13 horses
1 13 horses
Notas iniciais
13 horses
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Prússia Oriental, 1929
“Você já pensou o que faz de nós nações?”
Distraída como estava, Hungria demorou um pouco para processar o que seu companheiro de viagem lhe perguntara. Ela e Prússia cavalgavam pelo interior da Masúria, indo em direção à Konigsberg. Andaram quietos durante um tempo, apenas apreciando a paisagem até que ele rompera o silêncio.
“...Por que está me perguntando isso?” Ela segurou as rédeas, emparelhando sua égua ao lado do alazão de Prússia para poder encará-lo.
“Hm, por nada.” Ele desviara o olhar para a estrada, mas suas sobrancelhas ainda estavam franzidas. “Não que alguém tão incrível como eu fique pensando essas coisas, é que- é, por nada mesmo.”
Depois de tantos anos de convivência, Hungria sabia que se ele se deu ao trabalho de perguntar a ela certamente era alguma coisa. Prússia tinha mania de guardar suas preocupações e sentimentos para si. Ela suspirou. Depois de tanto tempo ele ainda agia como quando eram crianças.
Vendo que ele não continuaria a conversa por conta própria, ela decidiu responder “Na verdade, nunca pensei seriamente sobre isso... Sempre aceitei que, depois que o velho Magyar se foi, eu era Magyarország.”
Continuaram cavalgando em silêncio por um tempo. Tudo estava em movimento ao redor deles: podia ver os camponeses se preparando para a colheita das batatas, crianças brincando à beira da estrada. Se concentrasse os ouvidos, podia ouvir o ronco de uma debulhadora ao longe... A vida frugal dessas pessoas lhe lembrava muito sua própria terra; aos poucos retornavam a velha rotina dos campos: arar, semear, colher... Ainda tinham muita dificuldade, pois as exigências do Tratado foram extremamente pesadas.
“West me perguntou isso há... um tempo atrás.” Durante a guerra, ela completou mentalmente.
“Hm... E você respondeu o quê?”
“Erm, eu- Eu nunca tinha me importado muito com isso também.” Ele limpou a garganta “Disse que éramos assim porque éramos.” Ela arqueou um sobrancelha e ele se apressou em completar. “Eu sei, eu sei, não foi a resposta mais incrível que eu poderia dar! Mas é que ele me pegou de surpresa...” Hungria não pode deixar de rir dos lábios apertados de Prússia; ele realmente ainda era como aquele garoto brigão de antigamente.
“Hei, não ria! Eu não respondi dessa vez, mas como o irmão mais velho incrível que sou vou ter algo muito bom para responder da próxima vez que nos encontrarmos!”
Voltaram a ficar em silêncio, Hungria pensando no que ele acabara de falar e Prússia distraído com um passarinho que voava próximo a sua cabeça. Desde o final da Guerra muita coisa mudou... Alemanha e Prússia estavam divididos por Polônia, que finalmente tinha uma casa só dele em muito tempo. Ela mesma agora estava separada de Áustria – embora ainda dependesse de sua ajuda, quase que constantemente, suspirou triste.
“Você se preocupa demais... Pelo que eu sei, Alemanha está cada vez melhor...” Ela o confortou, dando uma leve cotovelada em seu braço.
“É claro que está! Eu ensinei tudo o que ele sabe! Com certeza, quando tiver a minha idade, ele vai ser tão incrível quanto eu!” Prússia decidiu encerrar o assunto por ali e arrancou com o alazão em um trote rápido. “Agora é melhor se apressar se não quiser comer poeira, saumensch!”
“Ora, seu-!” Ela deu um leve tranco e a égua começou a correr tão velozmente quanto o outro cavalo.
De fato, muita coisa havia mudado. Mas estar ali com Prússia a fazia lembrar de seus tempos de infância, quando saíam cavalgando com suas espadas de madeira pelos campos de sua terra, para depois seguirem para a batalha de verdade. Eram poucas as vezes que se permitia admirar o outro – até porque não gostaria de inflar ainda mais o ego de Prússia -, mas não pode deixar de sorrir ao vê-lo com os cabelos desarrumados pelo vento, a face contorcida numa expressão de pura concentração. Talvez ele tenha percebido sua observação, talvez apenas estivesse apreciando aquele momento de liberdade, mas quando se virou para encará-la ele riu daquela forma característica que conseguia irritá-la e diverti-la ao mesmo tempo.
Talvez porque ele lhe lembrasse tanto aquele menino bobo que era, talvez porque fazia tempo que não se sentia tão bem, ela não pode evitar rir também.
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Correram até ficar sem fôlego de tanto rir. Chegaram até um bosque de bétulas e continuaram a cavalgar até uma pequena clareira. Já era quase meio-dia, então pararam para almoçar e descansar os cavalos. Tiraram os arreios e amarraram cada um em uma árvore. Hungria buscou em sua sacola de provisões alguns lanches que trouxe para a viagem, enquanto Prússia tirava um punhado de feno da sua para dar aos cavalos.
Estendeu uma toalha e sentou-se para comer. Prússia preferiu recostar-se no tronco branco de uma das árvores, aproveitando a sombra que esta lhe oferecia. Parecia que permaneceriam mais um tempo em silêncio, mas Prússia mal terminara de mastigar a primeira mordida quando disse. “Uma vez escreveram sobre mim... Me chamaram de ‘espírito de luta’”.
“Hm?” Foi o que pode oferecer como resposta. Prússia deu de ombros e continuou “Bem... Não sou um espírito, mas gosto de lutar. E sou bom em seguir ordens, como um passarinho!” Riu de sua própria conclusão e voltou a comer.
Hungria revirou os olhos e preferiu não comentar. Voltou sua atenção para o céu de um azul tão límpido, emoldurado pelos galhos das bétulas. Observou algumas folhas que se soltaram e que caíam suavemente. Era difícil lembrar-se de que era uma nação quando aproveitava momentos como esse, onde podia relaxar de uma forma tão humana. Terminou de comer e deitou-se sobre a toalha. Fechou os olhos e aproveitou a leve brisa, escutando os eventuais relinchos dos cavalos e o farfalhar das folhas.
Era verdade que estavam presentes nas batalhas. Além disso, estavam submetidos às ordens de seus chefes... Mas não viviam só de lutas. Mesmo Prússia, briguento e teimoso do jeito que era, não podia negar que momentos tranquilos como este, o entreciclo entre o tempo do plantio e da colheita, as viagens pelo interior... Tudo isso também fazia parte deles, da rotina dos habitantes que lhes chamavam de nação.
“...Hungria?”
Ouviu um movimento a sua esquerda e logo sentiu algo tapar o sol que batia em seu rosto. Abriu ligeiramente um dos olhos e viu o rosto de Prússia muito próximo ao seu. A expressão tímida era tão rara que ela precisou apertar os lábios para não sorrir. Poucas vezes o vira com as maçãs do rosto enrubescidas e gostava de aproveitar esses momentos.
“Elizaveta?”
Ao escutar seu outro nome sussurrado daquela forma sua máscara caiu. Levantou o rosto e ainda sorria quando seus lábios encontraram os dele.
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13 horses swimming in the sea
They don't even know it's pointless
Their pride remains but this time it won't help
They used to be so tall and suddenly they're small
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Prússia Oriental, 1945
Chegara próximo à cidade de Dirschau seguindo aquela estranha sensação que tinha quando outra nação estava próxima. Mal podia acreditar no que via: a cidade estava lotada de pessoas, carroças, cavalos... Onde sobrara espaço alguns se sentavam e acendiam fogueiras para tentar aliviar o frio. Aquela sensação estava fraca agora, tão fraca que ela achava que havia perdido o homem no meio daquela multidão. Vez ou outra podia escutar o barulho dos canhões, que pareciam cada vez mais próximos.
Puxou o cavalo para a direita, fazendo-o se virar. Com certeza a pessoa que procurava estava naquela direção. Não queria se envolver na batalha – suspeitava que era exatamente o que Rússia queria quando lhe disse o que acontecia ali – mas não podia deixar de temer pela segurança de-
“Prússia!”
Quase não o reconheceu; a capa pesada que usava estava rasgada em diversas partes e suja de neve, como se ele tivesse ficado parado durante a tempestade. Instigou o cavalo e se aproximou, notando as olheiras escuras debaixo de seus olhos e a bandagem em seu pescoço. Seu rosto estava queimado pelo frio e ele parecia respirar com dificuldade.
“Prússia... O que-”
“Não devia estar aqui...” ele disse, passando a mão nua pelo pescoço de seu cavalo.
“Onde estão suas luvas? O que está fazendo-”
“Estamos indo embora... Todos nós” ele ainda se recusava a encará-la e isso fez com que descesse do cavalo.
“Indo embora? Eu sei que Rússia está se aproximando,” Ele cerrou a mão em um punho ao ouvir o nome da outra nação. “Mas ir embora?!”
“O que quer que eu faça?” ele sussurrou, finalmente olhando em sua direção. “Que eu fique e lute?”
Prússia tinha os olhos nela, mas seu pensamento parecia longe. Nunca o vira daquele jeito e uma sensação ruim deixou-a trêmula, mesmo dentro do grosso abrigo que usava. Engoliu em seco e cobriu a mão dele com a sua. A luva grossa que usava não a impediu de sentir o quão fria estava a mão dele. Molhou os lábios e esboçou um sorriso antes de responder. “Bem... era o que eu esperaria vindo de você”.
Nada. Prússia apenas encostou o rosto próximo ao pescoço de seu cavalo, fechando os olhos e soltando o ar pela boca cada vez que respirava. O ar ao seu redor se condensava e formava nuvenzinhas espessas ao seu redor, lhe dando um ar quase etéreo.
“Sinto... como se fosse desaparecer...” Prússia falara contra o pelo do animal, mas apesar de sua voz fraca ela conseguiu escutá-lo.
Hungria desviou o olhar para a sacola que trouxera consigo, abrindo os bolsos de qualquer maneira e ignorando seu próprio coração acelerado – e as outras feridas também. Encontrou o que procurava e puxou rapidamente, segurando na direção de Prússia.
“Tome, vai te ajudar.” Quando ele não respondeu, ela puxou sua mão e pressionou o par de luvas contra a palma aberta. Ele segurou o objeto como se os visse pela primeira vez na vida, sem entender como foram parar ali. “Vamos, Prússia.” Ela o segurou pela gola da capa, desviando sua atenção das luvas para o rosto dela. “Eu... te levo até Konigsberg.” Aquilo trouxe um brilho aos olhos de Prússia, e ela se agarrou àquilo para continuar, sorrindo de leve “Eu vou com você. Vamos juntos encontrar aquele-”
“Não.” Ele desvencilhou-se de seu abraço e passou por Hungria de volta à estrada. “Ninguém mais vai para o Leste...”
“Gilbert!”
Ela tentou chamá-lo, mas ele apenas olhou rapidamente em sua direção e continuou seguindo a multidão. Hungria apenas observou enquanto ele desaparecia entre o que sobrara de seu povo.
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The night grows dark the body wants to rest
It hurts to breathe and still they do their best
They want to live no matter for how long
Their thoughts all disappeared
‘Cause now they're really scared
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Berlim, 2014
"E aí eu disse pro idiota do Inglaterra: 'Você pode ter inventado o futebol, mas os maiores campeões somos nós!'" Prússia gargalhava enquanto levantava sua tulipa de cerveja "Weltmeister!"
Para sua surpresa, outras pessoas levantaram os copos numa espécie de brinde coletivo e acompanharam o homem ao seu lado na comemoração.
Hungria se serviu de mais cerveja enquanto ria do estado do companheiro. "Acho que Brasil discordaria de vocês..."
"Há! Eu acho que ele ainda está procurando a bola daquele jogo." Levantou a tulipa quase vazia novamente e gritou. "Sieben os Eins!"
Ela admitia que também deveria estar um pouco alterada, porque não conseguia parar de rir do outro. Tomou um belo gole da cerveja antes de relaxar na cadeira. "Achei que esse era outro tipo de comemoração..."
"Ah, não seja estraga-prazeres! A noite será bem longa!" Prússia enchia novamente seu copo, somente para esvaziá-lo com uma rapidez surpreendente.
Hungria suspirou e fechou os olhos, sentindo que teria uma bela ressaca para curar pela manhã.
"Devíamos procurar seu irmão."
"Hmm, daqui a pouco..." Ele deixou a cerveja de lado para comer o resto do aperitivo que pediram mais cedo. "Sabe o que aquele idiota do Inglaterra disse também?"
"Hmm, o quê?"
"Que só tínhamos quatro títulos graças à Alemanha Ocidental!" Hungria abriu um dos olhos a tempo de ver Prússia entornar o resto de cerveja de seu copo e suspirar pesadamente.
Sabia, desde que eram pequenos, que o outro não gostava de se abrir com ninguém. Quando deixava essas informações que o chateavam escaparem era pelo simples efeito do álcool. Hungria o observou por algum tempo; quando ele tentou pedir outra cerveja ao barman ela segurou sua mão.
"Ei," disse segurando a mão dele entre as suas. "Não é por isso que estamos comemorando hoje?"
Ele piscou algumas vezes, como se tentasse processar o que ela acabara de dizer. De repente ele pareceu se lembrar e sorriu. Ela lhe devolveu o sorriso e ia soltar sua mão quando percebeu algo estranho. "O que é isso?"
Prússia trouxe a mão próxima a seu rosto. "Ah, um dos cachorros do West me mordeu enquanto eu tentava arrumar uma fantasia incrível para ele!" Ele levantou-se rapidamente e continuou. "Vamos procurar o West! Ele deve estar perdido sem mim, melhor ir antes que ele comece a chorar!"
Tentou segurá-lo enquanto ele esbarrava nas mesas para chegar no caixa. Havia uma pequena fila para pagar, o que permitiu que Hungria se aproximasse antes que Prússia caísse no chão. Passou o braço dele por seu pescoço e o guiou para fora do local.
"Você continua forte como um trasgo, credo..."
"Quer que eu te deixe na primeira sarjeta que encontrar?!"
"Calma mulher, hoje é dia de festa!"
Hungria bufou enquanto carregava Prússia pelas ruas onde a multidão já se aglomerava. Tentava encontrar Alemanha no meio daquelas pessoas, mas as cervejas a mais e o peso extra de Prússia do seu lado esquerdo não ajudavam em nada.
Continuaram a caminhar pelas calçadas mais distantes da decoração em direção ao centro de Berlim. Não sabia se aquela sensação indicava a presença de Alemanha ou era apenas o enjôo da bebida, mas depois de um tempo não conseguiram mais continuar. Pararam em um banco e recostaram um no outro. Prússia apoiou a cabeça em seu ombro e ela inclinou a sua sobre a dele.
Ficaram assim por um tempo, ouvindo o burburinho das pessoas e o final da cerimônia solene. Quando ouviu os primeiros fogos de artifício sendo disparados, quase não escutou Prússia murmurando.
"Sinto como se estivesse desaparecendo."
Era a bebida falando, ela decidiu. Ignorou o aperto no peito que aquela frase, dita há muito tempo atrás, num dia gélido de janeiro – em uma época em que Kaliningrado ainda era Konigsberg – lhe trazia.
"Gilbert."
"Hm?"
Beijou a testa dele, inspirando o perfume dos cabelos loiros, quase brancos. "Cale a boca."
Sentiu os lábios dele se contorcerem em um sorriso contra o seu ombro.
"Quieta você, Elizaveta."
Em toda sua longa vida o homem ao seu lado esteve presente. Fosse ele Prússia ou Gilbert, ela não conseguia imaginar como seria o mundo sem ele... Não. Ele não poderia desaparecer. Mesmo se não houvesse mais nenhuma extensão de terra que tivesse seu nome, só as lembranças de Elizaveta deviam bastar para mantê-lo vivo.
Tinham que bastar.
Enquanto os primeiros balões luminosos que representavam o antigo muro de Berlim subiram aos céus, ela se agarrava a essa pequena esperança como os cavalos que atravessavam o Danúbio em tempos antigos; eles não viam a margem oposta nem o porto do qual partiram, só lhes restava mexer as patas tentando lutar contra a correnteza do rio.
"West!"
Prússia se levantou em um salto, correndo para abraçar o irmão mais novo; os dois sorriam enquanto a multidão cantava Ode an die Freude, com uma convicção que ela já não sentia.
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13 horses swimming in the sea
Soon they will be gone forever
And while they swim,
One thing still remains
And that's the hope that never dies
It never dies
It never dies
Notas finais
Erm, enfim. :D Espero que tenha gostado, Nina! Pensei em fazer um final mais triste, mas meu próprio coração me impediu (porque PruHun é amor, ok?). ;P Agora vamos às notas explicativas:
Masúria era a região lacustre da Prússia Oriental, hoje parte da voivodia de Vármia-Masúria na Polônia. Dirschau era uma cidade da Prússia Oriental, hoje chamada de Tczew e parte da voivodia da Pomerânia. ;) Me baseei no livro de Marion, Condessa Donhoff, "Minha infância na Prússia", para fazer as descrições dos lugares. A fala de Prússia "Ninguém mais vai para o leste" é o título do capítulo em que ela conta sua fuga da Prússia Oriental durante a invasão russa. ;_;
"Magyarország" = Hungria, em húngaro.
"saumensch" = algo como "porquinha". É uma referência à "A menina que roubava livros", porque relembrar é sofrer. lol
"Weltmeister" = campeão do mundo, em alemão.
"Sieben os Eins" = ACHO QUE TODO BRASILEIRO SABE ESSA, NÉ.
"Ode an die Freude" = Ode à Alegria, quarto movimento da 9ª sinfonia de Beethoven, com canto baseado no poema escrito por Friedrich Schiller, de mesmo nome.
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