13
1 O Retorno.
Os olhos castanhos escuros abriram, mas logo se fecharam, Raphael manteve os olhos assim até de acostumar com a claridade do ambiente. Virou o rosto, achando um ponto do quarto onde a luz não adentrava, mas sua visão encontrava o criado-mudo onde o relógio digital marcava 11h23 da manhã. Ainda era cedo, bom, cedo para ele. Raphael normalmente acordava pelo início da tarde, qualquer horário antes do meio-dia já era considerado cedo. Levantou um pouco o olhar encontrando um pequeno retrato de família, velho, tão velho que já dava pra notar as marcas de sépia ao redor da foto, que pareciam pequenos borrões de café respingados.
Virou o corpo outra vez, voltando a encarar o teto que um dia fora branco, agora já estava amarelo com diversas manchas de mofo notáveis. Preciso pintar isso, advertiu para si mesmo.
Começou a tatear debaixo do travesseiro, procurando o aparelho celular, encontrando-o, desbloqueou a tela. Era quarta-feira, mas disso nada adiantava. Não trabalhava, não estudava. Poderia ser até sexta-feira, só que não mudaria nada, não tinha razões para comemorar. Todos os dias pareciam os mesmos para ele.
Abriu o aplicativo de conversa, talvez mandar um "bom dia" para os poucos amigos que possuía, talvez alguém tivesse algum convite ou uma boa conversa, algo que poderia tornar seu dia mais interessante.
Mas a vibração do aparelho o fez ficar estático, os olhos se arregalaram e boca se abriu, demonstrando todo o espanto. Uma sensação estranha se apossou do corpo do rapaz, uma mistura de medo e felicidade. Inclinou-se da cama calmamente, limpando com a mão livre os olhos, como se estivesse verificando se estava mesmo acordado ou se aquilo não era uma miragem.
Não, não era.
O nome do visor não mentia. "Guilherme". Guilherme estava ligando para ele, o mesmo número antigo, o mesmo número do amigo que sumiu à aproximadamente treze anos atrás.
Treze anos era muito tempo.
Mas o susto não era o tempo, mas como ele desapareceu. Nenhum rastro, nenhuma notícia, ninguém sabia nada sobre Guilherme, absolutamente nada. Foi como se ele nunca tivesse existido, mas ele existia, as fotos perdidas no guarda-roupa de Raphael confirmava que o antigo melhor amigo existiu.
Voltando a realidade, absorvendo todos os pensamentos, voltou a encarar o visor do celular, que ainda destacava o nome. Respirou profundamente, como se tomasse coragem para fazer o seguinte ato: deslizando o dedo na tela onde estava o lado verde, atendendo a ligação.
— Gui...? — balbuciou assim que colocou o aparelho próximo ao ouvido direito, a voz temerosa e incerta. — É... É você...? — gaguejava.
— Você está em casa? — a voz estava claramente diferente, também, haviam se passado treze anos, não era de se espantar. Mas não tinha como negar, era realmente Guilherme. Só que Raphael estava pasmo, há quanto tempo havia querido ouvir aquela voz? Mesmo zombando dele como era de praxe. — Hein, você está em casa? — a voz do outro lado da linha repetiu. — Aliás, você ainda mora no mesmo lugar?
— Sim... — falou automaticamente, não sabendo exatamente a qual das perguntas ele respondera. — Sim... Eu estou em casa e ainda moro, mas...
— Desce então pro portão! — Guilherme interrompeu o antigo melhor amigo, a voz dele estava um tanto ríspida. — Vai rápido! Estarei te esperando, mas não posso ficar muito tempo! Só preciso da sua ajuda! — Raphael ainda tentava assimilar os acontecimentos, o celular a poucos milímetros do ouvido, sua respiração estava compassada, como se ele tivesse corrido uma maratona inteira, o coração batia como um tambor. — Responde! — a voz de Guilherme gritou impaciente, assustando Raphael, que sentiu o coração bater no ritmo de uma escola de samba.
— Tá! — respondeu alto, assustado. Tentou controlar a respiração, e voltou a falar no celular. — Tá. Me dê só alguns minutos e eu...
— Não! Cara, você não está entendendo! — Guilherme o interrompeu outra vez, quase gritando, e isso fez com que Raphael afastasse o celular a alguns centímetros do rosto. — Quer dizer... Eu não tenho alguns minutos... — agora a voz do outro lado da linha parecia mais amena. — Querendo ou não você já está envolvido... — murmurou, o som foi tão baixo que Raphael não compreendeu. — Droga! Me liga quando descer que eu te encontro!
A ligação foi encerrada antes de Raphael conseguir assimilar os acontecimentos. Durante alguns segundos, ele encarou o celular, ainda atônito.
Num gesto rápido levantou-se da cama, ainda com o celular na mão, calçou o par de chinelos que estava na entrada do quarto e não fez nada mais além disso. Abriu a porta da cozinha, descendo as escadas em direção ao portão de ferro enferrujado. Não se importando da maneira que estava trajado, uma camiseta branca completamente amarrotada, e o bermudão azul turquesa, o "pijama".
Abriu o portão, fazendo com que o rangido do mesmo soasse alto no ar, irritando seus tímpanos. Um som tão ensurdecedor que poderia ser equivalente à unhas arranhando um quadro negro. Chegou por fim na rua, virando a cabeça da esquerda para direita, e da direita para a esquerda, confirmando que estava tão deserta quanto o próprio Saara.
Levantou o celular, que ainda permanecia em sua mão, voltou a desbloquear o aparelho indo até a opção "chamadas recebidas", retornando a ligação de Guilherme, como o amigo havia solicitado.
Raphael estava tão entretido na ligação que não percebeu quando um homem se aproximou dele, tocando com força no ombro esquerdo. Por puro reflexo, Raphael levantou o braço, preparado para esmurrar quem quer que fosse aquela pessoa, mas seu punho parou no meio do caminho, sendo segurado por uma mão.
Raphael franziu o cenho. Quem era aquele homem? Essa era a única coisa que sua mente conseguia pensar.
Mas ele não estava esperando ninguém... Ninguém além de...
Não. Não podia ser.
Aquele homem não parecia seu melhor amigo, não parecia o Guilherme que ele tanto conhecia. Este homem era moreno, o cabelo era curto, cortados num corte simétrico de maquininha de número três, o rosto era liso e aqueles olhos, os olhos eram de um verde claro, verde-lima. O Guilherme que ele conhecia era outro, lembrava-se de suas conversas, de como Guilherme sonhava em ter cabelos compridos, uma barba grande e respeitosa. "Estilo viking", era o que ele sempre dizia. O Guilherme que ele conhecia tinha o cabelo liso, quase escorrido, os olhos eram castanhos, amêndoas, não poderia ser esse homem. Observou o corpo do homem a sua frente, a pele amorenada visível era completamente lisa também (o Guilherme que ele conhecia era pálido, quase branco). Outra coisa que o Guilherme que ele conhecia queria fazer: preencher o corpo com diversas tatuagens, símbolos bobos de jogos de videogame, desenhos de personagens dos seus jogos favoritos e diversos outros rabiscos do gênero. Mas este homem não possuía nenhuma visível.
Não podia ser... Ninguém poderia mudar tanto em pouco mais de dez anos... Podia...?
— Calma, cara. — ele sorriu. — Vem comigo!
A mão amorenada agarrou seu pulso, mas Raphael não conseguiu se mover, mantendo-se no mesmo local, parado. Aquele não era seu melhor amigo, e ele precisava confirmar isso.
— Quem é você...? — questionou um tanto receoso.
— Que tipo de pergunta é essa, cara? — o outro fez uma cara confusa, como se não estivesse acreditando naquela pergunta. — Sou eu, Guilherme!
Antes de conseguir retrucar qualquer coisa, uma mão fechada surgiu atrás de si, socando com uma força absurda o homem a sua frente, e este tombou, indo diretamente para o chão, do nariz uma quantidade de sangue escorria. Raphael arregalou os olhos, prendeu a respiração e a soltou no mesmo instante, por um segundo achou que aquele homem tivesse morrido, mas ao observar o peito e ver que este subia levemente concluiu que estava apenas desacordado.
— Argh...! Vai tomar no cú, esse filho da puta tem uma cara dura! — ouviu uma reclamação atrás, Raphael virou o rosto, encontrando um homem que massageava o punho (que estava com um pouco de sangue nos dedos). Observou-o de cima a baixo.
A barba era comprida e fofa, os cabelos eram longos, chegando dois palmos após os ombros, lisos até metade dos mesmos, ondulando até as pontas, a pele era extremamente clara, pálida, os olhos amêndoas tinham um brilho que parecia ser mais intenso graças ao Sol da manhã. Trajava um sobretudo negro, cobrindo toda a extensão do corpo, uma touca preta cobria o couro cabeludo.
Aquele sim...
— Guilherme... — murmurou confuso. — É... É realmente você, cara? — Raphael indagou.
— É claro que sou eu! Tava esperando mais alguém? — ele sorriu, e com aquele sorriso veio à conclusão, aquele era realmente Guilherme, o sorriso zombeteiro era o mesmo de treze anos atrás. O rapaz virou o rosto com velocidade, olhando para os dois lados da rua, e um grunhido de desaprovação saiu de sua boca — Vem! Precisamos sair daqui. Rápido!
Raphael não conseguiu reagir, manteve-se parado no mesmo local, como uma estátua de marfim. Estava atordoado, confuso, e suas próximas frases demonstravam essa mistura de sentimentos:
— Espera... O que está acontecendo...? Aonde vamos...?
— Só me segue! — Guilherme interrompeu o amigo outra vez, evitando qualquer contato visual com Raphael. — O carro está logo ali!
Mesmo não compreendendo, aquietou-se, seguindo o caminho, que andava com passos largos e rápidos à sua frente, imitou os movimentos, estando a menos de dez centímetros do antigo melhor amigo.
Guilherme parou, ainda evitando contato visual com o amigo, Raphael repetiu este movimento, e as seguintes palavras do desaparecido lhe trouxeram uma sensação de medo:
— Um aviso, e o obedeça como se fosse a coisa mais importante da sua vida! —o tom era autoritário e sóbrio. — Olhe para frente. Não olhe para outro lado. Apenas ande. E o mais importante de tudo, não fale diretamente para mim. E mantenha uma distância segura. — sibilou cada frase como quem proferisse um feitiço. Deu alguns passos, mantendo a distância segura entre os corpos.
— Ahn...? Ah, ok... Tudo bem... Eu... Eu acho... — Raphael começou a tropeçar nas palavras, não sabia o que responder, afinal, ele precisa responder alguma coisa?
— Como que cê tá, Rapha? — indago baixo, mas audível o bastante para que o outro ouvisse. — Ou será que ainda devo te chamar de Riku? — riu debochado.
Um sorriso bobo se formou no rosto de Raphael, uma sensação de nostalgia tomou conta de si. Riku. Tinha muitas lembranças só de ouvir esse apelido.
— Riku? — repetiu, soltando uma gargalhada abafada. — Você ainda se lembra desse apelido ridículo que você me chamava? — a voz satirizou a situação. — Eu estou bem. — na medida do possível, mas bem, gostaria de pronunciar essa frase, mas não agora, talvez este não fosse o momento. — Mas o que importa de verdade... É você! — Raphael mudou de assunto, levantando o olhar, encontrando as costas do antigo melhor amigo. — Trezes anos, hein... Onde você esteve? Como você está? Por que caralhos você sumiu? — as perguntas finalmente saíram de sua garganta, gostaria de ter perguntado aquilo na ligação, mas parece que só agora conseguiu sibilá-las.
Incrível que o ar que os preenchiam era o mesmo de treze anos atrás, eles não pareciam dois estranhos naquele momento, que era o deveriam ser, pareciam ser os mesmos melhores amigos.
— Depois a gente conversa sobre isso, Riku! — Guilherme falou, talvez estivesse zombando do antigo apelido do amigo, ou talvez não conseguisse o chamar pelo verdadeiro nome, acostumou-se demais com o apelido.
A dupla chegou num carro preto deixado no fim da rua, um modelo antigo, quadrado, os vidros estavam embaçados pelo tempo, diversos arranhões e amassados preenchiam as lacunas do automóvel. A mão pálida de Guilherme abriu a porta do carona, e pela primeira vez, os olhos castanhos encontraram os olhos cor de sépia de Raphael.
— Entra, mas no banco de trás! — exigiu.
— Banco de trás? — repetiu. — Por quê? Vamos buscar mais alguém?
— Não. É que... Ninguém pode te ver. — falou por mim, apoiando o braço na porta aberta.
— Cara, o que está acontecendo? — aquela situação estava ficando confusa demais, e Raphael não conseguia ignorar isso.
— Só... Entra logo, vai! Não temos muito tempo. — Guilherme levantou o pulso, retirando um pouco das mangas do sobretudo, revelando um relógio de pulso, onde ali ele confirmou que já era 11h40. — Logo vai ser hora do almoço, eu conheço um lugar, não muito distante daqui, que toda terça tem uma feijoada deliciosa. — o desaparecido mudou o tom da voz, pronunciando tudo de uma maneira suave e divertida, como se todos os acontecimentos anteriores não tivessem ocorridos.
— Mas hoje é quarta-feira. — Raphael gargalhou baixo, cruzando os braços diante do peito.
— Sério? — surpresa e divertimento se misturaram nessa indagação, passou a mão pela cabeça, coçando o couro cabeludo por debaixo da touca. — Bom, não sei o que tem lá de quarta, mas vamos, deve ser bom.
— Aliás, que lugar tem feijoada na terça? — debochou.
Guilherme espalmou a mão na testa, rindo, começou a descer a mão pelo rosto, reconhecendo os contornos de próprio rosto alongado, chegando até a barba grande e fofa, e passando os dedos por ela até chegar ao final.
— Cara, faz tempo que não tenho noção dos dias. — ambos riram diante esse comentário. Raphael também andava perdido nos dias, não como Guilherme, mas estava perdido, à sua maneira. — Entra! Vamos logo antes que as coisas compliquem.
Raphael não questionou, obedeceu a ordem, levantando o banco do carona, saltando para o traseiro. Guilherme deu a volta pelo carro, entrando pelo lado esquerdo, o do motorista, assim que se acomodou no banco seus olhos amêndoas miravam confuso pra o volante, painel e câmbio do carro. Como se fosse a coisa mais normal do mundo, as palavras saem de sua boca:
— Como é que dirige isso aqui mesmo? — girou o corpo, voltando à face para o rosto do antigo melhor amigo.
Raphael, apesar de arregalar os olhos, perplexo, não consegue guardar uma risada alta, tenta recuperar o ar, controlando o riso antes de dizer:
— Como assim, cara? Você me arrasta até aqui, diz que estamos correndo riscos, aí chegamos na porra do carro e você diz que não se lembra como dirigir? — cada palavra era acompanhada de ironia, susto e divertimento.
— Parece que você não me conhece mais. — sibilou, voltando seu olhar para frente, pegou uma chave que estava no bolso dianteiro da calça, colocando-a na ignição do carro, fazendo com que o mesmo roncasse alto. Mudando a marcha, começou a dirigir pelas ruas pequenas da cidade. Depois de alguns minutos de silêncio completou: — Esqueceu completamente do meu humor retardado, não é?
— Eu... Só perdi o costume... Mas não esqueci... — comentou, mais para si mesmo do que para o amigo.
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