15:30 A história de um amor.
3 Relação a três
RELAÇÃO A TRÊS.
— Está ouvindo esse barulho? Perguntou Mika e antes mesmo de Vinicius responder, ele correu para o muro de um terreno abandonado.
— Tem alguma coisa do outro lado. – disse Mikhail meio sem fôlego.
— Como assim? Você acha que tem alguém atrás do muro? – perguntou Vinicius totalmente sem entender o que estava acontecendo.
—Não alguém, mas alguma coisa. – falou Mika, deixando o amigo ainda mais confuso. – Vinicius, você pode pular o muro e ver o que é? – suplicou o ofegante garoto.
—Poder eu posso, mas será que não terá problemas?
— A rua tá deserta ninguém irá ver. Por favor!
— OK, eu pulo, mas fica de olho e se alguém aparecer, você faz um sinal. – não só pela habilidade, mas também pelo medo de ser visto, Vinicius pulou rapidamente o muro e antes que Mikhail pudesse falar qualquer coisa, ele já foi logo falando. – Meu Deus! Que maldade! – ficando em total silêncio mesmo com o amigo do outro lado do muro perguntando insistentemente se estava tudo bem.
De repente Vinicius aparece escalando o muro de volta com um embrulho nas mãos. Ao pular, ele entrega o saco para Mika e começa a se limpar.
Era difícil distinguir quais olhos brilhavam mais. Os de Mikhail, ao ver o que tinha dentro do saco, ou os do gatinho que parecia entender que havia sido salvo de uma morte lenta e cruel.
— Que fofo! Um filhotinho.
— Alguém muito ruim os colocou nesse saco e os atiraram pelo muro.
— Atiraram? Então tem mais?
— Infelizmente não. O outro filhote está morto. Eu demorei porque resolvi enterrá-lo. – Vinicius estava revoltado com a crueldade da pessoa que fez aquilo.
A essa hora, o gato já estava bem acomodado nos braços de Mika. – Vamos levá-lo para casa. Lá a gente dá comida a ele. – disse Mika bastante animado com o novo amiguinho no colo. – Ah, temos que dar um nome a ele. – completou.
Os dois foram o resto do caminho falando sobre a crueldade em abandonar pequenos animais tão indefesos e pensando em um provável nome para aquela bola de pelos amarela.
Não é fácil levar um gato no colo, mas aquele animalzinho realmente parecia entender que aqueles dois meninos tinham salvado a sua vida. Ao chegarem na casa de Mikhail, os meninos foram direto para o quintal, enquanto Vinicius segurava o gato, Mika corria para a cozinha e pegava um pouco de leite encima do fogão e colocava em um pratinho. A fome do gatinho chegava a emocionar, como se aquela fosse a primeira refeição depois de um dia inteiro com fome.
—Lá em casa já tem muito animal, minha mãe não vai deixar eu levar mais um.
— Tudo bem! Ele vai morar aqui agora e você pode vim visitá-lo. Minha mãe não vai achar ruim. Mas como vamos chamar nosso primeiro filho?
— Filho? – perguntou Vini assustado. — Como assim nosso filho?
— Ora, nós o salvamos. Eu ouvi o grito de socorro dele e você pulou o muro. Ele é nosso filho agora.
— Hum, ok, mas com duas condições. Não venha me pedir pensão e você será a mãe. – nesse momento todos os dois caíram na risada e ficaram olhando o esfomeado filhote lambendo o prato após beber todo o leite.
— Mas agora eu tenho que ir. Prometi ajudar minha mãe com a limpeza da garagem. Meu pai chega amanhã.
Vinicius percebeu que o amigo baixou a cabeça quando o ouviu falar do pai, mas preferiu não comentar nada. Os dois se despediram e Mika ficou no quintal acariciando o novo filhote.
Quando a mãe de Mikhail chegou em casa, foi recebida por uma bolinha de pelos amarela que miava de forma fina e insistente.
— Olá, amiguinho! Como você entrou aqui?
— Oi, mãe. Ele é meu! Na verdade é meu e de Vinicius. Achamos ele abandonado em um terreno e o salvamos.
— Que crueldade abandonar uma bolinha fofa dessas. Ok, você pode ficar com ele, mas a ração e os remédios serão descontados da sua mesada.
Ao contrário do que Carla esperava, o filho não reclamou nem contestou, e isso foi suficiente para ela entender que Mikhail teria a responsabilidade em criar aquele ser vivo tão pequeno e indefeso.
Com o gatinho nos braços, Mika subiu as escadas em direção ao seu quarto com mil ideias de nomes para por no filhote, mas ele queria a opinião do “pai” do bichinho.
Qual a influência que um animal pode fazer na vida de uma pessoa? Para muitos, a principal característica que um animal pode oferecer é o amor incondicional, mas esses dois meninos aprenderão algo que jamais irão esquecer.
A noite foi chegando ao fim, a cor alaranjada de um dia nascendo surgia no céu. Mikhail dormia um sono leve, de bruços, de pijama, corpo todo coberto com a porta do quarto aberta, aos pés da cama uma pequena criatura brincava com uma bolinha de papel. Na rua de trás, em um quarto iluminado pela luz da tela do notebook, em um sono pesado dormia Vinicius, sem camisa, fones no ouvido, apenas as pernas cobertas. Em comum, os dois tinham somente a paz de um sono tranquilo. Eram meninos com gostos e jeitos bem distintos. Mas até quando?
Vinicius, cabelos pretos lisos, olhos azuis, com uma barba ralinha começando a nascer, com gosto musical voltado a musicas de décadas atrás, preferia piscina à praia. Não era muito de comidas saudáveis, preferia comer besteiras o dia todo, gostava de esportes e preferia não chamar muito atenção por onde passava. Não se considerava tímido, apenas não gostava de ser observado. Não gosta de tirar fotos e nem de reuniões em família. As festas de fim de ano eram uma tortura para ele.
Mikhail, pelo contrario, era um menino que falava com todos, dava bom dia até para as arvores. Cabelos cacheados que cobriam sua testa, olhos cor de mel, rosto lisinho. Vegetariano, evitava comer também coisas gordurosas, não por vaidade pra não engordar, mas por simplesmente não achar saudável. Com um celular modelo novo, repleto de musica pop atuais, e fotos. Ele amava registrar tudo com a câmera do celular. Gostava de ver a família reunida, adorava inclusive àquela tia chata que só aparece em aniversários e velórios e reclama o tempo todo da vida. Não era acostumado a praticar exercícios, mas não dispensava uma boa caminhada de vez em quando.
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