05/05/2017

O mal do ser vivo

Hoje estávamos, eu e meu pai, levando meu gato para tomar a última dose de antibiótico pós castração. Mais uma vez o rádio estava sintonizado em uma estação jornalística, costume de meu pai.

"Um adolescente de 17 anos morreu em um incêndio na última madrugada, na cidade Y. A mãe está recebendo cuidados no hospital B. As causas do incêndio estão sendo investigadas".

Eu não conhecia o garoto. Nunca nem soube o nome dele. E nunca saberei porque, quando chegar em casa já terei esquecido dessa notícia. Ainda assim, meu coração se aperta ao pensar nele.

Nunca vi o rosto dele. Ele tinha minha idade. Talvez até tenhamos nos visto e nunca nos demos conta. Tantas possibilidades. Meu coração se aperta ao pensar nele. Me fez pensar em todas as coisas que estão acontecendo ao mesmo tempo e não notamos. Ou que notamos e esquecemos.

Por exemplo, quando passei no vestibular. Eu fiquei a manhã inteira de mal humor até que o resultado sai. Então chorei de alegria e não conseguia parar de sorrir. Ao mesmo tempo, alguém estava chorando de tristeza porque não passou. E alguém estava chorando de tristeza. Seja pelo vestibular ou porque seu filho morreu em um incêndio. E eu nunca soube.

Hoje eu soube e em breve vou esquecer. Sou culpada por isso?

Ontem estava lendo um mangá, shoujo. Dentro do triângulo amoroso entre três amigos de infância, um deles morre em um acidente de trânsito. Passei a hora seguinte negando que aquilo era de fato parte da história, e torcendo para que ele acordasse de um coma ou, sei lá, ressuscitasse. Não aconteceu. É a autora culpada por isso? Em partes.

O mal do ser vivo deve ser esse. Precisamos seguir com a nossa vida e não sabemos como. Mesmo acerca de uma coisa tão banal como uma notícia matinal, sobre uma pessoa que nunca conheci. Ou ainda uma pessoa fictícia.

O mal do ser vivo deve ser tomar as dores do outro. Eu não sei se ele negro, branco, índio, popular, desconhecido, bonito, feio, alto ou baixo. Não preciso saber para sentir todas as essas coisas sobre ele.

"Um adolescente de 17 anos morreu em um incêndio na última madrugada". E se fosse eu? Teria alguém para se sentir miserável sem me conhecer, como eu estou me sentindo?