11º Andar
15 Medo
Notas iniciais
Yoongi queria não estar ouvindo aquelas palavras saindo da boca daquela exata pessoa.
Ele nunca havia sido chamado atenção antes por estar tão distraído no trabalho. Nunca tinha ficado distraído a ponto de ouvir seu chefe reclamar e pedir para ele voltar a ser o que era antes, concentrado e dedicado. Obviamente que o único motivo para ele ser daquele jeito era porque ele não deixava nada de fora o atingir, e não se preocupava com coisas que pessoas da sua idade geralmente se preocupam. Quando vai casar, quando vai constituir uma família? Para Yoongi, a única pergunta que rondava sua mente era quando ele ia receber uma promoção, e era por isso que ele nunca se distraía. Ele tinha um foco.
Yoongi prometeu que aquilo não aconteceria de novo e foi para sua reunião marcada para o horário que Jimin chegava, agradecendo aos céus que pelo menos ele teria como ignorar o homem mais novo por enquanto. Ele tratava de negócios, falava uma língua diferente da sua nativa, dava sorrisos falsos e acertava acordos, mas sua mente não estava imersa naquilo. Ele sempre voltava seus pensamentos para Jimin, mesmo quando estava pensando na melhor maneira de terminar o que eles tinham depois de dizer que eles deveriam tentar levar o deixa acontecer deles adiante.
Sabia que aquela história não daria certo. Seokjin o convenceu de que seria bom tentar namorar de novo, que já estava mais do que na hora de Yoongi aceitar seus sentimentos por Jimin, que ele seria uma boa companhia e gostava dele tanto quanto Yoongi gostava, mas tudo acabou dando errado no final. Jimin acabou virando um problema para a vida profissional de Yoongi, e se tinha uma coisa que ele não podia arriscar, era jogar seu emprego pela janela por conta de um relacionamento.
Só que Jimin não era só um relacionamento. Jimin não era algo que ele podia jogar fora como se ele não tivesse valor, e Yoongi sabia que doeria tentar se afastar dele. Jimin era uma pessoa que ele sempre precisou em sua vida, mas só ficou sabendo o quão importante ele era quando sentiu seu coração batendo cada vez mais forte quando via o homem. Jimin estava o fazendo sentir coisas pela primeira vez em anos, e Yoongi amava cada segundo que passava ao seu lado, fosse tomando sorvete, comendo porcarias, conversando sobre papel higiênico, fosse transando com ele ou apenas o beijando.
Era um pouco assustador de pensar, mas Yoongi arriscaria dizer que estava amando.
E era isso que estava o atrapalhando.
Yoongi não tinha tempo para relacionamentos, ele tinha tempo para seu trabalho e apenas isso. Sua mãe costumava o importunar perguntando quando ele ia arranjar uma noiva novamente, ou por que ele não voltava para sua ex-noiva. Ela queria mais netos, queria que a família crescesse, queria que seus filhos achassem a felicidade ainda mais agora que seu marido havia pedido divórcio. Yoongi entendia o lado da mãe, queria ver a mulher feliz acima de tudo, mas era cansativo sempre responder que ele não queria se casar e ter filhos. Era cansativo tentar se convencer de que ele estava completamente bem sozinho quando Park Jimin estava em sua vida, e Yoongi sabia que seria muito mais feliz ao lado dele.
Ao final do dia tudo que ele queria era sua cama. Ele estava exausto de pular de reunião em reunião, trocar de língua a cada cinco minutos, e principalmente estava cansado de ter pensado em Jimin o tempo todo. Yoongi não tinha ideia de como terminaria aquilo sem deixar ninguém triste, não sabia como falaria que não podia ter nada com o homem depois dele tanto insistir para fazer aquilo acontecer. Era maldade. Mas ele precisava colocar sua cabeça no lugar de novo, precisava ouvir seu cérebro ao invés do coração. Suas decisões racionais sempre o levaram mais longe.
Ele sabia que Jimin ainda estava ali quando entrou no décimo primeiro andar, mas talvez se ele o ignorasse por completo, Yoongi conseguiria escapar. Só que obviamente seus planos não foram de acordo com o que ele esperava, porque assim que teve a oportunidade, Jimin agarrou seu braço e começou a falar com ele. Yoongi estava irritado, cansado, e queria acabar com aquilo da forma mais rápida possível. Ele se arrependeria depois do que tinha feito, pensaria na expressão de dor no rosto de Jimin e nunca se perdoaria por tê-lo deixado daquele jeito, mas era algo que precisava fazer.
“Não fala comigo.”
Ver aquele sorriso no rosto de Jimin partiu o coração de Yoongi porque ele claramente estava confuso. Sábado eles tinham ido a um encontro, domingo tinham acordado juntos e tomado café da manhã juntos, o que tinha mudado na segunda-feira? Yoongi queria explicar, mas sabia que se explicasse soaria ridículo e ele não queria passar por isso. Só queria acabar com toda aquela situação o mais rápido possível. Ele tentou se livrar do aperto de Jimin, mas não conseguiu.
“Não fala comigo, não me toca.” Yoongi finalmente se soltou da mão de Jimin e viu a mesma expressão de dor no rosto do homem que ele já havia visto tantas vezes, e todas elas causados por ele próprio. “Não quero mais te ver, não fala comigo a menos que seja extremamente necessário ou que seja para o trabalho.”
“Yoongi hyung, do que você–”
“Esquece tudo que já aconteceu entre a gente.” Yoongi colocou uma mão no bolso e começou a andar para trás, absorvendo cada detalhe do rosto triste de Jimin antes de finalmente ir embora. Ele queria deixar sua mensagem. Talvez se o magoasse, o homem não iria atrás dele, e então finalmente poderia focar em seu trabalho da maneira que ele tentava se convencer de que tanto queria. “Esse negócio da gente tentar foi um erro. Não devia ter acontecido, nunca.”
Yoongi entrou no elevador e, de longe, viu como Jimin estava imóvel em seu lugar com a mesma expressão de choque. Ele tentava se convencer de que estava fazendo o que seria melhor, que assim que seus sentimentos por Jimin passassem seria como se nada tivesse acontecido, e ele manteria seus superiores contentes como sempre havia feito. Assim que a porta se fechou, no entanto, sua pose de durão se desfez na hora e ele sentiu as primeiras lágrimas caírem pelo seu rosto.
Já dentro do carro, ele tentou chorar tudo que precisava para ir para casa sem a visão embaçada pelas lágrimas. Yoongi chorava tanto que se perguntou algumas vezes se a garagem do prédio tinha hora para fechar, porque já estava ali havia alguns bons minutos e ele não sentia como se fosse passar tão cedo. Ele não conseguia tirar da cabeça a imagem dos olhos de Jimin se enchendo de lágrimas, a expressão chocada em seu rosto, e agora ele provavelmente estava sozinho se culpando por tudo quando o culpado sempre havia sido Yoongi, sempre foi Yoongi fazendo merda e o magoando.
Hoseok o ligou diversas vezes, Seokjin o ligou, Namjoon o ligou e até mesmo Jungkook o ligou durante todo o caminho até sua casa e durante a noite inteira. Yoongi não queria responder porque ele sabia que cada um deles ia gritar perguntando que merda ele tinha feito dessa vez, e, sinceramente, Yoongi não estava nem um pouco disposto a ouvir seus amigos brigando com ele depois da noite que teve. Se pudesse, ficaria em casa pelo resto da semana apenas para colocar suas emoções no lugar – mas isso iria contra tudo que ele estava pensando. Trabalho acima de tudo, certo?
Certo?
Yoongi estava preparado para qualquer dor que fosse sentir no dia seguinte. Ele estava preparado para ver os olhos de Jimin inchados, estava preparado para senti-lo o ignorando como já havia feito antes, apenas para eles dois ficarem no mesmo nível. Só que quando Yoongi colocou os pés no décimo primeiro andar, quinze minutos atrasado, Jimin não estava sentado em seu lugar. Era uma outra pessoa, uma mulher bem mais velha que ele, teclando com uma expressão confusa em seu rosto. Yoongi congelou bem na porta de entrada e ficou a encarando, sentindo um frio esquisito percorrer por sua espinha. Ele engoliu em seco e caminhou até ela, reunindo coragem para falar.
“Com licença, desculpa se a pergunta soar rude, mas quem é você?”
“Ah, senhor Min!” A mulher abriu um sorriso simpático e se levantou da cadeira, curvando-se para frente e se aproximando um pouco de Yoongi para conversar em um tom de voz mais baixo com ele. “Seu assistente Park Jimin pediu licença médica por alguns dias e eu vim substitui-lo até ele voltar. O senhor tem uma reunião marcada–”
Yoongi parou de ouvir o que aquela mulher tinha a dizer porque em sua cabeça apenas as palavras ‘pediu licença médica’ se repetiam sem parar. Por algum motivo, aquilo era pior do que ter que encarar Jimin depois da noite anterior. Saber que tudo havia o afetado tanto a ponto de ele não conseguir ir trabalhar era muito, muito pior. De repente, o próprio Yoongi desejou ter ficado em casa.
Ele ignorou as mensagens que recebeu de Seokjin durante o dia, ignorou quando Hoseok parou bem na sua frente e tentou impedi-lo de sair do elevador, ignorou quando Namjoon entrou em sua sala e o chamou de covarde por não falar com ninguém. Pelo amor de Deus, até mesmo Kim Taehyung foi até o décimo primeiro andar para saber o que tinha acontecido, mas Yoongi apenas o ignorou e o mandou ir fazer o trabalho dele. A situação já era ruim, mas ele só estava piorando. Com Jimin em casa e Yoongi ignorando o mundo inteiro a não ser por sua secretária substituta, ele não conseguia imaginar um final feliz para aquela história toda.
O resto da semana passou extremamente devagar. Yoongi não estava vivendo, estava apenas existindo. Parecia que fazia tudo no automático, e as tentativas de seus amigos de se comunicar com ele estavam diminuindo. As pessoas não estavam mais ligando porque ele não dava espaço para elas ligarem. Yoongi só as afastava, esperando que elas parassem, e quando elas finalmente parassem, ele se sentiria completamente sozinho. Já havia feito aquilo antes, afinal de contas, já tinha lidado com a dor de um coração partido. Mas aquilo estava parecendo muito pior.
“Se você pudesse pelo menos dar um resumo do que aconteceu, seria muito bom.” Seokjin disse entrando na sala de Yoongi com passos fortes, empurrando um envelope marrom no peito dele com mais força que o necessário. Yoongi clicou a língua e estava pronto para sair dali, mas sentiu a mão forte de seu amigo o impedindo. “Min Yoongi, eu quero um resumo. Taehyung disse que Jimin chegou em casa segunda-feira tremendo da cabeça aos pés, chorando sem parar e até agora não saiu da cama e não falou nada.”
Yoongi fez uma careta e largou o envelope em cima de sua mesa, tentando imaginar Jimin naquela situação. Pior ainda, por sua culpa. Será que Yoongi não se cansava de ser o pior ser humano da face da terra? Será que ele não se cansava de machucar todas as pessoas que ele amava? Só de imaginar Jimin chorando ele já queria chorar também, mas se segurou porque tinha uma reunião em dez minutos, e não podia chegar na sala com o rosto todo vermelho.
“A gente brigou.”
“Foi mais sério que isso, Min Yoongi.” Seokjin cruzou os braços e franziu o cenho, mostrando exatamente como estava irritado. Yoongi odiava quando ele fazia aquilo porque o fazia se sentir pequeno, intimidado, e detestava se sentir assim. “Você normalmente tem a aparência de alguém que não dorme há dias, mas agora você está com a aparência de uma porra de um zumbi. Explica direito.”
“Eu terminei com ele.” Yoongi suspirou e passou uma mão pelo rosto, bloqueando sua visão porque ele não estava disposto a ver a expressão irritada de Seokjin. “Terminei? Sei lá, caralho, a gente nem começou. Eu só– Olha, eu fui chamado a atenção por estar muito distraído e eu sei que a culpa é toda dele por me distrair, então eu achei melhor cortar o mal pela raiz de uma vez só.”
“A culpa é sua se você está distraído, o Jimin não tem nada a ver com isso.” Seokjin balançou sua cabeça, a cada segundo que passava ficando mais e mais irritado com Yoongi. “Você não precisa tirar o cara da sua vida assim só porque recebeu uma bronca, Yoongi. Tem noção do que fez? Você fez o Jimin confiar em você mesmo depois de todas as vezes que você deu a entender que não queria nada, e quando vocês finalmente poderiam ter alguma coisa, você simplesmente–”
“Eu aprecio muito sua amizade, Jin hyung, mas eu não aprecio você se metendo na minha vida quando em momento algum eu pedi a porra da sua opinião.” Yoongi falou com a voz alta, talvez alta demais, correndo o risco até de pessoas do lado de fora ouvirem. “Pode falar o quanto você quiser que eu fiz merda, você sabe que minha prioridade é meu trabalho, sempre foi–”
“Você é capaz de amar, Yoongi!” Seokjin retrucou no mesmo tom, ficando ainda mais irritado com o rumo da conversa. “Você é capaz de ter os dois ao mesmo tempo, só porque uma pessoa te deixou pelo emprego anos atrás não quer dizer que você vai sofrer de amor de novo! E se sofrer, que bom! Isso se chama viver!”
“Nem todo mundo consegue conciliar o trabalho com o amor como você, hyung!” Yoongi gritou dessa vez, sem se importar se alguém o ouviria. As respirações de ambos estavam pesadas, claramente mostrando o esforço que fizeram para soltarem suas frustrações. “Eu não sou mais aquele Yoongi de anos atrás, ok? Tentar um relacionamento foi uma má ideia. Agora que você conseguiu arrancar o que queria de mim, fala para os outros pararem de me encher o saco.”
A parte ruim de ter uma secretária – ou uma babá, como Jimin havia dito uma vez – era que Yoongi se tornava um pouco inútil para fazer as coisas mais simples como comprar uma passagem de avião para Daegu no final de semana. Ele não queria pedir à mulher que estava substituindo Jimin, então se deu o trabalho de comprar ele próprio sua passagem, precisando ficar longe de Seul de tão estressante que sua vida estava. Yoongi sabia que Daegu também não seria o melhor lugar para visitar, mas até sua situação lá era mais agradável do que a da cidade grande.
Passagens compradas, malas prontas, o peso do olhar de reprovação de Hoseok o atormentando a cada segundo de seu dia e Yoongi estava pronto para ir para Daegu na sexta à noite. Jimin ainda não havia voltado e ele agradecia aos céus por isso, porque pelo menos teria mais um tempo para se preparar para o reencontro inevitável deles muito provavelmente na segunda-feira seguinte.
Às vezes, enquanto dirigia pelas ruas de Daegu, Yoongi se perguntava como seria sua vida se ele tivesse continuado ali ao invés de ter ido para Seul. Ele se perguntava como estaria vivendo agora se sua ex-noiva nunca tivesse ido para outro país, será que ele já teria um filho assim como seu irmão? Será que ele seria feliz vivendo a vida que todos esperavam que ele vivesse? Pelo menos em uma cidade diferente seus pais não podiam ficar tanto no seu pé, perguntando quando ele levaria uma nova namorada para casa. Yoongi deu uma risada seca quando pensou na possibilidade de levar um namorado.
Sua mãe estava sentada no sofá com as pernas em cima da mesa de centro assistindo à televisão quando ele abriu a porta de casa, vendo um sorriso se formar no rosto da mulher, algumas rugas aparecendo junto. Yoongi largou sua pequena mala na porta, apressou-se em tirar seus sapatos e foi correndo até ela, abraçando-a com força e deixando seu corpo relaxar por completo com o carinho, Holly tentando pular em cima deles para ganhar atenção também. Ele não tinha reparado em como estava cansado, como aquela semana tinha sido a mais exaustiva em um longo tempo. Yoongi não tinha pensado muito no porquê de querer tanto visitar Daegu, mas agora ele estava suspeitando que era apenas porque queria abraçar sua mãe.
A mulher não perguntou nada e fez carinho no cabelo do filho até que ele pegasse no sono no sofá mesmo, mas o acordou algum tempo depois para ele ir para a cama, achando melhor do que deixa-lo dormindo ali em uma posição tão desconfortável.
No dia seguinte ele já se sentia renovado, mas partia seu coração ver como sua mãe parecia mais acabada a cada vez que ele a via. O divórcio não estava sendo fácil, Yoongi sabia, mas ver evidências físicas do que estava acontecendo só fazia com que a vontade dele de tirar sua mãe daquela cidade aumentasse. Ele já havia a levado em restaurantes chiques, saiu para jantar com ela como se fosse seu encontro, Yoongi se desdobrava para ver sua mãe feliz, mas nada parecia adiantar. Ele comprou flores para tentar anima-la, ajudou-a a conseguir encontros em Daegu com outros homens solteiros da idade dela, mas ela não queria nada disso.
Yoongi a levou para passar um tempo em Seul para se esquecer um pouco da vida em Daegu, pagou por um jantar caro para eles dois e para um outro encontro dela com um homem no mesmo restaurante que ele havia levado Jimin para jantar no sábado antes de tudo dar errado, mas nada adiantava. Sua mãe insistia que não queria voltar a namorar, não queria passar por tudo aquilo de novo. O grande amor de sua vida havia sido o pai de Yoongi, e por mais que ele não a quisesse mais, ela sempre iria querê-lo, perto ou longe, casados ou divorciados.
Ele se perguntava como era amar uma pessoa daquela forma, esquecendo até de si próprio a favor de deixar a pessoa amada feliz. Yoongi não via seu pai havia meses desde que ele se divorciou de sua mãe, principalmente porque o homem pegou todas as suas economias e começou a viajar pelo mundo, conhecendo novos lugares e novas pessoas. Ele até sentia um pouco de raiva do homem por estar tão bem com tudo enquanto sua mãe estava claramente abalada, em casa, longe de seus filhos na maior parte do tempo.
Era quase como a situação dele, fugindo para outros lugares depois de terminar um relacionamento, enquanto Jimin ficava em casa claramente abalado com tudo.
Yoongi tentou não pensar naquilo porque a situação não era a mesma. Pelo contrário, ele procurou fazer coisas para se distrair, como acompanhar sua mãe até o mercado, ou até o salão de beleza, e até deixar a mulher usar seu cartão de crédito para fazer compras. Na verdade, ela não havia o pedido nada daquilo; Yoongi havia quase a obrigado a comprar alguma coisa, e ficou levemente satisfeito com a pequena sacolinha com uma bijuteria dentro que ele carregava enquanto sua mãe andava à sua frente, admirando as vitrines e as peças de roupa caras.
“Quando você pretende me contar por que veio sem me avisar nada, querido?” Sua mãe perguntou com um sorriso divertido no rosto, pegando Yoongi de surpresa. Eles já tinham chegado em casa havia um tempo e estavam assistindo a um filme qualquer, Yoongi achou que não seria interrogado.
“Eu sempre venho, mãe.” Yoongi murmurou, encolhendo-se no sofá. “Você já devia estar se acostumando com minha cara feia de novo.”
“Querido, você chegou aqui em casa ontem à noite e dormiu no meu colo sem dizer nada.” A mulher manteve o olhar, e Yoongi se sentiu na obrigação de encara-la de volta. “Isso tem a ver com aquela pessoa que você disse que estava conhecendo?”
“Mãe...”
“Quando você vai trazê-la aqui?” A mãe de Yoongi se ajeitou no sofá para encarar melhor seu filho, empolgada com a conversa. “Era aquela tal de Jimin, não é? Aquela com quem você estava falando no telefone uma vez quando veio aqui. Eu me lembro direitinho... Então, quando vai trazê-la?”
“Jimin é um homem.” Yoongi suspirou e sentiu sua mãe ficar tensa ao seu lado. “E eu nunca vou trazê-lo aqui porque eu terminei com ele segunda-feira.”
A sala ficou em silêncio salvo pela televisão, onde o par romântico finalmente trocava seu primeiro beijo debaixo de uma chuva grosseiramente falsa. Yoongi dizia odiar aqueles filmes românticos, mas sua mãe sempre insistia em assisti-los, e ele sempre acabava se imaginando naquelas situações com Jimin. Chegava a ser patético.
“Min Yoongi, você não fez isso por causa do seu trabalho, fez?”
“Mãe, ele trabalha para mim.” Yoongi choramingou e jogou sua cabeça para trás, olhando para o teto para evitar o olhar reprovador de sua mãe. Ele podia lidar com as encaradas de seus amigos, mas não com as encaradas dela. “Isso já complica tudo. E meu superior ainda me chamou a atenção porque eu estava distraído. E por que, eu te pergunto? Porque eu não consigo parar de pensar nele nem por um segundo, minha cabeça fica só repetindo o nome dele, lembrando do sorriso dele–”
“Yoongi, querido, você só está apaixonado.”
“Eu não me apaixono desde que a Minhye me deixou, mãe.” Yoongi sussurrou, querendo que sua mãe entendesse o peso da situação. Ele ouviu o sofá se mexendo debaixo do peso dela, mas não conseguiu encara-la. “Depois que eu percebi que gostava dele até tentei sair com uma pessoa para tentar esquecer dessa coisa estúpida, mas não deu. Aí eu comecei a te ajudar a sair para distrair nós dois, mas isso também não ajudou. Eu só me apaixonava cada vez mais por ele.”
“Então agora você entende quando eu digo que não quero nenhum homem além de seu pai.” Sua mãe disse com a voz suave, e Yoongi quase quebrou seu pescoço virando sua cabeça para encara-la. “Você tentou ver outras pessoas, não funcionou. A única pessoa que você quer é esse Jimin.”
“Mas eu também quero meu emprego.” Yoongi sussurrou. “Eu não vou conseguir mantê-lo se eu ficar só pensando no Jimin o tempo todo.”
“Pare de ser cabeça dura, querido.” A mãe de Yoongi sorriu e colocou a mão delicada e levemente enrugada pela idade no rosto do filho, acariciando sua bochecha com o polegar. “É fácil ter os dois, basta você querer.”
No dia seguinte, quando estava saindo de casa, Yoongi deu um abraço forte em sua mãe e pediu para que ela o visitasse o quanto antes. Ela deu uma risada e disse que pensaria em seu caso, e ainda acrescentou que só iria com certeza se Yoongi prometesse que a apresentaria para Jimin. Ele deu uma risada e disse que a veria da próxima vez que ele visitasse Daegu então, fazendo-a soltar uma risada e se perguntar quem havia dado aquela educação para seu filho.
Domingo à noite, já em seu apartamento em Seul, Yoongi resolveu ligar para Seokjin e pedir desculpas pela gritaria de sua sala na semana anterior. Ele suspirou e disse que estava tudo bem, foi apenas o calor do momento que fez ambos perderem a cabeça e aumentarem o tom de voz sem necessidade alguma. Yoongi contou que havia passado o final de semana em Daegu, e Seokjin não perdeu a oportunidade de fazer um comentário sobre ele estar tentando colocar aquela cabeça dura dele no lugar. Ele preferiu ignorar a indireta e inventou uma desculpa para desligar a chamada, sem humor nenhum para ouvir desaforos.
Ele também pensou em ligar para Hoseok, mas sabia que se fizesse aquilo sua orelha cairia e seu tímpano estouraria de tanto grito que teria que ouvir do outro lado da linha. Yoongi sabia que seria sem noção liga-lo apenas para perguntar do estado de Jimin, ainda mais quando ele tinha deixado bem claro que não queria mais falar com o homem. Era incrível como mesmo depois de terminar para tentar esquecê-lo, Yoongi não conseguia deixar de pensar em Jimin nem por cinco segundos. Agora era ainda pior, porque ele não podia simplesmente ligar para o homem e perguntar como ele estava.
Yoongi acordou na manhã seguinte com um peso enorme em seu peito. Era finalmente o dia que ele mais temia desde a segunda-feira passada, o dia que ele provavelmente veria Jimin de novo depois do incidente. Ele não estava pronto. Nunca estaria, para falar a verdade. As palmas de suas mãos suavam enquanto ele segurava sua caneca de café, suavam enquanto ele vestia sua roupa para sair de casa, e estavam quase escorregando no volante do carro. Yoongi estava uma pilha de nervos e não sabia como se controlar, sentia seu coração batendo forte e sabia que não era por causa da cafeína em seu sangue. Apenas a ideia de ver Jimin estava o deixando daquele jeito, não conseguia imaginar como ficaria quando o visse de verdade.
Ele via os andares passando lentamente, um por um, e por dois segundos desejou que o elevador sofresse uma queda para ele poder evitar seu destino. Yoongi devia ter ouvido as palavras de Namjoon antes, ele realmente era um covarde. Fugindo de seus amigos a semana toda, magoando Jimin daquele jeito, correndo para o colo de sua mãe para chorar na primeira oportunidade que tivesse. Ele não era o homem maduro e responsável que achava que era, Yoongi não passava de um garotinho assustado que tinha medo de amar, achando que algo tão bonito e puro poderia atrapalhar alguma coisa.
Bem em frente à sua sala, onde Yoongi havia encontrado a secretária substituta na semana anterior, estava Park Jimin. Sentado, digitando algumas coisas, o semblante sério no rosto e uma aparência razoável. Era possível ver como seu rosto estava mais fino e como ele agora tinha algumas olheiras, mas de resto ele estava a mesma coisa. Yoongi engoliu em seco e ficou admirando a vista por alguns segundos, agradecendo aos céus que Jimin ainda não havia notado sua presença ali. Ele estava de volta. Ele estava de volta, e aparentava estar bem. Era só isso que Yoongi queria – que Jimin ficasse bem.
Quando finalmente saiu de seu transe, deu passos largos até sua sala e sentiu sua respiração voltar ao normal e seu coração se acalmar no espaço que era reservado apenas para ele. Yoongi andou de um lado para o outro e viu alguns envelopes com seu nome escrito em cima da mesa, mas nenhum parecia ser de extrema urgência. Sentou-se em sua cadeira, esticou as pernas e ligou o computador, logo em seguida passando os olhos pelos e-mails que ainda tinha para ler. Agenda da semana, enviado por Park Jimin poucos minutos antes de ele chegar no escritório.
Um dia lotado de reuniões, como sempre era. A primeira era em exatamente cinco minutos, então Yoongi se apressou em se levantar para ir até o décimo terceiro andar, sem querer se atrasar para seu primeiro compromisso do dia.
Ele não olhou para o lado quando passou perto da mesa de Jimin, e não olhou para trás para ver como sua expressão estava. Yoongi não queria mais aquilo, focaria em seu trabalho e em seu trabalho apenas. Ele estava decidido. Não podia mais voltar atrás, e se voltasse, era capaz de ficar distraído de novo e aí sim ele levaria mais do que uma simples bronca de seu superior. Yoongi precisava ser o melhor, o mais dedicado, afinal de contas era aquilo que o deixava feliz.
Não era Park Jimin, não. Era seu emprego.
Yoongi suspirou se olhando no espelho.
Ele era péssimo em mentir para si mesmo.
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