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1 -O garoto das três e meia


Notas iniciais
Oláááá, moços e moças
Esse aqui é um trabalho interessante, porque não fala só sobre yaoi e tal, mas também (pretendo) sobre como a sociedade julga um casal por, por exemplo, ter uma diferença de idade grande.
No ínicio era hétero, mas eu queria ver o circo pegar fogo, então é guei :D -qq
Mas enfim, espero que gostem ♥ ♥ ♥

Mappleline é uma cidade bem pacata, apenas uns 10.000 habitantes, e numa perspectiva até que exagerada, todos pessoinhas trabalhadoras e boas.

Ao menos na minha visão detrás da janela.

Não gosto muito de sair de casa, prefiro ler um livro e saborear um bom café. O máximo que aturo é atender alguns clientes na livraria, que está mais para um sebo desde que um shopping abriu há algumas ruas. Ele trouxe uma daquelas livrarias grandes com ele, daquelas que tem tudo, desde box de série até livrinhos de bolso de tirinhas das do Garfield.

Claro que o movimento não estagnou, há uma escola há algumas quadras daqui. O público é mais professores e algumas outras que estão procurando alguma coisa interessante tipo Sartre, Freud ou alguma coisa assim para passarem suas noites solitárias, mas também tem uns alunos que vêm procurando um ou outro livro de magia negra, porque, convenhamos, esse lugar está caindo aos pedaços por fora, parece mais um antro de macumba.

Por dentro ainda é aconchegante. É pequeno, com as estantes juntas e apenas alguns espaços para leitura, além do meu amado balcão. A iluminação é levemente amarelada e sempre faz parecer que está de noite, acho perfeito.

Eu geralmente passo meu dia esparramado sobre o balcão, ouvindo música e lendo alguma coisa. Meu pai vem reclamar algumas vezes por dia – quando fica afim de sair da saleta de contabilidades/escritório — mas geralmente tudo é resolvido rápido. Eu almoço lá pelo meio da tarde porque passo o dia cheio de café, meu grande vício.

Naquele dia em especial, já era umas três horas e alguma coisa, eu já estava no último capítulo do livro que estava lendo e que tinha começado naquela manhã. Naquele ritmo eu iria ler tudo daquelas estantes.

Já era o horário que os estudantes costumavam chegar, e eu vi uma pequena horda vindo em direção à loja. Eles entraram com certo estrondo na loja, já que a porta tinha um daqueles malditos sininhos e eles entrando fazia ele tocar a cada cinco segundos.

Depois começou o burburinho que eles adoram fazer, jovens adoram burburinhos, sempre tem o que conversar, nunca importa onde eles estão. Por isso meu silêncio amado morreu naquele momento. Eles começaram a mexer nas estantes e se espalhar pela loja. Algumas meninas vinham me perguntar onde estavam coisas bem óbvias. Nunca tive certeza, mas já houve quem dissesse que algumas eram apaixonadas por mim. Ao que parece, nerds introspectivos de óculos estão moda, correto?

Nunca me considerei bonito, principalmente depois da minha saudosa época do colégio em que faziam aquela piadinha inteligentíssima do “quatro olhos”. A nostalgia é tamanha que ninguém poderia imaginar, uau.

O último garoto a entrar estava conversando, apesar de parecer ser quieto. Eu também não entendo minhas conclusões às vezes, tudo bem.

Ele tinha um cabelo ruivo adorável, bem claro, e também estava cercado de algumas pessoas.

No momento que eu estava analisando as pessoas, senti o olhar dele sobre mim. É. Ele estava me encarando. Pode parecer meio ameaçador com a expressão “encarando” mas ele mais parecia um coelhinho assustado.

Assim eu o olhei de volta, ele desviou o olhar. Não vejo um assim desde que não vejo uma menina.

Duas horas se passaram e os que estavam lá para comprar alguma coisa já tinham ido, os que só foram pela conversa e pra passar um tempo já tinham ido. As únicas pessoas que ainda estavam lá eram uma menina de óculos e trança que estava lendo alguma coisa muito compenetrada e eu a conhecia – acho até que seu nome era Cornelia ou algo assim -, era uma garota inteligente que passava horas na livraria toda semana. A outra era o menino-coelho ruivo.

Tamborilei os dedos no balcão, meu café tinha acabado e eu já estava com fome. A Cornelia eu deixava de boa, era capaz nem de perceber que eu tinha saído, mas o menino eu não sabia. Nunca o tinha visto.

De repente, a garota olhou o celular e fez uma cara de espanto. Veio até o balcão rapidamente e jogou umas notas amassadas lá.

-“Em busca do tempo perdido”, de Proust, custa uns vinte dólares, né? Se não tiver o suficiente aí, me fale amanhã! – ela falou isso muito rápido, muito mesmo, e enfiou o livro na bolsa com pressa, correndo em direção à porta logo depois.

-Ei, menina! Aqui tem uns cinquenta dó- e porta bateu

O garotinho ruivo levantou a cabeça.

-Se quiser... Posso dar o troco à ela... Ela é da minha sala...– murmurou

-Seria ótimo – dei um sorriso rápido – Mas não precisa, ela vem aqui todo dia, além de que eu a conheço levemente. Obrigada.

Ele deu um sorriso de volta. Ele tinha uma covinha na bochecha esquerda.

-Então, eu acho que... Já vou... – murmurou. Acho que ele gostava de falar meio resmungando.

-Boa tarde, senhor cliente – dei mais um sorriso pra ver se ele saia da concha. Ou saia da concha, ou saia correndo, porque meu sorriso não é lá dos melhores.

-Elliot – ele disse um pouquinho mais alto enquanto se levantava e ia em direção à porta.

-Prazer. Sou Benjamin.

E juro que ouvi um “eu sei” antes que a porta se fechasse, mas tenho certeza que foi o vento.

Notas finais
Review? :3
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.