15-11-16

1 Capítulo único


Inspire. Respire. Inspire. Respire. Inspire. Respire.

Minha mente, antes barulhenta e poluída, o que já havia me custado dezenas de noites de sono, agora se limitava em narrar o movimento cansado da minha respiração. Eu havia me acostumado a sempre estar em constante e frenético movimento. Acordava às 5h, mas já pensando no que deveria fazer ao fim do dia. Toda aquela inquietação e pânico, muitas vezes causados por acontecimentos que muitas pessoas definem por cotidianos. Às vezes, uma palavra dita, ou um olhar interpretado erroneamente, era o suficiente para acabar com o meu dia, minha semana e talvez minha vida. Cansei — me de passar madrugadas em claro revivendo alguma memória de anos e anos atrás, muitas vezes boba, mas que eu julgava como extremamente vergonhosa. Unhas roídas, dentes rangidos, mãos trêmulas, coração disparado, respiração ofegante e uma mente turbulenta. Não que fosse bom, porque viver em constante agonia e stress chega a ser algo insuportável. Mas porque agora eu experimentava o extremo oposto.
Meus olhos se limitavam em tentar reler o mesmo parágrafo pela milionésima vez. O livro, que fazia parte da coleção do meu irmão mais velho, era realmente bom, mas parecia que nada era capaz de me fazer sentir algo. Não, eu não havia sido tomada pela tristeza. Eu apenas não conseguia sentir nada. Era como se meus sentimentos tivessem sido sugados por um gigantesco e obscuro buraco negro, e o que restava, era um simples e eterno vazio. Às vezes eu sentia uma leve irritação por uma coisinha boba, mas na maior parte do tempo, eu não conseguia esboçar reação alguma. Meus pensamentos, antes desorganizados, agora praticamente não existiam. Minhas vontades e desejos, outrora incontroláveis, nesse momento pareciam ter ido junto aos meus sentimentos, para algum lugar fora do meu alcance. Eu era capaz de sorrir e me relacionar com pessoas, mas quando eu voltava a me encontrar em minha própria companhia, outra vez era arrebatada pelo estado do "nada". E assim, comecei a optar por nem tentar sair disso. Afinal, não importava o quanto eu corresse, ele sempre me alcançava, no fim das contas.
Na noite anterior, eu havia puxado assunto com todas as pessoas de que me sentia distante por algum motivo, mas o que antes, começou com uma grande euforia, de repente se tornou algo desnecessário, irracional. Não pelas pessoas, porque estas eram extremamente divertidas, mas era como se todos os motivos que eu tive para iniciar aquelas conversas, tivessem perdido o sentido, e assim, começava mais um estado de "nada". Antes, eu faria o máximo para mostrar que estava ótima, afinal, eu odiaria preocupá-las. Mas depois, eu me tornei o mais transparente possível, com respostas curtas e frases simples. Era visível a minha falta de entusiasmo. Nem o garoto por quem eu era apaixonada, foi capaz de me tirar desse transe. Possuidor dos olhos mais profundos e tempestuosos que eu já havia visto, era ele que assombrava meus pensamentos nos momentos mais remotos dos meus dias. Se a nossa troca de palavras se passasse na semana anterior, eu provavelmente teria sido torturada pela demora dele para me responder. Chegava a contar os segundos que ele levava para enviar cada mensagem, e então, passei a nem notar esse fato. Não por ter me tornado uma pessoa paciente, mas por não conseguir me importar com isso. Aquele sorriso bobo e incontrolável que surgia a cada notificação do celular, deu lugar a minha melhor cara de paisagem. E o mesmo se aplicava a todas as outras janelas de bate — papo.
De repente, me vi refletindo sobre quem eu era antes, e em quem eu estava me transformando. Um ser resumido em impaciência, ciúmes, inquietação, vaidade e sentimentos exacerbados. Meu cérebro formulava as frases antes que minha boca pudesse falar, então eu dificilmente conseguia externar o que sentia e queria à outras pessoas. Sentia tanto, que chegava a ser demais para aguentar. Como se estivesse em mim, os sentimentos meus e de mais 10 pessoas. Chorava, sorria e gritava por qualquer razão. Cansei de ser torturada pela minha própria paranóia, ao me pegar imaginando aquele olhar se deleitando com uma visão mais atraente do que a minha. Alguém com um sorriso perfeito, curvas salientes, um cabelo longo que dança acompanhando o movimento do vento. De 100% de mim, eu podia afirmar que 70% eram ciúmes. Às vezes nem existia a possibilidade algo de acontecer, mas eu já estava surtando e sofrendo por aquilo. Mas agora, eu passei a me conformar com as situações. Porque eu pensava que, se eu não consigo me fazer feliz, como posso querer estar em um relacionamento? Concluindo assim, que ele estaria muito melhor com qualquer outra, do que comigo. Eu não havia deixado de amá-lo, mas parei de ter aquele sentimento de posse sobre o garoto. Então assim, parei de me esforçar para tentar ser a mais linda, arrumada, divertida e agradável, não por me aceitar como sou, mas porque não fazia diferença alguma para mim. Se eu desisti de tentar conquistá — lo, porque insistir em ser alguém que eu nunca seria? Então passou a ser comum me ver desarrumada e agindo friamente com ele. Se fosse anteriormente, eu estaria feliz, por achar que estava amadurecendo, mas eu sabia que isso era algo destrutivo, capaz de me matar silenciosamente, como uma bomba de gás.
Acordei no dia de hoje pensando seriamente em não deixar o conforto da minha cama. Eu não queria ver pessoas, muito menos ter qualquer tipo de interação social. Eu preferia ficar deitada, encarando o teto do meu quarto, e com a mente completamente silenciosa. Algumas pessoas me chamaram para sair, mas eu preferi não desfrutar da companhia delas. Algo dentro de mim, me dizia que não mudaria em nada o modo como eu me sentia. As pessoas ao meu redor poderiam ser divididas em dois grupos: O primeiro, que não conhece minha condição, então age como de costume comigo; E o outro, só sabe pisar em ovos. Tudo que fala e faz, é da forma mais cuidadosa possível, como se o simples fato de eu querer ficar distante, fosse o suficiente para mandar uma ambulância à minha casa, pois eu estaria a ponto de cometer suicídio. Isso é extremamente frustrante, porque faz eu me arrepender de compartilhar as minhas frustrações com outro alguém. Quer me ajudar? Me dê suporte, faça com que eu me sinta amada e útil, seja sincero, não se preocupe em me magoar nesse sentido. E por último, não fiquei constantemente me perguntando se estou bem. Isso é muito chato, porque às vezes, a única coisa que eu preciso é organizar as minhas idéias. Não insista em estar comigo nesses momentos, mas mostre que estará ali por mim, quando eu me sentir confortável e quiser socializar novamente. Mas se eu te procurar, não se mostre indiferente, me dê o abraço e a palavra amiga de que eu tanto estarei precisando.
Respirei fundo e voltei para o presente. Notei que havia fechado o livro em um ato inconsciente, e agora não sabia o que iria fazer. Fui até a minha cozinha, peguei um copo de café e tomei. Não parei para saborear, como costumava fazer, mas o ingeri da forma mais rápida possível. Aquele era o fruto à mim proibido. O que para muitos, é motivo de prazer, para a minha pessoa, era causa de uma intensificação nos sintomas da minha ansiedade. Só que por estar na situação contrária, tentei me sabotar, como último recurso. Pensei que assim, poderia retornar ao meu antigo eu. Problemático, mas eu. Quando vi, já me encontrava no terceiro copo. Retornei ao meu quarto, deitei — me em minha cama e esperei o início do show do circo de horrores. Em pouco tempo, senti meu coração acelerar, e percorrer meu corpo uma energia que não pertencia a mim. Logo conseguia agir da mesma maneira que eu costumava agir. Mas então notei que por dentro, eu continuava vazia. Os sentimentos não podiam ser retomados assim. Então eu me encontrei em um estado externo de euforia, mas interno de desprazer e descontentamento.
Incrível como em uma semana, eu havia mudado tanto. Era como se eu fosse o pior dos tornados, em seu ápice. Incontrolável, inconstante, incerto e avassalador. Que atingia tudo e todos ao seu redor, não deixando nada para trás. E em algum momento, o vento tivesse cessado completamente, e eu passasse a ser um campo seco, sem vida alguma, e com a temperatura ambiente. Não faz calor ou frio, e não há vento. Incapaz de retornar ao que, um dia fui. Por mais que eu saiba que, logo logo, a ajuda virá, não posso evitar me sentir assim. Presa em algo indefinível, como um cômodo sem portas e janelas. Não sei como entrei, e ainda não encontrei forma de sair. Vivendo uma constante incerteza de um futuro que talvez nem virá.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!