17v32 O dia em que o mundo mudou.

5 Capítulo 5 - Alguns ficam, outros se vão


Mais um dia escuro começa, como todos os outros e assim será por mim tempo, acho eu. Levanto da minha banheira, esquento meu café, como alguma coisa, troco minhas roupas e dou uma olhada de canto nas roupas que ontem usara lá fora, elas aparentam estar queimadas, creio eu que nosso tecido não é preparado pra aquela temperatura.

Antes de ir ao trabalho olho minha imagem em frente ao espelho, vejo meus olhos que fazem um alarde para minha bênção, o esquerdo azul e o direito branco, abaixo deles há um pouco de olheiras, acho que é devido as noites que não durmo pensando sobre o que houverá com todos aqueles que arrodeavam a mim, todos meus amigos que se foram, não se foram do sentido puff, morreu, do sentido que começaram a trabalhar no sub solo, ou foram para outras colônias buscar conhecimento, ou trabalhar, como Filtradores ou construtores, sinto orgulho de alguns amigos meus, como o Lucas, era um dos piores alunos da turma, lembro-me que certo dia a professora Ísis disse a ele:

– Lucas, você nunca será nada nessa vida — com um pequeno ar de deboche e a voz bem alterada — se tivesse nascido antes do dia do acontecido, teria se matado sem sequer ver o raiar do novo mundo, você é lesado e preguiçoso, deveria ser como seu pai aquele grande homem...

Ísis era uma pessoa ranzinza e antipática, então não ligaria pra o que ela diz, não gostava de ninguém e o motivo por odiar tanto e humilhar o meu amigo era pois o pai de Lucas, Marcus, um grande vinculado da ordem mais forte e racional da classe, um dia esnobou Ísis, dizendo que não ficaria com uma terrestre tão fútil que não confiava na força do povo de ter esperanças na melhoria, a professora infeliz não tinha nenhuma esperança na humanidade, e isso aborrecia tanto pais de alunos, como alunos, como todos os que rodeavam a tal professora. Logo após o discurso em cima de Lucas o pai dele o tirou de meu colégio e eu não o via mais com freqüência, meu tio as vezes conversava com Marcus, eles foram grande amigos no treinamento dos Vinculados, brincavam que a única coisa que podia os separar era outro cometa como o dia do acontecido, era uma brincadeira estranha, sendo que muitos ficavam com uma cara de "por que diabos eles estão brincando com isso" mas eles eram vinculados, viviam juntos dos infiltrados e tinham muita fé e esperança no nosso povo, e isso era ótimo, alguns anos depois eu me reencontrei com Lucas, e me senti feliz por ver que como o pai, Lucas se tornou um grande homem, grande mesmo, nunca vi alguém crescer tanto em tão pouco tempo, estava beirando os 1,90 de altura sendo que a última vez que o tinha visto ele tinha seus ínfimos 1,64 de altura e eu o chamava de tampinha, foi bom ter visto Lucas com um belo uniforme escrito "Infiltrado n° 63748 C2" me senti muito afim de perguntar como era a vida de infiltrado, mas fazia tempo que não se vimos então falamos de coisas mais importante, mas me senti meio que realizado ao saber que um de meus amigos representava a Colônia 2 como infiltrados e mais realizado por ver que ele contrariou aquela velha ranzinza da Ísis.

É estranho ver amigos meu partindo, outros apenas sumindo, mas eu consigo entender, quando a cor sumiu de meu olho direito, fui retirado do colégio para pesquisas e coisas do tipo, então perdi o contato com meus amigos, vejo eles bem de vez em nunca sabe, é complicado.

Mas hoje é um dia especial, hoje é 13.9.22 343p17v32, agora que reparei, como é difícil e legal pronunciar nossa data, ela impõe algo técnico e exato, não é como na antiguidade, era algo semelhante a 17 de "agos" sei lá o que de 2361, mas a terra vive bem mais que isso, por que 2361? É estranho, prefiro nosso 343p17v32 é mais bonito, 343 anos após o 17v32, a maioria prefere o antigo, mas cá entre nós, a maioria é panaca. Ah, hoje é especial pós é a reunião de turmas de 340p, e isso é legal pois provavelmente verei Lucas, Julia e Carlos, meus amigos de infância, acho difícil mas não impossível.

Saio rumo ao meu trabalho como qualquer dia, são 58:00 estou atrasado, vejo praticamente as mesmas pessoas de sempre, os construtores que acham que estão construindo um concorrente, isso não vai ser bom, mas enfim, vejo o meu vizinho David e seu filho Paulo, a mãe de Paulo faleceu a 3 anos devido a desidratação, foi bem triste, toda a rua ficou em luto, a mãe dele se chamava Maria, uma moça com aparência jovem para sua idade, não to chamando ela de velha, mas veja bem, ela tinha olhos azuis esverdeados, sorriso branco como leite e sardas pelo rosto e um lindo cabelo ruivo, era simplesmente linda, aparentava cerca de 20 anos e tinha quase o dobro disso, era algo incomum, nunca a vi com outros olhos além dos que iam na casa dela pra comprar um bolo maravilhoso que ela fazia, quando ela se foi, todos ficamos tristes eramos muito apegados a Maria, mas Paulo hoje não se sente triste ao lembrar dela, ele faz bolos como a mãe, para continuar a tradição da familia, Paulo é um padeiro de mão cheia trabalha na esquina da rua de baixo e é muito bem falado por aqui, também estudou comigo e provavelmente está indo pra aula agora também.

– Olá Paulo, ah...e... Boa noite! — eu dou um riso meio forçado e aceno com a mão, faz tempo que não falo com ele.

– Oi Alex, como você está?

– Estou bem, a caminho do trabalho estou meio atrasado... — digo isso meio andando, meio correndo, estava realmente atrasado.

– Ah, eu também já estou indo — diz Paulo já quase correndo para casa pegar suas coisas — se falamos depois na reunião do colégio ok?

– Tudo bem Paulo, manda um abraço pro seu pai, e não esquece das minha encomendas.
Digo com um sorriso no rosto, ele é uma boa pessoa, e realmente faz bolos como ninguém, espera... minto, ainda preferiria os de minha mãe, bolos suculentos com chocolate e flocos de amendoim, é quase a mesma sensação de sentir o sol, aquele conforto, Paulo sorri e acena com a mão, fiquei feliz, de ter lembrado de mim, e também que eu vou na reunião.

Chego atrasado ao meu trabalho, e meu chefe olha com uma cara raiva junta de preocupação e pergunta:

– Por que a demora? Alguém te abordou no caminho?

– Não, Não, eu só encontrei um amigo na rua.

– Ah bem, me preocupei pois fiquei sabendo de algo estranhamente esquisito — fala fechando as cortinas e as portas da loja.

– Como assim "estranhamente esquisito"? — eu achava engraçada a colocação das palavras que ele fazia as vezes.

– Algo como "rebeldes" andam abordando pessoas na rua para algo como... Ah, me fugiu a palavra — o senhor Jorge coça os cabelos brancos e sai andando pela loja tentando lembrar do que era.

Jorge era um senhor engraçado, ótimo patrão, péssimo pai, se preocupava muito com o trabalho e pouco com a família, mas ao todo era uma boa pessoa.

– Assalto? — digo eu, já nervoso com a enrolação.

– Não, você está louco, — diz com ar zangado — não ouço isso a 13 anos e não quero ouvir de volta tão cedo, entendeu? — e novamente abaixa a cabeça.

– Questionário? Pesquisa? Informação? — por que os tais "rebeldes" fariam isso? Eu não sei, mas vai que ajuda ele a lembrar.

– Ah não me lembro, mas eles estão parando pessoas e fazendo discursos estranhos e falando sobre a linha ser possível a povoação e até a viagem por um não abençoado, loucura! Blasfêmia! — ele grita repentinamente — Qualquer terrestre comum que sair naquela luz vai secar até virar pó, só um mutante consegue, sem ofensas Alex.

– Eu não me ofendo com isso senhor, é a mesma coisa que eu caçoar de seu cabelo, dizendo que parece um gato escaldado. — por dentro rio, por fora sorrio, tenho que manter a seriedade em parte.

– Boa Alex — diz rindo — meu filho vai a reunião de turmas hoje, e acho que você também então pegue o dia de folga, que eu cubro sua parte okay? Se divirta lá — diz Jorge indo em direção a porta.

– Não senhor eu me sinto mal por te deixar aqui trabalhando sozinho. — eu realmente me sentia mal, ela era meramente velho.

– Alex, três peças não irão me deixar em uma cama, eu o garanto — ele sorri e completa com — só quero te ver novamente amanhã, e ah, se caso precisar vir trabalhar de novo embaixo de sol, tem uma chave reserva atrás do prédio embaixo do tambor azul — e pisca pra mim.

Saio da loja e vou rumo a reunião, é meio longe para de ir de a pé, mas acho que valerá a pena são 02:02, é o momento que tenho nojo do relógio por lembrar o relógio antigo, ainda tenho tempo, vou ir sem pressa, afinal a probabilidade de não ter ninguém querendo me ver é bem grande.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.