1962

1 Stuart Benjamin Carter


Acordei cedo, mesmo sem necessidade. Meu corpo já estava condicionado — era o hábito de uma vida. Abri os olhos às cinco e meia da manhã, segundo o velho relógio redondo sobre o criado-mudo. Sorri de canto, com aquele pensamento que sempre volta: há algo de digno em acordar por conta própria. Na Marinha, o som de apitos e gritos fazia esse papel. Agora, o silêncio me acolhe.

Levantei e fui direto ao banheiro. Tomei um banho gelado, outro costume que ficou daqueles tempos — não pelo gosto, mas pela firmeza que ele ainda me traz ao espírito. Quando terminei, vesti um moletom confortável e fui até a padaria da esquina comprar pão. Antes de sair, deixei a chaleira no fogo, a água para o café sempre me espera.

O céu estava tingido de tons acinzentados, e o ar da manhã parecia mais frio do que de costume. Quando retornei, o assobio da chaleira me recebeu como um velho companheiro. Preparei o café e, com os pães ainda quentes sobre a mesa, me sentei sozinho para o desjejum. Um garoto deixou o jornal na porta — ele me lembrou meu neto quando era pequeno. Peguei o jornal, folheei por cima, sem ler de fato. Às vezes só gosto do papel nas mãos.

Sempre disse "amanhã", "depois", "semana que vem". Agora percebo como o tempo é um bicho escorregadio. A juventude, os momentos, as paixões — tudo tão fugaz. O próximo segundo não existe. E quando chega, já está escapando para o passado.

Levantei, levei a caneca até a pia e olhei para o papel de parede da sala. Estava descascando, desbotado. "Preciso trocar antes do Natal", pensei. Meus netos vêm, minha filha também. Um plano pequeno, mas sincero. O relógio marcava duas e quarenta e cinco da tarde. Hora dos remédios.

Descobri o câncer há quatro meses. Próstata. Estágio avançado. A médica foi clara, gentil, mas honesta: não há muito o que fazer. Preferi recusar a quimioterapia. Achei que seria melhor morrer inteiro, com lucidez, do que me apagar aos poucos em hospital. Quero um fim sem obrigações.

À noite, fui tomado por uma nostalgia teimosa. Como um cheiro antigo, um som familiar, uma sede de passado. Decidi ir ao bar que costumava frequentar quando estava de folga na base naval. Um lugar que ainda carrega algo de mim.

Me arrumei como se fosse encontrar alguém. Talvez estivesse, de certa forma. Caminhei até a garagem e entrei no meu Chevy Impala 1962 azul. A pintura estava opaca, as ferragens com pontos de ferrugem. A doença me tirou o prazer de cuidar dele. Mas ainda o amo. Ele ainda me leva.

O bar havia mudado. Mais moderno, mais limpo talvez, mas as bancadas e poltronas estavam no mesmo lugar. Cada detalhe parecia cutucar uma memória. Me sentei no canto de sempre e pedi um martini. O barman era jovem, cordial, mas distante.

Enquanto esperava, alguém mexeu na jukebox. Logo começaram os acordes de "Working My Way Back to You", do The Four Seasons. Meus olhos se levantaram automaticamente. Aquela música... aquela música. Era como um golpe no peito.

Virei o rosto para ver quem havia escolhido. Meus olhos demoraram um segundo a focar — e então vi. Ele vinha caminhando em direção ao bar. A mesma expressão serena, o mesmo rosto, agora coberto pelas marcas do tempo. Cabelos esbranquiçados, ombros mais curvados. Mas era ele.

Senti o coração prender no peito, como se o tempo tivesse congelado. O martini ficou esquecido na minha mão. Ele se aproximou, parou ao meu lado no balcão. Pediu um martini também. Ficamos em silêncio por um instante longo, denso.

Então, ele falou — com a mesma voz. E me chamou como fazia antes:

— Eu também fiquei surpreso quando te vi entrar por aquela porta. A única coisa que consegui pensar foi ir até a jukebox e colocar nossa música pra tocar, Stu.

Meu nome. Ainda na voz dele.

Eu mal conseguia respirar.

— Jack... — foi tudo o que consegui dizer.

Mas naquele instante, era como se o tempo tivesse se desfeito, e tudo estivesse onde deveria estar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.