Notas iniciais
Sugiro a leitura desse capítulo ao som de "I Love You, I Remember You" e "Say Yes" presentes na OST de Moon Lovers: Scarlet Heart Ryeo.

Museu Nacional da Coreia, Seul. 3 de novembro de 2016. Por volta das 15h.

Era um dia nebuloso. Naquele início de novembro, as nuvens pesadas que encobriam o céu azul de Seul contrastavam o clima seco habitual do fim de outono na Coreia do Sul. Após subir alguns degraus, Ha-Jin se encontrava parada em frente ao sumptuoso edifício do Museu Nacional coreano, admirando sua arquitetura contemporânea e tomando coragem para seguir em frente.

Assim como o tempo naquele dia, sua disposição não havia mudado desde o momento em que recobrou suas recordações. Memórias vívidas de uma vida tão distante da que levava agora a fizeram passar o dia anterior de cama, chorando incessantemente e, por vezes, duvidando da veracidade de seus pensamentos. Seria realmente possível que ela houvesse viajado no tempo e retornado um ano após quase se afogar no lago?

Ela não sabia a resposta. Porém, agora, mais que tudo, sentia a dor que carregava por haver partido e deixado para trás o amor de sua vida. Ela se arrependia tanto de seus atos que mal conseguia respirar ao pensar que poderia ter aproveitado mais de seu tempo com ele, enquanto podia. Havia admitido que ir embora, mesmo quando não suportava mais a vida no palácio, talvez não tivesse sido a melhor alternativa.

Ela se indagava se alguma de suas cartas havia chegado. Se ele havia lido e compreendido o quanto ela ainda o amava e o esperava dia após dia. Ou se havia passado o resto de seus dias odiando-a. Certamente, se soubesse que o dia em que o deixou sozinho no palácio com os olhos marejados de raiva e incompreensão seria o último em que o veria, teria agido de forma diferente, permanecendo ao seu lado mesmo que isso lhe custasse sua vida.

Também sentia muita falta de sua filha. Desejava ter visto o seu crescimento, suas feições e temperamento. A quem será que havia puxado? Teria Soo-Yeon crescido de forma saudável e feliz, tornando-se a mulher que ela esperava ver? Indagou-se outra vez se a decisão de afastá-la do palácio e de seu verdadeiro pai teria sido a melhor escolha. Os dois mereciam ter a chance de se conhecerem e se amarem como pai e filha. Quem sabe, inclusive, com a presença de Soo-Yeon ao seu lado, Wang So pudesse ter sofrido menos com a solidão do palácio e encontrado um motivo para sorrir novamente.

Eram tantas as perguntas às quais ela jamais saberia as respostas que lembrou-se então da única que poderia ser respondida naquele momento, dando-se conta do motivo que a fizera chegar até ali. Olhou para baixo, em direção à sua mão direita, e releu o cartão de visita que havia guardado com tanto cuidado:

Choi Jae-Sun
Bacharel em História Coreana e Mestre em História Política da Dinastia Goryeo pela Universidade Nacional de Seul.
Pesquisador.
Museu Nacional da Coreia. Rua Seobinggo, 137. Distrito de Yongsan, Seul. +82-2-2077-9000

Chegava a ser engraçado. O astrônomo que, ao menos em sua lembrança, havia acompanhado de tão perto o desenrolar da história dos primeiros reinados de Goryeo, agora era um historiador de renome. Formado na melhor universidade do país e trabalhando para o maior museu de história e arte coreano, era especializado justamente em História Política da Dinastia Goryeo. Coincidência ou destino? Ela não sabia, mas precisava descobrir.

Seguiu então em direção à entrada do lado esquerdo do museu, o lado conhecido por representar o passado da Coreia. Após adentrar o tumultuado e escuro saguão principal, percebeu que grande parte de sua iluminação provinha das claraboias, que fixadas desde as paredes até o teto, refletiam o mau tempo lá fora. Dessa forma, com a iminência da chuva, todas as pessoas que antes descansavam no pátio externo do museu agora começavam a se abrigar ali dentro, o que quase impediu Ha-Jin de chegar com êxito ao balcão de informações do outro lado.

Após diversas tentativas frustradas de encontrarem Choi Jae-Sun via telefone, implorou para que os funcionários do balcão mesmo assim a ajudassem. Conseguiu, então, ser direcionada para a área do museu dedicada à ciência da conservação, localizada no 3° andar e até então restrita apenas para funcionários. Saiu apressada, esquivando-se rapidamente entre os visitantes e logo subindo, em poucos minutos, dois lances de escadas rolantes.

Conforme lhe fora indicado, alcançou a porta de entrada que dava, por sua vez, para um corredor estreito e comprido. Ha-Jin se viu então, em busca de Jae-Sun, entrando em diferentes salas onde museólogos e historiadores analisavam e restauravam com muito esmero desde artefatos paleolíticos até esculturas budistas recém-descobertas da era Joseon. Estava quase desistindo de encontrá-lo, quando viu ao final do corredor uma pequena porta entreaberta.

Debruçado sobre uma mesa e com uma lupa em mãos, Jae-Sun analisava com cuidado uma série de papiros antigos, que se pareciam em muito com decretos de Reis pertencentes à era Goryeo. Ela se lembrou involuntariamente do decreto deixado pelo Rei Jeongjong, 3° de Goryeo, no dia em que quase a obrigou a escolher o seu sucessor. Seu olhar delirante, seguido de sua última frase em vida, “Eu só estava tentando sobreviver”, a fez temer ainda mais o palácio. Sentiu uma leve dor no peito. Lembrou-se novamente da inesquecível face de Wang So e sua aflição ao ler o decreto, rasgando-o com força logo em seguida. Naquele dia, ela pôde compreender a importância que um mero papiro poderia ter em alterar o rumo da história e agora, ao observar Jae-Sun, o enorme valor histórico que um conjunto deles representava nos dias atuais.

Bateu levemente à porta, abrindo-a devagar.

— Posso entrar? — Indagou Ha-Jin, demonstrando em sua voz um pequeno receio em estar incomodando.

Jae-Sun, que há pouco havia notado sua presença, arregalou os olhos ao virar-se e dar-se conta de quem era.

— Srta. Go Ha-Jin! Que visita um tanto quanto inesperada... — Comentou em tom surpreso, ajeitando os óculos arredondados e lhe indicando gestualmente para que entrasse. — Por favor, sinta-se à vontade.

Ha-Jin entrou lentamente e logo se distraiu ao reparar no restante da sala. O ambiente, se comparado ao tamanho das outras salas destinadas à restauração e manutenção das peças do museu, era muito menor. No fundo, se via uma pequena janela forrada com cortinas pesadas, que se fechadas, tinham a função de bloquear por completo a entrada da luz do sol. Ao lado dela, uma estante repleta de livros feitos à mão com títulos em hanja e pequenos baús de madeira decorados com madrepérola entrava em perfeita harmonia com o móvel baixo que, localizado do lado oposto da sala, exibia maebyeongs: vasos tradicionais coreanos de diversas cores e elementos da natureza. Todas as peças eram relíquias que pertenceram originalmente à Dinastia Goryeo — e ela podia assegurar sua autenticidade.

Bem no centro, ocupando a maior concentração de espaço da sala, estava a mesa robusta ao qual Jae-Sun seguia apoiado. A mesma estava abarrotada de livros, contemporâneos e antigos, assim como algumas folhas de papiro repletas de caracteres em hanja. Jae-Sun observava Ha-Jin se movimentar por sua sala examinando os objetos à sua frente com o interesse de alguém que aparentava ter certa familiaridade com os mesmos.

— O que te levou a se interessar tanto pela Dinastia Goryeo? — Indagou Ha-Jin de repente, ao virar-se e encará-lo de frente, com a mão segurando o queixo e uma expressão de plena curiosidade.

Jae-Sun, surpreendido com sua pergunta súbita e direta, a encarou por alguns segundos enquanto decidia se lhe contaria a verdade por trás de seu interesse no assunto, receando que Ha-Jin o considerasse um louco. Lembrou-se então do dia em que a encontrou no centro de convenções. A sensação de familiaridade com o seu rosto o atraiu, levando-o a reconhecer de súbito seu nome e sobrenome. Seria ela quem ele imaginava e esperava que fosse? A resposta veio em seguida. A lembrança de sua crise de lágrimas em frente aos quadros que retratavam a vida do quarto Rei de Goryeo, Gwangjong, só confirmou sua hipótese de que aquilo não poderia ser mera coincidência. Decidiu, então, pela verdade.

— Um sonho. — Ele, então, fechou os olhos e começou a transcrever a cena que vinha em sua mente. — Eu era uma criança de apenas 5 anos. Brincava de correr com amigos em um largo jardim, quando me distraí e bati a cabeça com força em uma árvore. Caí no chão e, de repente, perdi a consciência. — Ele abriu os olhos e a encarou com uma certa angústia em seu olhar. — Acordei depois em uma cama de hospital, com minha família ao redor... E um único problema.

— Qual problema? — Ha-Jin, que o observava muito atentamente, aproximou-se mais para incentivá-lo a seguir com a história.

Eu não sabia o que era aquele lugar e muito menos aquelas pessoas. Disseram que eu estava dormindo havia dias por ter quase me afogado no mar. Mas não fazia sentido. Eu nunca tinha visto o mar, eu... — Ele respirou fundo e seguiu adiante, enquanto fechava os olhos novamente. - Eu só me lembrava do campo na floresta onde costumava brincar e de uma linda casa de madeira em estilo hanok onde morava com outras pessoas, outra família. Lembro ainda das vestimentas de meus pais em estilo hanbok e dos maebyeongs presentes em alguns cantos da casa. — Ele abriu os olhos e apontou para o móvel baixo, enquanto sorria de canto. — Muito similares a esses que estão aqui.

— E o que aconteceu depois? — Ha-Jin, que nesse momento se apoiava à mesa centralizada na sala, urgiu pela continuação enquanto sua mente transitava entre lembranças suas tais quais as dele.

— Inicialmente, os médicos pensaram que eu estava sofrendo de amnésia retrógrada devido ao acidente no mar de Jeju, onde minha família passava férias. Depois de examinarem o meu cérebro, concluíram então que eu havia assistido a algum sageuk na televisão e que o impacto da história tinha me feito sonhar com aquilo. — Jae-Sun riu consigo mesmo, sem saber se o motivo da risada era cômico ou triste. — Desde então, tenho me dedicado a estudar o passado. E Goryeo tem sido o meu fascínio.

Ha-Jin, cujas pernas tremiam e a impediam de manter-se estável no chão, sentou-se na cadeira ao pé da mesa. Apoiou sua mão na cabeça enquanto lembrava-se do dia em que Ji Mong lhe contou sobre suas lembranças de infância. Ele havia dito naquela ocasião que se recordava de “carruagens que voavam como pássaros” e “prédios tão altos que podiam tocar o céu”. Poderia ser o que ela imaginava? Seria aquele à sua frente o verdadeiro Choi Ji Mong, que ao vivenciar uma experiência de quase morte ainda quando criança em Goryeo, acabou trocando de lugar com Jae-Sun e vindo parar no futuro? Se assim fosse, o que aconteceu com a verdadeira Hae Soo? Ela sabia que a mesma não havia tomado seu lugar já que seu corpo permaneceu em coma por um ano inteiro. Teria, então, a verdadeira Hae Soo falecido antes de chegar ao futuro? Era a única explicação plausível.

Jae-Sun observava a Ha-Jin como um psicólogo que analisa a linguagem corporal de seu paciente, tentando compreender o que realmente se passava em sua mente. Foi quando ao examinar sua expressão confusa, lembrou-se, de repente, de onde vinha a familiaridade de seu rosto. O parque do lago, no qual ele havia bebido e dormido por dias a fio após voltar de uma extensa expedição de historiadores no Egito e descobrir sua esposa o traindo com outro em sua própria casa. Aqueles dias, há pouco mais de dois anos, tinham sido muito difíceis para ele. Porém, Go Ha-Jin, também em sua plena desgraça, havia sido muito solidária ao compartilhar com ele sua garrafa de soju, deixando-o feliz por um instante e com mais sono. Pena que não conseguiu ajudá-la. Pelo menos, não até o momento.

Virou-se para o lado e andou em direção ao seu cofre, localizado atrás de um quadro, cuja pintura temática de ship-jangsaen, trazia os dez símbolos da longevidade do tao-xamanismo representados sob a luz de um sol incandescente. Após digitar a senha digital, abriu o cofre e admirou a caixa de madeira maciça escura, cuja história lhe causava um misto de orgulho e constrangimento. Ele a havia encontrado há poucos meses, durante uma expedição perigosa de historiadores sul-coreanos a Kaesong, antiga capital de Goryeo que atualmente se encontrava em território norte-coreano. A mesma, em companhia de uma urna verde límpida, estava estrategicamente enterrada ao lado de Honrung, o túmulo conhecido por pertencer ao Rei Gwangjong, 4° de Goryeo.

Ao analisar as relíquias, descobriu que a chave da caixa estava escondida entre as cinzas da urna, deixando a relação de proximidade das duas ainda mais evidente. Apesar do risco de ser detido pelo governo norte-coreano, resolveu levar secretamente a caixa consigo, entregando-lhes somente a urna para que fosse encaminhada ao Museu Central de História Coreana, localizado em Pyongyang, capital da Coreia do Norte. Desde aquele dia, pressentiu que a história da caixa estava conectada de alguma forma com a sua e que desvendá-la poderia ser a chave para descobrir sua verdadeira origem.

Após abri-la com a pequena chave, retirou dela um livro, que apesar de datar, pelos seus cálculos, mais de mil anos, havia mantido-se milagrosamente conservado, assim como todos os outros pertences que ali se encontravam. Voltou-se para o centro da sala segurando-o com cuidado e logo o entregou para Ha-Jin, que ainda parecia um pouco confusa.

— Por favor, abra na primeira página.— Pediu Jae-Sun com gentileza, enquanto Ha-Jin analisava o livro em suas mãos.

Ao chegar à primeira página, o choque foi instantâneo. Lágrimas escorreram de seu rosto quando olhou de soslaio para o canto inferior direito da folha de papiro amarelada e encontrou as três sílabas que compunham seu nome em hangul: Go Ha-Jin. Folheou o livro rapidamente em seguida, confirmando que se tratavam de suas anotações durante o período em que estivera em Goryeo. Sim, ela realmente estivera lá. E aquele diário em suas mãos era a evidência de que todas as memórias vívidas em sua mente não tinham sido apenas um sonho. Perguntou-se então sobre o que realmente sabia Jae-Sun: haveria ele lido todo o conteúdo do diário? Levantou seu olhar e encontrou seu semblante, que expressava um misto de perplexidade e curiosidade de alguém que havia acabado de compreender o segredo por trás de sua história. Agora, só lhe restava conhecer um último detalhe sobre a dele.

Responda-me.— Pediu Ha-Jin ao levantar-se da cadeira com um único impulso e encará-lo fixamente sobre a mesa. — Qual é a última coisa de que se lembra antes de perder a consciência?

— O sol negro. — Respondeu Jae-Sun, fitando-a ao mesmo tempo em que um sorriso angustiado lhe escapava pela boca.

Jae-Sun sabia que ela entenderia o significado. Afinal, o sol negro do qual ele se lembrava era fruto de um inesquecível eclipse solar: o mesmo que ela havia presenciado no dia em que quase se afogou no lago. Os olhos de Ha-Jin se estreitaram e o encararam com certa tranquilidade. Ela sabia que Jae-Sun conhecia o conteúdo de seu diário e que não o exporia ao mundo em vão.

— Muito obrigada, Choi Ji Mong. — Curvou-se Ha-Jin em forma de agradecimento com seu diário em mãos.

A reação surpresa de Jae-Sun em relação à menção de seu verdadeiro nome o fez abrir um enorme sorriso. Ela era a primeira pessoa que o chamava dessa forma desde que ele acordara naquele novo mundo. Os dois, então, trocaram um olhar de pura sinceridade e confiança. Sentiam-se cúmplices de um golpe do destino que somente os dois tiveram a chance de vivenciar. Pelo menos, até o momento.

Naquele fim de tarde, um raio de luz incandescente chamou a atenção dos dois ao surgir pela fresta da pequena janela localizada ao fundo da sala. Ha-Jin, intrigada, se aproximou rapidamente e afastou as pesadas cortinas que cobriam a visão do tempo. A surpresa foi tanta que sua respiração oscilou, fazendo-a levar inconscientemente uma mão à boca e outra ao coração. Um céu alaranjado mesclava-se com um sol fumegante, que pouco a pouco se escondia sob uma densa sombra negra.

— Não se angustie. — Alertou Jae-Sun calmamente. — Ele está prestes a voltar.

Hospital St. Mary’s, Seul. 21º andar. 3 de novembro de 2016. Às 17:30h.

Deitado sobre uma confortável maca, repousava um homem de traços finos, corpo opulento e mãos recheadas de veias. Beirava os 30 anos e sobre seu olho esquerdo, transparecia uma cicatriz que não negava a sua origem. Havia sido um soldado condecorado e, agora, encontrava-se apático naquele hospital, com a mente igualmente inerte. Próximo ao pôr-do-sol daquele dia, no entanto, algo começou a mudar.

Conforme o sol escurecia, traços de imagens incoerentes surgiam, ressuscitando sua memória com acontecimentos que até então não haviam sido vivenciados por aquele corpo. Uma mulher de feições delicadas e sorriso pueril, contudo, aparecia em todas as lembranças. Sua presença tornava o laço entre elas tão forte que sua mente, agora vívida como nunca antes, buscou saciar o anseio de tê-la por perto e obrigou suas cordas vocais a obedecê-la através de um brado a plenos pulmões:

— Hae Soo!

Notas finais
Primeiramente, desculpe pela demora em postar o capítulo. Final de ano tenso no trabalho. =/ De qualquer modo, muito obrigada por ter lido até aqui. Espero muito que tenha gostado desse capítulo e que siga acompanhando a fic mesmo com possíveis atrasos. :( Por isso, adoraria ouvir sua opinião, então fique à vontade se quiser deixar um comentário, porque terei o maior prazer em respondê-lo. :) Até o próximo! Beijos!