2 Hearts, 1 Soul
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Palácio de Damiwon, Gaegyeong. 25 de junho, 975 D.C. Último ano do reinado de Gwangjong, 4º Rei de Goryeo.
Eram dias tristes. Apesar do calor e a brisa leve que a estação mais quente do ano trazia, o céu não tinha estado claro. As nuvens cobriam o sol que outrora fora tão forte e brilhante. Era um sinal divino. Assim como o sol, aquele que com sua força e senso de justiça havia iluminado e trazido prosperidade para a vida de tantos cidadãos em Goryeo encontrava-se próximo de partir.
As portas se abriram. Um senhor, de aparência serena e cabelos inteiramente brancos, adentrou devagar o recinto. Se apoiando em uma espécie de bengala, lembrava-se do dia em que fabricou o objeto — quando percebeu que suas pernas já não conseguiriam sustentar o peso de um corpo cansado de tantos anos de recordações e presságios. Se orgulhava de haver sido mais que um astrônomo, afinal fora um fiel companheiro e conselheiro daquele que tanto admirava: Rei Taejo, o criador da dinastia Goryeo, ao qual havia jurado eterna lealdade.
— Ji Mong. - Suspirou uma voz rouca, grave, que apesar de desgastada pela idade, não havia perdido ainda sua forte sonoridade.
— Sim, Majestade. - Curvou-se o senhor lentamente sob sua bengala em direção a uma cama grande, luxuosa, onde descansava um homem de cabelos grisalhos e aparência sombria. Era possível enxergar nele uma cicatriz que atravessava sua face esquerda e caracterizava um dos semblantes mais marcantes já visto em toda Goryeo. Seus olhos penetrantes, que outrora agonizaram de dor e incompreensão, agora transmitiam apenas uma profunda e intensa solidão. — Vossa Alteza mandou buscar-me. Em que posso servir-lhe?
— Fico feliz que tenha vindo. — A voz rouca e grave suspirava. - Trouxe o que lhe pedi?
— Sim, Majestade. Está aqui. - O senhor virou-se lentamente para trás e chamou por um servo. O mesmo adentrou o recinto carregando um objeto grande, de forma retangular, porém coberto por uma manta preta. Ji Mong fez sinal para que ele pousasse o objeto na beira da cama.
— Saiam todos, por favor. — Ordenou o homem de voz e semblante marcantes antes de ficar a sós com Choi Ji Mong.
Enquanto se levantava devagar, Wang So não conseguia desviar sua atenção do objeto à beira da cama. Agora, faltando tão pouco para o fim, precisava rever seus mais preciosos pertences. Aqueles que comprovavam a veracidade de suas lembranças e sentimentos, que permaneceram intactos durante tanto tempo. Tinham estado com Ji Mong a pedido seu. Precisou assegurar-se de que ninguém mais ousaria tocá-los além dele.
Ao retirar a manta preta que cobria o objeto, revelou uma caixa de madeira escura, maciça. Foi então que puxou de seu pescoço um colar com uma pequena chave, a única que conhecia o segredo daquela fechadura, criada exclusivamente para ele e preparada para suportar qualquer tentativa de extorsão.
Dentro da caixa, claramente à mostra, estava uma pilha de cartas. A escrita gravada em hanja nos envelopes indicava seu irmão, Wang Jung, como remetente. Abriu a primeira delas, com o cuidado de um ourives ao analisar um metal precioso, e tocou lentamente sobre o papel. A tinta, ainda vívida mesmo depois de tanto tempo, caracterizava a caligrafia que pertencia a ela. Somente a ela. Hae Soo.
O sentimento de arrependimento cruzou sua mente e logo chegou ao coração, que palpitava rapidamente, revivendo aquele misto de raiva e culpa que o havia atormentado desde o dia em que descobrira que ela se fora. Longe de seus braços. Somente ele conseguia entender o que fora viver sem ela todos esses anos. A falta do seu sorriso cativante. Sua pele translúcida e macia. Sua companhia por inteiro. Ela o amara até o fim e agora, diante de sua caligrafia tão singela, ele tinha certeza disso.
Sem perceber, lágrimas atrás de lágrimas escorriam pelo seu rosto. Com medo de manchar e destruir algo tão precioso com suas gotas de tristeza, decidiu fechar a carta e devolvê-la à pilha. Foi quando viu no canto da caixa um sabonete em formato de rosa. Um exemplar feito por ela que ele jamais havia tido coragem de abrir e usar. Levou-o ao nariz. O cheiro de rosa remetia a ela, sua Hae Soo, e ao seu talento em deixar as pessoas mais bonitas, por dentro e por fora.
Ao devolver o sabonete ao seu lugar, viu-se diante de um livro. Ainda apreensivo com as lágrimas que insistiam em cair, tentou resistir ao ímpeto de abri-lo, mas foi em vão. As páginas traziam caracteres repletos de pequenos círculos, traços e quadrados que nunca lhe fizeram o menor sentido. Será que o livro era um diário? Que idioma seria aquele? Realmente, Hae Soo viera de outro mundo. E era para lá que ele deveria ir a fim de reencontrá-la.
Por fim, o mais precioso de todos. Retirou o delicado tecido que cobria o presente que dera a ela. A presilha de rosa branca e frutos rubi que adornava perfeitamente o seu cabelo. Nunca esqueceu a quantidade de vezes que desejou vê-la usando aquilo enquanto a esperava aceitar os seus sentimentos. Porém, infelizmente, aquele objeto não pertencia a ele. E já estava na hora de devolvê-lo à sua verdadeira herdeira.
— Ji Mong. - Chamou enquanto guardava a presilha e trancava a caixa.
— Sim, Majestade. - O senhor, que havia se afastado ao perceber que o Rei precisava de um momento de privacidade, voltou à beira da cama.
— Preciso que vá buscar a Jung o quanto antes. Não me resta muito tempo. — Gwangjong fitou a Ji Mong com severidade.
— Majestade, por que Vossa Alteza não envia um mensageiro? Estou velho e não sei quanto tempo levarei…
— Não! — Wang So o interrompeu abruptamente. - Ninguém mais pode saber. E só confio em você, Ji Mong, para realizar essa tarefa.
— Mas, Majestade, eu… - O senhor hesitava. - Ji Mong! Em nome do meu pai, eu lhe ordeno que traga a Jung. E peça-lhe para trazer o seu único bem de valor inestimável. - Sua voz enrouqueceu. - Ele sabe o que significa.
— Aceito sua ordem, Majestade. - Ji Mong curvou-se diante do Rei. — Farei o meu melhor para cumpri-la o quanto antes.
Centro de Convenções. Seul, 1º de novembro, 2016 D.C. Provável último ano do governo de Park Geun-hye.
Uma grande variedade de pessoas entrava e saía do local. A feira sobre Cultura dos Cosméticos na Dinastia Goryeo, patrocinada pela popular marca de cosméticos coreana, Isoi, estava sendo um sucesso. Go Ha-Jin, uma vendedora de mãos cheias, encontrava-se a postos no stand de venda principal do evento, atendendo a clientes interessados nos produtos da marca.
Havia um ano que voltara de um coma e desde então, acordava todas as noites chorando desesperadamente após sonhar com um homem, de vestimentas antigas e uma estranha cicatriz que atravessava sua face esquerda. Quem era ele? Ela não sabia. Mas, de forma completamente inexplicável, tinha um forte pressentimento de que ele havia sido muito importante para ela.
Enquanto arrumava o expositor de produtos do stand, um homem de aparência cansada, portando um óculos de formato bem arredondado e roupas em um tom escuro um tanto quanto formais, se aproximou. Ela o havia observado mais cedo, enquanto ele guiava um tour pela exposição de antiguidades da feira.
— Olá. - Ela disse sorrindo enquanto se curvava, em sinal de respeito e prontidão em atendê-lo.
Ele não disse nada. Apenas a observou por um bom tempo. Ela não sabia dizer de onde, mas seu rosto lhe parecia bastante familiar. Era uma sensação um tanto quanto estranha.
— Seu sobrenome é Go? - Ele perguntou, após olhar seu crachá.
— Como? - Ela voltou de súbito ao momento, tentando compreender a pergunta. — Ah sim, o meu nome é Go Ha-Jin.
— Sabia que o sobrenome Go era Hae na dinastia Goryeo? - Ele sorriu, pensativo.
— Ah, é mesmo? - Que pergunta estranha. Ela não sabia o que responder, mas sorriu de nervoso. — Pois é, nós estamos vendendo cosméticos da Dinastia Goryeo. Que coincidência engraçada.
— Coincidências não existem. — Ele respondeu, de forma cética.— As coisas só voltam aos seus devidos lugares.
— O quê? — Ela continuou sem entender sobre o que ele estava falando, quando o mesmo fungou olhando para o stand adentro.
— Tem um cheiro forte de flores aqui. - Ele comentou.
— Ah, isso é porque os nossos produtos possuem óleo de rosas. - Ela sorriu e pegou um frasco no expositor da vitrine para mostrá-lo. - Especialmente esse sérum aqui. Ele é feito a partir do óleo extraído da rosa da erva-camaleão.
De repente, uma voz apareceu em sua mente indagando: “Não usou aquele óleo de rosa da Bulgária que eu lhe dei, não é?” . Ela parou de falar e se assustou consigo mesma. De onde havia surgido aquela voz? Ela não se lembrava de quem era, mas sabia o quanto lhe era familiar.
— Você está bem? - O cliente lhe fitava o rosto preocupado.
— Hã? Não é nada. - Ela voltou à si e sorriu para ele. - Será bom para a sua pele se usar regularmente.
O que estava acontecendo? Ela não conseguia mais se concentrar no que fazia. A voz havia dominado a sua cabeça. Resolveu então pegar outro produto no expositor e mostrá-lo ao cliente, na tentativa de se concentrar novamente.
— Você sabia que eles tinham algo parecido com o BB Cream na Dinastia Goryeo? — Ela sorriu para ele enquanto segurava o frasco. - Os homens usam muito hoje em dia.
“É melhor se preparar. Eu nunca a deixarei ir.” — A voz familiar retornou mais forte e estridente, agora acompanhada de imagens do mesmo homem de seus sonhos, como um feitiço em sua mente. Com o susto, ela deixou o que tinha em suas mãos cair no chão enquanto tentava se segurar firme no expositor ao seu lado.
— Acho que você precisa descansar. - O estranho cliente disse enquanto ela se perguntava o que havia de errado. Sua colega de trabalho veio rapidamente socorrê-la.
— Você não devia estar aqui. - Ela disse baixinho em seu ouvido enquanto a segurava firme, com vergonha do cliente que estava observando. - Não se preocupe e vá para casa.
Após se despedir do cliente, foi trocar de roupa desejando esquecer aquilo tudo e ir direto para casa. Foi quando, quase ao sair da feira, se deparou com uma pintura que lhe chamou a atenção. A mesma pertencia à exposição de pinturas da Dinastia Goryeo presente no evento e parecia retratar um festival de máscaras antigo. De súbito, mais imagens desconexas surgiram em sua cabeça.
Apesar do susto, sua curiosidade e necessidade de encontrar alguma resposta para os sonhos que vinha tendo a levou a entrar na sala onde outras pinturas da mesma época estavam expostas. Não demorou muito para novas visões surgirem com o primeiro quadro que viu. Retratava um ritual da chuva e mais uma vez, a imagem dele, agora conduzindo o ritual, surgiu em sua mente. Ele era um príncipe. O futuro Rei de Goryeo, Gwangjong. Ela, enfim, entendeu.
Não, não havia sido um sonho. Era real. Ela esteve lá, presente naquela época. De pouco a pouco, se lembrou de cada um que havia marcado a sua existência em Goryeo. Lady Hae, Wook, Eun, Baek Ah, Lady Oh, Jung, Woo-Hee e o mais importante de todos. Ela se virou e fitou o quadro mais chamativo da exposição. Retratava o semblante delicado de um Rei cujo olhar refletia a tristeza e solidão ao qual havia sido condenado. Sim, era ele. Seu Wang So.
“É melhor se preparar. Eu nunca a deixarei ir. Quando tocou no meu rosto, eu decidi que nunca a deixaria ir.” - Era a voz dele ecoando em sua mente. Como ousava haver esquecido a quem pertencia essa voz, esse rosto, essa história?
Sim, era ele. O motivo de sua aparição e existência em Goryeo. O único a apoiá-la em todos os momentos, a amá-la incondicionalmente mesmo com todas as adversidades. E ela o havia deixado. Sozinho. Naquele palácio sombrio.
Seus olhos lacrimejantes e vermelhos se voltaram para a descrição de quem fora Gwangjong: “Seu nome era So. Libertou os escravos da guerra. Foi um rei sábio e bom. Extenso expurgo.”
Um rei sábio e bom. Não sanguinário. Sim, ela havia cumprido sua missão, mas fora fraca. Não tivera força e saúde suficientes para aguentar tudo ao lado dele e agora, a dor em saber que o futuro de seu amado Wang So havia sido tão solitário, pesava em seu peito. Seus joelhos cederam e ela se arremessou ao chão, enquanto lágrimas escapavam involuntariamente de seus olhos. Sim, era sua culpa.
— Desculpa. - Ela chorava e soluçava sem parar ao olhar para o quadro que o mostrava sozinho em frente ao palácio de Damiwon. - Desculpa por deixá-lo sozinho.
Enquanto ela ofegava, agachada no chão, cobrindo seu rosto cheio de lágrimas, sentiu uma mão em seu ombro.
— Não se culpe. Era o destino. - Uma voz conhecida. O cliente estranho. Ou melhor, agora ela se lembrava. Teria esse homem passado pela mesma experiência de quase morte que ela? Ou seria ele apenas uma reencarnação de Ji Mong, o antigo astrônomo de Goryeo?
Ela se levantou lentamente e o encarou.
— Como você sabe? - Seu rosto, ainda coberto de lágrimas, buscava uma resposta concreta sobre tudo o que havia acontecido com ela.
O homem, então, tirou lentamente do bolso um cartão de visita e lhe entregou.
— Quando estiver preparada para saber, venha me visitar. - Sua voz era serena, de quem parecia ter todo o tempo do mundo. — Acredito que tenho algo que lhe pertence, Srta. Go Ha-Jin.
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