20 Primaveras
35 Está tudo bem novamente
Já recebi exatas: 25 mensagens e 50 ligações do Guilherme. Todas ignoradas com muito sucesso. Não é infantilidade, mas depois de tudo coloco em primeiro lugar minha razão e depois eu uso a emoção, de tanta colocar o coração para decidir me magoei e o magoei também. Logo, sinto necessidade de pensar melhor agora.
Não há porque ter raiva dele ou qualquer coisa do tipo. A intrusa se chama Gabriela e não houve uma má conduta da parte dele, apesar de não ter gostado nadinha dele me escondendo os tais acontecidos. Ligarei para ele e darei sinal de vida.
— Becca? Como você está? – perguntou.
— Estou bem meu amor. – quando disse “meu amor” pude perceber um suspiro tranquilo da sua parte.
— Amor...
— Vamos nos encontrar na lanchonete em frente a Faculdade. Daqui a pouco estou saindo, me espere lá. – disse e mandei um beijo por telefone.
— Combinado. Já estou saindo para o almoço e logo te vejo. Eu te amo, linda!
Por acaso eu já relatei como adoro quando ele me chama de linda?
Desliguei o telefone e voltei para sala. Havia saído para ir ao banheiro para conseguir ligar para ele. Assim que retornei escutei mais algumas palavras do professor e logo deu nossa hora de sair. Letícia retornaria hoje do interior e eu estava ansiosa por sua chegada.
Fui até a lanchonete, sentei-me e aguardei a chegada do Gui. Pedi um suco para tomar e fiquei lendo algumas coisas pelo celular. Exemplificando, estava por pesquisar vídeos e relatos de pessoas que trabalham na área de designer gráfico, como amo pintar, desenhar, me interesso muito pelo o assunto e gostaria muitíssimo conhecer alguém que trabalhasse com tal coisa.
Tenho a visão de que pessoas que desenham, possuem um dos talentos mais lindos que existem. Colocar em um papel suas emoções descrevendo em meio a rabiscos e cores situações cotidianas, imaginárias, enfim, todo o tipo de caracterização possível para fazer com que olhares alheios admirem tal obra e sintam ali, uma verdade, é algo magnífico.
Guilherme foi estacionando seu carro e eu fiquei o olhando. Ele veio se aproximando e me beijou rapidamente. Estávamos em público, diversas pessoas lanchando e não seria nada agradável verem tal cena escandalosa de um casal se beijando como se estivessem a sós.
— Linda...
— Tudo aquilo já foi completamente absorvido. Não vamos fazer do nosso namoro um mar de angustias e discussões por tal ocorrido com a Gabriela. Você se portou maravilhosamente bem e me respeitou como sua namorada, mas primeiramente, como pessoa. – disse e peguei em sua mão.
— Não briguemos por coisas pequenas, não enquanto, nosso amor for maior que elas. – comentei acariciando seu rosto.
Vi a tranquilidade nascer em seus olhos e senti-me realizada por trazê-lo a paz novamente.
— Meu amor, não faça mais isso com esse pobre coração aqui que tanto te ama. – insinuou tristeza ao dizer isso e eu ri de sua palhaçada.
— Prometi que cuidaria bem de você e creio que estou fazendo isso muito bem, ou não senhor Guilherme? – perguntei e apertei suas bochechas.
Ele teve que concordar, caso contrário, ficaria sem elas.
Ficamos nos divertindo e conversando por toda hora do almoço. Todas as horas do dia eram poucas demais para passar ao lado dele e quem dirá então apenas 1:30 hra de almoço? Era mísero demais!
— Vai trabalhar, mocinho! – chamei sua atenção em tom de brincadeira.
— Mas amor...
— Mais nada! – disse, percebendo que hoje o interrompi mais que o normal. – Levanta esse traseiro daí e volte a labuta – ordenei usando palavras chulas para brincar com ele.
— Tudo bem patroa! Mais tarde o pobre escravo passa em sua casa e deixa toda a gorjeta adquirida durante o dia.
Comecei a rir de nossas palhaças e como minha risada era a mais delicada possível, tive todos os olhares das pessoas que estavam na lanchonete direcionados a minha pessoa e minha risada de hiena.
Pagamos a conta e fomos embora, cada um para o seu caminho. Fui correndo, para meu apartamento. Não sei se já puderam perceber mas minha vida se resume a : faculdade, namorado e apartamento.
O que tenho feito com o resto de vida que me sobra em meio a tudo isso? Estarei aproveitando a vida que tenho ou tenho tinha centros na mesma, onde, tudo tem que girar em torno deles?
Fiquei introspectiva após ter pensado nisso. Pela primeira vez olhei em volta e questionei sobre tudo. O porquê aquele gatinho de porcelana estava no mesmo lugar desde que me mudei, ou como eu achei que tivesse ficado apresentável aquele velho e quebrado jarro de flor na mesinha de centro? Onde foi que deixei meu senso de harmonia ou até mesmo, aonde eu me deixei?
Pensando bem, tenho vivido de uma forma secreta. Para meu namorado, família e melhor amiga, tenho sido aquela que entende tudo, que amadureceu e não tem mais porque fraquejar nem ser imatura em nada, que ama a faculdade que faz e também aquela que deixou o sonho – que para todos é um hobby – vivo dentro de si, porém agora, executando em segredo para ninguém reclamar sobre essa decisão que tomei.
Isso não parece estar nem um pouco confortável, e não me sinto bem tendo esse medo de que a qualquer momento alguém entre aqui, me veja suja de tinta e trazendo nas mãos mil pedras as jogue em cima de mim, por estar me dedicando a pintura novamente.
Não quero que as pessoas que eu amo me julguem por estar sendo feliz, mesmo que para eles, isso não seja sinônimo de felicidade.
“ Vai preparar um banquete para esse sua amiga que retorna com o coração feliz, mas com o estômago nas costas? “
Belas palavras como essa só poderiam vir de uma pessoa : Letícia!
A melhor e mais desastrada amiga que alguém nessa face da Terra, poderia ter.
“ Claro que sim amiga! Todavia protegerei meus móveis para não serem devorados por essa espécie que você é, a qual ainda não foi descoberta.”
Respondi e deixei o telefone de lado, enquanto pensava no que fazer para ela.
“ Depois discutimos essas suas ofensas contra a minha inocente pessoa. Estou chegando no meio do caminho e aqui não pega sinal. Beijos!”
Li sua mensagem e sorri. Faltava um pouco de Letícia( felicidade e diversão) na minha vida.
Procurei na internet a receita de uma comida bem apetitosa e satisfatória. Faziam quase duas semanas que ela está longe e sinto que tem muito papo vindo por aí. Dessa forma, terei que calar sua boca com bastante frango, é claro! Não tem comida que Letícia mais ame que frango. Pronto, já sei o que fazer.
Fiz todo o jantar e quando só faltava de arrumar umas coisas fui até o quarto de pintura. Já estava quase na hora da Lê chegar aqui em casa, ela já havia chegado na cidade e estava no apartamento dela tomando banho. Não a vi ainda, já que ela foi direto para lá. Dei uma olhada em tudo e vi que não dava para continuar assim. Havia dito que só contaria sobre o meu retorno a arte quando me sentisse segura para isso, e eu estava.
Contaria hoje para Lê o que estava acontecendo e espero de coração ouvir dela, um apoio. Mas se não for assim, mesmo assim, não vou desistir.
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