Notas iniciais
Boa leitura, espero que gostem!

Bati a porta de casa logo atrás de mim, sem me importar com a molhaceira que eu fazia no hall de entrada. A primeira coisa que fiz foi deixar meu casaco jogado no chão da sala enquanto eu corria para o banheiro, vomitando tudo o que eu havia comido mais cedo naquele dia.

De alguma forma, meu organismo agia sobre aquela gravidez como se aquilo fosse um vírus do qual ele precisava se livrar. No dia anterior, eu havia ficado com febre e no outro, mal pude sair de casa.

Mas eu sabia, bem dentro de mim, que não era algo espontâneo. Talvez meu próprio subconsciente estivesse forçando tais sintomas, uma vez que eu rejeitava a ideia de estar grávida completamente.

Antes mesmo que eu pudesse fazer qualquer outra conclusão em relação ao meu mal estar, ouvi a campainha tocar no andar de baixo e coloquei-me em estado de alerta. Dei descarga, lavei a boca e ajeitei as roupas antes de descer para ver quem tão inutilmente vinha perturbar minha solidão em um dia chuvoso e tedioso como aquele.

– O que está fazendo aqui? – murmurei, surpresa com a presença de Candy sob um guarda chuva cor de rosa na porta de entrada.

– Não achou que fosse ficar sozinha em casa, achou? Seria perigoso e -... – a interrompi.

– Vivo perigosamente e nem ligo. – me arrastei para a sala de estar, deixando a entender que ela estava livre para entrar. Ouvi a porta bater enquanto me jogava no sofá, sem nem me importar em deixar algum espaço para Candy se sentar.

– Engravidou por isso.

Lancei um olhar furioso em direção à loira, que deu de ombros como se estivesse se justificando.

– Está com fome? Sabe, você precisa comer 350 calorias a mais por dia, então eu posso... – a interrompi.

– Olha, vamos deixar pra me tratar como grávida daqui uns meses tá legal? Por enquanto vamos nos concentrar no meu término de namoro e na minha incrível necessidade de ficar so-zi-nha.- frisei.

– Escuta aqui, Terrence. Não jogue em mim a culpa de você ter feito um monte de escolhas erradas e agora estar aí sofrendo no seu sofá por que seu namorado te largou grávida, entendeu? Eu estou tentando ajudar você e de repente parece que quem te engravidou fui eu!

Respirei fundo, escondendo meu rosto no travesseiro. Se eu estava sendo uma completa idiota? Eu estava. Se eu sabia disso? Ah, sabia. Mas tinha uma coisa dentro de mim, uma raiva combinada de frustração que deixava meus nervos à flor da pele. Engoli todos os palavrões que por ora tomara conta da minha mente, concentrando-me somente na presença benigna de Candy ao meu lado – e, embora eu não soubesse bem o que aura significa, eu poderia jurar que a de Candy estava negra de raiva.

– Antes fosse você quem me engravidou. – soltei de uma vez, e ouvi risos por parte dela.

– Será possível que você esteja sob efeitos hormonais? – ela voltou a falar dos efeitos colaterais da gravidez, e eu a ignorei pelo resto do seu discurso enquanto voltava a minha atenção para os engraçadíssemos vídeos de comédia que passavam na TV à minha frente.

Mais tarde, Candy fez com que eu comesse um sanduíche de ovo que, desnecessário dizer, foi descarga abaixo minutos depois. Ouvi mais alguns de seus discursos chatos sobre óvulos e espermatozóides e acabei por pegar no sono no meio de um deles. Quando acordei, Candy já havia ido embora e eu estava, novamente, sozinha.

Levantei, ainda meio sonambula, me arrastando para o quarto. Eu estava morrendo de sono, e dessa vez suspeitava de que a chuva que eu pegara mais cedo fosse mesmo resultar em uma gripe. Meu estado era lamentável. Sequer trocara as roupas molhadas com que chegara em casa, e adormecera daquele jeito mesmo, ignorando minha melhor amiga. Que tipo de monstro eu estava criando dentro de mim para me deixar daquele jeito?

Balancei a cabeça, sozinha, tentando afastar aqueles pensamentos.

Nunca havia sido dita que estar grávida era gerar um monstro. De onde estavam vindo essas idéias?

Meu estômago revirou e eu respirei pesadamente ao notar que eu estava me acostumando com aquela sensação.

Ao longe, o som da TV ligada ecoava pela casa e eu acabei por me distrair com o que parecia ser uma reportagem cheia de termos irreconhecíveis ao meu ouvido não treinado. Quando o som mudou, subentendi que o programa agora era outro.

“Usada na sabedoria popular para espantar os males, a planta de arruda tem sido imersa em águas quentes por milhares de gerações e resulta em um chá de sabor exótico e amargo (...) Atualmente, pílulas com o óleo extraído da arruda são comercializadas internacionalmente no mercado ilegal (...) causa hemorragia uterina que provoca a morta quase instantânea do feto (...)”

E foi como se tudo tivesse sido chacoalhado dentro de mim.

Meus olhos percorreram a janela do meu quarto e se instalaram na varanda, onde vários vasos abrigavam ervas e plantas que nunca serviram para absolutamente nada além de exalarem um cheiro gracioso pela casa. Sob um dos vasos, uma plaquinha prateada indicava claramente um nome que agora soava tão familiar quanto assustador para mim: “Arruda”.

Notas finais
Nem todas as afirmações sobre a planta de arruda são verdadeiras, MAS sim, ela causa o aborto. Nenhuma das informações passadas aqui devem ser usadas pra feitos ilegais, hm?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.