12/12

2 – Primeiro dia de Aula


Acordei assustado aquele dia, um barulho alto de uma sirene tocou às seis horas da manhã, nos indicando que deveríamos todos estar de pé e prontos a sete para nossa primeira aula. Sentei-me sobre a cama e fiquei em silêncio pensativo no que havia acontecido ontem à tarde. Se não fosse pelo tal do Potter, eu teria sido violentado, teria perdido minha virgindade por vários outros garotos. Eu deveria contar para alguém sobre o que tinha acontecido ontem, mas Potter me pediu que não... Ele me garantiu que não seria preciso contar ou denunciar, pois isso não iria se repetir nunca mais, e se eu fizesse isso, todos nós, até mesmo os que não tinham culpa, seríamos punidos. Eu aceitei. Não sei porquê, mas realmente resolvi confiar naquele garoto. Algo nele me dizia que eu poderia fazer isso, e, aliás, ele havia me salvado de um quase estupro.

Ouvi meu celular tocar em cima da minha cômoda, e levantei correndo até lá.

― Alô! ― Atendi sorridente ao ver no identificador de chamadas ‘Madison’.

― Oi seu filho da puta! ― A garoto me xingou no telefone. ― Você não me ligou!

Eu ri, pois conhecia tanto aquela coisa ruiva e maldosa que sabia que nesse momento ela deveria estar fazendo aquele biquinho fofo, mas super demoníaco que sempre fazia.

― Eu sei... Eu estou sem tempo, estou nessa droga de escola há um dia, mas já aconteceram muitas coisas! ― Confessei para ela, e lembrei-me da cena de ontem à tarde, fechei meus olhos tentando esquecer, mas talvez eu devesse contar para a Madison. Não, não deveria. Se fizesse isso, ela acionaria a policia e os meus pais, e esse acionariam o exército, a marinha, e até a aeronáutica. Ri sozinho com meu pensamento.

― Está rindo do que, cara de pastel! ― Ela me perguntou.

― Eu tenho aula daqui à uma hora, e preciso arrumar o quarto, me arrumar, arrumar minhas coisas e estar lá. Aqui não é como nossa antiga escola, Mad. Com certeza não será tolerado atrasos, e não quero tomar advertência no primeiro dia de aula. ― Confessei para ela.

― Promete que vai me ligar na hora do intervalo? ― Ela pediu fofa.

Gargalhei.

― Prometo que sim! ― Sorri e desliguei o celular.

Olhei para minha cômoda, uma preguiça absurda tomando conta de mim, mas caminhei até ela e abri. Retirei de lá meu uniforme, era uma calça azul marinho super escuro, que poderia ser confundido com preto facilmente, uma camisa social branca de mangas compridas. Gravata na cor azul marinho também, e uma espécie de terno, azul marinho também. Bufei, com certeza iria ficar parecendo uma testemunha de Jeová vestindo aquilo, mas eram normas. ‘Nunca comparecer as aulas sem o uniforme escolar. ’ Vesti o uniforme e fui até o banheiro escovar meus dentes. Precisava sair em 15 minutos e procurar minha sala, estava atrasado, e tudo por causa da Madison que havia me tirando 15 minutos em uma conversa que pareceu 3 minutos.

Sai do banheiro correndo logo ao terminar com os dentes e os cabelos, peguei minha mochila e sai do quarto.

― Caralho! ― Falei para mim mesmo e voltei ao quarto, tinha esquecido meu horário escolar em cima da cômoda, mas minutos perdidos. Peguei o horário.

‘Primeira aula: Química quântica! Prédio A/ Sala 23’

Corri até o prédio A, e fui à busca da minha sala. Nós teríamos sempre uma aula antes do café da manhã, o que não era nada agradável, todos em aula com aquele super bafo matinal por falta de alimentação, eu por sorte tinha minhas barrinhas de cereais escondidas em baixo da cômoda, espero que ninguém descubra, ou posso ficar encrencado por isso.

Entrei na minha classe e me dirigi até uma das cadeiras lá no fundo, outros alunos começaram a entrar e logo um sinal tocou. Olhei para o garoto que tinha sentado ao meu lado. Ele era alto, tinha os cabelos tão negros com tom azulado e usava óculos com armação vermelha. Pelo que pude perceber os seus óculos era bastante grosso, o que indicava que seu grau era alto. Porque não se sentou na frente? Perguntei para mim mesmo. Ele tinha uma cara de mal humorado bem pior que a minha, com certeza deveria ser um anti-social grosso.

― É, oi! Perdeu alguma coisa? ― O garoto disse com sua voz forte.

Então me toquei que deveria estar olhando para ele há minutos, fiquei sem graça e senti minha face queimar, deveria estar como um pimentão nesse momento.

― Des-Desculpe! ― Consegui falar.

Ele riu.

― Sou Kyle! ― Ele me disse sério, mas com um sorrisinho nos lábios que me pareceu meio malicioso. Mas resolvi ignorar.

― Prazer, Noah! ― Eu disse sério, mas sorri amigavelmente também.

― Prazer? Mas já? Eu posso lhe garantir que proporciono prazeres maiores na cama! ― Ele falou com um jeito mais malicioso que a forma que havia me olhado antes.

Fui poupado de responder, quando uma professora entrou na sala dando bom dia a todos. A mulher gordinha era sorridente e simpática, tinha uma voz mansa e gostosa. E eu que achei que não teríamos mulheres por aqui. Mas gostei da Leah, ela parecia bastante legal. A aula passou rápido. Não sei se por conta de ser o primeiro dia, ou por conta da professora ser legal. O sinal bateu nos indicando que deveríamos sair.

Esperei, não queria sair junto da multidão.

― Qual sua próxima aula depois do café? ― O garoto ao meu lado me perguntou.

Olhei meio confuso para ele. Mas resolvi olhar no meu horário, já que não tinha decorado ainda.

― Eu tenho Língua Portuguesa Estágio Três! ― Eu disse sério. ― E você? ― Resolvi puxar assunto, talvez ele fosse ser meu único amigo aqui nessa aula, então não era legal arriscar perde-lo.

― Eu tenho Ciências da Computação! ― Ele falou baixo. ― É uma pena, não sou bom em fazer amigos. Fiquei feliz quando te vi me olhando, se não fosse por isso, acho que não teria tido coragem de falar com você. ― Ele admitiu.

Eu sorri e dessa vez verdadeiramente.

― E se você não tivesse falado comigo, acho que eu não teria falado, sou meio tímido. ― Disse sorridente.

Ele riu.

― Ah, mas vamos ficar juntos no café, talvez ainda tenhamos mais aulas juntos. ― Ele falou.

― Eu espero que sim! ― Sorri para ele.

― Vamos? ― Ele me perguntou.

Então notei que a sala deveria estar vazia nesse momento. Levantei e peguei minha bolsa. Saímos juntos, e nos dirigimos ao grande refeitório. O horário do café da manhã não durou muito, mas aproveitei para conhecer melhor meu novo amigo, ele gostava de coisas muito parecidas que eu, e tínhamos muita coisa em comum, talvez nossa amizade desse certo.

― Nos vemos no fim das aulas, podemos ficar juntos e conversar, o que acha? ― Ele perguntou animado.

― Aham, vai ser legal... Já estava pensando que teria que me trancar no quarto às cinco da tarde e ficar sozinho até amanhã. Ri.

― Eu te prometo que não deixarei isso acontecer, Noah! ― Ele riu também e saiu.

Era hora da minha próxima aula, caminhei para sala onde teria minha próxima matéria, diferente da outra turma, nessa os alunos sentavam em duplas, e muitas carteiras já estavam ocupadas. Olhei para o fundo onde gostava de sentar e raparei no menino com cabelos laranja que eu tinha conhecido ontem, ele acenou para mim e mostrou uma carteira vazia a sua frente. Agradeci mentalmente por ele já estar conversando e sentado ao lado de um garoto loiro cheio de espinhas.

― Oi! ― Disse sorrindo enquanto sentei a sua frente.

― Noah, né? ― O garoto me perguntou. ― Esse aqui é o Cabeça, Noah!

― Oi, Cabeça! ― Sorri meio sem graça. Que nome é esse? Quem se chama cabeça? Por que alguém se chama cabeça?

― Oi! ― O cabeça me respondeu sorridente.

― Você deve estar achando estranho o nome dele, né Noah? Eu vou explicar, ele tem uma grande cabeça no meio das pernas, por isso o nome e tals... ― O garoto que eu sequer lembrava o nome falou.

― Vai assustá-lo desse jeito, Guto! ― O cabeça falou. Ah, então o nome do linguarudo era Guto. Não conseguia lembrar, o garoto falava pelo menos 10 palavras por segundos. Ri mentalmente da minha piadinha infame.

Então um professor barrigudo entrou na sala.

― Bom dia, turma! ― O barrigudo disse e então olhou para mim. ― E esse lugar vazio? ― Só então me toquei que não tinha ninguém ao meu lado. ― De quem é? ― Perguntou o homem.

― É meu! ― Respondeu uma voz, e então reparei que era o Potter. Ele sorriu pra mim e piscou.

Corei levemente.

― Só podia ser o senhor Harry! ― O homem falou irônico. ― Repetente, e pelo jeito que reprovar novamente. ― O homem disse.

― Potter, Senhor Limar. Potter! ― Ele disse pro professor e riu.

O garoto caminhou e sentou-se ao meu lado, olhei para ele, e o mesmo continuou sorrindo.

― Vamos começar. Vou escrever algumas coisas importantes para uma boa convivência, certo? ― Disse o professor e virou-se de costas.

― Oi! ― Disse Potter no meu ouvido em um tom bem baixo.

Senti meu corpo arrepiar e sorri.

― Harry? ― Perguntei baixinho e sorrindo. Eu só conhecia ele a um dia, mas ele me passava confiança e me deixava a vontade, talvez seja por que o garoto tinha me salvado.

― Potter! ― Ele segurou o riso.

Apenas olhei para ele, pois fui impedido de falar mais alguma coisa, já que o professor virou e pediu que nós disséssemos à turma o que estávamos cochichando. Resolvi ficar quieto, mas Potter ainda sussurrou.

― No fim das aulas conversamos novato!