16 Luas

1 Capítulo 1 - O meio do nada


Notas iniciais
Olá floquinhos, sejam bem vindos. Espero que gostem da adaptação do livro para o nosso casal favorito ♥Boa leitura!

16 Luas

Por Luna

Capítulo 1: O meio do nada

♦♦♦

~ANTES~

Havia apenas dois tipos de gente em nossa cidade. "As burras e as empacadas", que foi como meu pai afetuosamente classificara nossos vizinhos. "Os que estão condenados a ficar ou são burros demais para ir embora. Todos os outros acham um meio de fugir." Não havia dúvida sobre qual dos dois ele era, mas eu nunca tinha tido coragem de perguntar o motivo. Meu pai era escritor, e morávamos em Gatlin, Carolina do Sul, porque todos os Uchihas sempre moraram ali, desde que o tataravô do meu tataravô, Madara Uchiha, lutou e morreu no outro lado do rio Santee durante a Guerra Civil. Só que o pessoal daqui não a chamava de Guerra Civil. Todos com menos de 60 anos a chamavam de Guerra entre os Estados, enquanto todos com mais de 60 a chamavam de Guerra da Agressão Norte, como se de alguma forma o norte tivesse levado o sul a entrar na guerra por causa de um fardo ruim de algodão. Todos, menos minha família. Nós a chamávamos de Guerra Civil.

Era apenas mais um motivo pelo qual eu mal podia esperar para ir embora daqui.
Gatlin não era como as cidadezinhas que se vê nos cinemas, a não ser que fosse um filme sobre cinquenta anos atrás. Estávamos longe demais de Charleston para ter um Starbucks ou um McDonalds. Só tínhamos um Dar-ee Keen, já que os Gentry eram pães-duros demais para comprar novas letras quando compraram o Dairy King. A biblioteca ainda tinha os livros catalogados em cartões, a escola ainda tinha quadros-negros e nossa piscina da comunidade era o lago Moultrie, com água marrom morna e tudo. Podíamos ver um filme no Cineplex na mesma época que ele saía em DVD, mas tínhamos que pegar uma carona até Summerville, perto da faculdade comunitária. As lojas ficavam na rua Main, as boas casas ficavam na rua River, e todas as outras pessoas moravam ao sul da autoestrada 9, onde o asfalto se desmanchava em pedaços de concreto — terrível para andar, mas perfeito para jogar em gambás furiosos, os animais mais cruéis que existem. Nunca se viu esse tipo de coisa nos filmes.

Gatlin não era um lugar complicado; Gatlin era Gatlin. Os vizinhos ficavam de guarda nas varandas no calor insuportável, sofrendo e suando à vista de todos. Mas não havia sentido. Nada mudava nunca. Amanhã seria o primeiro dia de aula, no segundo ano do ensino médio na escola Stonewall Jackson High, e eu já sabia tudo que iria acontecer: onde eu me sentaria, com quem eu falaria, as piadas, as garotas, quem estacionaria onde. Não havia surpresas no Condado de Gatlin. Éramos nada mais nada menos do que o epicentro no meio do nada. Pelo menos é o que eu pensava quando fechei meu exemplar surrado de Matadouro Cinco, desliguei meu iPod e apaguei a luz na última noite de verão. Só que eu não podia estar mais errado.

Havia uma maldição.

Havia uma garota.

E no final, havia um túmulo.

Nunca sequer imaginei que aconteceria.

2 de setembro — Continue sonhando

Caindo.

Eu estava em queda livre, despencando no ar.

— Sasuke! — Ela me chamou, e o som da sua voz fez meu coração disparar. — Me ajude!

Ela estava caindo também. Estiquei meu braço, tentando segurá-la. Estiquei o braço, mas só encontrei ar. Não havia chão sob meus pés e minhas mãos se enfiavam em lama. Encostamos as pontas dos dedos e vi fagulhas verdes na escuridão.

Então ela escorregou por meus dedos e só consegui sentir a perda.

Limão e alecrim. Eu consegui sentir o cheiro dela, até naquele momento.
Mas não consegui segurá-la.

E não conseguia viver sem ela.

Me sentei de repente, tentando recuperar o fôlego.

— Sasuke Uchiha! Acorde! Não vou admitir que chegue atrasado ao primeiro dia de aula. — Eu podia ouvir a voz de Amma gritando do andar de baixo.

Meus olhos focalizaram um ponto de luz suave na escuridão. Eu podia ouvir o distante som da chuva contra a velha janela da fazenda. Deve estar chovendo. Deve ser de manhã. Devo estar no meu quarto. Meu quarto estava quente e úmido por causa da chuva. Por que minha janela estava aberta?

Minha cabeça estava latejando. Deitei novamente na cama e o sonho foi se dissipando, como sempre acontece. Eu estava em segurança no meu quarto, em nossa antiga casa, na mesma cama de mogno que rangia onde provavelmente seis gerações de Uchihas dormiram antes de mim, onde pessoas não caíam por buracos negros feitos de lama e nada nunca acontecia. Olhei para meu teto de gesso, pintado da cor do céu para impedir que as abelhas carpinteiras fizessem ninho ali. O que havia de errado comigo?

Havia meses que eu tinha esse mesmo sonho. Apesar de não conseguir me lembrar de tudo, a parte da qual eu me lembrava era sempre a mesma. A garota estava caindo. Eu estava caindo. Tinha que me segurar, mas não conseguia. Se eu soltasse, alguma coisa terrível aconteceria com ela. Mas esse era o problema. Eu não conseguia soltar. Não podia perdê-la. Era como se eu estivesse apaixonado por ela, mesmo não a conhecendo. Tipo um amor antes da primeira vista. Mas isso parecia loucura, porque era apenas uma garota num sonho. Eu nem sabia como ela era. Eu vinha tendo o sonho há meses, mas em todo esse tempo jamais vira o rosto dela, ou pelo menos não conseguia lembrar. Eu só sabia que tinha a mesma sensação horrível toda vez que a perdia. Ela escorregava da minha mão e meu estômago parecia afundar, como nos sentimos durante a queda em uma montanha-russa. Frio na barriga. Essa era uma porcaria de metáfora. Era mais como um tiro.

Talvez eu estivesse enlouquecendo, ou talvez só precisasse de um banho. Os fones ainda estavam em volta do meu pescoço, e quando olhei para o visor do meu iPod, vi uma música que não reconheci. "Dezesseis Luas."

O que era aquilo? Cliquei nela. A melodia era assustadora. Eu não conseguia identificar a voz, mas tinha a sensação de que já ouvira aquilo.

Dezesseis luas, dezesseis anos
Dezesseis dos seus mais profundos medos
Dezesseis vezes você sonhou com minhas lágrimas
Caindo, caindo ao longo dos anos...

Era deprimente, assustadora... Quase hipnótica.

— Sasuke Uchiha! — Consegui ouvir Amma gritando mesmo com a música.

Desliguei o iPod e sentei na cama, afastando as cobertas. Os lençóis pareciam estar cheios de areia, mas eu sabia que não era isso. Era terra. E minhas unhas estavam pretas de lama, da mesma forma que ficaram na última vez em que eu tivera o sonho. Enrolei o lençol e o enfiei no cesto de roupa suja embaixo do uniforme do treino do dia anterior. Entrei no chuveiro e tentei esquecer tudo enquanto esfregava as mãos e os últimos pedaços pretos do meu sonho desapareciam pelo ralo. Se eu não pensasse naquilo, não estaria acontecendo. Era assim que eu lidava com a maioria das coisas nos últimos meses.

Mas não quando se tratava dela. Não dava para evitar. Eu sempre pensava nela. Sempre voltava a ter o mesmo sonho, mesmo não conseguindo explicá-lo. Então, era esse meu segredo, tudo que queria contar. Eu tinha 16 anos, estava me apaixonando por uma garota que não existia e estava ficando louco.

Não importava o quanto eu esfregasse, eu não conseguia fazer meu coração parar de bater forte. E mesmo com o cheiro de sabonete Ivory e do xampu, eu ainda conseguia sentir aquela aroma. Bem de leve, mas eu sabia que estava lá. Limão e alecrim.

Desci as escadas para a segurança da mesmice de sempre. Na mesa de café da manhã, Amma colocou na minha frente o mesmo prato de porcelana azul e branco (porcelana-dragão era como minha mãe chamava) com ovos fritos, bacon, torrada com manteiga e canjica. Amma era nossa governanta, mas era mais como minha avó, apesar de ser mais inteligente e mais mal-humorada do que minha verdadeira avó. Amma tinha praticamente me criado, e ela achava que era a missão dela me fazer crescer mais uns 30 centímetros, apesar de eu já ter 1,89 metro de altura. Esta manhã eu estava estranhamente faminto, como se não comesse há uma semana. Comi um ovo e dois pedaços de bacon e já me senti melhor. Sorri para ela com a boca cheia.

— Não pegue no meu pé, Amma. É o primeiro dia de aula. — Ela colocou com força na minha frente um gigantesco copo de suco de laranja e outro maior ainda de leite (integral, o único tipo que bebemos aqui).

— Acabou o achocolatado? — Eu bebia achocolatado do mesmo jeito que algumas pessoas bebem Coca-Cola ou café. Mesmo de manhã, eu estava sempre atrás da minha dose de açúcar.

— A-C-L-I-M-A-T-E-S-E. — Amma usava palavras cruzadas para tudo. Quanto maior, melhor, e ela gostava de usá-las. O modo como ela soletrava as palavras letra por letra fazia parecer que ela estava dando um tapa na cabeça da gente a cada letra. — Quero dizer, acostume-se. E não pense em botar um pé pra fora daquela porta antes de beber o leite que dei pra você.

— Sim, senhora.

— Vejo que você se arrumou. — Eu não tinha me arrumado. Estava de jeans e uma camiseta desbotada, como em quase todos os dias. Cada uma tinha um dizer diferente. A de hoje tinha escrito Harley Daviáson. E eu estava com o mesmo All Star que usava havia três anos.

— Pensei que você fosse cortar o cabelo — falou como se fosse uma bronca, mas eu percebi o que era realmente: puro e simples amor.

— Quando falei isso?

— Você não sabe que os olhos são a janela da alma?

— Talvez eu não queira que ninguém use uma janela pra ver a minha alma.

Amma me puniu com mais um prato de bacon. Ela mal chegava a 1,50m de altura e era provavelmente mais velha do que a porcelana-dragão, apesar de em cada aniversário ela insistir que estava fazendo 53 anos. Mas Amma era qualquer coisa, menos uma senhora amável. Ela era a autoridade absoluta na minha casa.

— Bem, não pense que você vai sair nesse tempo com o cabelo molhado. Não gosto da sensação que essa tempestade está me dando. Como se uma coisa ruim tivesse sido chutada no vento, e nada consegue impedir um dia como esse. Ele tem vontade própria.

Revirei os olhos. Amma tinha uma maneira própria de ver as coisas. Quando ela estava com o humor assim, minha mãe costumava dizer que ela estava escurecendo: religião e superstição misturadas, como só acontece no sul. Quando Amma escurecia, era melhor ficar fora do caminho dela. Assim como era melhor deixar os amuletos dela nos peitoris das janelas e as bonecas que ela fazia nas gavetas onde ela as colocava.

Comi mais uma garfada de ovo e terminei o café da manhã dos campeões: ovos, geleia congelada e bacon, tudo esmagado entre as torradas num sanduíche. Enquanto enfiava isso na boca, olhei pelo corredor por puro hábito. A porta do escritório do meu pai já estava fechada. Meu pai escrevia à noite e dormia no sofá velho do escritório de dia. Era assim desde que minha mãe morreu em abril passado. Ele podia muito bem ser um vampiro; era isso que minha tia Rin tinha dito depois de ter passado uns dias conosco naquela primavera. Eu provavelmente tinha perdido a oportunidade de vê-lo até o dia seguinte. Aquela porta não se abria depois que era fechada.

Ouvi uma buzina na rua. Naruto. Peguei minha mochila preta caindo aos pedaços e corri pela porta na chuva. Podia muito bem ser tanto sete da noite quanto sete horas da manhã, de tão escuro que o céu estava. O tempo estava estranho havia alguns dias.

O carro de Naruto, o Lata-Velha, estava na rua, o motor fazendo barulho, a música em alto volume. Eu ia para a escola com Naruto todo dia desde o jardim de infância, quando nos tornamos melhores amigos depois de ele me dar metade do seu Twinkie no ônibus. Só depois descobri que tinha caído no chão. Apesar de nós dois termos tirado carteira nesse verão, Naruto era quem tinha um carro, se é que podíamos chamar aquilo de carro. Pelo menos o motor do Lata-Velha estava superando o som da tempestade.
Amma ficou na varanda com os braços cruzados em uma postura reprovadora.

— Não toque música alta aqui, Naruto Uzumaki. Não pense que não vou ligar para sua mãe e contar a ela o que você ficou fazendo no porão o verão inteiro quando tinha 9 anos.

Naruto fez uma careta. Poucas pessoas o chamavam pelo nome todo; só a mãe dele e Amma.

— Sim, senhora.

A porta de tela da varanda bateu. Ele riu, cantando pneu no asfalto molhado ao se afastar do meio-fio. Como se estivéssemos fugindo, era assim que dirigíamos quase sempre. Só que nunca fugíamos.

— O que você fez no meu porão quando tinha 9 anos?

— O que eu não fiz no seu porão quando eu tinha 9 anos? — Naruto abaixou a música, e eu achei bom, porque ela era péssima e ele ia me perguntar se eu tinha gostado, como fazia todo dia. O grande problema da banda dele, Quem Matou Lincoln, era que nenhum integrante sabia tocar um instrumento e nem cantar. Mas ele só falava sobre tocar bateria e mudar para Nova York depois da formatura e sobre os contratos de gravação que provavelmente jamais aconteceriam. E quando digo provavelmente, quero dizer que ele tinha mais chance de fazer uma cesta de três pontos vendado e bêbado do estacionamento do ginásio.

Naruto não ia para a faculdade, mas ele ainda estava um passo à minha frente. Ele sabia o que queria fazer, mesmo sendo algo improvável. Tudo que eu tinha era uma caixa de sapatos cheia de livretos de faculdades que eu não podia mostrar para meu pai. Eu não me importava com qual faculdade fosse, desde que fosse pelo menos a uns 1.500 quilômetros de Gatlin.

Eu não queria terminar como meu pai, morando na mesma casa, na mesma cidade pequena em que cresci, com as mesmas pessoas que nunca sonharam em sair daqui.

♦♦♦

Ao nosso redor casas vitorianas velhas e encharcadas ladeavam a rua, quase iguais ao dia em que tinham sido construídas há mais de 100 anos. Minha rua se chamava Cotton Bend porque essas velhas casas costumavam ter na parte de trás quilômetros de campos de plantação de algodão. Agora davam para a autoestrada 9, que era provavelmente a única coisa que tinha mudado aqui.

Peguei um donut velho da caixa que estava no chão do carro.

— Você fez upload de uma música esquisita no meu iPod ontem à noite?

— Que música? O que acha dessa aqui? — Naruto aumentou o som da mais recente faixa demo da banda.

— Acho que precisa ser trabalhada. Como todas suas outras músicas. — Era a mais ou menos mesma coisa que eu dizia todo dia.

— É, seu rosto vai precisar ser trabalhado depois que eu der umas porradas em você. — Era mais ou menos a mesma coisa que ele dizia todo dia.

Dei uma olhada na minha lista de músicas.

— A tal música, acho que o nome era algo do tipo "Dezesseis Luas".

— Não sei do que está falando. — Não estava lá. A música havia sumido, mas eu acabara de ouvi-la naquela manhã. E sabia que não tinha imaginado porque ela ainda estava na minha cabeça.

— Se você quer ouvir uma música, vou botar uma nova. — Naruto olhou para baixo para encontrar a música.

— Ei, cara, olhe para frente.

Mas ele não ergueu o olhar, e com o canto do meu olho, vi um estranho carro passar na frente do nosso... Por um segundo, os sons da rua e da chuva e de Naruto se dissolveram no silêncio, e era como se tudo estivesse se movendo em câmera lenta. Eu não conseguia desgrudar os olhos do carro. Era só uma sensação, não uma coisa que conseguisse descrever. E então ele passou por nós, virando em outra direção. Não reconheci o carro. Nunca o tinha visto antes. Vocês não podem imaginar o quanto isso é impossível, porque eu conhecia cada carro na cidade. Não havia turistas nessa época do ano. Ninguém se arriscaria na temporada de furacões.

Esse carro era longo e preto, como um rabecão. Na verdade, eu estava bem certo de que era um rabecão. Talvez fosse um presságio. Talvez esse ano fosse ser pior do que eu pensava.

— Aqui está. "Bandana Negra." Essa música vai me tornar famoso.

Quando ele voltou a olhar para a frente, o carro tinha ido embora.

Notas finais
Se gostaram por favor deixem seu comentário. Não me deixem no escuro ;--;
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.