136
1 O início
— Que caro…
Comentei enquanto analisava os preços de um conjunto de canetas de álcool para colorir, custavam os olhos da cara mas com certeza iam ser um investimento para a minha vida artística.
— Pronto! Vai! – Cliquei no botão antes de mudar de ideias e tratei do pagamento. Já estava feito, agora era só esperar uma mera eternidade até que elas chegassem. Na verdade uma «mera eternidade» era pouco.
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É engraçado quando olhamos para trás e nos lembramos de como situações dessas conseguem trazer reviravoltas tão grandes para as nossas vidas, e devo dizer: pouco tem a ver com a minha vida artística. Deve ser o tal efeito borboleta, não? Quando algo tão pequeno trás consequências enormes. É, deve ser.
Bom, o tempo foi passando e a vida seguiu sem rumo normal, faculdade todos os dias, trabalho, comer, tentar dormir… um ciclo vicioso procurando desesperadamente por uma quebra qualquer mas eu nunca tinha tempo e as minhas amizades foram sumindo pouco a pouco conforme os anos foram passando. Não vi isso acontecendo, não sei a quem culpar, e para falar a verdade eu nem tento mais socializar como antes e nem é por nada, eu simplesmente…parei de precisar de pessoas constantemente ao meu redor.
Enfim, as coisas acontecem e a gente nem percebe porquê às vezes. Outras vezes elas acontecem de tal forma que até dá para considerar a existência do destino, e ele age das formas mais inusitadas possíveis.
Como eu ia dizendo, a vida seguiu o seu rumo normal até que a «mera eternidade» decidiu terminar e eu recebi um telefonema de um número estranho enquanto estava pintando um dos meus quadros no estúdio.
— Bom dia, com quem falo?
— Bom dia. Estou falando com a Clara?- disse um homem com uma voz bastante séria e com ares de pouca conversa.
— É… — respondi hesitando, não sabia do que se tratava.
— Chegou sua encomenda, terá que vir buscá-la aqui nos correios e pagar uma taxa nas alfândegas.
Que alívio.
— Que ótimo! Tá, eu vou para aí buscar.
Fiquei feliz por dois motivos: as minhas canetas finalmente tinham chegado e o telefonema não era de ninguém sinistro.
Arrumei os meus pincéis, coloquei o quadro para secar e dei uma limpada no rosto e nas mãos para tirar a tinta antes de sair. Não me aprumei muito, os correios não eram longe e seria bastante rápido.
Isso foi o que eu achava.
Cheguei lá toda feliz e fui direto para o balcão, esperando ser atendida depois dos que já estavam lá. Era meio estranho ali, nunca nenhuma encomenda minha tinha que passar pelas alfândegas e não sabia exatamente qual era o passo seguinte. Ia me virar.
A senhora do balcão tomou nota da minha encomenda e pediu que eu aguardasse por uns momentos até que fosse processada.
Olhei para a parede de vidro que separava os correios e a rua, o dia estava bem bonito, bastante sol mas estava fresco. Eu amava dias assim. Fiquei analisando as cores das folhas das árvores da calçada e as pessoas que passavam lá fora, até que algo mais captou os meus olhos. Um moço que eu nunca tinha visto antes.
Não é que eu conhecia todos naquela cidade de tamanho considerável, mas é que ele realmente não parecia dali, daquela minha cidade. Algo nele chamou a minha atenção e eu observei-o atentamente esperando que ele desaparecesse do meu alcance e eu pudesse lamentar internamente que eu nunca mais o viria. Até que o vi chegar cada vez mais perto da porta dos correios.
—Não, mentira…- pensei. – Ele está entrando!
Virei o meu rosto para frente e tentei evitar contacto visual ao máximo, entrei em um mini ataque de timidez disfarçado de orgulho. Pude ouvi-lo chegar perto do balcão e cumprimentar cada um dos que estavam ali, menos a mim obviamente… eu nem olhava para ele.
— Vai passar… fique calma…!!!- tentei me acalmar até que vi do canto do olho que ele ficou do meu lado, à menos de 10cm .
Depois de tanto tempo admito que as minhas capacidades sociais ficaram bastante…podres. Mas não imaginava que fosse tanto. O meu instinto foi agir como se ele não existisse!
Do canto do olho eu podia ver quando ele virava o rosto para o outro lado, e foi quando eu consegui analisar de perto aquele indivíduo. Algo que fez com que eu ficasse ainda mais nervosa. Ele era, talvez, o homem mais bonito que eu já tinha visto à minha frente.
Sua pele era clara, com alguns toques do sol. Imaginei logo que fosse alguém que gostasse de estar ao ar livre. O seu cabelo era formado por cachos largos de um castanho chocolate lindo! E os seus olhos…só pude notar os seus olhos quando ele virou para frente para falar com a senhora do balcão para perguntar algo, eram bem cinza. Era ligeiramente mais alto que eu e era magro, simples mas elegante.
Ele entrou logo na conversa com o resto das pessoas do balcão, falando do final de ano, reveillon, praias. E estava sempre, sempre sorrindo.
Eu não sei se mais alguem notou, eu sei que ele não, mas meus olhos não o largavam e eu analisava cada detalhe dele para poder me lembrar mais tarde e contar a alguém sobre como eu vi o moço mais bonito da minha vida até aquele momento.
— Você já foi antendida?- ele virou o rosto repentinamente para mim e acabou me pegando olhando para ele.
— Sim, sim! – respondi tentando parecer que não era nada. Ele sorriu e voltou para a conversa com os outros.
Suspirei internamente, esperando não ter exagerado na minha resposta.
— Desculpe, sabe me dizer se já veio uma encomenda da Itália para mim? – ele conseguiu chamar a atenção de um dos funcionários ali do balcão.
— Posso ver o bilhete?
— Sim, claro.- Ele pareceu um pouco incomodado, como se tivesse se esquecido de algo.
Ele tirou o celular do bolso e procurou pela foto no celular. Depois de alguns minutos ele encontrou e mostrou ao funcionário.
— Um momento, vou lá ver.
E a espera continuou, ele conversando com seu sotaque estrangeiro e eu fingindo que não ligava nenhuma para o moço que estava a 10cm de distância. Era difícil, minha vontade era dizer um olá mas ele estava conversando e eu não tinha coragem nenhuma…
— Clara, certo? – chegou a senhora que me antendeu, com uma caixa bem grandinha nas mãos. Era maior do que eu pensava.
— Sim sou eu.
— Devido ao peso e às dimensões da encomenda a gente tem que levar às alfândegas e teremos que abrir a caixa.
— Uhm…ok. – não conhecia esses procedimentos, mas eu sabia que não tinha nada de errado e por isso aceitei. – Tudo bem.
— O que tem aqui dentro? – chegou o homem das alfândegas com ar de quem queria intimidar. O que chamou a atenção dos que estavam ali, incluindo o moço ao meu lado.
— Canetas.
— Esse peso todo são só canetas?- perguntou enquanto tirava o seu canivete do bolso pronto para abrir a embalagem.
— Sim, são 80 canetas de álcool para colorir. Daí o peso. Eu faço ilustrações e pinturas como trabalho extra.
— Ah é? Artista?- ele abriu a caixa e viu que realmente eram canetas de colorir. Fiz até questão de abrir uma delas para mostrar que não tinha nada lá dentro para além de uma caneta normal.
— Mais alguma coisa? – perguntei.
— Agora vai ter que pagar a taxa.- ele fez as contas na calculadora e mostrou o preço.
— Nossa que roubo.- falei, não muito satisfeita, enquanto tirava o dinheiro do bolso.
— Pensei que o seu marido fosse pagar.
— Oi? Meu marido? – onde raios ele foi buscar essa ideia de meu marido?
— Ele não é seu marido? – apontou para o moço ao meu lado.
Quase engasguei, mas pude ver que ele deu uma risada da situação.
— Não, eu não o conheço. – respondi, tentando esconder que estava nervosa.
— Opa, desculpa.- disse o alfândega não muito arrependido. Cara debochado.
Paguei o que tinha que pagar, assinei o que tinha que assinar e enquanto isso acontecia o moço foi embora. A sua encomenda não tinha chegado ainda. Só me restava ir embora também, com um vazio no peito como se tivesse perdido algo mas pelo menos tinha as minhas canetas novas!
Tinha acabado de colocar o pé na rua e segundos depois ouço alguém se aproximando do meu lado novamente. Não pude acreditar que aquilo estava acontecendo, era ele de novo!
— Como você se chama? – perguntou diretamente.
— Clara…- ainda não estava acreditando naquilo. – Desculpe a pergunta, mas porque quis saber o meu nome assim de repente?
— Bem, eu espero que você não se importe. Eu sou escritor e escrevo sobre experiências do meu dia-a-dia, espero poder escrever sobre você se me der a permissão.
— Sobre mim…? – minha boca caiu na hora, como assim? Escrever sobre mim? O que pode um estranho escrever sobre outro estranho?
— Vai ser breve, não é todos os dias que eu tenho uma esposa hahah. Gostaria de poder me lembrar disso. – riu da sua prórpria piada sobre a situação de há pouco.
—Que engraçado. – tentei me fazer de séria mas não resisti em sorrir de leve. – Acho que não tem problema nenhum.
— Ótimo! Ah, o meu nome é Alessio. Prazer. – deu dois beijinhos no rosto como cumprimento. – Espero que não seja o nosso último contato.
Ele terminou o cumprimento com um aperto de mão, deixando um pedaço de papel na minha palma. Antes que eu pudesse fazer alguma coisa ele foi embora no carro que acabara de chegar, com outro moço lá dentro.
O papel tinha um número, mas não era de telefone. Era 136… Mais nada. O que poderia ser? Porque ele haveria de me dar um número desses sem nenhuma nota? Nem endereço, nada.
Naquele momento eu me perguntava: o que viria a seguir?
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