2 Hearts, 1 Soul
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Palácio de Damiwon, Gaegyeong. 4 de julho, 975 D.C. Último dia do reinado de Gwangjong, 4º Rei de Goryeo.
Deitado sobre um leve travesseiro, sentia seu corpo pesar sobre a cama. A sensação de vazio que o perseguira ao longo dos últimos dias, meses e anos finalmente parecia estar chegando ao fim. Sua respiração era lenta, suas pernas já não suportavam o seu corpo e suas mãos já não aguentariam novamente o peso de uma espada, mas sua mente se mostrava lúcida, clara e sábia como nunca estivera antes.
“A vida é como um sonho. Certo ou errado. Amor e ódio. Todos são enterrados com o passar do tempo e somem sem deixar rastros. Ainda está com raiva do amor e guarda rancor? O oposto do amor não é o ódio, mas sim a distância.”
Sim, Hae Soo estava certa. A vida é efêmera demais para se guardar rancor daqueles que prezamos acima de tudo, principalmente de nós mesmos. E é verdade, a distância jamais irá superar o ódio. O ódio é somente fruto da insatisfação quando um amor é forte demais para ser superável. Já a distância recai sobre a indiferença quando o orgulho se sobrepõe ao amor, deixando apenas frieza e solidão. Era uma pena que não o houvesse compreendido antes.
“Eu o deixei com ódio ao invés de amor. Fiquei pensando se não o deixei descansar confortavelmente. Fico constantemente preocupada. Eu ainda o amo. Quando deixou tudo de lado para ficar ao meu lado na chuva. Quando usou o seu corpo para me proteger da flecha. Por causa disso, agora, eu nunca conseguirei esquecê-lo.”
Ela se enganava. Ele não havia sido deixado com ódio. Não mais. O amor que ela lhe dera sempre estivera presente dentro dele. Ela o havia ajudado a se tornar um homem melhor, bom e justo na medida do possível. Havia guiado suas atitudes, seu desejo por mudança e igualdade em nome de todos. E não, ela não precisava se preocupar, ele não só ainda a amava como faria tudo de novo, sem pensar duas vezes, se pudesse tê-la consigo novamente. Esquecê-la jamais estaria em seus planos.
“Anseio por você. Também sinto sua falta. Mas não posso ir até você. Fiquei cansada da impiedade de um homem gentil. Espero que possamos nos encontrar um dia no jardim. Irei esperá-lo todos os dias.”
Perdão. Era tudo o que ele conseguia pensar enquanto as últimas lágrimas que ainda lhe restavam escorriam pelo seu rosto. Perdão por não atender aos seus pedidos e não poder ter sido o homem piedoso que ela tanto desejava ver atuar no palácio. Perdão por não ter sido gentil o suficiente a ponto de encorajá-la a permanecer ao seu lado ao invés de deixá-la temer ficar. Perdão pelo orgulho que o fez negligenciar suas cartas e o estado de sua doença, impedindo-o de chegar a tempo de vê-la antes que partira. Por fim, prometeu a si mesmo que se tivesse a oportunidade de reencontrá-la, por mais difícil que fosse, não permitiria novamente que ela o esperasse em vão.
Fechou a carta lentamente e, com um cuidadoso gesto, a depositou em seu lugar na caixa com os seus pertences, que se encontrava logo ao seu lado na cama. A verdade é que desde que Ji Mong a trouxera de volta, não havia conseguido se afastar dela e de todas as lembranças que o seu conteúdo trazia. Não se importava mais com o que a Rainha Daemok e seu filho Wang Ju poderiam pensar. Já os havia proibido de entrar em seus aposentos. A última coisa que desejava era ver seus olhares gananciosos, aguardando o momento exato em que ele se fora para anunciarem o novo Rei. Ele tinha o direito de partir em paz.
Olhou, então, de relance para a urna de cor verde límpida que se encontrava sobre uma estante baixa, ao pé da cama. Ali repousava sua amada Hae Soo. Ou o pouco de suas cinzas, que não representava nem uma mínima fração da mulher que ela havia sido em vida. Igualmente, ele ansiava por tê-la ao lado, de qualquer forma. Tentou se levantar, no ímpeto de alcançar a urna que estava longe, mas a dor no peito e a fraqueza de seus músculos o impediu. Infelizmente, não tinha forças para trazê-la para perto. Ao menos, não sozinho. Foi quando ouviu passos sorrateiros se aproximarem do recinto.
As portas se abriram vagarosamente. Ji Mong adentrou aos seus aposentos, carregando sua bengala e tentando, com êxito, minimizar possíveis ruídos.
— Boa noite, Majestade. Desculpe-me o atraso. — Disse em voz baixa enquanto se curvava diante do Rei. — Trouxe o que me pediu, Vossa Alteza.
Naquele instante, Wang So percebeu o que aquilo significava. Havia dias que se indagava quando seria a noite em que Ji Mong retornaria. Tinha aguardado apreensivamente por aquele momento, pois sabia o quão primordial ele seria para que sua partida pudesse transcorrer com serenidade.
— Muito bem, Ji Mong. — Elogiou-o Wang So com sinceridade enquanto tentava dissimular sua impaciência. — Agora, deixe-os entrar, por favor.
Com um gesto de mão, Ji Mong solicitou que os convidados entrassem enquanto se retirava do ambiente. Jung, enfim, surgiu pela porta, trazendo uma jovem dama ao seu lado. A mesma trajava um vestido em tons de rosa e lilás no estilo hanbok, além de um lindo cabelo solto, contornado por uma fina trança em forma de tiara. Seu semblante era delicado e translúcido, como uma pérola branca que reluzia vitalidade. Wang So deixou escapar um leve sorriso pelo canto do rosto. Soo-Yeon se parecia em muito com a mãe e a comparação era inevitável.
Os dois acercaram-se da cama em passos largos, curvando-se ao cumprimentar o Rei. Wang So, então, fitou a Jung e lhe fez um gesto, pedindo para que os aguardasse de prontidão ao lado de fora. Antes de se retirar, Jung confortou à jovem, que agora encontrava-se aparentemente desolada devido ao penoso estado de saúde do Rei. Naquele momento, Soo-Yeon começou a lembrar-se de sua infância, mais especificamente de todas as vezes em que veio visitar o palácio com seu pai e os irmãos, filhos de sua segunda esposa.
As visitas aconteciam a cada mudança de estação do ano e sempre lhe enchiam de ansiedade e alegria. Ansiedade, porque brincar pelo palácio com seus irmãos e primos sempre trazia uma novidade, como amigos e lugares novos a serem explorados. E alegria, porque gostava de ver o Rei. Ele sempre os observava brincar pelo palácio e ela sentia que, de alguma forma, parte de toda essa atenção devia-se a uma grande afeição que ele tinha por ela.
Como uma espécie de guardião, ele sempre estava presente para socorrê-la todas as vezes que caía no chão ou se machucava. Ele também cedia constantemente a desejos seus como correr de um canto para o outro em sua companhia, colher frutos ou deitar e conversar aos pés de suas amigas árvores, que inclusive tinham nomes próprios — inteiramente inventados por ele. Com tantas lembranças felizes, era impossível não corresponder à sua enorme afeição, o que a deixava estranhamente angustiada e aflita em vê-lo naquela condição.
— Aproxime-se, Soo-Yeon. - Pediu Wang So com carinho. — Por favor, não tenha medo e sente-se ao meu lado.
Após ver a moça acomodar-se delicadamente na beira de sua cama, Wang So, então, tomou uma de suas mãos com apreço e lhe sorriu com sinceridade.
— Diga-me, Soo-Yeon. - Ele a indagou. - Alguma vez já lhe contaram a origem de seu primeiro nome?
— Não, Majestade. - Ela sorriu com pesar. — Soube apenas que minha falecida mãe o escolheu.
— Pois bem. - Ele a encarou com ternura. — Eu irei lhe contar o motivo de sua escolha.
“Oh Soo-Yeon”, seguiu Wang So após uma longa pausa, “foi uma mulher forte, destemida, que lutou pelo que acreditava e não teve medo de se sacrificar por aqueles que amava. Ela e sua mãe eram muito parecidas e construíram uma relação tal qual de mãe e filha. Depois do seu nascimento, o grande sonho de sua mãe era que você se tornasse uma mulher forte e independente, que luta pelos seus direitos e ama incondicionalmente, sem temer a morte ou a solidão. Por isso, a bela e singular homenagem.”
Soo-Yeon, que pouco conhecia sobre sua mãe, levou as mãos aos olhos para conter a intensidade de sua emoção. Estava estarrecida com a declaração. Sempre quis saber mais sobre ela, mas sentia que o conhecimento de seu pai era limitado, definindo-a apenas como “uma mulher amável e encantadora, que trazia leveza ao ambiente, fazendo todos sorrirem com a sua presença”. Ela indagou a si mesma sobre como então, ele, o Rei, conhecia a razão pela qual sua mãe havia escolhido o seu nome. Haviam os dois sido muito próximos enquanto ela ainda vivia? Seria ele quem imaginava ser?
— Não chore. - Pediu-lhe Wang So enquanto tentava, de forma delicada, enxugar as lágrimas que caíam de seu rosto. — Corta-me o coração ver-lhe chorar.
Soo-Yeon abaixou suas mãos e o fitou por um longo momento. Seu olhar refletia a tristeza de alguém que esteve longe por muito tempo, mas também a ternura de quem buscou sempre protegê-la. Um olhar tão sincero e amável não lhe poderia gerar mais dúvidas, aquele homem era seu verdadeiro pai. Segurou então uma de suas mãos bem firme e lhe sorriu abertamente, tentando não desfazer-se em prantos.
— Sua mãe a amou muito e tenho certeza que ainda a ama, onde quer que esteja. - Seguiu Wang So com o seu discurso calmamente ao perceber que ela havia entendido quem ele era. - Ela queria que você fosse uma mulher feliz, livre para fazer suas próprias escolhas. Por amor a ela, eu respeitei esse desejo. Por isso, permiti que você fosse criada fora deste palácio traiçoeiro e longe de um homem impiedoso como eu. — Ele fez uma pausa para respirar enquanto lágrimas escorriam de seus olhos. — Perdoe-me por não poder ter sido o pai que você merecia.
— Não há o que perdoar. — Interrompeu-lhe Soo-Yeon, apertando-lhe a mão e sorrindo com gentileza. — Você não é um homem mau. É só um homem solitário que precisou cumprir com os seus deveres. Imagino o quanto deve ter sido difícil para Vossa Alteza.
— “Não importa se tem uma cicatriz ou não. Ou como as pessoas te enxergam. O fato de Vossa Alteza ser uma boa pessoa é o que importa para mim.” — Recitou Wang So de olhos fechados. - Sua mãe e você foram as únicas pessoas que me enxergaram como realmente sou. Sem máscara. - Ele lhe fitou e sorriu. - Por isso, a ela e agora a você, eu devo a minha vida, as minhas conquistas e toda a felicidade que já senti um dia. Por favor, não se lembre de mim somente como um Rei, mas como um pai, um homem gentil que amou muito à sua verdadeira família, mesmo distante.
Wang So então, tirou lentamente de seu pescoço um colar com uma pequena chave e virou-se para sua preciosa caixa de madeira maciça.
— Nesta caixa, encontram-se os meus mais valiosos bens. Os pertences de sua mãe. — Ele afirmou seriamente enquanto entregava a chave para ela. - A nossa história é o maior tesouro que posso deixar-lhe nesta vida. Proteja-a para que sobreviva à eternidade. É o seu dever enquanto prova viva desse amor.
Soo-Yeon, ainda incrédula, assentiu, guardando a chave em seu pescoço e puxando a caixa para si. Ela se indagava o que haveria ali dentro enquanto a admirava em suas mãos. Lembrou-se então do único pertence de sua mãe que ela conhecia. Uma presilha de rosa branca, ramos e frutos rubi, cuja perda durante uma de suas visitas ao palácio a fez chorar por dias e dias a fio.
No entanto, como se pudesse adivinhar os seus pensamentos, Wang So a puxou para mais perto e pediu-lhe para que abaixasse a cabeça. Retirou, então, de dentro de seu peito esquerdo, a tão estimada presilha e a prendeu em seu cabelo, próxima à tiara de trança que compunha o seu penteado.
— Perdoe-me por levar tanto tempo para devolvê-la. Não conseguira resistir antes às memórias que me proporciona. - Ele sussurrou. - Agora, é inteiramente sua. Use-a com orgulho. Como o presente de um pai que só deseja vê-la feliz.
Após levantar sua cabeça devagar, Soo-Yeon sorriu de forma contagiante para o pai, mesmo estando ainda entre lágrimas. Levava a mão à presilha em seu cabelo quando lhe agradeceu os presentes e prometeu cuidá-los com a própria vida, se fosse necessário. Seu sorriso era cheio de vivacidade com um quê de ingenuidade. Exatamente como o de sua mãe na época em que ele a conheceu, quando a observava conversar e gesticular alegre e despreocupadamente com seus irmãos nos jardins do palácio. Antes de… Uma dor aguda surgiu em seu peito, seguida de falta de ar. Sua visão começou a mesclar-se entre Soo-Yeon e memórias vívidas de Hae Soo. Já não sabia o que era real. Ele apertou a mão contra o peito. Seria esse finalmente o momento de partir? Se fosse, lembrou-se que não poderia fazê-lo sem ter à sua Hae Soo ao lado.
Com a mão ainda sobre o peito, lutou então contra a dor. Seus olhos perturbados, em desespero, miravam incessantemente na direção da estante baixa, ao pé de sua cama. Tentava chamá-la, mas sua boca não conseguia emitir qualquer sonido que fosse compreensível o suficiente para alcançar seu objetivo. Soo-Yeon encontrava-se assustada, implorando para que o pai voltasse à si enquanto o segurava forte para evitar que se debatesse. Foi quando ao reparar na direção um pouco distorcida de seu olhar e movimentos, compreendeu, por fim, qual era o seu último pedido.
Apesar do medo de deixá-lo naquele estado, ela foi buscar a urna de cor verde límpida, que entendeu conter as cinzas de sua mãe. Trouxe-a rapidamente para a cama e a posicionou bem ao lado dele, entre seus braços. A resposta foi imediata. Seu corpo se apaziguou e seu rosto abriu um sorriso tímido enquanto a dor parecia dissipar-se para longe. Hae Soo estava ali ao seu lado, ele pensou, e a memória daquele dia que passaram juntos às margens do lago surgiu com um clarão, sussurrando a melodia da voz que tanto ansiava escutar.
“Estava pensando o quão bom seria se tivéssemos nos encontrado em outro mundo e em outra época. Se assim fosse, eu não temeria a nada. Eu o amaria livremente, do jeito que eu quisesse.”
A imagem de seu rosto, sorrindo para ele com ternura, era tão deslumbrante que desejou manter-se ali apenas contemplando-a por todo o sempre. Não demorou muito para que sua consciência o escutasse, rendendo-se em perfeita harmonia com um feixe de escuridão momentâneo, que cobriu o sol incandescente e cedeu àquele que seria seu último desejo. Reencontrá-la.
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