Atena sentia as mãos suarem entre os dedos. A verdade é que já teve várias vezes na vida que ficou extremamente nervosa, muitas de frente com a morte, mas nada se comparava àquilo. Preferia estar cara a cara com a morte novamente.

A maior fraqueza de um ser humano era a paixão, um tipo de sentimento que ela tinha ignorado a vida toda. Seu estilo de vida e seu trabalho jamais permitiam que ela se envolvesse com alguém verdadeiramente. Ela era ocupada demais pra pensar nisso, focada ao extremo pra se deixar levar. Uma transa casual lhe bastava e ponto final, porém ela conheceu as vírgulas de um relacionamento quando conheceu Romero Rômulo.

Há um ano atrás, Francineide tinha sido convocada para mais uma missão, a maior de toda a sua carreira. Ela iria investigar uma das maiores facções criminosas do país e iria ajudar a prender todos os seus integrantes. Seria um trabalho exaustivo e longo. Seu objetivo era se infiltrar na organização e, quando sentir a corda ficar bamba, realizar a operação. Uma das maiores operações policiais do Rio de Janeiro. Ela se sentia orgulhosa de ter sido escolhida, a única mulher da Polícia Federal envolvida naquele caso, iria dar o melhor de si.

E foi assim que aconteceu, obstinada e centrada como tinha sido a vida inteira, ela inventou uma vida de bandida pra si mesma. Seu novo codinome era Atena e ela era uma mulher diferente de Francineide, seu jeito espalhafatoso e extremamente sexy fugia totalmente do que ela é verdadeiramente. Uma um, sete, um.

Depois de seu chefe depositar em uma mesa uma lista dos prováveis sujeitos que faziam parte daquela quadrilha, ela se interessou pela história de Romero. Um provável santo, político e defensor dos fracos e oprimidos. Seu plano era simples: se aproximar dele, o conhecer de verdade e, caso ele fosse da facção, utiliza-lo para se infiltrar. Fran nunca era de se envolver com alguém do trabalho, porém Atena seria uma faceta dela que nem ela conhecia.

A convivência por meses com a personalidade e identidade que ela tinha criado tinha a transformado. Ela não era mais a policial, a agente Fran. Quando aceitou aquela missão, mal sabia ela que tinha entrado em um túnel sem iluminação ao final dele. Ela caiu no poço sem ter como voltar à superfície. A verdade era que ela tinha se apaixonado profundamente por Romero Rômulo, o verdadeiro um, sete, um, o bandido, o integrante da facção, o maior duas caras que ela tinha conhecido na vida.

Eles tinham se envolvido de uma forma que ela não sabia nem explicar pra si mesma. Uma paixão avassaladora tinha a invadido depois que ela tinha o conhecido, depois que tinha caído nos braços dele. Seu rosto a perturbava, sua voz a assombrava e o seu corpo implorava por ele. Não tinha mais volta, ela estava apaixonada, totalmente entregue ao bandido. Feito a presa nas garras do predador.

Mais cedo naquele dia, a operação tinha acontecido, graças a ela. A Polícia Federal tinha prendido os maiores cabeças da facção: o pai, tio e infelizmente, Romero. Ela tinha seguido como tinha prometido, ela tinha agido como Francineide e Atena a julgava profundamente por isso. O remorso a atingia como um soco no meio do estômago. Tinha sido tão covarde que não tinha conseguido prendê-lo, um de seus colegas o fez. Ele gritou com ela, a acusou e a xingou de diversas formas. Seu coração estava minúsculo naquela situação, porém ela permaneceu com a cabeça erguida.

Ela tirou a roupa de Atena que usava e vestiu uma calça jeans e uma camisa social, seus cabelos presos em um coque e a arma na cintura. Seu corpo estava exausto tanto fisicamente quanto emocionalmente, queria entrar embaixo do chuveiro de sua casa e chorar, porém a madrugada ainda seria longa no DP. Não sabia mais quem ela era, se era Fran ou se era Atena, não sabia mais qual dos lados jogar.

O delegado pediu para que Francineide visitasse Romero, pois durante a manhã ele seria transferido para a cadeia. Ela postergava aquele momento ao máximo, até que um de seus colegas se aproximou de sua mesa.

_ Fran, você tem que ir lá...

_ Eu não posso só deixar pra lá e...? – ela pirragueou para esconder sua voz embargada.

_ Não, ele foi categórico, quer falar com você a todo custo.

Ela ficou em silêncio por alguns segundos, sabia como Romero poderia ser persuasivo e tinha medo de encará-lo depois de tudo.

_ Qual foi? Tá com medo de bandido, é?

_ Tu tá me tirando? – ela se levantou da mesa. – Bandido que tem que ter medo de mim. Parece que tu não me conhece.

Fran marchou decidida até a porta da sala onde tinham deixado Romero conversando com um advogado, ela esperou até o homem saísse e com o estômago revirando, foi a próxima a entrar. Sua mão apertava a maçaneta com força e ela sentia que seu corpo tremia e suas pernas vacilaram quando ela abriu o vão e o encontrou sentado ali.

Na pequena sala só tinha uma mesa com duas cadeiras, uma delas ocupada por ele. Romero estava machucado, tinha apanhado e sua testa ainda sangrava da coronhada que ela tinha atingido ali, de seu nariz escorria um filete do líquido vermelho. Ele direcionava pra ela um verdadeiro olhar de ódio, Fran tentava não demonstrar medo, os anos de treinamento e experiência a ajudaria. Ela puxou a cadeira e se sentou à frente dele.

Ela o encarava nos olhos, tentava expressar superioridade, lembrava-se das vezes que tinha sido humilhada por ele e finalmente, a cartada final tinha sido sua. O coração dela estava disparado e era surreal a forma que se sentia próxima a ele. Ela cruzou os braços no peito e ele começou a rir descontroladamente, feito um maluco.

_ Qual é o seu problema? – ela perguntou com um tom presunçoso.

Romero foi perdendo o riso aos poucos.

_ Você sempre dizia que o duas caras era eu, e olha só quem era a verdadeira duas caras aqui...

Ele apoiou as mãos que estavam algemadas na mesa e esperou que ela respondesse à sua provocação.

_ Pelo jeito eu não sou tão burra e tão vagabunda quanto você imaginava.

_ Vagabunda você continua sendo.

_ O que você quer? – ela se enfezou.

_ Olhar na sua cara. Ver se tinha algum arrependimento, mas não sei... Tá feliz, Atena? Atena, não! – ele gesticulou. – Francineide!

Ela engoliu em seco, era difícil demais olhar nos olhos do cara que amava e que ela mesma tinha entregado aos leões. Estava arrependida, mas ao mesmo tempo não queria demonstrar fraqueza.

_ Tá feliz?

Francineide não sabia se era impressão, mas parecia ter ouvido a voz dele embargar e enxergava lágrimas nos olhos castanhos dele. Foi quando ela não suportou mais e abaixou o olhar. Não sabia lidar com aquilo, as emoções subiram para a sua cabeça e seus olhos também inundaram naquela dor que sentia.

_ RESPONDE! – ele gritou e bateu as mãos na mesa, fazendo um barulho alto com a corrente da algema. Ela saltou na cadeira e mordeu o lábio com força.

Ela apenas balançou a cabeça negando, segurava para não desabar ali na frente dele.

_ Eu te amei, sabia? – ele abaixou o tom, a voz embargada dele fazendo a garganta dela travar. – Amei você e pensei que você me amava da mesma forma, sempre me dizia isso... Que me amava e repetia o tempo todo. Acabei acreditando, agora eu sei o que é ser enganado, ser um completo idiota.

Ela o olhou e viu que tinham lágrimas escorrendo do rosto dele. As lembranças dos dois juntos tinham a perturbado o dia todo.

_ Eu amo você. – ela disse baixinho, um sussurro inaudível.

Foi a vez de ele balançar a cabeça e ela teve a necessidade de confirmar aquilo. Aproximou o seu corpo da mesa e pegou nas mãos dele, era como se uma linguagem secreta dos dois.

_ Me solta. – ele pediu. – Nunca mais encosta um dedo em mim.

Ela sentiu o baque e soltou as mãos dele. Não iria mais ficar ali, já tinha chegado ao limite. Levantou-se e resolveu sair.

_ Eu vou te odiar pra sempre, vagabunda. – ele disse em um tom alto. – E quando eu morrer, o que vai ser logo, você vai levar esse remorso com você pelo resto da sua vida. Bandida! É isso que você é!

Ela não respondeu, apenas abriu a porta e saiu em disparada. Ouviu os passos de um colega seu vindo atrás de si, mas o ignorou. Seu coração batia despedaçado no peito ao se trancar em sua sala, e deixou o choro vir, finalmente.

Depois se acalmar, ela juntou suas coisas na bolsa e partiu para casa. Não queria nunca mais voltar àquele dia, queria apagá-lo de sua memória, de um jeito ou de outro.

O dia começou clarear e Romero cochilava de exaustão sentado, apoiado em uma das paredes frias da cela. Quando os policiais chegaram fazendo barulho contra as grades, ele pulou de susto.

_ Vamos, chegou a sua hora, vereador. – um deles falou em tom de zombaria, enquanto o outro abriu a cela e o puxou pelo braço para que ele ficasse de pé.

Sentia-se tratado feito um animal. Seu nome deveria estar estampado em todos os jornais naquela manhã com uma belíssima e expressiva imagem sua da época de sua campanha política.

Os policiais o irritavam e chutavam suas canelas e pernas até o carro que o levaria à cadeia. Ele deu graças à Deus que tinham saído pelos fundos do local e a imprensa não estava presente para testemunhar o seu estado deplorável.

Ele foi jogado nos fundos da viatura e quando menos esperou, ouviu uma gritaria do lado de fora e uma troca de tiros. Ele se abaixou o máximo possível dentro do veículo para que não fosse atingido, até que o barulho cessou e o carro arrancou cantando os pneus traseiros.

Romero ousou levantar a cabeça para tentar enxergar o rosto do homem que o transportava, já que não era nenhum policial fardado. Alguém remanescente da facção finalmente o tinha o salvado, ele só não entendia o por quê, afinal todos lá o detestavam. Quem sabe ele estivesse enganado.

Como tinha previsto o carro parou em dos antigos cativeiros da facção, ele conhecia àquele lugar, era o mesmo em que tinham prendido Vitória. Ele esperou até que o homem abrisse o porta malas.

_ Precisava fazer esse escarcéu todo? – ele reclamou.

_ Cala a boca, Romero. É por sua culpa que deu merda. – o capanga respondeu e o ajudou a libertar seus pulsos. – É melhor você fugir daqui antes que você morra.

_ Por que você tá fazendo isso? – ele olhava para o cara que estava claramente nervoso.

_ Ganhei muita grana pra isso. Aqui... – ele tirou um papel do bolso, um aparelho celular e entregou na mão dele.

Uma moto encostou logo depois e o homem subiu na garupa o deixando sozinho ali. Romero tinha que sair dali o mais rápido que conseguisse, afinal uma viatura da policia chamava a atenção. Ele saiu de perto do veículo enquanto abria o papel dobrado que tinha recebido, era apenas um número de telefone e uma indicação de onde tinha um carro de fuga.

Era a primeira vez que ela tinha cometido um crime como Francineide fora da polícia, por isso, suava tanto. Era verdade tudo aquilo que Romero disse, ela era mesmo uma bandida. Atena tinha matado Francineide dentro de si mesma. Não tinha mais volta, iria viver bem longe dali. Tinha trocado de roupa e de arma, abandonado seu antigo apartamento como se tivesse sido sequestrada e partiu. Não levou nada, nem documentos, nem roupas, apenas uma peruca de cabelos negros e curtos que usava agora junto com um óculos escuro. A arma de Atena estava bem escondida em sua cintura e ela tomava um café na loja de conveniência do posto de gasolina. Arrependimento algum parecia pesar mais, estava pronta para acatar as consequências de suas escolhas e do caminho que tinha escolhido seguir.

Romero se limpou e trocou de roupa com as peças que tinha encontrado dentro da casa, pegou as chaves do carro e seguiu para aquele endereço. Logo após sua partida, dois homens encostaram um carro no terreno e tiraram um corpo de um homem morto do porta malas. Um deles colocou as algemas do pulso do cadáver, enquanto o outro procurava qualquer indicio dentro da casa ao pegar as roupas usadas e ensanguentadas e enfiaram tudo no porta malas da viatura policial. Jogou combustível sobre o veículo e atearam fogo, uma clara e definitiva queima de arquivo do babaca Romero Rômulo.

Ela saiu da loja após alguns minutos, estava inquieta, mas logo o carro preto encostou. Ela entrou do lado do passageiro e fechou a porta.

_ Por que demorou tanto? – ela questionou.

_ Você não precisava ter me batido tão forte! – Romero reclamou no volante enquanto partia.

_ Era para parecer real! Desculpa... – ela passou a mão no rosto dele. – E você não devia ter falado daquele jeito! – ela deu um tapa no braço dele e ele reclamou.

_ Eu só falei a verdade, você é a maior bandida!

_ Mas, você não me odeia... – ela sorriu. – Eu sei disso.

Romero chegou à estrada com o carro, eles teriam que travessar estados para chegar à Bolívia, onde irmãos os esperavam. Iriam começar uma nova vida juntos, com a verdadeira essência que cada um tinha, a verdadeira paixão que tinham um pelo outro no peito. Ele não tinha dúvidas que ela era a mulher da sua vida e, que mesmo no mundo do crime, ninguém iria fazê-lo tão feliz.

Para a polícia brasileira, Romero e Francineide, vulgo, Atena estavam mortos. Iriam recomeçar com outros nomes e outras personalidades, mas entre si mesmos não precisavam de rótulos ou identidade. Era apenas ser ele e ela, mais nada.

_ Você é muito iludida mesmo. Quem disse que eu gosto de você? – ele a provocou. – Eu te usei pra fugir! Não acredito que você pagou aquele cara para ser motorista de fuga!

_ Você não gosta de mim, Romero. – ela disse virando o rosto dele para o dela. – Você me ama e eu te amo. Nunca ia deixar você pra trás, a gente tem uma parceria. Eu nunca vou quebrar minhas promessas pra você.

Atena disse sério, seu olhar transmitindo a intensidade de suas palavras pra ele. O plano deles tinha dado certo e tinha sido perfeito, graças a ela que conhecia as falhas da polícia e ele que conhecia os bandidos certos para ajudá-los, agora nada mais poderia os impedir. Quem sabe eles se casassem nessa próxima vida, tivessem um filho. Ela nunca tinha feito planos com homem nenhum, mas agora fazia planos sem limites, sonhava alto com a felicidade que sabia que só iria encontrar ao lado dele. Tinha largado sua vida anterior, seu passado, seus planos e certezas para cair de cabeça naquilo que ela acreditava ser um amor verdadeiro.

Romero a beijou, parecia que fazia uma eternidade que eles não se tocavam, aqueles últimos dias tinham sido a maior tortura que ele tinha passado na vida. Não sentir os lábios dela nos seus, o seu cheiro e o seu gosto, o fez entender o quanto ele realmente a amava, não tinha dúvida alguma. Era um beijo intenso e cheio de certeza, com a promessa de um futuro novo para ambos.

Agora nada mais poderia os impedir.

_ Vitória na guerra, meu amor. – ele disse entre os lábios dela.

_ Vitória na guerra. – ela respondeu com um sorriso.

Notas finais
Quem me conhece sabe que eu não sou fã de Romero e Atena, porém essa foi só uma ideia que tive com um rumor que saiu sobre a vida dela. Se ignoramos todo o inicio da história dela na novela até que sai algo legal, por isso que existem fanfics, para podermos imaginar esse tipo de coisa. Espero que tenham gostado. ;) Dedicado às minhas colegas que os shipam.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!