17 Outra Vez
5 Capítulo 5
Notas iniciais
— Kurt? — E a porta de uma das cabines se abriu, revelando Sebastian. — O que faz aqui? E por que Blaze está sem camisa?
Os dois meninos ficaram parados, Kurt sabia o que parecia e ele sabia que Sebastian ficaria furioso. Blaine quis se jogar de um penhasco, esconder a cabeça no chão. Do jeito que Sebastian era, ele não acreditaria em qualquer desculpa que os dois dessem, por mais que fosse verdade.
— Se eu te contar, você não vai acreditar. — Kurt disse, a voz baixa e os olhos no chão. Sebastian o olhava com as sobrancelhas erguidas, como se pedindo que ele contasse. — Azimio, Trevor e Bruno jogaram raspadinhas em Blaze e eu ofereci para ajudá-lo. E ele tirou a camisa porque ela está ensopada.
— Eu acredito. — Os dois meninos olharam para o mais alto, incrédulos. Kurt achou aquela reação incrivelmente suspeita, porque o Sebastian que ele conhecia teria explodido ao ver Blaze sem camisa perguntando se eles podiam trancar a porta e Kurt confirmando.
E por que diabos Sebastian estava naquele banheiro? Era o banheiro entupido do primeiro andar, ninguém realmente ia lá para fazer suas necessidades. Os alunos (e quem sabe professores) apenas frequentavam o banheiro acompanhados depois de levar um banho de raspadinha, para conversar, matar aula, ou se pegar com alguém. Sebastian estava sozinho ali, não estava?
Bem naquele momento, um barulho de um escorregão e de água em movimento ecoou no banheiro, e os três direcionaram o olhar para as cabines, curiosos. Kurt tomou aquilo como sua deixa, e começou a abrir todas as cabines, encontrando um garoto, provavelmente do primeiro ano, com o pé enfiado na privada e as calças abertas. O castanho se virou para o namorado, com raiva borbulhando dentro de si.
— Você estava bonzinho demais para não me dar bronca como se fosse meu dono. — Kurt respirou fundo. — E quer saber? Eu estou farto desses seus surtos, Sebastian! Eu sou o meu próprio dono, e não é como se eu andasse por aí te dizendo o que fazer ou com quem falar. Eu não sou uma donzela indefesa.
— Você não é uma donzela indefesa porque é uma vadia! — Gritou Smythe, quase partindo para cima do castanho.
— Eu sou uma vadia? Olha quem fala...
— Kurt, não vale à pena. — Disse Blaine, puxando o amigo pelo braço gentilmente.
— Eu ainda não acabei de falar, Blaze. — Cortou o castanho, friamente. — Sebastian, você é uma merda. Durante todos os dez meses que namoramos, nenhuma vez você se perguntou se o bullying tinha parado, nenhuma vez você se importou com algum solo que eu tinha ganhado, com alguma nota alta. E eu estou cansado de ser Kurt, o namorado do zagueiro. Agora eu sou apenas Kurt, Kurt Hummel! E eu não ligo se seus amiguinhos venham fazer bullying comigo, como eles sempre fazem, mas se eles encostarem em Blaze... você vai se ver comigo. Ah, isso, você vai. — Sebastian riu pelo nariz, sem humor nenhum.
— Foda-se, Kurt. — Então o jogador saiu, o garoto que estava com ele saiu também, o pé encharcado fazendo um barulho desagradável. Blaine estava paralisado, memórias correndo por sua mente.
— Que porra foi essa, Blaine?! — Sam gritou, enquanto Eli fechava a porta da casa dos dois. — O que diabos você estava pensando? Que eu ia chegar em casa e você simplesmente não estaria empurrado contra a parede com o pau de outro cara na sua bunda?! Que eu gostaria de me juntar a vocês? Por quê?
— S-Sam, eu- me desculpe, Sammy-
— Não me chame assim! Você perdeu todo esse direito quando deixou que aquele homem te tocasse! — O loiro bateu na parede com um punho fechado. — Saia, Blaine.
— Sam-
— Você me traiu! Você é um traidor! Eu amo você, por que caralhos você foi me trair? O que te levou a fazer isso? Vai tomar no cu, Blaine!
— Pai? Papai? — Uma vozinha veio do corredor. Quinn apareceu ali, uma expressão assustada no rosto. Sam olhou para o (ex) marido, incrédulo.
— Quinn está em casa? É isso, você sai. Eu não ligo! Eu não quero nem saber para onde você vai! — O loiro pegou sua filha no colo. Blaine era oficialmente a pessoa mais idiota do mundo. Que tipo de homem deixaria sua família por uma simples foda? — Quinnie, papai foi malvado com seu pai. Ele vai ficar de castigo por um tempo. Espere em seu quarto e eu já vou te explicar o que ele fez, tudo bem?
— Posso abraçar papai? — Blaine soltou um soluço. — Papai, não chora! Se você fica triste eu fico triste!
— Tudo bem, princesa. Eu vou embora por um tempinho, mas não se esqueça de mim, ok? Promete?
— Prometo, papai! Eu te amo. — A garotinha escondeu o rosto na curva do pescoço do pai, que a segurava com toda a sua vida.
— Vamos, Blaine, vamos fazer suas malas. — Sam disse, e depois dali eles só se falaram para resolver o divórcio e outros pequenos detalhes da separação.
— Blaze, você me ouviu? — Kurt perguntou, tirando o moreno de seu transe. Ele olhou o castanho e seus olhos se encheram de lágrimas ao ver que ele, seu próprio erro, era o que havia permitido Kurt estar ali naquele momento. — Blaze? Você está me assustando. O que aconteceu? — O moreno se lançou nos braços do melhor amigo, seu corpo sacudindo com soluços cortantes, e Kurt apenas o segurava.
— Kurt, me desculpe, você tem que entender, por favor, me desculpe. — Blaine pedia desesperadamente. Ele não queria querer Kurt, ele deveria desejar Sam, desejar tudo o que eles tiveram. — Isso tudo é culpa minha. É tudo culpa minha, me desculpe.
— Blaze! Pare! O que é sua culpa?
— ...M-Meu nome não é Blaze. — O moreno admitiu. Kurt arqueou uma sobrancelha. — Eu sou Blaine Anderson, e eu traí seu pai, Samuel, há muito tempo atrás. Onze anos, para falar a verdade.
— Blaze, o que você está falando? Isso é impossível, você tem minha idade. Há onze anos você tinha seis anos. — O moreno sacudiu a cabeça.
— Há onze anos eu tinha vinte e nove anos. Estava com seu pai há doze, e fui um completo babaca com ele. Completo. Eu o traí com um cara aleatório da internet e fiz ele passar por toda a mágoa e derrota e humilhação de ser traído. E nós tínhamos — temos — uma filha de sete anos, Quinn. Desde a traição eu fui miserável, sempre apaixonado por Sam, e um dia vim buscar Quinn na escola e um velho estranho me perguntou se eu queria voltar a meus tempos de escola, eu respondi que sim, e ele se matou no mesmo dia, se jogou de uma ponte e eu me joguei junto e acordei no meu carro, com dezessete anos. — Kurt o olhava e havia alguma emoção em seus olhos azuis que Blaine não conseguia identificar direito. Ele já havia lhe contado aquela baboseira toda, por que de novo?
— Blaze... você usou crack?
— Kurt! Kurt, é sério! Eu posso te mostrar fotos minhas, e anuários e deveres de escola, eu tenho certeza que os guardei e- já sei! Se nós formos até sua casa agora, seu pai vai surtar. Ele vai surtar completamente. — Kurt cruzou os braços, ergueu o queixo e respirou fundo.
— Tudo bem, vamos lá.
— Vamos lá? Você está falando agora, às dez da manhã, no meio da aula? — O castanho assentiu. — Nós vamos ser pegos!
— Se você tem quarenta anos e já passou por isso, por que é que você liga, de qualquer jeito?
— E-Eu tenho dezessete. E eu ligo porque você está comigo e você precisa terminar a escola e ir para uma ótima faculdade em... deixe-me adivinhar, Nova York, e você não pode ter uma advertência. Além do mais, eu... eu me importo com você. Eu gosto de você. — Admitiu o moreno, fechando os olhos, com medo da resposta do castanho. Mas então haviam lábios nos seus e eles estavam no formato de um sorriso. E, na mesma velocidade que eles apareceram, se foram.
— Eu também gosto de você. Agora, vamos, eu quero ver se você tem que ser internado num hospício ou se magia realmente existe e eu ainda posso ir para Hogwarts, por alguma chance. — Blaine sorriu e aceitou a mão que o castanho lhe oferecia. — Mas temos que ficar quietos. Se algum inspetor nos ver, eles provavelmente vão nos levar para o diretor. — O moreno assentiu, deixando que seu sorriso se expandisse mais.
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Eles pegaram o carro de Blaine e estacionaram na frente da antiga casa do mesmo, presente casa de Kurt. O castanho andou até a porta e abriu a mesma, um pouco hesitante. Apesar de ter achado toda aquela história impossível, se ele estava ali era porque acreditava pelo menos um pouco... não é?
— Pai? Pa-ai? — Chamou Hummel, e passos foram ouvidos rapidamente se aproximando. — Vire de costas. — Sussurrou o mesmo. Sam apareceu nas escadas, com uma expressão preocupada.
— O-O que houve, Kurt? Por que você está em casa à essa hora? — Quis saber o loiro andando até o filho e o inspecionando por machucados. — V-Você trouxe visita? Seu amigo está bem? — Nesse momento, Blaine se virou, os olhos marejados por estar ali novamente, com tanta coisa mudada.
— Oi, Sammy.
— Que porra é essa?! — Exclamou Sam, dando um passo atrás. — B-B-Blaine? Mas... como?
— Acho que podemos nos sentar. — Blaine disse, vendo que Kurt também estava boquiaberto após a comprovação da história do moreno. Kurt concordou com a cabeça, puxando o pai para o sofá. Mais uma vez, Anderson contou os acontecimentos que levaram àquele momento, e Sam estava a ponto de desmaiar quando ele acabou. — ...e estamos aqui, é isso.
— Com licença, eu- eu não consigo. — Kurt disse, e subiu escada acima. Ele se deitou na cama, deixando que as lágrimas rolassem. O garoto por quem estava apaixonado na verdade tinha quarenta anos, e já havia namorado seu pai. Como diabos eles poderiam acontecer? Ele realmente só queria ficar com Blaine e esquecer daquilo tudo, fingir que ele ainda era um adolescente e que nada havia acontecido.
— Kurt, sou eu. — Blaine disse, batendo na porta. O castanho murmurou um "entra" abafado por seu travesseiro. A porta se abriu e Blaine entrou em seu quarto. — Eu queria esclarecer algumas coisas e que você esclarecesse outras. — Kurt respirou fundo, se sentando na cama e secando algumas lágrimas. — Você estaria confortável com isso? — Ele confirmou com a cabeça. — Eu quero dizer que eu ainda gosto de você e que, apesar de ser mais estranho eu gostar de você e não de seu pai... eu escolhi você. Não quero que você pense que me deve alguma coisa por ter me beijado ou por gostar de mim, se é que você ainda gosta. E eu também quero dizer que eu fui eu mesmo com você, Kurt. Eu nunca poderia mentir para você.
— Eu acredito em você, Blaine. E eu quero tanto ficar com você que você nem imagina, e eu sei que vai levar um tempo até eu me acostumar com toda essa ideia, mas eu confio em você e eu confio em nós. — O castanho pegou sua mão. — Eu quero ficar com você. Vamos dar uma chance?
— Vamos dar uma chance. Com certeza, sim. — Blaine estava tão aliviado, e tão feliz quando Kurt o beijou mais uma vez, porém um pouco mais firme e confiante e Blaine colocou as mãos na cintura do castanho. — Agora temos que explicar isso para seu pai.
— Não têm não. — Sam disse, encostado na porta aberta. — Eu não posso dizer que sou apaixonado pela ideia, — "porque sou apaixonado por você, Blaine.", completou o loiro em sua cabeça. — mas eu entendo e acho que vocês dois merecem ser felizes. Uma coisa: sem gracinhas debaixo do meu telhado. — Sam tinha muito mais a dizer. Muito mais. Mas teria que ficar para outro dia. O sorriso enorme no rosto de seu filho fazia aquilo tudo valer à pena. Por Kurt ou Blaine, ele iria até o inferno e voltaria. Pelos dois, ele ficaria lá.
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