17 - As verdades que ninguém percebe
2 Todos somos antropólogos
23/04/2017
Todos somos antropólogos
Neste momento estou usando uma saia que me lembra arqueologia e um par de coturnos tratorados. Estou sentada em um ônibus, às 12:38 pm, num domingo. Estou esperando a salvação.
A mulher atrás de mim ligou para sua amiga para pedir que esta ore por ela, porque seu marido se tornou DJ em casas noturnas. E eu estou aqui porque minha amiga me convidou para um passeio em que eu teria que fingir não estar ali propositalmente. Estou voltando para casa.
O moço na rua acabou de beijar sua companheira. Estou triste e devo parecer maníaca por observar e descrever as pessoas tanto assim. Talvez eu seja maníaca e não me apercebi disso ainda. Talvez eu só tenho mesmo um dom de antropóloga frustrada e jamais usufruirei disso.
A verdade é que todos somos assim. Observamos as pessoas o tempo todo, só não nos damos o trabalho de escrever nossas observações e conclusões. Ao invés disso, nós fofocamos e tiramos sarro. Afinal, se não há um método limpo de inflar o ego, essa é uma boa oportunidade.
Minha cabeça está doente. Aliás, doendo. Não sei mais o que escrever porque a tristeza do abandono é mais profunda do que jamais me descreveram. Essa é a parte ruim de ser adolescente em um mundo de adultos. Eles presumem que você capta tudo no ar.
Sobre o ar... Está frio. O dia está ensolarado, mas frio. O ônibus demorou mas ao menos está vazio.
A moça atrás de mim está confessando sua fé pelo telefone. A senhora à minha frente fala bastante alto. O apito do ônibus dói o ouvido. Os buracos da rua balançam o ônibus.
E eu estou indo para casa.
H. Surris
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