17v32 O dia em que o mundo mudou.
4 Capítulo 4 - Quando a escuridão se vai
A aula terminou, já não aguentava mais ficar lá naquela sala com um monte de gente fútil e fedida, tivemos educação explorativa hoje, e isso realmente cansa, agora estou indo rumo à onde moro, falta cerca de 30 minutos para raiar o dia e eu tenho que ser rápido para comprar algo pra comer. Pois estou com muita fome, eu não necessito água, mas comer algo as vezes é bom né.
A escuridão já se foi, e a claridade tomou conta, creio que na antiguidade as pessoas tinham medo quando escurecia, hoje a luz é nosso medo. Cheguei em casa faltando pouco pra clarear, recebi alguns olhares de canto devido ao fato de eu ser um abençoado, me sinto uma anomalia às vezes devido a isso, muitos sabem da minha mutação, acho que é por causa de meus olhos, ou por eu não andar com um garrafa junto ao corpo enquanto caminho pela colônia, mas em um todo, eu não ligo.
Minha casa é simples, eu moro sozinho. Como já disse meus pais faleceram e além do mais, eles não caberiam em minha casa, ela se define a minha banheira, meu banheiro e minha cozinha, apenas, existem algumas pessoas que tem casas bem maiores por questões de ventilar mais e desidratar menos, é uma bela estratégia mas pra mim é irrelevante, assim que clareia o dia, nos fechamos nossas casas e não deixamos a luz entrar pois não somos acostumados e podemos ferir nossos olhos com ela.
O "som" lá fora é estranho, é uma mistura de silêncio infinito e um som de chão fritando, dá para ouvir alguns assombrados reclamando, mas com certeza estão em um dos abrigos de rua, em segurança e bem hidratados.
Uma coisa interessante é que ninguém dorme assim que fica claro, todos esperamos um pouco para dormir, acho que ficamos esperando alguem tentar sair, ou algum abençoado sair só pra bisbilhotar e descobrir quem é, um dia eu ainda assusto esses terrestres.
O som logo que todos ligam a banheira é muito peculiar, digamos que a colônia inteira se mexe. Por que a colônia inteira entra em colapso com o grande fluxo de água, casas tremem, canos rangem. Mas todos já estamos acostumados, é corriqueiro, estranho mas comum ao mesmo tempo.
Eu deveria dormir para acordar bem disposto, mas minha mutação as vezes me deixa tão pilhado que eu não consigo dormir, écomo se eu não cansasse, é interessante. Tive uma ideia boba agora, mas talvez sirva para me deixar mais cansado, vou pegar armazenadores de água e sair nas ruas para ajudar alguns assombrados, depois correr até meu trabalho e agilizar alguns projetos, tenho algumas roupas para fazer para o Senhor Carlos e um belo traje de festa para a esposa dele, sei que não devo me meter, mas se eles usassem todo o carinho que tem por roupas entre eles, pareceriam muito mais felizes.
Enfim, abro a porta e a luz cega meus olhos. Eu sinto o calor adentrar minha pele, enrolar meu cabelo, isso é tão mágico, o calor queima um pouco minhas roupas, não exatamente queima, apenas, esquenta. Isso é tão... Confortável. Meus olhos se acostumam rápido com a luz, vejo dois assombrados reclamando a cerca de 30 passos de mim, devem estar com sede. Estão em um abrigo entao vão ficar bem, mas vou deixar um pouco de água com eles.
Irei rumo ao meu trabalho. Mas não consigo parar de notar no céu, está tão perfeito, o sol, grande e laranja, junto de um céu azul cristalino, com nossa lua de canto, metade destroçada e metade perfeita. Da pra ver uma outra lua menor que surgiu com o tempo, todos os habitantes dessa terra deveriam ver isso todos os dias, é tão lindo, vou continuar pois se não fico o dia todo aqui...
Meu trabalho não fica longe da minha casa, mas com a rua vazia assim, parece um caminho sem fim, normalmente tem pessoas por todos os lados, e no claro, não existe nada na rua vagando por ai. Consigo ouvir o som dos sub terrestres reverberando embaixo de mim, é como um som de passos, junto com um som de dentes rangendo, meus pais me diziam que esse é o som que faziam os filtradores, meu tio foi um filtrador, com o tempo perdeu a audição devido ao som constante das máquinas, é triste. Mas ele salvou muitas vidas lá embaixo, limpando e renovando água para as gerações. Ah, droga! O meu trabalho está fechado e não tenho como entrar, deveria ter pensando nisso quando sai. Voltarei pra casa para descansar um pouco e assim que anoitecer volto a rua, essa caminhada até aqui me cansou, acho que é devido ao sol, não sou acostumado.
A caminho de casa vejo um módulo de vinculados suspeito aqui nas redondezas, não me entendam mal. Não sou desconfiado, apenas sinto uma certa preocupação nisso, em pleno dia. Uma base móvel na rua? É estranho, devem existir abençoados vinculados para estarem essas horas na rua, vou seguir meu caminho.
Chego em casa e tiro minhas roupas. Chega a sair vapor de minhas peças, o calor ainda emana no meu corpo, o calor lá fora é realmente gritante, vou descansar, mas antes de ir preciso lembrar novamente daquele céu perfeito que vi lá fora. Me doi pensar que a maioria das pessoas nunca verão Aquilo, são 53:14 e eu irei emergir e descansar.
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