13 & Team 1: Sem Rumo e Sem Vida
4 A Criança e o Tempo
Notas iniciais
Receber foras nunca eram bons, e receber um de um amigo muito menos. A Doutora e Ryan partem para a TARDIS, caras fechadas e respirações forçadas, como atendentes de lojas gratas por trabalharem nas segundas. O interior estava escuro e com fracas luzes fúnebres saindo das coisas redondas nas paredes. A Doutora puxa o monitor para si, e fecha os olhos impaciente recordando-se de como teve chance de moer Graham e a loira no aikido venusiano, mas aí lembrou-se que era a mocinha.
— Por que estamos aqui? — quis saber o humano.
— Respostas.
— Disse que a TARDIS não está de boa digestão.
— Mas lembre-se que assim como nas praias de Sheffield, no vórtex não há banheiro.
— Em Sheffield não há párias.
— Exato. — soou fria. — Agora pense comigo, Ryan! Rose, o que achou dela?
— Bem… — pensou. — Se vestia igual a minha bisavó.
— Sim! — tapeou o console. — Anos 40 e 50 não achou?
— Tipo isso.
— E aquele sotaque forte? Norte? Ou sul de marte, mas, enfim…Wells?!
— Wells! Somerset! E isso explica o porquê dela parecer tão fora da realidade. Foi mal Somerset. — engoliu a seco. — Mas isso pode ser útil?!
— Google da TARDIS! — sorriu largo.
A Doutor começa a digitar as décadas, características físicas, dentre as pessoas da região, sendo mães jovens. E o resultado foi…
— Nenhum resultado encontrado?!
— Eu sei, dá vontade de socar o pc.
— A menos, que algum detalhe muito importante esteja faltando.
— Qual?
— Se Rose for mesmo do passado como pensamos, como teria filho com Graham?
— Não teria.
— Precisamente. — estalou o dedos.
Voltou a teclar, onde editou a tag "mãe jovem" para "jovem". Assim, a imagem da loira misteriosa apareceu na tela, e ambos sorrisos largos a dupla deram. Rose smith, 26 anos, moradora da fazenda Rightend há 2 km de Wells, e sem filhos. O humano diz:
— Um roubo?
— Vamos descobrir. — apertava apressada vários botões e alavancas.
— Mas e as anomalias temporais?
— Então, sabe aquela vez que pedi para não trapaceamos nas olimpíadas espartanas onde ganhamos e os perdedores viraram sopa de leão, acidentalmente? Vamos precisar quebrar algumas regras!
A turbulência começa.
***
Outras informações a dupla captou na pesquisa, mas as mais relevantes eram sobre onde encontrar Rose Smith, sabiam tudo sobre ela e nem eram fãs. A TARDIS materializa-se, e saindo apressados para fora, a dupla começa a tossir, já que muita fumaça sai junto.
— Eu achava que não curtia cigarro. -zomba Ryan.
— Fumaça é sorte, querido! Fiz de tudo para não queimarmos feito as batatas da Yaz.
— E que milharal sinistro em Doutora.
— Eu gostei. — sorriu largo.
— E nem vou dizer que me sinto observado.
O céu estava denso, e estavam no meio de um milharal seco, murcho e de folhas aparentemente velhas, já que estavam todas quase negras de fungos e umidade. A dupla começa a seguir os apitos do detector de anomalias, Que estavam baixos, porém, ainda constantes. Um espantalho todo de preto a Doutora quase esbarra, e franze a face pra ele:
— Que fase. Será que estava ouvindo Black?
— Ou Linkin Park. Em que ano estamos?
— 1949, 13 de setembro, 3 da tarde, outono. E não estamos nada longe do castelo da princesa.
Ignoram a figura alegre e prosseguem pelo plantio:
— Ah, você também achou ela meio "ah olha só como está lindo o dia, os pássaros cantam?"
— Quanta maldade. — soou sinica.
— Gêmia sua.
— Agora passou dos limites.
Estava tudo com certeza indo bem naquele milharal belíssimo, onde a dupla atropelava tocos secos, gravetos e se coçava com as palhas vertiginosas, até, que um estrondo altíssimo roubou a atenção dos dois, que se agacharam amedrontados. Um som como uma trava metálica veio em seguida, e também, uma voz jovem feminina:
— Enfim, encontrei meus larápios.
— Não, sou a Doutora e este é meu assistente, Ryan! — ergueu uma bandeira branca, que nada mais era do que um lenço escarrado em um graveto. — Paz?
— Levantem-se! — os pés de milho vieram se quebrando lentos, e de lá revelou-se uma loira jovem, com uma capanga nos ombros, vestida em um vestido branco encardido, até os joelhos, apontando uma espingarda, calçada com botas esfarrapadas, e chapéu de palha furado na cabeça. – Vão embora e nunca mais voltem.
— Você não entende, só queremos ajudar. — insiste a alien.
— Você disse que era uma doutora?
— Sim.
— Uma médica?
— Também.
— Uma mulher médica nesta região e com um enfermeiro negro?!
Ryan revira os olhos:
— Também não é comum encontrar mocinhas de família com armas tão robustas e longas nas mãos por aí, segurando com tanta habilidade.
A moça abre a boca ofendida, Doutora pigarreia:
— Soou estranho. Enfim, precisa de médica? Você me pareceu curiosa.
— Liguei para o doutor Caligari, porém 5 dias já se passaram.
— Sim, por isso nós viemos. — sorriu, tentando passar convencimento e cutucou Ryan, que quase não conseguiu forçar.
— E aí vieram por um milharal?! — não parecia crente.
— É enorme a propriedade! Nos perdemos. Como eu teria isto se fosse mentira? — Retirou um estetoscópio e esfigmomanômetro do sobretudo.
É, como? Pensou a moça, onde respirou fundo desconfiada com talvez até vontade de puxar o gatilho, mas um som de choro rouba a atenção, um choro de criança, e assim ela diz:
— Venham comigo.
***
A aparente princesa da Disney morava numa casa de campo modesta, dois andares, feita de madeira e pedras, cercada de área por todos os lados, com cadeiras, mesas e montes de lenhas e sacos de milho e trigo. Próximo, havia um moinho de vento num pequeno riacho, e um celeiro com a bela tinta descascando-se e nascendo cogumelos nas taboas. Galinhas, patos e porcos andavam de um lado a outro. Já em um curral ao lado do celeiro, um simpático bode preto enorme encarava o trio vindo à casa. A dona explica:
— Eu juro que não iria atirar! Papai me ensinou, mas nunca tive coragem.
— Acreditamos em você, agiu completamente certa. — acalmou a Doutora.
O choro do bebê não parava, e chegando até ele, o detector de anomalias girava loucamente. A Doutora arregala os olhos sem respostas, e Ryan faz um gesto nervoso para ela escondê-lo, onde ela esconde-o atrás do sofá. A outra loira pergunta:
— O aparelho que escondeu, o que ele faz?
Médica e assistentes entreolham-se embasbacados. O humano diz:
— Termômetro. Mas moderno demais! Os outros pacientes tinham medo.
— É, só não queríamos lhe assustar. — reforça a Doutora. — Agora, fale sobre o pequeno.
— Se chama Lucio. 1 ano e meio apenas. E desde que papai morreu… Vem chorado quase o dia inteiro. Dou de comer, dou xarope… E nada! Nada o satisfaz. O hospital é há mais de 2 kilómetros e vendi o automóvel. Na bicicleta seria perigoso enfiar ele na sexta!
— Muito dedicada ao seu filho, parabéns. — elogia Ryan. – Posso segurar?
A mulher transparece dúvida no rosto, mas deixa do mesmo jeito. O bebê aumenta o choro, e Ryan repassa-o à Doutora:
— Por que você mesmo não me diz o que tem, querido?
Apenas mais choro.
— Ah, eu não sei falar a lingua deste bebê! Como isso é possivel?!
— Lingua dos bebês?! — Ryan e a outra replicaram.
— Ignorem. Toma! — devolveu à matriarca. – Também não está com febre ou fome. — analisou a chave de fenda sónica.
— E dor? — indaga Ryan.
— Não.
— Aí fica difícil.
— Mas conheço um truque.
— Faça por favor. — implora a jovem.
A mais velha dá dois pequenos toques na testa do pequeno, e ele simplesmente tem um apagão de sono, calando-se por completo.
— Vai ter que me ensinar isto! — berra a outra, pondo a criança em uma cama que usava de berço na sala.
Mas o som de um trovão rouba a cena, e Ryan volta-se a janela:
— Acho que vamos ter de dormir aqui, Doutora.
— Se a Rose não se importar.
— De maneira alguma! Um privilégio, apesar deste recinto não estar à vossa altura. Mas não me lembro de ter me apresentado.
— Doutor Caligari falou sobre você.
— Bem, espero.
— Disse que é viúva, verdade? — ergueu as sobrancelhas.
— Ah… — engoliu a seco. — Sim, isso.
— Alfred? Não. Bryan?
— É! Bryan. — pela cara parecia até ter se esquecido.
— É este aqui? — Ryan aponta para um homem velho e magro num daqueles retratos antigos na parede, que estava cheia.
— Sim, esse.
— Mas aqui está escrito "em memória de Nathanield".
— Ah… — abriu a boca, mas respostas pareciam não sairem. – Perdoem-me, o cansaço de hoje mexeu com meu juízo. Este é papai. Alfred não gostava de retratos.
— Não era Bryan? — sorriu a alien.
— Era Alfred Bryanston! Tudo bem?
— Do que ele morreu? — cruzou os braços o homem.
— Estão aquí por ele ou pelo bebê?! Não devo nenhuma informação pessoal a vocês!
A Senhora do Tempo encosta bem cara a cara da outra:
— Porque eu sou a Doutora. Sou a que salva este mundo, e a que dá pés na bunda de miseráveis hostís. E se você ou está criança representarem algum mal ao planeta Terra, não minta para mim.
Rose permaneceu aparentemente atônita, já que ela estava apenas catando milho para as suas galinhas, e dois estranhos com informações mais estranhas ainda apareceram em sua propriedade. Devia contar o que sabia? Ela começa a tremer, e senta-se mísera numa cadeira, da mesa da sala:
— Prometam, não farão mal a criança!
— Prometemos. — sentou-se a alien frente a outra.
— A cerca de um mês, luzes estranhas eu vi nas sombras do quintal, e de repente... Um choro de criança. Papai queria mandá-lo ao orfanato, mas eu tive pena e apego.
— Apenas foi deixado? — desconfia Ryan.
— Saímos com nossas lanternas e era apenas um bebê, envolto em lençóis brancos, um cesto e esta pequena pulseira em seu braço. — era uma pulseira negra.
— Percebi — diz a Doutora. – É um inibidor de ondas e reflexos eletromagnéticos e tempomagnéticos.
— Não compreendo.
— Continue.
— Adotei-o para mim, pois se alguém o-quisesse no orfanato o teria feito. Desde então, meus dias foram mais alegres. — sorriu. — Contudo, uma maré de azar parece ter se derramado por Rightend desde então. Mas não quero acreditar que a criança seja amaldiçoada como o meu pai fala.
— Fala ou falava? — coloca o homem.
— O vejo todos os dias em meus sonhos. Ele odeia este menino.
A Doutora apanha o detector de anomalia, e volta a apontá lo ao ambiente:
— Quais seus azares desde então?
— Galinhas desaparecendo mais do que sempre, ovelhas estraçalhadas, milho pisoteado, e por fim… Meu pai deixado da mesma maneira que as ovelhas.
Uma onda de choros e soluços a humana deu sem medidas alguma. A alien comove-se, e abraça apaziguando:
— Acreditamos em você.
— É. — Ryan não soou como a Doutora queria, mas disse. – Perdi minha mãe. Sinto muito por você.
— Mas sem trabalho… Como vou criar esta criança? O dinheiro do automóvel não vai durar para sempre.
— Esqueça o dinheiro. — pede a alien. — Conte-me mais sobre a morte de seu pai. Deve ter sido uma fera e tanto.
— Doutora! — repreende Ryan, onde ela encarava-o sonsa.
— Está tudo bem. — secou Rose a cara. – Não acredito em fantasmas, demônios e lobisomens, mas… Não diria ser deste mundo. As fazendas vizinhas boatam sobre terem visto um ser peludo horrendo na estrada.
— Fantástico! — disse a Senhora do Tempo, sensibilizada com a tragédia, sorrindo vigorosa. — Essas histórias são as melhores para mim.
— Doutora! — Ryan serra os dentes.
***
A gallifreyana havia saído para dar uma volta, ou em outras palavras; checagem ambiental. A noite chegara, Rose havia tomado um banho e trajava roupas melhores, já sem o pano na cabeça, acendendo as lamparinas, enquanto Ryan, estava sendo útil, descascando algumas beterrabas na pia. Rose puxa assunto em seu tom de pureza e timidez de mocinha de novela:
— Eu sinto muito pelo que eu disse.
— Tá tudo bem, eu entendo.
— Eu juro.
— Eu sei.
— Em Sheffield tem muitos médicos negros e mulheres?
— Sim, já assistiu Tempos Modernos?
— Amo Chaplin!
— Também. — olhou no fundo dos olhos da moça. – Tem até lugar para loiras, acredita?
— Com certeza.
— E uma curiosidade...
— Diga.
— Poderia muito bem se dizer mãe solteira. Eu e a Doutora teríamos acreditado, mas aí...
— Não queria parecer encalhada. Já basta ser, então parecer...
— Não da pra acreditar. Você é tão... — estava sem palavras.
— Má cozinheira? Todos dizem.
Riram. Então, estragando o possível ou impossível clima de shipp, chega a Doutora, atordoada e molhada pela chuva, que só estava começando:
— Encontrei pegadas bípedes enormes de 4 dedos, próximas ao celeiro, de 24 horas atrás, cujo me lembraram algo que vi há muito, muito tempo, só não me lembro direito o quê! E detectei inibidores de ondas como os da pulseira por todo o redor da casa! Alguém quer proteger muito esta criança.
— Se quer mesmo, devia consertar o poste também. Desde a chuva de ontem estou nas trevas. — resmunga Rose.
— Mal acostumada. — fez careta a Doutora. – E olha que nem conhece wifi. — cochichou, massageando a nuca.
— Só quero o melhor para o Lucio. Trevas são perigos, e se tornam cada vez mais frequentes os terrores da fera.
— Minha bisavó contava sobre uma historia de um lobisomem que devorava crianças sem batismo. — lembrou o rapaz.
— Ryan! — Foi a vez da Doutora repreender.
Porém, antes que Ryan protestasse seu direito de falar bobagem, o pequeno Lucio desperta-se novamente, e mais choro trouxe. Rose tentava acalmá-lo em seus braços, cantando músicas de ninar. E dos bolsos da Doutora, o detector volta a incomodar:
— Pelo santo Rosto de Boe!
— Doutora, acho que chegou a hora de falar logo o que esse menino tem a ver com as anomalias. — diz Ryan.
— Sim, já fizemos mais mistério do que aqueles programas sensacionalistas da TV.
— Me dê boas noticias. — pede Rose.
— Esqueça!
A mãe choca-se por completo, a alien continua normalmente:
— As anomalías cercam todo o recinto. E sempre que a criança se sente ameaçada, os níveis de energias delas começam a extrapolar e reverter a polaridade. A criança surgiu do nada aqui, e do nada também conhecemos ela e você em nosso futuro, Rose.
— Como?
— Ouso dizer, que a criança tem esta habilidade. Ouso dizer, que ela pode agredir o tecido do tempo, e força-lo a mandá-la para outros pontos do espaço tempo, como uma forma de alivio.
— Como se o bebê fizesse uma má digestão no tempo até o tempo vomitar? — supõe Ryan.
— Precisamente! Mas, nojenta comparação. E, algo precisa deste bebê, por isto causa damos na propriedade, mas não consegue avançar já que tem tantos inibidores de sinais por aí.
— Papai foi confundido? — pensa Rose.
— Seu pai esteve com a criança, isto talvez tenha sido pressentido pela fera.
— Doutora, e nós? Também já estivemos com a criança, e um monte de outros mistérios antes? — relembra Ryan. — E se agora finalmente a fera conseguir avançar?
— Aí estarmos aqui é um bom sinal.
— Lucio pode ser da sua roça.
— Não. — mostrou o resultado da chave sônica. — Completamente humano.
E os humanos, estarrecem-se assustados, ou apenas com inveja de tal habilidade, mesmo a Doutora não tendo encontrado o gene X na criatura. Já os cachorros e galinhas, começam uma orquestra de sons de susto e fúria, como se algo os incomodasse. Rose comenta:
— Desde a morte de papai é assim.
— Eu arrepiei. — engole Ryan a seco.
A Doutora vai até a janela, e mesmo que escura e nebulosa a noite, pôde ver um vulto se movimentar em um salto ágil feito um gato, por de trás do curral até o celeiro. Um relâmpago iluminou toda a vista, mas nada de aterrador foi visto, além dos 2 cachorros correndo. Em seguida, as trevas voltam, e um dos cachorros geme doloroso. Os olhos da Senhora do Tempo tremem em ódio e piedade, quando então, outro também geme, e um cortado nos gemidos os dois tem, como se algo os tivesse ceifado.
— Todos para cima! — berra a velha viajante.
***
Para o segundo andar, o trio de adultos corre com a criança, onde Ryan apanha a espingarda enferrujada do falecido Nathanield, e a Doutora uma cadeira, rumo ao quarto de Rose. A gallifreyana ordena:
— Vocês dois, não saiam daqui, estão me entendendo?
— Não pode ir lá só! — protesta Ryan.
— Você fica e protege Rose e o bebê.
— Eu nem sei usar isto! — ergue a arma.
— Eu sei me cuidar, queridos. — protesta Rose.
— Se o bebê ir embora, você também vai Rose. Vimos o futuro, se Ryan segura-lo tudo muda.
— Vocês a cada segundo apenas me apavoram.
— Prometo que tudo ficará bem.
— Foi o que papai disse.
A Doutora respira fundo, conformando-se com a tristeza e sinceridade da outra, mas sem protestar, onde assim desceu para baixo, e Ryan pôs a cadeira na maçaneta da porta.
Retornando à cozinha, a Senhora do Tempo dava passos lentos, respirava macio, e ouvia atenta aos sons da chuva caindo. Olhou em volta, e um erro ao seu redor. As lamparinas e velas não estavam antes todas acesas? Agora estavam apagadas, como o tesão da rainha virgem, sua esposa, uma das. Pisou em algo e apontou a luz da chave de fenda sônica, notando serem cacos de vidro. Ligou as idéias e voltou-se para a janela. A janela, estava estraçalhada!
— Está bem, está tudo bem. — mentiu para si mesma. – Bem não. — corrigiu. – Está ótimo, está brilhante, mais que brilhante.
Apontou a chave sônica, e rastros biológicos estranhos junto de energia de viajem no tempo ela percebia. Respirou fundo e encostou novamente na janela, onde um maço de pelos longos marrons e acinzentados ela encontrou. A chave de fenda deu resultado e as sobrancelhas da mulher assemelharam-se às da sua antiga regeneração:
— Tetrap!
Disse pavorosa, onde uma gota viscosa caíu sobre seu rosto. Um relâmpago acendeu tudo, e ela olhou para cima. No teto, uma criatura cheia de dentes rugiu para ela, pendurado por suas patas, como um morcego. Era peludo, tinha garras pontudas em suas 4 patas, 4 orelhas pontiagudas, 4 olhos ao entorno da cabeça, sendo um no centro, como um ciclope, e um focinho longo e grosso como o de um javali, porém, cheio de presas como um crocodilo. Uma bela besta, não? Para a Doutora não era este o ponto, não os dentes, não as garras, ou a criatura em si. Pois se aquilo era mesmo um Tetrap, só poderia significar uma coisa… De que a sua velha amiga e inimiga estava de volta, a Rani.
O Tetrap salta do teto contra a loira, ela se esquiva e liga o alarme da chave ao máximo, pois a criatura tinha ouvidos sensíveis. A fera contorce-se de dor, mas enfim tem força para avançar mesmo que dolorosa, onde a mulher corre para uma porta, entra e tranca-se. A besta começa a atacar a madeira, arranhando e rosnando monstruosa. A mulher segurava a porta com toda a sua força, mas o animal também era forte, e a porta velha. A Doutora já se deparou com esta raça e sabia que não eram feras boçais como burguesia, supremacistas e fascistas, então por que apenas o seu lado mais animalesco estava a dominar? Seria influência da Rani? Talvez, pensou. Olhou para o lado, e viu dois sacos de pólvora, aquela era a dispensa de tralhar do falecido pai. A alien abriu depressa a porta, e deixou a fera entrar, onde se retirou, trancou a porta, e ativou a chave de fenda sônica. Uma explosão acontece, a carcaça Tetrap começa a pegar fogo, mas a Doutora atira um balde d'água.
— Não queria que fosse assim.
Porém, outro rugido. Não era o único?! Aparentemente não, já que a porta da frente é derrubada, e outro peludo sanguinário surge, babando e rosnando para a mulher. O ser vê a mulher armada de chave sônica, e faz o mesmo, apanhando um facão encostado no fogão a lenha. Já a mulher, engole a seco, pensa depressa, onde apanha um machado sobre um taburete. Já estava tudo ótimo, até, que um terceiro Tetrap entra pela porta, ignorando o outro e a loira, rumo às escadas.
— Não! — tenta interromper a Doutora. Mas o seu adversário avança com um golpe.
Os focos do fogo também começaram a crescer.
***
No andar de cima, Ryan tremia como uma folha no vendaval, a criança chorava mais do que qualquer outra, e a Rose não parava de forçar sorrisos e canções para o pequeno. Ela parecia precisar mais do que ele. Da porta, rosnados e arranhões todos ouviram, Ryan aponta a espingarda, mesmo que sem experiência alguma, e Rose pede:
— Deixe que eu atire!
— Não, só você pode ficar com a criança!
— Bobagem! — pôs Lucio sobre a cama.
Quando então, outro rugido acontece, e na janela, outra horrenda fera estava. Rose grita apavorada junto a Ryan, e ele inconsciente aponta e puxa o gatilho. O animal grunhe e é arremessado longe. Ryan respira ofegante sem crer no feito, e joga a arma nas mãos da loira. Ele se volta revoltado à porta, apanha a cadeira, e deixa a besta entrar. Ela avança para dentro, enquanto Ryan sai de trás da porta e espanca a fera à cadeiradas. A fera berra e tenta conter com as suas patas, mas o ódio e instinto de sobrevivência do humano eram tão grandes, que sem perceber já havia abatido a criatura. Estava ensanguentada e toda contorcida no chão. Da cadeira restou apenas a cabeceira.
— Eu não queria fazer isso. — ajoelhou-se na parede, começando a chorar.
— É como matar um rato. — consolou Rose.
— Não era um rato!
— Sim, era mais feio.
Ryan revira os olhos, e de repente aponta para a criança. Ele e Rose levantam-se e do bebê saíam coisas como descargas eléctricas. O choro também crescia.
— Acho que está fugindo, como a Doutora disse!
— Para onde?
— O futuro. Pegue ele.
— Estou com medo!
— Pegue ele! — gritou.
Rose fecha a cara, não esperava aquilo, e não perdoaria. Mas apanha Lucio, e as descargas não lhe faziam mal. Ela estava em pânico, mas precisava ser assim. Ryan explica:
— Você deve encontrar o Graham, Graham O'Brien, de Sheffield, motorista de onibus, ele vai te ajudar. Ele costuma ir no Picles Maluco e no Boliche Bixa Amiga, além de qualquer pube que pensar. Quando eu e a Doutora encontrarmos vocês, devem se fazer de bobos, para acabarmos vindo até aqui, e o dia que isto acontece é 29/07/2019! Então, prepare-se.
— Não há outra maneira?!
— Não. Boa sorte. — desejou, vendo a mulher sumindo em meio as correntes eléctricas enormes, gritando com a criança, até desaparecer fantasmagoricamente.
Em seguida, parte Ryan novamente armado para baixo, precisava avisar a amiga. Então já em baixo, deparasse com a imagem mais aterradora e terrível de sua vida. Teria de lamentar pela amiga. A amiga… Estava completamente e absolutamente encharcada de sangue!
O Tetrap estirado no chão, e um machado cravado no crânio. A luz das chamas crescendo trouxeram uma aparência mais macabra ainda à cena. Ryan lembrou de todos os filmes de terror já assistidos.
— Dou- Doutora. — gagueijou. – Peguei dois deles.
— E Lucio?
— Foi embora.
— Também precisamos.
— Você tá bem?
A cara da mulher era a de alguém completamente desestabilizada e destruída psicologicamente e cansada fisicamente, como um jovem universitário que trabalha, namora e vai na academia:
— Respirando. — agachou-se ao cadáver. – Notei rastros de viagem no tempo.
A chave sônica detecta manipuladores de vórtex, e por debaixo dos pelos longos e robustos a viajante os encontra.
— O que são esses bichos?
— O fim do mundo. — retirou o manipulador, onde corre até os outros corpos, e retirou um por um.
— Doutora, vamos sair daqui! — as chamas se espalhavam lentamente.
— Vamos! — descia as escadas
Retirou o manipulador do cadáver detido pela espingarda, estirado na lama da chuva, com as gotas e relâmpagos ainda crescendo, e partiram correndo rumo ao milharal. Já a casa, continuou a queimar.
***
SHEFFIELD 27/09/2019
Na casa da Yaz, pai e mãe interagiam como adultos modernos, onde cada um encarava a horas celulares frente a face, e a televisão ligada. Sonya vem da cozinha e pergunta:
— A estranha, ainda nada?
— Respeite a sua irmã, mocinha. Já tem um diploma e um emprego. — jogava mãe.
— É o dom da senhora me humilhar?
— Sou realista. Tik Tok não vai te sustentar.
— Pois que bom existir o Onlyfans.
— Sonya!
Sonya revira os olhos, partido emburrada para cima. Queria apenas pedir um carregador emprestado para Yazmin, mas Yaz havia ido até o mercado, pois queria fazer um jantar decente à família. No andar de cima, Sonya ouve uma voz no corredor:
— Sonya?
— Yaz? Pensei que tinha saído. — olhou em volta, mas nada de Yaz. – Cadê você? — abriu a porta do quarto da outra.
Ainda nada, entrou e procurou. Respirou fundo e bateu o pé:
— Só quero um carregador, me empresta.
— Sim. Vem buscar. — a voz saía do closet.
— O que faz aí dentro?
Abriu o closet, porém, nada da outra:
— Que brincadeira idiota. Depois não quer que eu te marque no face, naquelas postagens de vila sésamo!
Começou a procurar o carregador, já que a outra não aparecia. Numa caixa de sapatos amarela, Sonya encontra um carregador, junto de outras pequenas bugigangas, e um relógio de bolso antigo. O relógio, devia ser ignorado, mas ele tinha entalhado em si tantos caracteres bonitos de letras estranhas e círculos, que a caçula não resistiu:
— Legal. — sorriu abobada.
— Por que não abre ele?
Era a voz de Yaz novamente, mas nada de Yaz alí. Sonya engole a seco:
— Olha, se quer me assustar… Eu só lhe digo uma coisa, vingança é meu primeiro nome.
A curiosidade então a jovem deixa brotar, e o relógio abre. Nada demais tinha alí, além dos ponteiros parados, marcando 00, mesmo não sendo, e os caracteres desgastados. Era tão velho?
— Nunca por expectativa, lei da vida.
Será? Quando então, um brilho alaranjado e dourado começa a emanar do objeto, envolvendo todo o corpo humano. A jovem tenta solta-lo, mas não conseguia se desgarrar da mão.
— Socorro! Mãe?!
O brilho começou a entrar por sua boca, e seus olhos brilharam, onde luzes a dominaram e um grito dolorido deu.
***
Rumo ao mercado, Yaz nota algo bem incomum. O supermercado que costumava ir ficava a 700 metros, mas outro bem mais próximo ela se deparou, sendo que no mesmo caminho nunca tinha o-visto. Ela para o carro e observa a cena, de pessoas entrando animadas com as promoções dignas de black friday:
— Com licença, senhora. Desde quando vem aqui?
— Desde hoje. É novo.
— Passei de manhã pela mesma rua e não me lembro dele.
— E isso importa?
A senhora saiu revirando os olhos, e respirou fundo determinada e estressada. A porta era giratória, com vidraças negras, e cartazes de preços nas demais janelas. Yaz manda uma mensagem para a Doutora, via whatsapp, e vai à porta, adentrar ao mistério. De repente, viu tudo ao seu redor se apagar, e uma agonia imensa percorreu por todo o seu corpo. Parecia a morte a tocando.
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