imaginava que estava ali.
— G-U-I-L-H-E-R-M-E! – soletrou a bêbada – meu Deus, não acredito que é você – falou surpresa aos berros.
Musica alta, Letícia bêbada e Guilherme tinha que dar isso mesmo, eu sabia que era melhor ter ficado em casa na companhia dos meus livros, pelo menos eles não me traziam lembranças ruins ou me fariam passar vergonha.
— Olha Felipe esse é o Guilherme ele é o... o... o... – gaguejou e ficou estalando os dedos como se quisesse lembrar, mas ela não ia dizer aquela palavra a Letícia estava bêbada mas não era...- É o ex da Becca – afirmou feliz.
Doida, a Letícia era doida, completamente doida
— E essa aqui é a Becca minha melhor amiga- disse dando continuidade as suas asneiras.
Felipe que havia acabado de cumprimentar o Guilherme agora se virava em minha direção para fazer o mesmo. Bem eu achava que a Letícia era minha amiga agora com a raiva que eu estou sentindo ela é tudo, menos minha amiga.
— Gui que saudades que estava de você, eu lembro quando você e a Becca- nessa hora eu tive que parar a Letícia, se não tudo o que eu menos queria relembrar que eram os meus momentos com o Guilherme voltariam e eu não queria isso.
— Lê meu amor- disse para ela querendo esganá-la- vamos embora? Você está um pouquinho alterada e precisa descansar, vamos? – disse e ela que concordou com a cabeça, eu achei que ela não fosse fazer isso, mas fez.
— Felipe, certo? – perguntei para o bonitão da Letícia que acenou com a cabeça- Eu vou levar essa daqui, mas depois vocês conversam mais, se divertem mais, só que agora precisamos ir – terminei e ele deu um beijo na Letícia que já estava de olhos fechados e retribuiu de uma forma desajeitada, me deu um beijo na bochecha e se despediu do Guilherme.
Falando em Guilherme, só o olhei mais uma vez e não disse nada, saí de lá só levando a alterada da Letícia e quando achei o Douglas o disse que já queríamos ir e esse foi conosco. Dentro do carro eu deixei derramar algumas lágrimas sem um motivo em evidente, talvez seja por tudo, seja por saudade, por surpresa, por arrependimento e principalmente por ainda amar aquele idiota com todos os sentidos da palavra amor.
Olhei a Lê que estava deitada no meu colo, mais amanhã ela vai me escutar e como vai! A vendo assim nem parece que fez uma coisa daquelas. Eu só queria entender como a gente tem a capacidade de amar quem não nos ama e o pior de tudo, apesar de tudo, esse amor não perder sequer um pouquinho da força. Parece que quando é assim é que a gente ama mais e também sofre mais.
Uma bela noite de sono, uma leite quente, uma cama aconchegante seja o que eu preciso agora. E esquecer também... eu preciso aprender a esquecer.
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