Notas iniciais
Houve uma explosão!

As hélices começam a girar, o vento dançarino que o helicóptero projeta toca o rosto sem vida dos tributos. Cada um está paralisado, com pensamentos diferentes e emoções encobrindo seus semblantes. O cheiro da morte está no ar e ela está preparada para recolher muitas almas hoje.

É muito estranho, pois todos os tributos estão vestidos, é um padrão de roupa para os homens e outro para as mulheres. Com bastante tecido, aliás. Parece um terno, como aqueles usados para sobrevivência a uma possível imersão. O material é feito de nylon híbrido, existe um zíper lateral da abertura da roupa até parte traseira dela. Esse zíper está reservando outra roupa por baixo daquele traje extremamente equipado, uma espécie de roupa a prova de fogo, afogamento e quedas aéreas. Pra que tudo isso?

Em uma folha que um dos idealizadores está carregando estão algumas descrições da roupa: “As botas de mergulho do Alto-tubo e o terno de mergulho são de uma peça só, tem almofadas de joelho para deixar possíveis quedas mais confortáveis, mas não protege completamente o corpo. Tem um bolso no pé direito. O terno na coloração preta tem diversas funções, como, mergulho, proteção de materiais radioativos ou de fácil ferimento e resistente contra ambientes pesados, como florestas e outros. Esse traje é totalmente impermeável, principalmente nas regiões do pescoço, nas luvas e nas botas (sendo assim, podemos imaginar que o traje cobre todo o corpo e somente a cabeça está descoberta). E uma característica única é que no peito de cada tributo está o número de seu distrito, ficando assim mais fácil de identificar o alvo.”

Então, o traje é bem potente, com toda certeza a arena será um perigo constante.

Nenhum sorriso, nenhuma vontade de sair do lugar e nenhum desejo sanguinário estão em questão no momento. São seus últimos momentos juntos antes do banho de sangue.

Uma sirene estridente ecoa no ar, como soldados, os tributos começam a caminhar para seus... Espera ai! Por alguma razão os vinte e quatro helicópteros começaram a decolar e não é só isso, cada um deles tem uma cápsula metálica. Os tributos já estão prontos e arrumados. Os guardas carregam cada um para essas cápsulas estranhas. Em cada um é injetado um chip localizador. Quando todos estão dentro, os grandes helicópteros começam a movimentar-se.

O coração de todos começa a disparar, não somente dos tributos, mais também de todos os cidadãos de Panem e dos doze distritos deste país que estão atentos a cada detalhe que possa ocorrer. Por trás de uma montanha grandiosa, uma imagem assustadora acontece...

Uma gigante cidade, em seus destroços. Não acredito que a arena este ano será em uma cidade, ou melhor, no que restou dela. A cidade é enorme, tem de tudo, de pequenas casas a prédios de 120 andares.

A cidade é bem incomum, como posso explicar... Ela é a cornucópia, sendo assim ela é o centro. No sul se encontra um imenso mar, com rochas pontiagudas e de um tom ocre divino saindo das margens e de alguns outros pontos específicos desse rio cristalino. No norte existe um campo, nada de mais, não existe nada lá, somente flores e capins em seu verde natural. No oeste tem um pequeno arvoredo, e quando digo pequeno é porque nele a maioria das coisas tem dimensões curtas, como árvores, flores e outros tipos de plantas ou ervas, talvez seja uma “florestinha” medicinal, quem sabe! E para finalizar, no leste tem uma aquela montanha bizarra, que não lhe dá o direito nem de escalar. Completamente imprópria para qualquer tipo de esconderijo ou algum alimento. Mas com toda a certeza, o foco é a cidade, que é muito bem projetada.

Ainda na cidade, percebemos que o céu é bem fechado. O local é bem pluvioso, as chuvas são fortes e não parece que vai parar tão cedo.

Então, aprofundamos mais ainda nos destroços, as câmeras focas partes principais da cidade, deixando o gostinho do mistério em cada uma das características que se escondem nesses prédios e casas. E aí que conhecemos a base principal, a centro da cidade... Chegamos à cornucópia.

As cápsulas metálicas não deixam com que os tributos vejam o local, elas são totalmente fechadas, sem nenhum tipo de visão para os jogadores da 2° Edição. Com isso, essa surpreendente cornucópia não pode ser vista por eles.

Vejo dois soldados conversando, eles estão medindo o tamanho dessa colossal estrutura de concreto, que tem 110 andares, e algo que me impressiona é que ao lado da folha de anotações tem umas descrições da cidade e nela consta que maior prédio tem 120 andares. E porque estamos falando dessa estrutura? Não é óbvio? Sim, é essa a resposta... A cornucópia está instalada no topo dela.

A estrutura é aterrorizante. Essa peça de cento e dez andares é um cilindro de concreto, e no centro dele a cornucópia repousa. Em volta, fazendo um circulo completo, tem outros vinte e quatro pilares de concreto, porém sua dimensão é bem menor. Em cada um deles tem um círculo de metal, com o mesmo material da cápsula, este círculo tem quatro garras. Se não me engano, embaixo de cada cápsula havia quatro buracos, então, só pode ser ali que cada uma delas será depositada. Sim! Por isso dos vinte e quatro outros postes gigantescos, e não é só isso, esses pequenos pilares estão interligados ao principal, que abriga a cornucópia por pontes, mas não são pontes firmes e resistentes e sim aquelas antigas feitas de madeira e cordas bem fortes.

A cornucópia tem um formato bem diferenciado, lembra-me uma casa de campo, pois sua entrada é bem triangular, seu telhado chega até a metade do primeiro andar da casa. Muita coisa para explicar, ela não tem somente uma entrada e sim duas entradas. Quando disse primeiro andar, é porque ela tem dois andares e os dois são extremamente abertos, pense em uma casa, na frente dela e imagine ela sem parede, sim, a cornucópia aqui é assim, as únicas paredes que existem são das laterais. Existe uma escada no centro da casa, dando acesso ao segundo andar, mas para sair eles tem duas opções, a escada novamente e um escorregador que começa no segundo e termina no primeiro andar, os fazendo ter mais agilidade para sair do massacre sangrento, no entanto eles também podem ter uma decida assustadora e fatal.

No primeiro andar temos muita comida, mas o foco será o segundo onde se encontra todas as armas e algumas surpresinhas. É muito fácil cair em uma emboscada, mas tudo pode acontecer aqui. Não tenho mais tempo para explicar, pois o barulho de cada cápsula sendo depositada em seu devido lugar me deixa atordoado.

Então tudo começa acontecer novamente, começo a sentir o coração deles batendo e cada medo... Minha alma começa a ser sugada de alguma maneira e sou jogado para dentro de uma cápsula. Agora sou um deles, ou melhor, estou dentro do corpo de um deles. Que os jogos comecem.

Um tremor percorre pelo meu corpo, parece que estamos sendo conectados á alguma coisa e nada mais balança, estamos na base já. Por incrível que pareça eu não estou com medo, é como se tivesse injetado uma espécie de soro da ansiedade em mim, pois eu estava com sede de matar.

Não conseguia ouvir mais as hélices, então os helicópteros se foram. Eu podia prever que à hora estava chegando, está cápsula estranha não me passava confiança, mas ela era minha única parceira neste momento. Os únicos furos que havia nela era no começo, quatro pequenos buracos... O que eles pensam que somos? Ratinhos de laboratório? Não quero pensar nisso, senão ocuparei minha mente com minhas indecisões e não focarei no que vim fazer aqui... Matar... E... Vencer!

Era incrivelmente engraçada a maneira como todos os participantes almejam por sua vitoria ou por suas vidas medíocres, nada além de meras idéias pequenas e sem planejamento, tão levianas como eles mesmos. Mas eu, Matheus Gomes, tributo do D1 e conseqüentemente carreirista, não me permitiria pensar essa coisas. Pense em um show, um grande show... É isso que farei aqui. Honrarei meus dons e meu povo.

Enquanto ainda estava perdido em meus questionamentos mentais, a cápsula metálica fez um barulho estranho. Olhei para cima com um pouco de receio com o que podia acontecer, porém foi surpreendido novamente, o topo começou a dividir-se em quatro partes, uma fresta de luz surgiu das aberturas... Não era uma luz radiante, nem uma luz calma e fresca. Pequenas gotas de água caindo sobre meu rosto, uma luz branca deixei meus olhos embasados, devo ter me acostumado com a escuridão da cápsula.

Enquanto meus olhos ainda estavam se acostumando com o ambiente hostil, resolvi fechá-los e deixei meus ouvidos atentos a tudo. Podia sentir as quatro partes colidindo com o chão, mas o som dessa colisão fez eco, na verdade parecia mais uma repetição sincronizada do que um simples eco. Sim, os outros tributos estão aqui.

Vagarosamente ordenei que meus olhos abrissem e não pude deixar de abrir a boca, o vento agora parecia mais real, ele encobria todas as partes do meu corpo, foi ai que percebi que meus pés estavam presos na base, olhei para todos os lados possíveis. Á meu Deus! Estamos em uma espécie de cornucópia aérea.

Sinto que meu rosto está em sua expressão apavorada, não devo deixar meu medo tomar conta de tudo. Sem pestanejar, mordi minha mão e senti o gosto de sangue em minha língua. Agora conseguia respirar direito, conseguia estudar as características do local.

Respire, respire e respire... Esse é meu único pensamento, vamos aos poucos. Cornucópia... Pontes... Pilares... Falta só... Tributos!

Os rostos estão eufóricos e cheios de tensão, a distância entre uma base e outra é bem grande, mas no final de cada ponte, na interligação de cada pilar... Há uma aproximidade interessante, uma boa chance pra eu tentar me livrar de alguns tributos. Porém estou me esquecendo de alguma coisa... Enquanto isso se percebe que a minha esquerda está àquele imbecil do D10, Pedro Leite e na minha direita o pequeno Matheus C. Hiroshi. Não consigo deixar de reparar que do lado de Pedro, encontra-se minha parceira Nanda Alves.

Continuo olhando cada detalhe que posso coletar para me ajudar, quando de repente ouço um estrondo do outro lado da cornucópia, onde não tenho uma visão correta e então lembro... O relógio! Faltando apenas cinco segundos meu corpo endureceu. Havia me esquecido do tempo, faltava muito pouco agora, não havia mais tempo. O tempo chuvoso e o cheiro que vem da cidade são atraentes... Eu vou chegar lá em baixo a qualquer custo.

Então os últimos segundos começaram a se cronometrar e minha mente foi apagando aquilo que possivelmente me atrapalharia na arena. Cinco... Família. Quatro... Amigos. Três... Sentimentos. Dois... Alegria... Um... Amor!

O sinal foi dado e somente senti minhas pernas correrem o mais rápido que pude, a força exercida é tão grande que as madeiras fracas da ponte estão se rompendo. Eu Somente olhava para frente, meus olhos começaram a lagrimejar, pois o vento gelado me causava essa reação. Ainda estava decidindo qual dos dois eu pegaria D5 ou D10? Eis a questão.

Meu sangue fervia, eu gostava de sentir essa fúria. Eu quero matar!

Não havia reparado que ao lado de algumas pontes, não todas havia uma escada bem suspeita e uma mochila. Não acredito! Aquele pequeno e insolente garoto do Distrito 5 está pegando a minha mochila, um choque correu pelo meu corpo e não senti mais meus músculos, somente sentia raiva e uma vontade monstruosa de matar.

O garoto do D5 olhou em minha direção e seu corpo entrou em um estado tremulo, ele ficou lá paralisado.

Eu dei minha última respiração, quando cheguei ao último pedaço de madeira da ponte, segurei no tronco que segurava as cordas que amarravam as madeiras daquela mesma ponte, suspendi meu corpo no ar e meus dois pés, com um pouco de dificuldade por causa daquele traje carregado, encontraram o rosto do menino do D5 e ele foi atirado longe, ralando todo o corpo no chão... Mas aquele ainda não seu fim. Fui até seu corpo jogado no chão, ele ainda respirava somente seu nariz foi quebrado. Então não pude deixar de sorrir maquiavelicamente para ele. Seu rosto me encarava, cheio de sangue. Lágrimas já estavam começando a sair de seus olhos inchados e ralados.

― Não lhe permita cometer essa humilhação, vou lhe dar uma morte digna. ― o suspendi no ar, o carreguei até a borda do grande cilindro de concreto. ― Não estava achando que ia lhe dar uma morte honrosa não é mesmo? ― ele começou a gemer e com somente um punho eu o segurava... Meu corpo todo estava empolgado com aquilo tudo, eu somente fechei meus olhos, balancei a cabeça. ― Essa é a fúria de um carreirista. ­― Então o soltei e pude ver seu grito agonizante sendo modificado conforme sua decida ia ficando mais distante. Seu corpo começou a rodopiar no ar e então me virei e senti seu corpo chocando com o chão, neste momento ele deve estar completamente deformado, pois uma caída de 110 andares é fatal. Permiti-me rir de mim mesmo.

Sem demorar, corri até a mochila, não havia nenhum tributo a vista... Agora eu preciso entrar na cornucópia. Já havia muitas pessoas lá dentro, não podia deixar com que eles me impedissem de chegar ao segundo andar, onde as armas estavam estocadas. Eu com todo o embalo da corrida consegui deslizar e com isso passar por de baixo das pernas de Gustavo Santanna do Distrito 8, ele não parecia estar muito satisfeito com o que havia feito. Mas antes que ele pudesse me seguir, Giovana Marques do D9, acertou um grande soco em seu rosto e com uma lança enfiou em sua perna, eu senti naquele momento a dor do menino, pois perfurou completamente a coxa esquerda. Porém ele fez uns movimentos com a mão e conseguiu quebrar a lança ao meio, como? Não sei a força dele era impressionante! Quando Gustavo se levantou Giovana já estava longe e pude ver para o que a mochila servia.

Chacoalhei a cabeça e voltei ao jogo, no segundo andar consegui pegar uma espada e percebi que outros seis tributos estavam já se encaminhando para o andar que eu me encontrava. Então, foi ai que vi aquele escorregar... Perfeito! Pensei e desci sobre ele com a maior velocidade que pude obter. Olhei para algumas bases e é inacreditável como ainda tinha tributos parado nelas, antes de descer tentei encontrar meus parceiros, mas espera ai... Está faltando um dos vinte e quatro pilares. Por isso eu ouvi aquele estrondo, não pode ser, quem será? Não acredito... Não pode ser ele...

Minha alma foi sugada novamente e assim estava dentro novamente, mas agora de outro tributo.

Nunca me dei bem com lugares fechados, eles me assombravam e me deixavam como um pássaro engaiolado, por isso nunca gostei de me sentir ou ficar presa. Nasci para ser livre, mas o destino nos prega tantas peças que não admito essa situação. Há poucas semanas atrás eu era simplesmente uma menina normal do Distrito 3, às vezes me sentia incompleta, por não ser útil para este mundo, mas os Jogos me pegaram, me trouxeram para está realidade e até pouco tempo sentia-me como uma jogadora exemplar... Mas eu acordei agora e tudo isso foi uma ilusão!

Eu estou engaiolada novamente, estou presa novamente... Sou somente um animal pronto para o combate e meus sentidos devem estar ligados para qualquer problema que me possa acontecer. Um colapso apertou meu coração. O barulho da cápsula se abrindo faz minha respiração ofegar-se. A luz cega meus olhos, mas logo vou me acostumando e quando vejo o local à única coisa que consigo fazer é abrir minha boca. É uma visão extraordinária, o vento é forte e o chuvisco que as nuvens cinza estão produzindo é relaxante.

Os segundos estão no ritmo das batidas do meu coração. A nostalgia domina minha mente e nada que eu consiga fazer vai pará-la, não deixo de pensar em quem deixei para trás e tudo que perdi, mas agora é viver o momento.

Minha mente liga-se e com isso, estudo tudo que posso... Dois... É agora! Um! Então começo a correr, mas minhas pernas ficam bambas quando um tremor acontece, exijo a mim mesma que preciso levantar, por alguma força divina eu já estou de pé. As madeiras não me passam segurança, então enquanto corro sobre elas, as cordas são minha única estabilidade.

Sinto a presença de outras duas pessoas, então recordo que existem outros tributos. De relance consigo ver Giovana Marques na esquerda, alcançando-me e na direita, lentamente, está saindo de sua cápsula agora Alex Oliveira. Então, olho para frente e ela está lá, parada na saída da minha ponte sorrindo ironicamente.

Anna Paes, do Distrito 6. Ela é a única no momento que me faz ferver o sangue. Quero-a morta a qualquer custo, por ser tão, extremamente, patética. Zombar de tudo que gosto, de uma coisa que não admito... Do meu único amor! Ela merece morrer por causa dela, a única pessoa que ama independente de qualquer coisa. Lembro-me como se fosse agora, ela vindo ofender todos que amo.

A noite estava cheia de estrelas no céu, não podia sair do meu apartamento senão os idealizadores me pegariam. Meu parceiro já estava dormindo, ele não é muito de conversar. Acho que ele tem medo que eu possa traí-lo, mas nunca foi do tipo que fingia sentimentos ou talvez do tipo que mente para conseguir certos objetivos. Os Jogos podiam ter mudado minha vida, mas não minha cabeça e meu próprio eu.

Eu estava cansada de ficar trancado nesse lugar, o conforto é tentador, mas eu preciso respirar... Sentir-me livre novamente. Na sala não consegui encontrar ninguém, então estava mais fácil sair.

Abri a porta da entrada lentamente, dois idealizadores estavam de guarda na porta. É impossível de passar por esses dois gigantes, então eu ouvi aquela voz pela primeira vez.

― Olá ― Não acreditava que ela estava aqui, como ela tinha chegado aqui? Ela deve ter arrumado uma escada. Mesmo assim.

― Oi ― minha voz saia tremida, não queria demonstrar medo ou fraqueza diante dela. Sua imagem era desafiadora. Eu controlei minha respiração e não pude deixar passar a oportunidade. ― O que faz aqui?

― Somente fazendo uma visitinha para os “inteligentes da edição” ― Senti a ira na voz da garota, por que ela estava desse jeito? Sempre tão doce e cheia de amor com todos, fazendo-se de vítima. ― e agora que você está indefesa, talvez eu tenha uma oportunidade de verdade. ­― disse ela interrompendo as palavras que começavam a sair da minha boca.

Mesmo com a luz noturna, o rosto dela era evidente e o sorriso não me traziam confiança. Quando ela deu um passo na minha direção, percebi que ela não estava aqui para fazer amizade. Na mão esquerda tinha uma faca de cozinha e pude perceber que sua tremia... Agora não sei bem se é de medo ou de ansiedade.

― Você deve estar ficando louca de vir aqui. Na verdade como chegou aqui com toda essa segurança? ― ela sorriu, sinceramente, o deboche dela estava me irritando. ― Não vai responder? O que você quer aqui garota? ― senti minha voz se alterar conforme as palavras saiam.

― Estou aqui para saldar você e sua brilhante entrevista com Caesar, nunca havia reparado que sua opção era tão exótica ― ela gargalhou bem alto e me encarou novamente. ― Você e suas idéias ridículas, baseando-se em idéias inúteis. Você não tem chance de ganhar e vou ter o prazer de te matar para que sua namoradinha morra de tanta dor. Nunca fui com sua cara sabia? Você e sua redoma de amigos, o sucesso sempre fazendo você ser uma favorita. Eliminarei você aqui agora mesmo e depois seu parceiro, assim eu não precisarei preocupar-me em matar você na arena. ― Estou tão pasma que meu corpo inteiro entrou em estado de paralisia.

― Você vem aqui tentar me matar... ― respirei fundo, meu coração voltou a palpitar e agora podia olhá-la diretamente no rosto. ― E acha mesmo que será tão fácil assim? Você é tão medíocre que me faz ter nojo. Não precisa preocupar-se em procurar-me na arena, pois você nem vai entrar nela. Sinta-se, literalmente, eliminada. ― o clima na sala enorme do apartamento D3, ficou pesado.

Um sofá verde que ocupa todo o local é a única coisa que impede nosso caminho. A garota de cabelo loiro, sorriso demoníaco não pretende fugir, pelo menos é o que consigo reparar em sua atitude. Então antes que eu pudesse me mover, ela já estava em cima de mim.

Com um embalo muito forte ela fez meu corpo chocar com o chão, e na mesma fração de tempo ela colocou a faca em meu pescoço e chegou com a boca bem perto do meu ouvido.

― Você merece morrer... ― suas últimas palavras foram como sussurros, sussurros da morte. Eu fechei meus olhos, não podia fazer nada. Seu peso estava jogado todo contra meu corpo e a única coisa que podia fazer era lamentar. Porém, ouvi a voz de Jonas nos corredores e sentia-a desviar o olhar e meu corpo ficou elétrico novamente e como em uma gangorra a joguei de cara no chão, Jonas veio correndo na minha direção, mas já havia sido mais esperta e a faca que ela obtinha agora pertencia a mim.

“Por muito pouco, sim, foi por muito pouco” pensei comigo mesma. Nada mais fazia sentido agora. Quando olhei para o chão ela não estava mais lá e Jonas olhava incrédulo pra mim, não estava ficando louca. Tenho certeza que ela veio aqui está noite e quase me matou. Tentei por vários minutos a história toda, ele concordava com a cabeça, mas eu sentia que ele não estava acreditando em uma palavra que dizia.

Por fim desisti antes que o nervosismo volta-se. Olhei ao redor e percebi que não tinha como ela ter entrado, Jonas ainda me olhava. Por que ela me odiava tanto? Porque zombará da minha família, meu grande amor e minha possível “fama”? Ela acabará de encontrar uma rival e da próxima eu a matarei.

Lembro de toda aquela cena e agora vejo que não estava ficando louca. O sorriso estava lá, novamente, naquele rosto diabólico. Mas agora estávamos na arena, não adianta o que queira fazer senhorita Anna Paes, eu a matarei e mostrarei ao Distrito 6 como você é uma cretina.

Não parei de correr um segundo sequer. Ela não se movia. Quando estava quase chegando à outra parte da ponte ela arrancou do bolso uma faca, quase idêntica aquela que ela usou naquele dia.

― Não faça isso sua desgraçada ― eu senti minha fúria elevando-se cada vez mais. Ela cortou uma parte da ponte e antes que ela pudesse cortar a outra eu usei uma habilidade minha que nunca havia mostrado.

Usei toda minha força para dar o impulso que me é necessário neste momento, e assim saltei uma altura impressionante e consegui, por muito pouco, chegar ao outro lado da ponte. Agora ela me olhava impressionada.

― Vai fugir agora? ― Ela ficou paralisada. Eu corri até onde ela estava. Somente sentia o sangue da garota do D6 escorrer por entre as rachaduras da minha mão. O murro que dei na cara dela foi certeiro, ela estava esticada no chão e localizei a faca que ela tinha e respirei fundo novamente e mirei suas costas e ali seria o meu alvo, para alojar está arma.

Ela é muito ágil, não consegui distinguir seus movimentos, sempre velozes. Quando olhei para frente, não sei quando, em que momento, ela começou a correr e já estava em uma distância impressionante de mim. Mas ela seria morta aqui, não podia a deixar escapar viva.

Ela tinha uma daquelas mochilas e a mesma está retardando sua velocidade diferente. Mas o que ela está fazendo? Vai se matar? Indo em direção as bordas do cilindro que abriga a cornucópia, ela vai...

― Não! ― eu gritei muito alto e percebi que alguns carreiristas que já estavam na cornucópia fitaram-me com os olhos. Se não saísse daqui poderia me tornar um alvo fácil. Giovana havia pegado algumas armas diferentes e obtinha de uma mesma mochila que Anna havia usado.

Depois de um tempo correndo percebi que não tinha mais mochilas e a única coisa que eu tinha era uma faca. Então percebi que do lado de fora havia algumas coisas jogadas, alguém havia deixado aquilo lá.

Encontrei um tridente, talvez ele pudesse me ajudar mesmo não sabendo usá-lo. Tinha uma mochila jogada no canto também, então foi ai que percebi que era um para-quedas, nunca fui muito boa em desvendar essa coisa e sempre estudei tudo com muito cuidado antes, talvez não seja seguro pular com ele agora.

Quando virei meu corpo para ir embora, uma flecha passou de raspão no meu rosto, não fazendo nenhum corte no meu rosto, porém não digo isso do meu cabelo que foi massacrado. Então procurei de onde havia vindo isso e reparei que ele estava parado bem na minha frente, á alguns metros de distância... Rafael Ferreira do Distrito 11. Tudo que peguei deve ser de Rafael, mas agora é tudo meu. Ele foi um tolo de deixar essas coisas aqui.

Podia o verele tremendo, mas ele queria muito ficar por aqui. Um só sobrevive e este sobrevivente agora, neste exato momento, serei eu. Levantei meu corpo e o poder que senti foi excitante, ele ficou lá paralisado, apontando uma flecha pra mim.

Depois de um tempo encarando-me ele lançou outra flecha e na mesma hora eu rodopiei minha lança, bloqueando a flecha. Com isso, posicionei meu braço e lancei a lança em direção ao garoto e ele a desviou dela, mas meu objetivo é o fazer ficar desatento e quando ele olhou para frente e eu já estava lá, sem pestanejar, cravei a pequena faca em seu coração. O sangue saia por sua boca lentamente e logo sua respiração foi esvaída. Soltei-o, caindo assim morto no chão. Agora precisava encontrar Jonas.

Então, antes que pudesse sentir já estava dentro de outro tributo.

Estou tremendo de medo, por que estou com tanto choque assim? Não consigo me controlar. A cápsula já está aberta e vejo as pessoas do meu lado. Todos focados. Respire garota, você é forte.

Jonathan a minha direita, com sua pose desafiadora e Valentina, carreirista e sanguinária como todos os outros. Porque estou participando disso? Porque fui escolhida? Lembro da minha família em prantos, pois estava sendo usada por essa Capital maldita. Estou decepcionada comigo mesma.

Estou com medo, novamente. O que devo fazer com essa agonia? Senti minhas pernas ficarem bambas e desabei na base metálica, senti os olhares focarem-me. Olhava para aquela gigantesca cornucópia, via aquela ponte anormal. Todas aquelas características eram dolorosas.

Eu não estava preparada, não conseguia me mexer. Coloquei minhas mãos em meu cabelo, preso por grampos e sem que eu pudesse ver, um deles estava solto e caiu para fora da cápsula.

Meu coração martelou, meu corpo doeu e tudo foi acabado.

Inacreditavelmente isso aconteceu e estava no corpo de um tributo não muito distante.

O som estridente cobriu meus olhos, fez com que eu perdesse o controle do meu corpo. Meu corpo doía com o impacto. A menina do Distrito 12, Victória Romano acaba de ser destruída. Seu cilindro foi completamente despedaçado e as rochas estão chocando com o chão distante da cidade. Ela não... Como... Ela foi... Dizimada.

Notas finais
Continua no último episódio
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.