Notas iniciais
Para Beatriz Tauro, que pediu fics nesse estilo em um dos grupos do Nyah! Boa leitura!

—Mana… Por que a mamãe ainda não voltou? Ela está atrasada para o jantar.

Olhei para os olhos brilhantes de Em, contendo o choro. A TV, ligada no noticiário desde que recebi a notícia, ainda exibia os destroços.
Meu celular estava comigo, seguro entre meus dedos trêmulos. Ainda tinha esperança que mamãe fosse ligar, dizendo que tinha ficado presa no trânsito e que não havia conseguido chegar na reunião a tempo.
Não sou uma pessoa religiosa, há dias em que penso que Deus é um sádico. Entretanto, naquela tarde, eu rezei. Rezei para que mamãe estivesse bem, pedindo misericórdia para o criador, que por favor ela tivesse sobrevivido. Mas tudo o que eu recebi de volta foi o silêncio e o olhar perdido de Em.

-Mana… — ela tentou me puxar da posição que eu estava novamente, no chão de frente para a TV, sentada sobre os joelhos.

Papai havia saído correndo assim que viu a notícia. Havíamos sofrido um terrível e covarde ataque, direto no coração de nossa nação. Um avião desgovernado atingira o Word Trade Center, derrubando as duas torres e matando milhares de pessoas.
Assisti, horrorizada, vários em completo desespero, saltando de andares altíssimos na tentativa se salvar suas vidas, direto para a morte.
Demorei para me lembrar que mamãe estava lá. Na verdade, havíamos brigado feio aquela manhã, ignorei totalmente suas mensagens como a bela ingrata que era. Depois do ataque, eu não havia criado coragem para ve-las até aquela hora.

-Mana… — a voz de Em pareceu um pouco desesperada, mas ignorei.

Naquela hora, as primeiras vítimas do ataque começaram a ter seus nomes divulgados. Me aproximei mais da TV, lendo um por um, enquanto a âncora do noticiário os falava também. Em se sentou ao meu lado, balançando meu braço pela manga, tentando chamar minha atenção.
Quando percebi que o nome de mamãe não estava ali, soltei o ar que nem percebi que prendia. Olhei para Em, que parecia um pouco chorosa.

-Mana, a mamãe vai chegar para me ajudar com a lição de casa? Fiz um presente para ela, pelo aniversário. Mas não consigo pregar as lantejoulas.

Novamente, contive o choro. Acariciei seus curtos cabelos dourados e tentei soltar um sorriso, mesmo que forçado.

-Por que não trás até aqui, para eu ajudar?

Em sorriu, se levantando, correndo até a mesa da cozinha. Eu a olhei, toda desengonçada, as perninhas curtinhas, o rostinho gordinho de quatro anos… Mordi o lábio, imaginando como daria a notícia se…
Não! Mamãe estava bem! Não há porque ficar imaginando isso! Não teria que dizer nada a Em, logo mamãe entraria por aquela porta e sorriria para nós, e eu imploraria por perdão.
Eu disse muitas coisas horríveis para ela naquela manhã, tinha certeza. Quando ela chegasse, eu a abraçaria e nunca mais faria nada daquilo.
Em voltou com um cartão verde, um tubo de cola líquida e um saco de lantejoulas coloridas. Me entregou tudo, e então eu parei para ler o que estava escrito.
Havia um “Parabens, mamae”, desse jeitinho mesmo, escrito de forma tosca no alto do cartão, de cola colorida vermelha. Havia um desenho em baixo, feito de bonecos de palito, que eu percebi ser nossa familia: eu, papai, mamãe, Em e Tasha, a coelha de minha irmã. Em havia espalhado purpurina por todo cartão, algumas crostas de cola havia segurado grande parte dela. Havia também alguns pedaços de papel colorido cortados em tiras, descendo pelas laterais do cartão.

-Mamãe vai gostar, não vai? — Em me perguntou, tímida, mas esperançosa.

Sorri de novo.

-Claro que vai, fofa. Venha, vamos colar as lantejoulas.

Quando eu terminei de colar a última, a porta da frente se abriu. Levantei como uma bala, correndo até lá… Para encontrar tia Daisy escorada na porta, respirando fundo, enquanto secava o rosto.

-Tia… O que houve?

Tia Daisy me olhou, mordendo a boca. Ela soluçou, levando as mãos aos olhos, e eu entendi.

-N-não… — sussurrei, arregalando os olhos, dando um passo para trás.

Gritei. Afundei as unhas no couro cabeludo, me ajoelhando. Não… Aquilo não podia estar acontecendo, não podia!
Eu tinha certeza! Mamãe ia entrar por aquela porta como sempre, as seis, e dar um beijo em mim e Em. Ela ia tirar os sapatos, deixar a bolsa na sala e conferir se eu havia feito o dever, para depois ir ajudar Em com suas tarefas. Papai ia fazer o jantar enquanto ela tomava banho, e depois íamos nos sentar na mesa, ela rezaria o Pai Nosso e então íamos comer, enquanto eu contava sobre as aulas de piano, para depois lembrar de me desculpar. Em seguida, nós arrumariamos a mesa, ela levaria Em para dormir depois de escovar os dentes, e talvez até assistisse um filme comigo antes de nos deitarmos. Mamãe me daria um beijo e um lindo sorriso, e peixaria meu cobertor até o queixo, antes de fechar a porta e ir dormir…
Em veio correndo, ver o que estava acontecendo. Abaixou-se ao meu lado, gritando “mana”, enquanto puxava a manga da minha blusa. Ela também chorava, mesmo que não soubesse o que estava acontecendo.
Quebrei, completamente por dentro. Gritei até minha voz sumir, sentindo tia Daisy me abraçar. Ali, nós três choramos juntas, desoladas, não sei por quanto tempo. Mas, quando minhas lágrimas acabaram, eu solucei por mais algum tempo, a dor não havia sumido.
Quando finalmente os soluços acabaram, eu já estava oca. No dia seguinte,automaticamente, quando tia Daisy disse que precisávamos nos vestir, tomei banho e vesti Em, sem pensar ou sentir nada. Ainda não havia explicado a situação para ela, não havia pensado como fazer isso.
Tia Daisy nos levou de carro até o velório. Finalmente encontramos papai, ou o que sobrara dele. Quando Em perguntou o que íamos fazer ali, apenas disse que “viemos ver a mamãe”... E ela ficou feliz.
Eu não chorei durante as horas que permanecemos no quintal de tia Daisy, velando minha mãe. Também não havia tido coragem para me aproximar do caixão.
Em andava de um lado para o outro, confusa, com o cartão de aniversário nas mãos. Sempre que me encontrava, ela dizia que não havia encontrado a mamãe, que queria entregar o cartão logo, porque estava atrasada.
Quando nos levaram ao cemitério, finalmente me aproximei do caixão, levando Em no colo. Encaramos o rosto sereno de mamãe, que não parecia morta… Parecia que ela estava só…

— Ela está sonhando, não está? — Em me perguntou.
— Sim, Em… Mamãe está sonhando com a gente. Você sabe, ela nos ama.

Em assentiu e deu um pequeno sorriso, deixando o cartão dentro do caixão, bem sobre as flores sobre o peito de mamãe.

-Para a senhora ler, logo depois que acordar. Feliz aniversário, mamãe, eu te amo.

Funguei, sentindo meu peito doer. Coloquei Em no chão, pronta para finalmente dizer a ela. Entretanto, papai logo se aproximou, dizendo que iam finalmente abaixar o caixão.
Quando tudo começou, Em começou a gritar. Novamente, desabei, abaixando-me para impedir que minha irmã fosse até a cova, as palavras dela tatuadas em minha mente permanentemente.

-Lisa, por que estão enterrando a mamãe? Ela estava dormindo! Não, ela ainda não leu meu cartão!

Apertei os braços ao redor dela, enquanto sentia suas pequenas mãos tentando me afastar.

-Parem! Mamãe vai fazer aniversário! Nós vamos fazer um bolo de chocolate para ela! Mamãe ainda tem muito trabalho, eu sei, ela ia ser promovida! Por que estão fazendo isso.

Chorei, agarrada a Em. A mantive comigo, até mesmo quando papai se abaixou ao nosso lado e nos abraçou. Novamente, três de nós choravamos, e Em ainda não entendia o que estava acontecendo.
Quando o caixão foi coberto, soltei Em. Ela correu, ainda gritando, em direção a grama. Tentou puxar, cavar, mas suas pequenas mãos nada podiam fazer.
Não aguentei ver aquilo, correndo para uma parte afastada. Peguei o celular, imediatamente abrindo as mensagens que minha mãe havia me mandado.

“-Oi, Lisa. Eu sei que está brava comigo. Mas por favor, me responda
Mamãe, (07:36)”
“-Lisa, você está aí? Alguma coisa aconteceu no prédio ao lado, talvez eu me atrase para o jantar. Avise o seu pai”
Mamãe, (08:50)”
“Lisa, um avião atingiu o prédio dois andares abaixo de mim, tô presa
Mamãe, (09:05)”
“Lisa… A mamãe não vai conseguir sair. Eu sinto muito se não vou mais assistir filmes com você, ou ir assistir você tocar piano. Não vou mais ajudar Em com o dever de casa, nem vou mais fazer bolo de chocolate. Eu só preciso que você saiba, eu amo vocês demais. Vocês são tudo para mim, deixo minha vida com vocês. Por favor, me perdoe
Mamãe, (09:52)”

Olhei para o céu, novamente de joelhos na grama. Senti muito frio naquele momento, e os últimos pedaços do meu coração se soltaram.
Segurei meu celular contra o peito, engolindo minhas lágrimas, sem fôlego.

— Também te amamos, mamãe. Por favor, me perdoe… Não me deixe, eu te amo…

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!