11º Andar

14 Segunda-feira


Notas iniciais
Perdoem qualquer erro que possa ter passado e boa leitura!

Jimin não se lembrava de quando havia sido a última vez que acordou com alguém beijando seu corpo desde seus pés até o topo de sua cabeça.

Para ser sincero, Jimin não sabia se isso havia acontecido alguma vez em sua vida. Ele sorriu, lentamente abriu os olhos e se deparou com Yoongi deixando beijos molhados nas marcas que ele havia feito em sua clavícula na noite anterior. Quando reparou que Jimin estava acordado, Yoongi abriu um sorriso enorme e murmurou um ‘bom dia’ contra sua boca, beijando-o logo em seguida, sem se importar com o hálito matinal desagradável de ambos.

Eles queriam muito ficar a manhã toda se beijando, mas infelizmente o alarme de Yoongi tocou os lembrando de que eles tinham trabalho a fazer. Suspiraram, deram um último beijo e Jimin se deixou ser guiado por seu chefe até o banheiro, rindo de como eles estavam andando completamente nus pelo apartamento sem sentir um pingo de vergonha.

“Tem certeza de que não podemos chegar atrasados hoje?” Yoongi perguntou fazendo um biquinho, deixando que Jimin passasse o shampoo em seu cabelo. “A água está tão quentinha, nós já estamos nus, vontade em mim é o que não falta–”

“Você tem uma reunião marcada para a hora que chega, hyung.” Jimin deu uma risadinha e colocou a cabeça de seu chefe debaixo d’água, enxaguando seu cabelo e rindo da expressão irritada no rosto dele. “Sem contar que eu não tenho seus privilégios de poder me atrasar se eu quiser.”

“Se o seu chefe se atrasar, você não precisa chegar cedo, ué.” Yoongi disse e pegou o shampoo da mão de Jimin, fazendo com o homem o mesmo que havia feito com ele. “E adivinha só? Seu chefe quer se atrasar.”

“Boa tentativa, mas a reunião é importante.” Jimin disse e fechou os olhos, aproveitando a massagem que Yoongi fazia em seu couro cabeludo. “Melhor deixar para outra vez.”

Jimin já sabia qual era a sensação de se arrumar de manhã com Yoongi, mas era totalmente diferente fazer aquilo na casa dele. Era estranho porque ele não poderia reaproveitar sua camisa do dia anterior e teve que pegar uma emprestada, possivelmente bem mais cara do que a dele. Era estranho porque eles estavam tomando café da manhã calados, mas mesmo assim com os pés brincando debaixo da mesa. Era estranho porque ficar na porta esperando Yoongi ver se estava tudo arrumado antes de sair de casa era doméstico demais, e ele não estava acostumado. Não tinha certeza se algum dia conseguiria se acostumar, mesmo que virasse rotina.

“Você está usando uma camisa do Yoongi.”

Até onde Jimin sabia, a maneira correta de cumprimentar alguém era falando bom dia, mas Hoseok claramente não sabia das regras de etiqueta que ele sabia. Jimin piscou os olhos algumas vezes, olhou para cima e deu seu melhor sorriso falso, como se estivesse falando com uma pessoa que não conhecia. Hoseok o encarava de cenho franzido, tentando entender tudo que estava acontecendo diante de seus olhos.

“Nós temos assuntos pendentes, Hoseok hyung.”

Na mesma hora os olhos de Hoseok se arregalaram. Jimin assentiu com a cabeça como se conseguisse ler o que se passava na mente de seu amigo e recebeu alguns pulinhos de alegria como resposta. Para quem assistia àquela cena de fora – Jungkook, por exemplo – nada fazia sentido algum. Só que eles se entendiam, e Hoseok já tinha sacado que a noite de Jimin e de Yoongi havia sido boa.

Jimin não falava com Taehyung desde o dia anterior, quando mandou uma mensagem a caminho do apartamento de Yoongi dizendo que ia passar a noite fora. O amigo não pediu uma explicação, muito provavelmente porque nem precisava de uma, mas ele não pensaria duas vezes antes de bombardear Jimin com perguntas, exigindo saber cada mínimo detalhe da noite deles não importava o quão invasivo e possivelmente nojento fosse.

“Eu quero detalhes!”

“Eu não sei se eu quero detalhes.”

“Então você não vai entrar na fofoca, só eu e Taehyung vamos ouvir.”

“Quem disse que eu quero contar detalhes?”

“Ah, Chim. Eu te conheço. Eu sei que você vai contar.”

Jungkook fazia cara de choro enquanto cutucava seu almoço, Taehyung e Hoseok conversavam rápido enquanto Jimin tentava interrompe-los para dizer que não entraria em tantos detalhes assim, mas eles não ouviam porque estavam ocupados demais tentando interpretar de forma grotesca como havia sido as preliminares. Eles não faziam exatamente as expressões e gestos mais adequados para um restaurante, mas as pessoas ao redor pareciam não ligar, então eles também não ligavam. Jimin não sabia se ria de seus amigos ou se tentava impedi-los de continuar.

Eles só se acalmaram quando uma sombra apareceu perto deles, e, olhando para cima, viram quem eles menos esperavam. Yoongi estava com uma bandeja em mãos, pedindo delicadamente para Jimin, por favor, arrastar a cadeira para ele poder se sentar. O homem, sem saber mais o que fazer, obedeceu, e Yoongi o agradeceu na hora com um sorriso, sentando-se bem ao lado dele na mesa onde geralmente só se sentavam quatro pessoas.

Só que agora tinham cinco.

“Você nunca come aqui embaixo.” Jimin disse com a voz baixa, fazendo Yoongi olhar para ele e concordar. Na mesma hora, ele começou a comer como se toda aquela situação fosse a coisa mais normal do mundo. “Por que veio hoje?”

“Estão limpando o restaurante lá em cima.” Yoongi limpou a boca com um guardanapo e apontou em uma direção, onde eles puderam ver Seokjin e Namjoon chegando com suas comidas também. “Parece que deu um problema em um cano. Então resolvi vir fazer companhia para você, tem algum problema?”

Seokjin e Namjoon se sentaram à mesa também e começaram a conversar com Hoseok, algo sobre trabalho que ninguém estava prestando atenção. Jimin encarava o perfil de Yoongi, que estava comendo tranquilamente e pouco se importando se sentia o olhar de alguém queimar em seu rosto. Talvez sua reação estivesse um pouco exagerada, mas Jimin não conseguia esconder a surpresa que estava sentindo.

“Você vai ficar me olhando para sempre ou vai comer sua comida?” Yoongi virou para o lado e encarou Jimin com um sorriso divertido no rosto. “Olhar para minha bochecha cheia não vai encher sua barriga.”

“Eu só não esperava sua companhia.” Jimin murmurou, soltou uma risada nervosa e colocou um pouco de comida na boca.

“Ah, nem eu esperava vir aqui.” Yoongi concordou e voltou a comer também, fingindo estar desinteressado no assunto. “Mas acho que posso me acostumar.”

Jimin olhou para o lado novamente e encarou Yoongi comendo sua comida calmamente, tentando esconder um sorriso que insistia em querer aparecer. Jimin sorriu também e cutucou seu prato, falhando em não demonstrar sua reação para o comentário.

“É,” Jimin concordou. “Eu também.”

Se antes Yoongi gostava de surpreender Jimin com tapas na bunda em pontos cegos das câmeras de segurança, agora ele surpreendia com abraços por trás e mãos delicadas posicionadas em sua cintura. Jimin prendia a respiração quando sentia os toques suaves porque ainda precisava de tempo para se acostumar com aquilo. Em que mundo ele imaginaria que Yoongi o trataria com tanto carinho, mesmo quando não precisava? Aquele tipo de coisa só acontecia em sua imaginação, em seus sonhos, principalmente quando ele tinha percebido que gostava de Yoongi alguns meses antes. Ter algo que ele achou que nunca sairia de sua imaginação era novo demais.

Antes a tensão entre eles era quase palpável, uma simples mão na cintura dava a sensação de que ambos estavam pegando fogo. Os mesmos toques que antes incendiavam seus corpos, agora nada mais eram que um gesto de carinho, apenas para mostrar que eles estavam ali e não iriam sair. Jimin gostava de sentir a mão reconfortante de Yoongi em seu ombro quando se levantava para pegar um café, sua voz grave o perguntando como estava seu dia, genuinamente preocupado em saber. Ele gostava mais até do que da sensação que tinha antes deles se transformarem naquilo.

Com beijos de bom dia e boa noite e sorrisos apaixonados que não deixavam nunca os rostos de Yoongi e Jimin, a semana seguiu até o sábado chegar. E quando sábado chegava, Hoseok comprava o melhor vinho que ele podia no mercado, colocava as pernas para cima e esperava sua campainha tocar para receber Jimin (e às vezes Taehyung) e fofocar até que sua língua ficasse dormente, ou que Jungkook aparecesse e fizesse eles falarem de outra coisa que não fosse a vida dos outros.

“Ele não sabe se divertir.” Hoseok disse com um biquinho no rosto enquanto seu marido beijava o topo de sua cabeça, tentando conter o riso. “Mas não tem problema porque ele acabou de voltar da academia e vai tomar banho agora mesmo, não é, docinho?

“Pedindo dessa maneira delicada.” Jungkook deu um suspiro e sumiu de vista no corredor, deixando os outros três homens para trás para continuar fofocando.

Hoseok estava sentado no chão perto das pernas de Jimin, enquanto Taehyung estava estirado no sofá com seus pés sobre a coxa de seu melhor amigo, ambos ouvindo com atenção tudo que o homem contava sobre sua noite com Yoongi. Às vezes eles interrompiam para fazer comentários, dar risada, ou comentar sobre como podiam ter vivido sem aquela informação. Jimin franzia o cenho e reclamava que eles haviam pedido detalhes, só estava dando o que seu público queria.

“Então quer dizer que ele não disse que não era nada, mas também não disse que era alguma coisa, só que vocês deveriam tentar.” Taehyung disse com uma sobrancelha arqueada, e Hoseok concordou na hora. Jimin parou para refletir e soltou um suspiro. “Não estou dizendo que isso é ruim! Só que... olha, não dá para te culpar por ficar desconfiado. Foi muito de repente!”

Jimin precisava concordar; foi muito de repente em questões físicas. Um belo dia Yoongi voltou de viagem e decidiu que eles precisavam tentar alguma coisa, mesmo sem dar nome para aquela coisa. Mas quanto mais Jimin refletia sobre tudo que vinha acontecendo, ele sentia como se não tivesse sido tão de repente assim. A amizade deles sempre se fez presente desde a primeira briga que tiveram, e isso nunca mudou. Depois que começaram a transar era como se as duas coisas se separassem completamente – eles tinham hora para serem promíscuos, e hora para serem amigos. Só que com o tempo as coisas foram se misturando, bem aos poucos. A intimidade da amizade foi se transferindo para o sexo, e Jimin até notou alguns sinais de ciúmes, ou um sinal de querer saber mais sobre as questões amorosas da vida um do outro. Como se já estivessem tentando algo antes mesmo de saber que estavam.

Então, aquilo tudo fazia Jimin questionar:

“Será mesmo que foi de repente?”

Aquela pergunta o importunou por dias e dias, às vezes até o distraindo enquanto ele estava com o próprio Yoongi, que fazia questão de dar o espaço que ele precisava para colocar sua cabeça no lugar. Só que Jimin nunca durava muito tempo longe dele, e, ao final do expediente, entrava no carro que ele já conhecia tão bem, deixando que Yoongi o levasse para onde ele bem quisesse. Só naquela semana eles já haviam visitado dois restaurantes, e haviam até passado na lanchonete que eles sempre iam para comer comida gordurosa dentro do carro jogando assunto fora.

“Eu não sou alto, nunca fui muito forte, e o Jin hyung é todo o contrário disso!” Yoongi disse contando os itens em seu dedo, sua expressão de frustração no rosto era tão hilária que Jimin não conseguia mastigar seu hambúrguer de tanto que ria. “Agora pense em um jovem Min Yoongi, arrastando um alto e forte Kim Seokjin pelas ruas, uma chuva absurda caindo do céu, com um sapato faltando! Eu nunca mais fui naquela festa de novo.”

“Você precisa me contar mais histórias de quando vocês dois estavam na faculdade.” Jimin disse secando algumas lágrimas que saíram de seus olhos, ainda deixando uma risada escapar quando ele se lembrava dos detalhes que mais o fizeram rir. “Eu não consigo terminar minha comida de tanto que estou rindo.”

“Ele conta as outras melhor, porque quem geralmente fazia merda e não lembrava era eu.” Yoongi abriu um sorriso, como se estivesse se lembrando da época. “Além disso, se ele não sabe de alguma história, a única pessoa do mundo que sabe é minha ex. Então não tenho muito o que contar.”

“Sua ex?” Jimin sentiu a risada morrer em seu peito na hora.

“É, mas eu nem sei se ela lembra mais de mim.” Yoongi deu de ombros. Jimin tentou buscar qualquer sinal de desconforto, ou qualquer ação que pudesse o deixar preocupado. Mas, pelo que ele viu, Yoongi parecia realmente indiferente. “Tanto faz, isso foi há tanto tempo que eu nem lembro mais como ela é, sinceramente.”

“E faria alguma diferença se ela voltasse agora?”

Jimin não queria ter estragado o clima bom no carro, mas precisava saber. Ele não sabia dizer exatamente porquê, talvez fosse um ciúme bobo que não fazia nem sentido, mas ele precisava de uma resposta. Yoongi o encarou com o cenho levemente franzido, sem dizer nada por alguns segundos.

“Se o seu ex voltasse agora, mudaria alguma coisa?” Yoongi se ajeitou no banco do carro e se aproximou de Jimin, olhando para sua boca sem sentir um pingo de vergonha.

“Não,” Jimin se apressou em negar e olhou para a boca de Yoongi rapidamente, voltando a encarar seus olhos logo depois. “Eu nem gosto de pensar nele.”

“Que bom,” Yoongi sorriu e voltou a olhar para cima, pegando Jimin o encarando profundamente. “Porque minha resposta é a mesma.”

Jimin queria dizer que era nojento beijar Yoongi quando ele conseguia sentir o sabor da comida gordurosa em sua boca, mas nem para isso ele era capaz de mentir. Ele amava beijar Yoongi não importava a situação, não importava a hora e lugar. Gostava do ritmo do beijo, de como suas bocas pareciam se encaixar perfeitamente. Se pudesse, Jimin beijaria Yoongi pelo resto de sua vida, e se vida após a morte existisse, gostaria de beijá-lo nesse plano também.

“O que você acha da gente jantar fora esse sábado?”

Levava um tempo para Jimin se acostumar com certas coisas, principalmente quando certas coisas envolviam colocar o deixa acontecer dele e de Yoongi nos eixos. Ele ainda estranhava quando seu chefe segurava sua mão enquanto dirigia, estranhava a forma como ele parecia estar fazendo amor, ainda estranhava bastante acordar ao lado dele, mesmo que já tenha acontecido algumas vezes. Só que aquilo – a ideia de se arrumar em um sábado para sair com Min Yoongi e apenas ele – era assustador. Não porque era ruim, mas Jimin ainda não se sentia seguro para mergulhar de cabeça naquilo.

Então, em uma quinta-feira quando eles estavam jogando papéis antigos fora, e Yoongi fez aquela perguntava enquanto separava uma pilha enorme de folhas usadas, Jimin congelou em seu lugar e encarou a estante bem à sua frente.

Ele não disse nada simplesmente porque estava digerindo a pergunta, sentindo como seu estômago estava rejeitando a ideia. Não sabia se dizer se a gota de suor que sentiu escorrendo em sua testa era real ou se era fruto de sua imaginação, mas sentia-se nervoso o suficiente para algo daquele nível acontecer. Depois de alguns segundos – ou minutos, ele não sabia dizer – de silêncio, Jimin sentiu um par de mãos encostar em sua cintura, instantaneamente fazendo cada músculo de seu corpo relaxar, quase virar gelatina.

“Tudo bem,” Jimin disse com sua voz entrecortada. Yoongi encostou a boca em seu ombro para dar um beijo, e ele consequentemente conseguiu sentir o sorriso se formando no rosto de seu chefe. Na mesma hora ele se virou para trás, querendo olhar em seus olhos quando terminasse sua frase. “Mas eu preciso saber se você tem noção do que está fazendo.”

“É um encontro, eu sei–”

“Não é um encontro, você sabe que não é.” Jimin franziu o cenho e tentou decifrar a expressão de Yoongi, mas ele havia tornado a tarefa impossível com a indiferença ensaiada estampada em seu rosto. “Tudo que a gente vem fazendo, as coisas que estão acontecendo, e mais isso. Yoongi hyung, isso é mais do que só deixar as coisas acontecerem.”

“Eu falei para nós tentarmos, não falei?” Yoongi disse com a voz baixa, e Jimin concordou na mesma hora, sentindo como sua boca estava seca de repente. “Isso é uma tentativa. Eu sei que é mais, eu sei o que eu estou fazendo.”

“E você tem certeza de que quer isso?”

A sala ficou em silêncio por alguns segundos, ambos se encarando nos olhos, até que Yoongi finalmente desse sua resposta.

“Absoluta.”

Jimin sabia que ainda havia pessoas no andar, mas a sensação que tomou conta de seu corpo foi demais para ele simplesmente concordar com Yoongi e deixar por isso mesmo. Na mesma hora ele o puxou pela gravata para beija-lo, logo colocando seus braços em volta do pescoço de Yoongi sem nem dar tempo para ele ter uma reação direito. O homem mais velho riu e retribuiu o beijo, fechando os olhos e aproveitando o momento mesmo que não fosse o mais adequado dado o horário.

Agora, Jimin estava começando a se acostumar a ir para o apartamento de Yoongi depois do trabalho, rindo quando Taehyung dizia brincando que estava sendo abandonado pelo próprio melhor amigo. Ele até levava uma muda de roupa para o dia seguinte, principalmente para evitar as piadinhas de Hoseok e as perguntas de Jungkook sobre qual camisa de Yoongi ele estava usando naquele dia. Não que ele não gostasse, arriscava dizer que até amava, mas ele não podia simplesmente roubar todas as camisas de seu chefe sem que ninguém percebesse.

Seokjin o perguntou depois do almoço, quando eles estavam na cobertura conversando, como andava a situação dele com Yoongi. Jimin respirou fundo e olhou para o céu nublado, abrindo um sorriso ao pensar como as coisas haviam mudado desde que eles conversaram no mesmo lugar onde estavam sentados naquele momento. Ele não conseguiu dizer nada além de ‘bem’, e é claro que Seokjin entendeu, porque por mais que estivesse perguntando a Jimin como estavam as coisas, era óbvio que ele já estava inteirado de tudo que estava acontecendo.

Hoseok só ficou sabendo que não teria a companhia de Jimin naquele sábado no próprio dia. Nem mesmo Taehyung sabia que a reunião usual deles não aconteceria, então ao invés de duas pessoas terem uma conversa civilizada pelo telefone, tudo se tornou uma completa gritaria entre Hoseok e Taehyung, que perguntavam ao amigo por que ele não tinha contado nada para eles antes. Jimin não sabia responder porque nem ele sabia dizer qual havia sido seu motivo, só devia estar evitando a gritaria que sabia que aconteceria assim que eles soubessem do encontro, exatamente como aconteceu. Taehyung continuava falando sobre como ele teria ajudado Jimin a comprar uma roupa decente, e Hoseok estava parte irritado porque tinha comprado vinho à toa, parte feliz porque poderia beber o vinho com Jungkook e fazer da sua noite tão interessante quanto a de Jimin.

Pelo menos eles estavam ajudando a acalmar seus nervos. Jimin sabia que se estivesse completamente isolado de todo mundo sua mente divagaria e o levaria a lugares que ele não queria ir, fazendo-o pensar mil coisas que ele não queria pensar. Ele ficaria nervoso demais para o encontro e se perguntaria se aquilo era mesmo o que Yoongi queria, se tudo não passava de um sonho real demais e quando ele acordasse, ainda estaria em sua cama, desligando seu alarme antigo e se arrumando lentamente para ir trabalhar no sexto andar com Taehyung.

Quando a campainha tocou, Jimin estava terminando de abotoar sua camisa e não teve tempo de ir até a porta atende-la, mas Taehyung estava quase tremendo de empolgação de saber que o melhor amigo sairia com o homem que ele gostava. Então, quando foi para a sala completamente vestido e pronto para sair, Jimin viu Taehyung sentado no sofá com um sorriso satisfeito no rosto e Yoongi parado na porta com uma única e singela rosa em suas mãos, olhando para baixo enquanto o esperava.

“Uma rosa?” Jimin se aproximou com um sorriso no rosto, e Yoongi levantou o olhar na mesma hora e concordou, parecendo muito com um adolescente naquele momento. Taehyung segurou um gritinho, mas ninguém o ouviu – ainda bem. “É muito bonita, obrigado.”

“Eu compraria mais, mas eu não sabia que tipo de flores você gosta, se você gosta de flores, se você liga para essas coisas, ou se–”

“Hyung,” Jimin disse com a voz suave, interrompendo Yoongi e o fazendo se calar no mesmo instante. “Eu adorei. É muito gentil da sua parte, e a rosa é linda.”

Yoongi abriu um sorriso e esperou na porta por mais alguns minutos enquanto Jimin arrumava um lugar para colocar a rosa, sem conseguir conter a alegria que estava sentindo com aquele gesto simples. Uma flor havia o deixado daquele jeito e era apenas o começo da noite, ele mal conseguia imaginar como seriam as próximas horas. Enquanto colocava o pequeno vaso em seu devido lugar, Jimin conseguia ouvir a voz distante de Yoongi e de Taehyung conversando, e algo dançou em seu peito, contente de saber que seu melhor amigo e seu chefe – chefe? Aquela não parecia mais ser a melhor palavra para usar, apesar de ele ainda manter seu emprego – estavam se dando bem.

Voltando para a sala, Jimin anunciou que estava tudo em seu lugar e que ele estava pronto para sair. Yoongi concordou e estendeu uma mão, apenas esperando que Jimin a pegasse para eles irem embora. Taehyung assistia a tudo de olhos arregalados, suas duas mãos cobrindo sua boca como se aquilo fosse um drama e o casal principal estava prestes a se acertar. Até mesmo Jimin se sentia daquela forma, pegando a mão estendida de Yoongi e entrelaçando seus dedos, calçando os sapatos de forma desajeitada porque não queria se soltar dele.

“Não voltem para cá hoje e tenham uma boa noite!”

Assim que a porta se fechou depois de Taehyung terminar de falar, Jimin e Yoongi caíram na gargalhada com o comentário do homem e ficaram alguns segundos se encarando em silêncio em frente ao apartamento. Era como se eles estivessem finalmente absorvendo tudo que estava acontecendo, encaixando pecinha por pecinha do quebra cabeça deles, descobrindo coisas novas juntos que eles não sabiam antes como poderiam gostar – e estavam gostando, muito. Jimin ainda se lembrava dos encontros que tivera com Kihyun e Minho, mas nenhum fez ele se sentir da forma como estava se sentindo naquele momento, e era apenas o início da noite.

Ambos se sentiam exatamente como adolescentes descobrindo o amor, de mãos dadas dentro do carro com sorrisos enormes em seus rostos, mas sem dizer nada por conta do nervoso. Não tinham porque ficar daquele jeito, já se conheciam tão bem que deveriam estar falando de qualquer assunto banal como eles sempre faziam, fazendo comentários sobre a textura do papel higiênico que usavam no banheiro do andar deles. Só que aquilo era novo entre eles. Dar um passo em uma direção mais romântica no relacionamento deles estava os deixando nervosos, animados com o que eles poderiam virar.

“Minha mãe que me indicou esse restaurante.” Yoongi disse quando eles já estavam sentados, passando os olhos rapidamente pelo cardápio. “Já vim aqui antes, é realmente muito bom.”

Jimin encarava o topo do cardápio, o nome do restaurante o encarando de volta como se estivesse zombando dele. Sua respiração havia parado e ele tinha certeza de que sua boca estava ficando seca, mas ele fazia o máximo para não demonstrar o que estava passando por sua cabeça. Ele já conhecia aquele nome, já havia visto algumas vezes em notas fiscais quando começou a verifica-las para Yoongi. O mesmo restaurante que era muito popular entre casais. E ali estavam eles, no mesmo lugar. Jimin sentia a necessidade enorme de gritar, mas sabia que devia ficar quieto para aproveitar o momento e não pensar em outras pessoas que já estiveram ali com Yoongi.

Como em um passe de mágica, Jimin abstraiu tudo que se passava por sua cabeça para dar a atenção que Yoongi merecia, finalmente começando a jogar papo fora como faziam quando estavam na companhia um do outro. Jimin insistia em dizer que o sabonete do banheiro do décimo primeiro andar tinha um cheiro ruim, enquanto Yoongi tentava convencê-lo que não era ruim, apenas forte demais para um sabonete líquido, deixando que a conversa fluísse e a comida deles finalmente chegasse. Jimin precisava admitir, ali era realmente gostoso e ele voltaria para comer em outra oportunidade. Não era à toa que Yoongi gostava tanto de levar diferentes pessoas ali, não é mesmo?

No caminho de volta, Jimin disse com a voz baixinha que não queria ir para casa, e Yoongi respondeu no mesmo tom que não planejava deixa-lo em casa. Porém, ao invés de eles irem para o apartamento de Yoongi, ele pegou um caminho diferente que Jimin não conhecia, mas também não estranhou. Confiava em Yoongi, e sabia que onde quer que ele estivesse o levando, seria bom para ambos.

Só que ele realmente não esperava que um parquinho fosse seu destino.

“Yoongi, acho que esse não é exatamente o melhor lugar para dois adultos se divertirem.” Jimin disse com uma expressão confusa no rosto, parado bem ao lado de um escorregador que tinha seu tamanho.

“Nós não vamos brincar.” Yoongi entrelaçou seus dedos nos de Jimin e o puxou para longe do escorregador, e para mais perto de um banco que estava bem embaixo de uma árvore completamente sem folhas. “Nós vamos aproveitar o clima.”

Depois de ter certeza de que o banco estava seco, Yoongi puxou Jimin para se sentar ao seu lado, jogou um braço em volta de seu ombro e continuou a conversa que estavam tendo no restaurante. Eles até poderiam dar a desculpa de que estava frio para terem se aninhando nos braços um do outro, mas no fundo sabiam que fariam aquilo em qualquer estação do ano, em qualquer clima que estivesse. Jimin gostava de deitar sua cabeça no ombro de Yoongi enquanto o ouvia contar uma história sobre como o décimo primeiro andar costumava ser mal-assombrado antes da reforma, deixando que sua voz acalmasse seu corpo por inteiro e ele se sentisse em completa paz.

Não sabiam dizer exatamente quantas horas haviam passado ali, apenas conversando, variando assuntos desde os mais banais até os mais sérios, derramando até algumas lágrimas contando de situações difíceis que viveram no passado. Yoongi fez questão de beijar o rosto de Jimin e dizer que ele não precisava falar do assunto se não quisesse, mas o homem mais novo insistiu em continuar, dizendo que era melhor colocar tudo para fora do que deixar tudo preso. Ambos sentiam um certo conforto em saber de alguns de seus segredos mais profundos, que muito provavelmente outras pessoas não sabiam. Era quase como uma confirmação implícita de que podiam confiar um no outro.

Às duas da manhã, enquanto Yoongi dirigia, Jimin murmurou que ainda não queria ir para casa, e novamente ele respondeu que não pretendia leva-lo. Como na noite em que transaram pela primeira depois de se beijarem na cozinha, tudo tinha um toque diferente que fazia seus corações se aquecerem em todos os locais certos. Seus dedos entrelaçados enquanto suas testas se tocavam, elogios sussurrados contra gargantas e ao pé de suas orelhas, braços fortes se puxando para mais perto, querendo mais daquele contato. Jimin gostava de se sentir amado de todas as formas, e Yoongi gostava de fazê-lo se sentir daquela maneira, não importava como.

Se Jimin passou seu domingo inteiro falando de sua noite para Hoseok, Taehyung e Jungkook, ninguém precisava saber. Os três ouviam com atenção a história, reagindo de forma similar a cada mínimo detalhe. Chegava a ser cômico e parecia ser até forçado, mas Jimin sabia que vinha do fundo do coração, até mesmo de Jungkook que não costumava ligar muito para as fofocas dele. No final das contas, os três diziam a mesma coisa: parecia que Yoongi finalmente estava dando um rumo para eles dois.

Só que segunda-feira chegou, e Jimin já devia ter aprendido que nem sempre quando a semana começava as coisas seriam boas.

Primeiro, ele não recebeu seu beijo de bom dia, mas era porque Yoongi nem estava no andar quando Jimin chegou. O dia seguiu assim, sem muitas notícias de seu chefe, apenas comentários de seus amigos mais próximos dizendo que ele estava muito ocupado. O que era verdade e obviamente Jimin sabia já que ele tomava conta da agenda do homem, mas ele raramente ficava o dia inteiro longe do décimo primeiro. Yoongi descia nem que fosse por dois segundos para dar um oi para Jimin e depois voltava ao trabalho, e mais recentemente ele descia apenas para trocar um rápido beijo no banheiro ou em sua sala e saía quase voando para não se atrasar para uma reunião.

Ao final do dia, Hoseok perguntou se Jimin iria para casa com ele e Jungkook, mas o homem mais novo negou e disse que ia esperar Yoongi. Era impossível que ele fosse do décimo terceiro direto para a garagem, suas coisas estavam todas em sua sala e Yoongi não teria nem como sair do prédio sem elas. Então Jimin continuou sentado em sua cadeira, digitando sem parar, vendo a hora passar no relógio de ponteiro que tinha na parede ao lado da porta enorme de vidro. Já estava ficando tarde, talvez até Taehyung já estivesse a caminho de casa, mas Jimin precisava de algumas respostas e sabia que a única maneira de as conseguir era ficando por lá.

A porta do elevador finalmente se abriu e Yoongi saiu de dentro com o olhar preso ao chão. Jimin não conseguia ver direito como estava a expressão em seu rosto, mas soltou um suspiro de alívio por pelo menos ele finalmente estar ali. Levantou-se de sua cadeira, ajeitou sua roupa, e quando estava prestes a abrir a boca para falar, Yoongi passou reto por ele e entrou em sua sala. Jimin franziu o cenho e olhou para trás, vendo seu chefe pegar suas coisas rapidamente, olhando para todos os lados querendo ver se tinha deixado alguma coisa ali que ele poderia precisar depois. Yoongi estava prestes a ir embora sem dar uma palavra, mas Jimin o segurou pelo braço e forçou a olha-lo no olho.

“Ei, você não falou comigo o dia–”

“Não fala comigo.”

Jimin piscou os olhos algumas vezes e abriu um sorriso, achando que aquilo era algum tipo de piada de mau gosto. Yoongi tentou se soltar de sua mão, mas Jimin o segurou com mais força e franziu seu cenho, vendo que aquilo era mais sério do que ele esperava.

“Yoongi?”

“Não fala comigo, não me toca.” Yoongi disse com veneno em sua voz, finalmente se livrando da mão de Jimin. “Não quero mais te ver, não fala comigo a menos que seja extremamente necessário ou que seja para o trabalho.”

“Yoongi hyung, do que você–”

“Esquece tudo que já aconteceu entre a gente.” Yoongi colocou uma mão no bolso e saiu andando de costas, encarando Jimin nos olhos enquanto ele falava tudo aquilo. O mais novo já conseguia sentir a ardência familiar das lágrimas se formando, mas não se moveu e não piscou. “Esse negócio da gente tentar foi um erro. Não devia ter acontecido, nunca.”

O elevador abriu, Yoongi entrou e as portas se fecharam, o último contato visual entre eles sendo interrompido pelo metal pesado.

Jimin sentiu a primeira lágrima cair.

Notas finais
Espero que tenham gostado do capítulo (apesar dos apesares, hehe) e qualquer coisa é só gritar comigo aqui ou no twitter (@/yunttai).