Notas iniciais
Hey, vocês! este é só um conto sutil sobre um caso que ocorreu comigo e me deixou uma impressão bem forte e um emaranhado de sentimentos. Espero que gostem do conto. Até o final! PS: ouçam essa música enquanto leem: https://www.youtube.com/watch?v=qHm9MG9xw1o :) [Cibrs]

Tap!

O barulhinho do baque de um livro fechado com certa intensidade. Me revirei na cama, me espreguiçando. Estica de um lado, as mãos se unem em arco acima da cabeça, puxa pro outro. Todo meu corpo se contrai espantando o sono e as dores de ficar numa mesma posição por horas. Afinal, já é alguma coisa depois da meia noite e eu estou deitada aqui desde as vinte e uma horas chegando ao ápice de uma saga de quatro livros.

Embora estivesse realmente numa das partes mais emocionantes da leitura, ao olhar o relógio eu vi o quão tarde era. Eu precisava fechar as janelas da sala aqui do primeiro andar da casa. Estavam todas escancaradas. Pai e mãe estavam dormindo lá embaixo, então só havia eu acordada na residência e sempre é bom se evitar a entrada de ladrões. Então eu me levantei da cama. As pontas dos meus pés tocaram primeiro o chão, logo em seguida o peito e o calcanhar. Alguma atmosfera havia entrado em mim e eu me sentia quase sem peso, como se pisasse num lugar com menor gravidade que a Terra.

Conseguia sentir perfeitamente cada passo no chão. Ponta, peito, calcanhar. Agora o outro pé: ponta, peito, calcanhar. Conseguia sentir meus cabelos roçarem meus braços com o balanço do corpo e conseguia sentir toda a extensão da minha coluna, como se sente quando se toma uma postura ereta usando um salto alto. Eu estava leve.

Poucos passos separavam a porta aberta do meu quarto da sala do primeiro andar. O tempo de cruzar o corredor e chegar à sala é o tempo de uma batida de coração. Assim, algumas batidas depois, eu havia chegado às janelas gêmeas da lateral. Todas as janelas eram de vidro, daquelas que se corre para o lado, só que estas duas em particular eram uma dimensão menores que as outras viradas para a avenida. A luz incidente laranja do poste logo na esquina da casa deixava todo o ambiente do lado de fora no mesmo tom. Uma suave brisa fria corria, o que é ótimo em um lugar quente como este que moro, e só se ouvia o cricrilar dos grilos. Nenhum som a mais.

Fechei a primeira janela depois de sentir a brisa noturna uns instantes, então corri para a segunda, logo ao lado, ansiando por mais um pouco de tal frescor, e logo depois fechei a segunda janela. Só faltava mais uma, a que ficava virada para avenida. Me dirigi a ela sem observar o que tinha lá fora, eu só queria fechar logo e voltar pro meu livro. Quando corri alguns centímetros do vidro pra esquerda, subi um último olhar para lá fora sentindo alguma coisa. Deparei-me com os olhos de um gato virados diretamente para mim.

Foi uma descoberta curiosa. Ele estava lá embaixo, deitado bem no centro da rua. Imóvel como só os gatos sabem ficar ao verem uma presa, o mundo estava tão silencioso quanto a noite, nenhum movimento ocorria. O gato era malhado em de preto e branco. Seus olhos, eu não conseguia distinguir o tom à distância, porém eu conseguia ver seu brilho claramente. Uma patinha dianteira estava estendida e a outra dobrada sobre si. Era o gato mais imponente do mundo. Sua posição me lembrou de faraós deitados em esteiras, cheios de orgulho de serem quem são e da posição que ocupam, em perfeita postura, cheios de dignidade.

Quando desviei os olhos do olhar do gato, mirei as duas direções da estrada, leste e oeste. Ambas completamente vazias. Mirei a rua pouco à frente também, em seus ambos sentidos, norte e sul, também nenhuma vivalma presente. O mundo era vasto em suas dimensões, porém naquele momento se reduziu a mim e ao gato. Ele deitado ali no centro de uma avenida era o dono da rua. O gato Dono do Mundo. Ele era fabuloso.

Mirei novamente o gato e ele ainda olhava fixamente para mim. Quando um cachorro passou bem distante, na ponta leste da rua, ambos olhamos, mas foi um desvio momentâneo. O cachorro veio e se foi, poucos instantes depois era como se nunca tivesse estado ali. Fiz menção de fechar a janela novamente e o gato voltou a olhar para mim. Eu já estava completamente cativada por aquela pequena criaturinha. Me afastei da janela e corri ao quarto para recuperar meu celular, eu precisava registrar o quanto aquele gato era fabuloso e o quanto ele era o dono do mundo.

Retornando ao mesmo ponto de observação de antes, o gato ainda olhava para a minha janela. Eu era o ponto de agitação que lhe chamara a atenção. Tirei algumas fotos do gato. De longe, com zoom, panorâmicas. Nenhuma delas registrava a vastidão do mundo vazio e o silêncio da noite com o reinado do gato no meio da rua, então eu resolvi filmar. Quem sabe com a dinâmica das imagens em sequência eu conseguisse capturar aquele sentimento apropriadamente. E consegui. Filmei primeiro cada uma das direções infinitamente vazias das avenidas que dava para se ver deste meu andar e depois foquei as lentes no gato bem no centro da rua. Ele havia desviado o olhar de mim. O atrai novamente estalando a língua. Foi novamente um momento curioso. Desliguei a câmera.

Nossas almas se conectaram em algum momento passado, talvez durante meu primeiro vislumbre dele. Mas era hora de fechar a janela e voltar ao que eu estava fazendo. Uma moto, de repente, aparece na ponta da avenida e ela passa de lado do gato. Eu ri ao ver que não era o gato que se desviava da moto, pois ele nem saiu do seu lugar, foi a moto a contorná-lo.

Acompanhamos com o olhar até que a motocicleta dobrasse a esquina e sumisse de nosso campo de vista. Meu último vislumbre do gato antes de fechar a janela de vez foi vê-lo voltar o olhar para mim ao ouvir o arrastar final da janela. E nunca nenhum olhar felino me deixou com um sorriso mais intrigado no rosto. Sim, sim, deveras curioso.

Notas finais
Hey, história real. Inclusive a foto é do gato que estava aqui durante essa madrugada. kkkk Espero que tenham gostado. Até a próxima! Jia nee. [Cibrs]
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!