1989
1 Dream Boy
Dream Boy
1989...
Lembro-me perfeitamente bem.
Aquele ano mudou minha vida para sempre.
Mudou para algo que eu nunca imaginei que poderia viver.
Aquele dia o tempo estava frio, mas era um belo dia de Outono.
O inesquecível Outono da minha vida.
Nem passou pela minha cabeça que aquele dia, que parecia tão sem graça, seria tão importante.
Era a tarde de nove de Novembro de 1989.
Eu estava em casa deitado no sofá da sala.
As luzes estavam apagadas e a única luz que iluminava o local era a que vinha da porta de vidro que dava para o jardim.
Eu gostava do ambiente assim, parecia-me confortável.
Eu não tinha nada para fazer, então resolvi deixar a televisão ligada, sem realmente prestar atenção no que passava nela.
Eu estava com o braço atrás da cabeça, como apoio, e meu olhar estava fixo no teto.
Eu estava pensando na vida. Era o que eu mais fazia naqueles tempos difíceis.
A Alemanha estava uma loucura aquela época.
Meu pai, Marcus Zeppelin, tinha morrido numa briga de rua no natal de 1986.
Ele tinha saído bêbado de um bar e acabou se envolvendo numa briga com uns caras drogados. Ele ficou gravemente ferido e foi para o hospital. Ele parecia bem por algumas horas, mas logo acabou por morrer de uma hemorragia interna devido a tantos socos e chutes que levou.
Modo idiota de morrer, por brigar...
E então ficamos apenas eu e minha irmã mais velha, Alex.
Minha mãe desapareceu quando eu tinha cinco anos.
Alex disse que ela saiu um dia para fazer compras e nunca mais voltou.
Não tenho lembranças dela, só sei que seu nome era Abe.
Acabou por pensar nos pais, pensar em tudo que pude viver naquele tempo em meus míseros 17 anos.
Pensei, pensei... E pensei mais um pouco...
No final eu cheguei à belíssima conclusão de que minha vida foi uma porcaria e nada foi interessante.
Eu tinha alguns sonhos, mas não tinha me esforçado nem um pouco para realiza-los.
Por mais fúteis e simples que fossem eu não ia atrás de nada.
Eu não vivia.
Até nove de Novembro de 1989 tudo que eu fazia era empurrar a vida para um destino monótono.
Tudo que eu fazia era acordar cedo, comer qualquer coisa que eu encontrasse na geladeira e pensar em tudo que eu estava fazendo.
Às vezes eu saia e escrevia algumas coisas nas paredes das casas, nos muros de prédios abandonados.
Eu me sentia um poeta urbano fazendo essas coisas. Eu espalhava minha poesia por toda a Berlim.
Era naqueles momentos únicos que eu me sentia vivo.
Algo na Tevê tinha me chamado a atenção.
Era uma conferencia ao vivo direto do muro de Berlim.
Eu lembro que um sorriso incontrolável adornou meu rosto.
- O muro vai acabar...?!– Finalmente.
Levantei-me do sofá e fui até a cozinha, me sentei em umas das cadeiras da mesa e liguei o radio.
Na primeira estação o locutor já informava que o muro havia sido aberto e a fronteira que separava as duas Alemanhas não mais existia.
Fiquei mudando as estações desesperadamente e todas anunciavam a mesma noticia, o fim do muro de Berlim.
Era verdade, finalmente tudo aquilo tinha acabado.
Sai correndo da cozinha e subi apressado as escadas que davam para o segundo andar da casa.
Logo estava em frente ao quarto da minha irmã, batendo na porta, e gritando por ela.
Minha irmã era enfermeira e tinha o turno noturno no hospital onde trabalhava na época.
Eu tinha consciência que ela precisava ter um bom descanso, mas eu não pensei.
Eu sabia que minha irmã ficaria feliz.
Eu insisti nas batidas e ela acabou por finalmente abrir a porta.
Ela estava irritada e sonolenta, mas logo mudou depois de eu ter lhe dado a tão esperada noticia de que a fronteira não mais existia.
Minha irmã saiu alegre pela casa gritando “Finalmente”.
~~
Na manhã de dez de Novembro milhares de pessoas começaram a marchar até o muro.
Eu não era um cara muito de participar desses “eventos”, mas acabei por ir também, queria participar daquele momento histórico.
Foi tão bom.
Foi inesquecível.
Pessoas do outro lado da fronteira que eu jamais tinha visto começaram a sorrir para mim e me cumprimentar.
Desconhecidos se abraçavam e riam juntos. Pareciam velhos amigos de infância
Todos pareciam tão bem, tão felizes.
Carregavam placas, cantavam, pulavam, sorriram.
Todos esperam e sabiam que aquilo algum dia aconteceria e finalmente o sonho tinha se tornado a pura realidade.
Logo todos, até mesmo os políticos, cantaram o hino alemão.
Eu nunca imaginei que aquele dia poderia mudar para sempre o modo como eu vivia e via a minha vida.
Uns minutos depois do hino um garoto de cabelos ruivos e belos olhos cor de mel veio falar comigo.
Ele tinha um sorriso lindo.
Um sorriso encantador que adornava seus lábios rosados.
Ele pediu um abraço com um jeito de cãozinho abandonado.
Eu aceitei e ele sorriu mais ainda para mim.
Naquele dia conheci Oliver Elliot Orff.
Naquele dia eu percebi que pequenas coisas podem mudar sua vida para sempre.
Se eu não tivesse deixado o televisor ligado no dia anterior, se eu não tivesse saído às ruas naquele dia, eu acho que nunca teria conhecido o Oliver.
Aquele dia Oliver e eu viramos amigos de uma forma inesperada.
Oliver tinha acabado de sair de Berlim Ocidental.
Ele, como eu, também era órfão. Tinha perdido ambos os pais num acidente de carro e era criado pelo irmão mais velho, Luke.
Nossas vidas eram muito parecidas.
Nós não tínhamos grandes amigos, não íamos atrás de nossos sonhos e íamos empurrando a vida até onde dava.
Mas aquele dia nós ficamos horas e horas conversando.
Acabamos por mudar nós mesmos.
Fazer uma mudança drástica e radical em nossas vidas.
E então, naquele mesmo dia, meu coração se acelerou ao ouvir Oliver falar sobre algo que estava pensando há algum tempo e finalmente tinha coragem para ir atrás.
Ele disse que queria formar uma banda comigo.
Queria espalhar a poesia, espalhar os nossos pensamentos, nossas ideias pelo mundo.
— Mas Oliver, eu não sei tocar nada, nem mesmo violão – Eu disse rindo.
- Ora, você aprende Thomas, não é tão difícil. – Ele sorriu para mim – Se você não sabe agora você vai aprender, pode ter certeza que vai. Certo?
- Certo. O lema agora é ir em busca dos sonhos, não é?
- O lema é ir viver, viver tudo que deveríamos ter vivido esses anos e não vivemos. – Ele não parava de me olhar com aquele sorriso. – Viver ou não, eis a questão. O que me diz Thomas?
Ergui o copo de suco em minha mão – A vida... E a banda! – Sorri para Oliver da mesma maneira que ela sorriu para mim.
Naquele dia tudo mudou.
Notas finais
Eu resolvi escrever a história após ler sobre a biografia de Ian Curtis, vocalista da banda Joy Division.
:D
Escrito ao som de Smashing Pumpkins.
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