18 aos 60 novamente
1 Soco no peito
Notas iniciais
Parecia mais uma sexta feira normal para aquela época, acordei um pouco atrasado para a faculdade, mas me vesti rapidamente saindo sem tomar uma gota de café.Naquele tempo ainda esperava o ônibus para ir para a faculdade, a qual já cursava faziam 2 anos, cheguei atrasado na aula de análise de investimentos com o professor Moraes, um velho rabugento que gostava mais de explicar a variação do preço do tomate do que a própria aula em si, dei algumas piscadelas e devo ter dormido, algo usual para aquele horário. Nem me dei conta e o intervalo e a segunda aula acabaram, corri para o R.U (restaurante Universitário para aqueles que não estão habituados a essa vida) tive alguns minutos para comer e já estava na hora de outra empreitada.Corri para pegar o Vermelhão até as 12:00, pois tinha que estar no meu estágio até 12h30 cronometrado, apesar de que, eles foram muito amigáveis ao ver minha situação, quando chegava atrasado não reclamavam.
Chegando na Receita Federal, pois é eu fazia estágio lá, já coloquei minhas coisas na cadeira, liguei o computador rapidamente. Lembro da minha companheira de mesa Elisabeth (beth para os íntimos), conversamos sobre tudo e ela sempre me subornava com café e biscoitos, e em troca pedia que eu trocasse a água do bebedouro semanalmente.
O dia correu sem surpresas, documentos para digitalizar aqui, um problema em um documento lá, quando me dei conta já eram 17h00 e estava quase na hora de ir embora, fui desligando o computador, joguei um papo fora com minha colega de escrivaninha e sai.
Costumava ter um ritual na sexta-feira, subia a Marechal Deodoro até a galeria Lustosa e entrava na confeitaria das famílias, meu deus que doces, mas dessa vez eu não fui. Acabei subindo direto a rua, passei perto da praça rui barbosa com passos acelerados, eu sabia que o local tinha fama de ser visado para assaltos. Com fones de ouvido a minha jornada se tornou mais rápida, e quando percebi estava na frente do hospital São Vicente. Entrei e já peguei a minha identidade, já havia feito esse processo algumas vezes, não havia ninguém na minha frente então o cadastro foi mais rápido que o usual, subi as escadas e nesse momento já estava sem fones, fui em direção ao segundo andar passando pelo posto de enfermagem e virei a direita, terceira porta, ao abri-la lá estava ela, mais doente que o normal, mas já havia me acostumado. Ela me recebeu com o sorriso de sempre, meu pai estava lá junto, ele precisava sair para dar aula a noite de escolinha de futsal, eu ficaria das 18h00 até de manhã de sábado, pois não tinha aula no outro dia.
Conversei um pouco com ela, perguntei como foi o seu dia, mesmo já sabendo a resposta. Meu pai saiu e me deixou com ela, ficamos vendo tv enquanto esperávamos a janta dela, era pra terem colocado um tubo para ajudar na alimentação, pois já não conseguia ingerir alimentos muito sólidos, culpa do tumor que já estava pressionando a garganta. Ela tomava muitos Shakes vitamínicos, que diga-se de passagem tem um gosto horrível (pois é, culpado… ela me dava pra tomar quando ela não conseguia), fico conversando com ela até ela dormir um pouco e eu ficar assistindo a última temporada de Dr. House no notebook. Já era bem de noite quando recebi uma ligação que meu irmão ia ficar no meu lugar, eu estava bem cansado admito, e acabei cedendo meu posto para ele, até estranhei quando recebi a ligação, pois até então, meu irmão vinha evitando um pouco o contato, acredito ser um mecanismo de autodefesa, até porque, ninguém gosta de ver uma mãe naquele estado.
Ele veio de Clio, o antigo carro da mãe, deixou o carro no estacionamento de 15 minutos. Me despedi dela, como outra noite normal, disse que a amava e que voltaria amanhã para vê-la, peguei minha mochila e fui para o carro. Naquela época não dirigia muito bem, tinha recém tirado minha carteira de motorista, coisa de seis meses no máximo, cheguei no carro e encontrei minha cunhada, ela havia vindo com o meu irmão e supostamente dormiria lá em casa. Vim dirigindo, parei na frente de casa, o local para estacionar o carro estava imundo, estavam reformando a casa e a entrada havia ficado com lama, coloquei o carro do jeito que dava entrei em casa e fui dormir.
Meu pai saiu às 6h30 da manhã pra ver como minha mãe estava, ao que eu sei, ele chegou lá, ficou um pouco com meu irmão e minha mãe, e acabou saindo para o colegio para dar aula as 7h30. Não sei muito bem o que aconteceu nas 3 horas seguintes, mas as 10h30 eu recebo uma ligação, uma voz embargada de quem acabou de chorar, era o meu irmão com uma frase que nenhum filho deveria ouvir ao acordar:
—Lucas, vem pro hospital pois a mãe parou de respirar — e desabou em choro novamente.
Essa foi toda a informação recebida, na hora, com o choque eu acho, acabei levantando e indo no quarto do meu irmão, onde minha cunhada dormia. Acordei ela e repassei a mensagem, quando percebo já estou no carro, a Pamella (minha cunhada) estava abrindo o portão enquanto eu já começava a tirar o carro, grande erro. A noite anterior havia serenado bastante, assim deixou toda aquela terra da entrada parecendo um lamaçal, quando comecei a sair descobri que estava com o ângulo errado e iria bater o carro caso continuasse nessa direção, Pamella tentou empurrar o carro pra cima enquanto eu acelerava, o carro não saia do lugar. Vocês acreditam em anjos? naquela manhã um senhor parou o caminho que estava indo, viu que estávamos com problema e ajudou a empurrar o carro para cima, ufa! um dos problemas resolvidos, fui para o hospital. Liguei o radio por que o silêncio dentro do carro estava me matando, minha cabeça estava a mil, pensamentos de que era tudo uma pegadinha passavam o tempo inteiro na minha cabeça. Cheguei no hospital e entrei no estacionamento do próprio, não tinha tempo de procurar uma vaga, o mesmo ritual se inicia, pego minha identidade levo para a recepcionista que autorizou minha entrada, vou a passos rápidos para o segundo andar, deixando minha cunhada para trás ainda fazendo o seu cadastro, chegando ao lado do posto de enfermagem vejo meu pai e meu irmão sentados, pergunto o que aconteceu, e eles me abraçam, falam para eu entrar dentro do quarto que ela estava, fui e entrei.
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