13 Ultimatos

5 Capítulo 4 – O amor deixa marcas que não dá pra apagar


Na grandiosa juba da Deusa da vida, Kanu, cada pelo era ligado a um ser vivo no mundo. Alguns eram curtos, bem pequenos, outros longos a ponto de dar voltas ao mundo. Alguns fios eram macios, resistentes e brilhantes, já outros não eram tão saudáveis. Eram tristes, sufocados em enfermidades, vivendo em problemas. Ela deveria ter mais cuidado com suas madeixas, mas, de certa forma, a naturalidade era a decisão mais justa, pois a interferência poderia causar repúdio. Como um troféu, exibia suas mechas lisas, onduladas, cacheadas e crespas aos outros Deuses. O motivo da beleza de Kanu ser tão chamativa entre eles era graças à união de seus pelos embaraçando, enrolando, cruzando e permeando um ao outro. Eram incontáveis o número de seres vivos sobre seu domínio. Ainda assim, ela sabia a quantidade certa presente em seu couro, pois seu amor incondicional sempre deu valor a cada vida, tratando-as como únicas. Partia seu coração ao ver algum de seus fios cair, mas entendia o significado. De fato, era necessário. O universo era regido naqueles conformes. Outro ser deveria nascer para substituir o antigo e, através dessa troca, manter o equilíbrio da equação. E, assim, foi a vez daquele jovem pelo de apenas 67 anos cair.

— Mas que coisa, gente, esse tanto de fogos será que é por que alguém morreu? – ao terminar de varrer as folhas em frente ao seu mercado, logo pela manhã, uma senhora juntou-se à outra para conversar.

— Morreu, mulher, foi a dona Neli, coitada. – ainda enchendo um balde de água, parou seu trabalho um pouco acuada. Sua voz saiu baixa, pois não queria dizer as palavras em tom alto. – Ela morreu daquela doença, atacou logo o peito. – ao terminar, ambas realizaram o sinal da cruz pedindo proteção.

— É triste demais essa doença, Deus me livre e guarde. E ela era tão guerreira, tadinha, criou os quatro filhos sozinha. Tinha acabado de terminar com aquele marido que só batia nela. – mesmo com sua fala superficial, a indignação, felizmente, era real. – E as vadias vão fazer o funeral dela?

— Ah, com certeza, esse tanto de fogos deve ser delas, aliás. – após responder, voltou ao seu balde de água para terminar de enchê-lo. – Parece que o funeral vai ser de noite, vou até ver depois qual a cor escolhida por elas para ir pra lá.

— Pela vida da Neli, tô achando que vai ser amarelo.

— Ou pode ser vermelho, né...

A importância das cores. Um dos motivos pela qual a população daquele distrito preocupou-se tanto com as cores, ao saberem do falecimento de alguma pessoa, veio de uma antiga tradição. Aos olhos da origem, era enfadonha a realização dos tais ritos, considerada um grande erro, até porque era uma apropriação cultural, de certa maneira. Porém, como forma de compensação, tornou-se o mínimo a se fazer e, por isso, os rituais foram incorporados junto ao catolicismo, para a maior difusão. De qualquer maneira, para entender o início do costume, de fato, obriga a realização de uma contextualização através de uma linha do tempo. Ou, pelo menos, um esforço em trazer um entendimento melhor sobre a situação. Para um primeiro passo, o método torna-se interessante como uma boa experiência, talvez.

Tudo deu-se por culpa de uma velha e silenciosa dizimação: a origem de Capitão-do-mato. Dos treze distritos de Breasal, Capitão-do-mato foi o último a ser criado. Anteriormente, quando não possuía nem 1/5 da dimensão atual, o local era um bairro chamado Tabhul’acuena pertencente ao antigo Bastião. Era conhecido por esse nome graças a uma tribo indígena residente das terras, a qual perdeu, aos poucos, espaço para novos moradores e, com isso, trazendo o seu fim. Para o povo Tabhul’acuena, em realidade, teve seu desaparecimento atrelado a vários fatores, entre eles: perda do território para o crescimento populacional da cidade; a descaracterização cultural dos nativos; o aumento da taxa criminal na região; o descaso do Estado em criar uma proteção efetiva para os povos indígenas.

Em 1987, na época da ditadura militar, houve o ápice da desfragmentação da aldeia e de seus traços culturais. Através do embelezamento municipal, imposto pelo prefeito da época, José Santos, expulsou vários moradores de rua do centro da cidade e obrigou a demolição das casas de amparo, locais designados para o abrigo de pessoas sem moradia fixa. Por culpa dessa iniciativa, o bairro de Tabhul’acuena tornou-se o foco dos desabrigados a fim de criarem novos abrigamentos, acarretando inúmeros conflito com a tribo nativa. Os anos passaram-se e os atos criminais nunca cessaram, aumentando, em realidade, a passos largos. Mesmo após a designação por um decreto, o qual elevou o bairro a título de distrito, nada foi alterado nos indicadores, tornando a nova Capitão-do-mato a área mais violento da cidade.

No ano de 1992 criou-se, em Capitão-do-mato, uma penitenciária feminina chamada Cândida. A sua fundação foi uma estratégia do governo em aumentar o controle sobre a área e diminuir, em partes, a alta criminalidade existente no distrito, maior entre as mulheres. O local foi criado para abrigar 800 sentenciadas, porém, por receber condenadas de outras regiões, chegou a ter mais de duas mil mulheres trancafiadas em estado desumano. O presídio tornou-se palco de várias rebeliões, mortes, estupros, extorsão e fugas espetaculares. No entanto, o pior ocorreu em 2001. Um dos funcionários da prisão foi afastado por acusações de estupro. O acusado era conhecido pelas detentas como Dequim. Prometendo vingança, o antigo policial armou um plano com a ajuda de outros dois, apelidados como Bigom e Panda, causando a morte não só de prisioneiras como também de funcionários. Os três fecharam o último andar do Bloco B e atearam fogo, causando um grande incêndio. O desespero tornou-se maior, pois o corpo de bombeiros da época havia entrado em greve, demorando mais de três horas para chegar e, enfim, apagar as chamas. As imagens ao vivo, na época, mostraram várias mulheres jogando-se do quarto andar em uma tentativa de sobreviver. Tal crime tornou-se o maior incêndio do país, causando o falecimento de 242 pessoas e ferindo 680 outras. Por culpa da tragédia, Cândida foi fechada de vez em 2003.

Em 2004 foi realizada a demolição dos dois blocos da penitenciária e a criação de um memorial, no antigo pátio da prisão, em respeito às vidas perdidas. Em 2006, foi criada uma Organização não Governamental chamada União Feminina, instalando sua sede ao lado do Memorial Cândida. A fundadora, Sohui Zeng, junto à sua neta, Jung Hee Zeng, tiveram como principal foco criar um abrigo seguro para as mulheres, caso sofressem qualquer tipo de violência. Com isso, teoricamente, surgiu o primeiro movimento feminista nas periferias da cidade, tornando a imagem da organização mais expansiva. A atitude motivou outras lutas sociais, maximizando a organização e referenciando-a como exemplo a seguir. O sucesso trouxe um grande destaque, intitulando a ONG como primordial para a população de Capitão-do-mato. Não limitando-se a apenas em ajudar só mulheres vítimas de agressões, também criaram várias vertentes para ampliar a influência e, através disso, ajudar os moradores mais humildes do distrito. Graças a essa ampliação, Capitão-do-mato é relacionado ao Grupo das Feministas ou, não com o intuito de ofender, Grupo das Vadias.

No rumo da conclusão. Jung. Além de ser uma das fundadoras, a jovem era uma antropóloga e artista de rua, a qual desenvolveu um grande apreço pela antiga cultura local de seu distrito. Ao estudar a história de Capitão-do-mato, Hee tentou restaurar, aos poucos, certas características, costumes e trajes dos antigos nativos da terra. Seu maior fervor era mesclar a cultura indígena à sua expressão artística. Seu sucesso foi impulsionado por sua avó, obviamente, mas a garota também possuía seus talentos, como também persuasão. Não durou muito, apenas 2 anos, mas quando tornou-se presidente da ONG, os eventos, palestras e ensinamentos da garota, para as novas integrantes da organização e para a comunidade, sempre foram voltados para os costumes Tabhul’acuenas. Como exemplo, um deles era a utilização de uma cor para guiar a alma de um falecido. Trajes, flores e decoração, tudo deveria seguir um padrão de cor. Amarelo para a alma seguir o rumo da felicidade, pois a vida não foi tão alegre. Vermelho para sentir-se mais amada e querida, pois, em sua vivência, o sentimento de rejeição era grande. E assim seguia dando sentido às cores, baseando-se na trajetória vivida pela pessoa a qual partiu.

Segundo um pensamento, a construção de uma história segue através de várias tragédias para, talvez, criar algo bom. Com isso, o resumo do surgimento das Vadias, de seu domínio pelo distrito e dos costumes empregados foram interpretados como benéficos pela população de Breasal após tanta tragédia. E, realmente, era algo necessário, ao olhar por partes. No entanto, ainda que possa trazer algum ressentimento, deve-se reforçar algo já dito: não era certo incorporar tais ritos.

— Já decidiram qual cor usar no velório da Neli? – Jung retirou de seu bolso o inseparável isqueiro azul para acender seu cigarro preto com detalhes em branco.

— Sério mesmo? — os olhos de desprezo de Amanda Tranquedes ao ver o maço repudiou os vícios de Hee. – Você ainda fumando essa porqueira, deveria melhorar, menina. – mesmo com a fala rude de Amanda, aquela frase não surtia efeito algum em Jung. – Bom, de qualquer forma, provavelmente faremos o velório em rosa.

— Saúde… Entendi, mas você sabe que o pessoal está esperando amarelo, né? – disse levantando-se. No fundo não se importou para qual cor seria utilizada, até porque, aquele assunto já não lhe diz respeito.

— Sim, mas, depois que ela se separou do marido, ela foi uma mulher feliz, mesmo chegando a falecer, ela sempre esteve forte e contente. Acho melhor rosa por isso. Sinto que colocar amarelo ou até o vermelho estaria sendo ofensivo a ela. – os olhos da mulher focaram nos papéis em suas mãos, era tanto trabalho a se fazer, não sabia por onde começar.

— Justo. Bom, fiquei sabendo que hoje mais tarde vai chover, então, cuidado com a fogueira. Fazer ao ar livre pode dar ruim. – seus passos seguiram lentos até a janela do escritório, quis eliminar sua fumaça em algum lugar seguro.

— Sim, já providenciei que Fert e Vity cuidem disso, se bem que não ligaria se chovesse muito, teria bem menos pessoas. – a mulher suspirou, parecia cansada demais por organizar tudo sozinha.

— Olha a boca, em, pode dar mal presságio. – o sorriso amarelo de Hee trouxe arrepios para sua amiga. – Aliás, você que merece, mesmo, quem manda querer tanto ser presidente dessa ONG? – ambas pareciam não gostar da organização ao expressarem-se daquela maneira, mas, na verdade, eram apenas resmungos por causa da grande responsabilidade. – Aliás, Amanda, queria te pedir um favor.

— Se estiver ao meu alcance, claro. – ao soltar as folhas sobre a mesa, cruzou suas pernas e juntou suas mãos para dar atenção a Jung.

— Você sabe que as eleições estão chegando, certo? – os olhares das duas foram ao encontro.

— Não vai dizer que vai tentar se candidatar. – mesmo com o sorriso no rosto, nitidamente debochando, ela sabia do perigo ao dizer aquilo, pois, sem nenhuma intenção,poderia sugerir uma ideia.

— Claro que não, né, nem aqui eu aguentei ficar no comando por muito tempo. – a irritação de Hee poderia calar-la naquele momento, mas manteve o foco. – Você sabe como essas eleições são injustas com a periferia. A gente nunca vê o dinheiro público chegando aqui. Você pode pensar que eu esteja insinuando colocar alguém da periferia no poder da cidade, mas, na verdade, quero mais que isso. – ao terminar de fumar, soltou os restos pela janela, o gosto amargo ainda esteve presente na garganta e, por isso, o rosto enrugado.

— O que você propõe? – os dedos cruzaram-se para servir de apoio ao seu rosto, Amanda parecia esperar o pior, até porque, conhecia o espírito de sua amiga.

— Um censo. – voltando a sentar-se, a garota pegou um objeto em formato de elefante sobre a mesa para brincar. – Eu e o Nö estávamos pensando em elaborar um censo aqui para saber quantas pessoas moram em Capitão-do-mato. A gente sabe que não só aqui, como outros distritos periféricos temos população suficiente para que seja elevado a cidade própria, até porque, se for comparar com outras cidades da ilha, devem ter menos pessoas que aqui. Por isso, preciso da sua ajuda. Quando Capitão-do-mato for uma cidade própria, poderemos, enfim, ter um desenvolvimento satisfatório e trazer o melhor para todos nós. E essa ONG passaria para um patamar maior, digamos assim.

— Entendo sua ideia, aliás, acho muita bonita. – a mulher levantou e aproximou-se de sua companheira. – Você sabe que, mesmo com esse jeitão durão seu, sempre foi uma pessoa justa e empática, né? Isso me faz relembrar O Sonho de Kanu, já chegou a ler?

— Já ouvi falar, mas nunca li. – Hee mentiu, havia lido aquela história quando era mais nova, mas preferiu não dizer a verdade, pois queria entender as intenções de sua amiga ao citá-la.

— É uma pequena história dividida em apenas três capítulos que conta o amor de Kanu por cada criatura que ela gerou. A história inicia quando ela viu seu primeiro filho morrer e por não entender a frieza da morte, ela tentou revivê-lo, causando um desequilíbrio na balança e criando Daia. Como um castigo por amar tanto seus filhos, Kanu viu Daia corromper todas suas crias, trazendo a maldade. No pico da montanha mais alta do mundo, a Deusa chorou e suplicou que o mal parasse. Por isso surgiu seu sonho, que era voltar no tempo e não ter cometido o erro de reviver seu filho. Mesmo o amando a ponto de doer o peito, ela percebeu o quanto foi errado o seu amor.

— E o que devo tirar de aprendizado dessa história? – ao parar de brincar com o elefante, tirou de seu bolso o celular vibrando.

— Você ama demais as pessoas, Jung, mesmo não querendo mostrar isso e, às vezes, isso pode causar o teu maior erro, ainda mais que você sabe como essa cidade é o ninho de Daia, em uma analogia. – ao ver sua amiga não se importando com sua fala, suspirou, não havia jeito, a garota à sua frente era muito cabeça dura para ter-se uma conversa mais profunda. – Eu vou te ajudar com o censo, vou juntar minhas meninas e trabalhar na logística, mas, com sinceridade… Cuidado.

— Obrigada, eu sabia que poderia contar contigo, amiga. Muito obrigada, mesmo, e vou respeitar seu conselho, eu sei que foi de coração. – era preciso trazer um pouco de fidelidade àquele diálogo, mas logo rompeu-se com a continuidade da vibração de seu celular. – Que estranho, Nö está me ligando, normalmente não é do feitio dele. – ao atender, não houve prazo para cumprimentos. – Ei, vai com calma, que desespero é esse todo?