O LADO MAIS FRACO.

Vinicius sempre foi um menino diferente dos demais da sua idade. Ele não se preocupava com festinhas, roupas novas, celular de última geração, se ele pudesse ouvir suas músicas e atender as ligações de sua mãe, então já estava bom. A única coisa que ele fazia questão de sempre manter atualizado era o seu vídeo game, que ele chamava de irmão mais novo. Adorava animais, para ele, os bichos eram uma forma pura de amor. Ninguém precisa fingir ser o que não é para conseguir o amor de um animal. Se o tratar bem, ele vai te amar de um jeito que poucos humanos conhecem. Além dos dois cachorros, ele tinha um gato, uma cacatua de nome Jack, dois hamisters que ele pra abusar a irmã mais nova, os batizou de Diego e Anitta, nome de dois ídolos pop da irmã caçula.

Para um garoto de 15 anos, ele via a vida de outro jeito, tinha seus momentos de rebeldia, de teimosia e preguiça mas nada comparado a atual juventude. O pai dele trabalhava em outro estado e eles só se viam a cada três meses quando o pai tinha uma semana de folga. A relação dos dois era normal. Vinicius era o irmão do meio e como todo irmão do meio, vivia com a metade da atenção dos pais, afinal eles tinham o primogênito para se orgulhar e a caçula para mimar.

Nunca havia namorado, não por falta de pretendentes, já que um menino de quinze anos, cabelos pretos, olhos azuis e corpo em forma, é cheio de meninas ao redor. Já havia ficado com algumas, principalmente por conta das famosas brincadeiras de garrafa na garagem da casa dos amigos. Mas uma, em especial, era o tormento dele, Leticia, uma menina linda da sua sala mas com uma fama nem tão linda assim. Diziam que ela saia com todos os meninos, isso nunca foi motivo para Vinicius não falar com ela, o problema é que ela queria muito mais do que apenas conversar com ele. Ela era de fato vidrada nele.

O melhor amigo de Vinicius é o menino mais alto da sala e também o mais problemático, adorava procurar motivo no intervalo para brigar com alguém no final do dia na porta do colégio. Era um repetente de 17 anos, machista e cheio de preconceitos, de família rica e poderosa na cidade. Era conhecido como “Pedro a Pedra”, devido a força dos socos que dava nos mais fracos. Uma vez ele foi suspenso por agredir um menino do segundo ano só pelo fato do garoto ter traços “gentis demais” para um homem. Os amigos em comum dos dois, não fazem idéia do porque eles serem tão amigos, afinal são muito diferentes. Como se Pedro fosse o que Vinicius jamais seria e vice-versa. Como toda amizade verdadeira, ela começa de um jeito simples, as vezes até imperceptível. Há dois anos, na sétima série, Vinicius defendia Pedro – que estava no primeiro ano, da acusação da professora de que ele tinha colocado vodka no bebedouro do segundo pavilhão, onde metade dos alunos, do terceirão, estavam bêbados. Dois anos depois, os papéis se inverteram e Vinicius passa a ser protegido por Pedro, agora mais velho e ainda mais repetente.

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ENTENDIMENTO.

Naquela quarta-feira, o dia parecia não passar, Vinicius ficou a manhã toda sentado na cadeira da sorveteria em frente ao seu colégio, pensando na noite anterior, no que aconteceu, na maneira que aconteceu. Ele não conseguia entender, pior ainda aceitar que por um momento ele desejou aquilo. Mas aquele momento foi interrompido pelo barulho da sirene do colégio que avisava o término da penúltima aula do turno e consequentemente o término também da educação física dos alunos do vespertino. Vinicius decidiu então entrar no colégio e esperar pelo início das aulas vespertinas pois ele sabia que após o vestiário, todos da sua classe iriam para aquela sorveteria e ele não estava disposto a conversas forçadas.

Entrou no colégio e foi direto para o fundo da cantina. Um lugar que ele sabia que ninguém iria aparecer. Um lugar que ele sempre ia para fugir de situações chatas ou simplesmente ouvir suas músicas em paz. Mas paz era tudo que ele não estava sentindo, mesmo assim ele adormeceu deitado na grama.

As aulas do vespertino começa às 13h:15m. Vinicius acordou com o celular tocando. Era Pedro pra saber onde ele estava pois já tinha perdido a primeira aula de espanhol. Foi então que Vini percebeu que já era 14h:05m e pela primeira vez um aluno chegaria atrasado em uma aula, estando horas antes já dentro do colégio. Mesmo atrasado, ele não teve pressa em ir pra sala, aproveitou e comprou seu doce favorito. Ao entrar na sala, se bateu de frente com Mikhail, ao contrário do outro dia, Mika estava sentado na primeira fila e não no fundo da sala. Ele passou por Mika, quase que os braços se tocaram. Foram 10 segundos intermináveis, entre o olhar, o fechar da porta e ir sentar. Como se toda a sala estivesse em câmera lenta para que eles tivessem mais tempo de se olharem porém Mika ficou de cabeça baixa. Ele estava com vergonha e com medo e Vinicius entendia bem os motivos. Por isso mesmo ele passou direto e foi para o fundo da sala enquanto a professora perguntava o motivo de seu atraso. Às 15h:30m, a sirene tocou avisando o início do intervalo, fazendo com que todos saíssem da sala, todos, menos aqueles dois meninos envergonhados. Pedro chamou Vinicius para lanchar mas ele preferiu não sair e pediu para o amigo trazer o doce que ele mais gostava quando retornasse meia hora depois para o início da penúltima aula.

Duas pessoas na sala, dois meninos, sentados em fila. O único barulho era do ar condicionado e dos desesperados do lado de fora. Mikhail tremia de nervoso, ele desejava ainda mais o que aconteceu na noite anterior. Ele tinha sentado bem abaixo do ar condicionado e seu corpo estava gelado. Tudo que ele queria era poder falar com Vinicius, pedir desculpas, ou qualquer coisa que não afastasse os dois. Ele não tinha reparado que não estava sozinho. Ele queria chorar mas algo o impedia, os olhos cheios de lágrimas porém teimando em cair. Até que sua nuca gelada sentiu o toque quente e macio de uma mão que subia pelos seus cabelos. Foi quando a lágrima finalmente caiu. Em um momento de susto, Mika pulou da cadeira e enxugou os olhos rapidamente e ao olhar para trás, pôde ver Vinicius em pé ainda com a mão estendida.

— Desculpe, eu não percebi que tinha mais gente na sala.- Disse Mika surpreso em vê-lo e ainda mais surpreso pelo amigo ter ido falar com ele.

— Desculpe se te assustei, não foi por querer. Só ia perguntar se você não esta com fome. — Falou Vinicius sem conseguir esconder também o nervosismo.

— Eu estou um pouco mas não como carne e os lanches da escola ou tem salsicha ou tem presunto.

E assim o clima tenso se desfez e eles ficaram mais a vontade.

— Por que sentou na frente hoje? — Perguntou Vini.

— Por medo, eu sei que aqui no colégio não tem grêmio estudantil e essa foi a desculpa que você deu para a minha mãe. Fiquei com medo de você me evitar, de não falar comigo. Por isso preferir sentar na frente pra que você não se sentisse forçado a tentar uma aproximação. Como sempre, fui idiota ao pensar assim. — Ainda sem ter coragem de olhar nos olhos do amigo, Mika explicou para ele os motivos e ficou ainda mais surpreso com o que ouviu.

— Não, não tenha medo. Por qual motivo eu te evitaria? Eu pensei muito sobre o que aconteceu, e percebi que não foi nada absurdo. Eu não sei ainda o que senti ou o que sinto. É algo novo para mim mas isso não faz com que eu te evite ou deixe de falar com você. Então não tenha medo, certo? – Ao terminar de falar, Vinicius estendeu a mão para o amigo e o chamou para ir na cantina procurar algo que ele quisesse comer.

Ao chegarem na cantina, viram uma rodinha de alunos gritando e no centro, dois meninos brigando. Vinicius correu pensando que seria Pedro, mas para a sua surpresa, eram meninos do fundamental que brigavam por causa de um jogo de cards.

— Essas crianças... – Disse Petrus, chegando por trás de Vinicius. Petrus era um apelido que Pedro ganhou na aula de filosofia.

— Primeira briga esse ano no colégio que você não estar envolvido. –Falou Vini com um tom sarcástico.

Pedro deu de ombros e entregou um doce ao amigo. – Você é mesmo tão valentão assim? – Perguntou Mikhail. – E quem é esse ai? Devolveu Pedro apontando para o tímido novato.

— Ele é o novato, mas não comece a implicância, ele é nosso amigo. – Vinicius tratou de defender logo pois sabia o quanto seu amigo valentão adorava pegar no pé dos novatos.

— Por mim tudo bem, é bom que pela cara de nerd, ele pode me ajudar em física. – e terminando de falar, todos viraram para a cena de briga que estava sendo interrompida pelas mulheres da limpeza.

— ACABOU O SHOW! – gritou a tia da limpeza – Voltem para a sala de vocês, e os dois mocinhos aqui vão terminar essa briga na diretoria.

Após o fim do intervalo, todos os alunos retornaram para as suas salas e a tarde letiva se encerrou sem mais nenhuma novidade.

No portão, todos se despediram. – Você vai de ônibus? – Perguntou Vinicius. – Eu gosto de ir andando pela rua da fonte. No caminho tem uma pracinha, e tem muitas arvores. Às vezes vou pra lá de manhã. – Respondeu Mika.

— Já passei por essa praça mas nunca reparei nela. Eu sempre vou pela rua de trás mas hoje vou com você, e também não gosto de ir de ônibus. – Saíram os dois pela rua da fonte. Mikhail falava o tempo todo, já Vinicius mais ouvia do que falava.

Quando mal perceberam, já estavam na casa de Mika, os dois se despediram com um aceno. Vinicius colocou os fones e seguiu para a sua casa, sem perceber que da varanda, Mikhail ficou olhando ele ir embora e sumir ao dobrar na esquina.

No outro dia, foi tudo normal, aula pela tarde, risadas no intervalo, Pedro na diretoria, mais um trabalho em dupla para o final de semana. A diferença dessa vez é que Petrus iria fazer dupla com uma menina que ele estava afim e que seu ex-parceiro de trabalho, Vinicius, iria formar dupla com o menino de sorriso mais lindo de todo o colégio.

Ao final da aula, a diretoria anunciou no sistema de som que não teriam mais sábados letivos esse semestre pois o colégio iria passar por reformas durante os finais de semana para melhor receber os eventos de final de ano. Noticia essa recebida com festa por todo o colégio, inclusive entre os professores.

— Graças a Deus vou voltar a jogar meu futebol, sábado de manhã. — Disse um dos meninos do fundão. – Acho que vai ser difícil me acostumar a não acordar tão cedo nos sábados. – falou Leticia. Nesse momento, Bruna se levantou e falou para toda a sala, — Pessoal, próxima quinta é meu aniversário, mas vou comemorar no sábado, no sitio do meu avô. Vamos dormir lá, então se preparem, vamos sair de minha casa sábado de manhã. Meu pai vai alugar um carro para levar a gente. – quase a sala toda gostou da noticia, os meninos sabiam que era a oportunidade perfeita para as famosas brincadeiras de garrafa, bebidas e pegação. – Você vai? – perguntou Mika à Vinicius. – Provavelmente não. Eu sei bem como funciona esses aniversários e sei bem quem não vai faltar. – respondeu Vinicius olhando para Leticia, que devolvia o olhar acompanhado de um sorriso um tanto malicioso.

Não teve um que não saiu da sala comemorando por não ter que ir para o colégio no sábado.

Os meninos foram em direção ao portão. Planejando o que fariam no final de semana.

— Eu acho que vou chamar a Bianca pra sair. – disse Pedro.

— Eu ainda não sei o que vou fazer amanhã, mas certamente vou ficar em casa. Comprei um jogo novo e quero zerar ele. – falou Mikhail.

— Mais um jogo que você perderá para mim, pato. Se sua mãe fizer outro bolo daquele, pode me convidar. – disse Vinicius se gabando.

Pedro entrou no carro do pai e os outros foram andando pela rua da fonte. Foram o caminho todo conversando sobre jogos, animes e filmes até que Mikhail ouviu um barulho estranho.

Notas finais
Desculpem a demora na atualização. Os próximos capítulos não irão demorar tanto para sair