13 Ultimatos

1 Capítulo 0 – Eu voltei, agora para ficar


É inevitável o desconforto em voltar a falar desse assunto. Já deveríamos ter acabado com essa história, mas afinal, finais perfeitos são impossíveis de se alcançar por culpa de pontas soltas que desencadeiam mais enredos. Infelizmente, o que parecia ter aquietado, voltou. É notável pelos ombros doendo, os olhos ardendo, a garganta fechando e a cabeça latejando. Tanto choro que o corpo se desgasta. Sempre quando esses sintomas persistem, há algo bem errado. O que passou despercebido? Eu preciso de um tempo para digerir tudo isso e gostaria que você me ajudasse.

Sobre um caso, me ponho a pensar. O que se deve fazer quando aquele erro cometido no passado volta a atormentar e, mesmo com a vivência anterior, novamente não se sabe como resolvê-lo? Erros e mais erros, mesmo após cometidos, a lição traga ainda é vaga. Talvez a paciência seja o remédio para aliviar a angústia. Calma. As questões da vida são sempre nebulosas demais para que haja alguma interpretação satisfatória, até porque, no fim de qualquer ciclo, poucas coisas se aproveitam, poucas coisas se entendem e, reforçando, poucas coisas se concluem. Talvez seja por isso que, aqui, de novo, estamos. Eu, você e eles. Bom, também há de se notar que, mesmo com toda essa gente, é bem solitário por aqui. Aliás, tudo se tornará solitário. No fim, sempre uma tragédia faz com que todos sumam. Vão diminuindo e diminuindo, para que no final, novamente, retornem à solidão. Haja filhos para repor. Tantos sorrisos dados tentando trazer sentido à felicidade, mas logo somem com um silêncio sem vida. É inevitável a necessidade de criar-se a solução para erros que não podem repetir-se.

E, de novo, algo novo esteve em minha porta. Eu sabia bem que, uma hora ou outra, ele viria, mas não tão rápido assim. Talvez, seja por culpa da falsa sabedoria que possuo. Não é algo muito justo, pensam os mais novos, ainda mais quando se tem a minha visão e a minha barba, são características que não deixam negar a minha experiência. Não posso discordar, pois, nada, quando se vive tanto, é incorporado, querendo ou não, e a surpresa deixa de existir. Triste, não? Viver sem surpresas. Ver tantas coisas. Tantos momentos que se tornam apenas repetições de um outro momento único e vivido com sua extrema realidade. É uma das desvantagens de se viver muito. Ai, tristeza… Murmuraram os mais novos. Quando acostumados, não possuem problemas a serem encarados que façam o momento trágico ter peso. Comodismo? É algo a se pensar. Não deveria ser assim, acostumar-se em ver a vida se perdendo e, uma hora ou outra, poderia ser a própria. A atitude. Um corpo só está vivo quando se move. Lembro de ler isso, mas quem disse? Bom, deve estar morto. No entanto, a atitude é algo valioso quando se tem. Eu não possuo mais tal dádiva. Poder agir e mudar uma situação, mesmo que seja para pior, já é algo reluzente para os olhos velhos e clareados. Mesmo sabendo disso, por que permanecer nesse mesmo ponto? Parado e olhando. Não faria sentido algum. Um antigo amigo diria que, é sempre necessário encaixar as peças do quebra-cabeça para que se entenda qual é a figura. Mentira, já diria imediatamente, mas talvez ele tivesse alguma razão. O fascínio em observar e não agir, mesmo que isso não seja tão saudável para eles, pode ser interpretado como um ato egoísta. Meu amigo riria disso, com certeza, e completaria: egoísmo é uma palavra inventada por quem é fraco demais para conseguir algo grande. Espere. Existe outra opção. Quem sabe, a deterioração nas juntas e a fadiga até mesmo em respirar por culpa da velhice, sobrou apenas meus ruídos facilmente caláveis e os olhos observantes. Provavelmente nós dois teríamos concordado com essa justificativa, pois, claramente somos velhos demais para negar esse fato. É o que deve ser oferecido. Sim, são boas desculpas para serem dadas.

Porém, o ultimato foi dado junto a um famoso ditado popular. E que volte logo o que me faz bem, pensou o senhor, suado, levantando-se da cama, após ter tirado um cochilo. Voltar. Praticamente se tornou um mantra para aquele povo que vive de desgraça. Coitados. Parece um carma, viver a realidade venenosa e cruel, mas, ao mesmo tempo, presos em seus sonhos lúcidos tão doces e agradáveis. O que tanto, cada um, deseja que volte? A única coisa a se dizer é: cuidado. Nem tudo que desejamos que volte vem da melhor forma possível. Como explicar isso melhor? Talvez… O desgosto e a tranquilidade. O som do pouso de um avião, além de estremecer a casa de uma senhora, a acordou com aquelas turbinas barulhentas. Havia voltado para casa depois de dois anos fora. Teria que se acostumar com o aeroporto internacional São Flores e com seu tráfego elevado. Não conseguia paz completa por culpa de um avião, mas, enfim, encontrou-se sozinha com seus gatos em sua casa. Ali, alimentando seus animais, a paz não precisou ser completa para que ela estivesse feliz. O cheiro salgado no ar. Pegando a Rodovia 12, a principal da Ilha-estado Breailie bri Sur, a garota sentia seus cabelos coloridos brincarem junto ao vento graças à aceleração de seu conversível. Tinha pressa, graças a sua ansiedade, em voltar de sua viagem, pois queria matar aquela saudade no peito, a qual só se realizaria após ver seu filho que deixou para trás. E mais correria pelo dia. O homem, com seus sapatos sujos e apertados, correndo pela rua larga das Bandeiras, mesmo sentindo fortes dores no pé, não podia atrasar-se para chegar no serviço, havia muito trabalho a se fazer. Os sentimentos embaralhados por fortes emoções. As lágrimas daquela pessoa ao pé da cama, incessantes, ao ver que seu pai voltou de um coma que durou sete meses. As voltas dependem tanto…

Afinal, qual a importância disso tudo? Qual o sentido em observar momentos simples iguais a esses e tentar entender o sentido da volta? É por isso que preciso de sua ajuda. Eu sei que há um erro do passado que devo corrigir, mas voltar a falar disso pode ser algo ainda mais ruim, não acha? Pode causar algo ruim! Você tem que lembrar do peso da palavra “voltar” que os antigos tanto respeitam. Voltar. Para os nativos, algo voltaria uma hora ou outra, por culpa de algum erro que não conseguiram conter. Por isso, confesso, eu tenho medo. O sentido da palavra se tornou algo especial para mim, por assim dizer, e por isso consigo entender o impacto da palavra em minha própria volta. O que fazer então? Há o ultimato e há o medo da volta. Dois pesos contrários em uma só balança.

Breasal? Por que tanto falar de Breasal? Por que tenho que me lembrar dos meus sentimentos sobre Breasal? O porquê de Breasal me encantar e me obrigar a narrar sua história? Interessante os pontos levantados e, como um desafio, terei, então que relembrar. Bom, em realidade, sabemos como as coisas estão nebulosas para você também, certo? Eu entendo. A velhice sempre chega para todos. Vou lhe localizar novamente. Breasal é a cidade do futuro, construída em 1960 para ser a capital de Breailie bri Sur. O mais interessante é a forma como foi projetada. Um círculo, o centro de tudo, e seu entorno é um aro que é coberto por outro aro, que é coberto por outro aro, que é coberto por outro aro. Chamam a cidade de “O Grande Coliseu” ou até mesmo de “A Grande Fortaleza”. Os quatro aros e o círculo central formam a Cidade Grande, onde a riqueza reina, sendo que, cada parte, é um distrito próprio e a divisão entre cada distrito é facilmente notada graças às muralhas que existem entre eles. De dentro pra fora: Pau-brasil, o distrito circular; Cedrela, o aro menor que cobre Pau-brasil; Canafístula, aro que cobre Cedrela; Óleo-pardo, o segundo maior aro e que cobre Canafístula; Pau-marfim, o maior aro e que cobre Óleo-pardo. Deve-se lembrar também da parte feia, as periferias, que não entra na Cidade Grande. O desgosto da classe média é realmente uma bagunça. Totalizando oito distritos fora da Cidade Grande, são denominados como: Mulungu; Casca-branca; Catuaba; Lapacho; Pau-sangue; Capitão-do-mato; Canela-batalha; Sangra-d’água. Assim forma-se Breasal. Com seus treze distritos, eu encaro essa cidade como uma pessoa e cada distrito são seus órgãos, trabalhando para manter a existência do ser. Um toque, um gesto, uma palavra, um sorriso, um suspiro, entre tantas fatores. Breasal sempre tão viva. Parar e analisar tantos momentos vividos em tão curto tempo. Tantas partes de um mesmo local. Breasal respira, pulsa, pensa, sente, chora, mas nunca morre. Posso chorar ao dizer isso? Você entende bem. Meu peito se enche de orgulho e satisfação ao falar disso, você deve ter notado claramente, por isso seus pontos. Tudo bem, é natural isso acontecer, certo? Até porque, qual pai não tem orgulho do filho? É… Você me convenceu. Eu preciso voltar, até porque, o sentido de minha existência é falar sobre minha maior paixão e consertar o que fiz de errado no passado.

Pois bem, agora estou pronto. Eu aceito esses 13 Ultimatos.