11º Andar
16 Exigência
Notas iniciais
Jimin descobriu o que era derrota de verdade quando precisou voltar para casa de metrô em um vagão relativamente cheio, com pessoas ao seu redor conversando e rindo, enquanto ele estava de cabeça abaixada chorando entre suas pernas.
Em sua defesa, ele tinha tentado parar as lágrimas ainda quando estava no escritório, mas sempre que conseguia se acalmar, sua mente fazia questão de reproduzir as palavras de Yoongi com um eco insuportável que parecia nunca terminar. Dava dois passos, começava a chorar de novo, acalmava-se, e o ciclo se repetia. Quando estava a caminho de casa dentro do metrô, Jimin nem conseguiu mais se segurar. Se alguém quisesse ficar o encarando, que assim fosse, ele não queria ficar ainda mais cansado por tentar se segurar quando claramente não conseguiria.
Jimin não queria fazer nada. Se pudesse, teria ficado debaixo de sua mesa chorando até pegar no sono, mas precisou ir para casa e, pior ainda, precisou encarar Taehyung. Ele ouviu perguntas até demais, mas não quis e não conseguiu responder nenhuma. Sua cabeça estava a mil, lembrando-se de tudo que Yoongi havia dito mesmo depois de quase implorar para que eles tentassem algo. Ele se sentia estúpido por ter acreditado que as coisas iam mudar quando agora voltaram a ser algo muito pior.
“Jimin, eu avisei para o trabalho que você não vai hoje, ok?” Taehyung disse com a voz mansa, sentando-se na beira da cama do melhor amigo. Jimin respondeu apenas com um aceno de sua cabeça, a qual estava doendo de tanto que ele havia chorado na noite anterior. “Pelo resto da semana, aliás. Eu não sei o que aconteceu, mas imagino que tenha sido ruim, então não vou te forçar a falar nada. Fica bem, Chim.”
Passar o dia inteiro em casa era entediante, mas Jimin não tinha forças para sair de sua cama e encarar Yoongi no trabalho. Na verdade, ele não teria forças para encarar ninguém – Jimin ouviu muito bem Taehyung na noite anterior ligando para todos os seus amigos perguntando se alguém sabia o que havia acontecido porque ele simplesmente se recusava a abrir a boca. Já estava chorando demais só pensando no que tinha acontecido, se precisasse repassar tudo e explicar o que tinha acontecido com detalhes, Jimin nem sabia como iria ficar.
Taehyung não insistiu mais em saber o que tinha acontecido pelo resto da semana. Ele havia escolhido contar sobre como havia sido seu dia, sobre a hora do almoço com Hoseok e Jungkook, sobre sua colega de trabalho que sempre usava uma saia de cor chamativa, sobre qualquer coisa que pudesse arrancar um sorriso de Jimin, nem que fosse um bem pequeno. Obviamente seria muito mais fácil fazê-lo rir se ele soubesse o que estava acontecendo, mas já que não era o caso, ia fazer o possível para tentar alegrar o amigo que com certeza não estava feliz.
Foi só alguns dias depois, quando Jimin já conseguia pensar no ocorrido sem sentir vontade de chorar, que Taehyung deu a entender que já sabia o que tinha acontecido. Ele casualmente contou que Yoongi estava com a aparência horrível, e foi apenas isso. Sem nem citar nomes, mas deixando explícito sobre quem ele estava falando. Jimin sorriu por saber que pelo menos ele não era o único abalado com a situação, e que, de alguma forma, Taehyung já sabia do ocorrido mesmo que não com muitos detalhes.
Nem Jimin saberia contar com detalhes o que tinha acontecido. Segunda-feira havia sido o inferno depois do paraíso, Yoongi não tinha nenhum motivo para ignora-lo. Principalmente, não tinha nenhum motivo para ter feito o que fez. Por Deus, Jimin até estava começando a se sentir estúpido por conta de sua reação – eles nunca tiveram nada! Só tinham amadurecido um pouco mais a relação esquisita de apenas sexo de antes, dando a entender que agora havia um certo sentimento ali no meio daquela bagunça. Nada que pudesse causar o problema que causou.
Era tempestade em copo d’água, Jimin tentava se convencer. Era exagero, logo passaria e ele se esqueceria que algum dia havia chorado por Yoongi, ele reforçava. Jimin suspirou e se olhou no espelho, vendo como suas olheiras haviam ficado um pouco mais profundas e suas bochechas estavam mais magras. Menos de uma semana na fossa e ele ficou desse jeito? Precisava retomar sua rotina antes que se perdesse de vez, não podia deixar suas mágoas o vencerem. Bateu no rosto algumas vezes, sacudiu a cabeça e respirou fundo. Segunda-feira começaria uma nova semana, e Jimin estaria bem.
A secretária substituta havia feito um bom trabalho enquanto ele estava ausente, mas alguns detalhes de sua organização o incomodaram, e ele resolveu tudo na hora. Enviou a agenda semanal de Yoongi por e-mail, dando a ele exatamente o que havia pedido – o mínimo de contato possível, e que falasse com ele apenas quando fosse extremamente necessário. Ver seus horários não era uma urgência, era rotina. Não tinha necessidade de Jimin ir até a sala de Yoongi para falar sobre aquilo, como geralmente fazia todas as manhãs apenas para ganhar um beijo atrás da persiana que os separava do décimo primeiro andar por alguns segundos.
Jimin podia jogar o joguinho de seu chefe, mas não podia dizer da boca para fora que não estava doendo. Principalmente quando ele olhava para trás, a sala vazia com a persiana aberta porque agora não tinha necessidade nenhuma de Yoongi se esconder. Era bom que pelo menos agora ele passava o dia inteiro longe do andar, porque assim Jimin podia se concentrar mais em seu trabalho e não se distrair com seu chefe, mesmo que fosse apenas com a presença dele.
Min Yoongi [09:57]: Estou saindo de uma reunião. Coloca um café em cima da minha mesa, por favor.
Um pedido por mensagem de texto. Tudo bem, ele devia ter adivinhado que chegariam a aquele nível. Mínimo contato, nada de dirigir a palavra, não era isso? Agora eles só estavam vivendo tudo que Yoongi havia pedido na semana passada. Pedido? Não, ele havia exigido, dito de forma grosseira que eles não podiam mais ficar juntos, que nunca deviam ter ficado juntos. Jimin olhou para suas mãos, sentindo como ele estava transferindo a raiva que começava a sentir para as pontas de seus dedos, descontando tudo no pobre teclado que já havia sofrido com sua fúria uma porção de vezes.
Na hora do almoço, foi meio constrangedor e meio reconfortante como Taehyung, Hoseok e Jungkook estavam agindo perto de Jimin. Eles faziam de tudo para manter o assunto rolando na mesa, sempre evitando falar de trabalho ou qualquer mínima coisa que pudesse lembrar Yoongi, entrando em brigas fúteis sobre o tempo apenas para ver se Jimin sorria. Era claro que ele sorria porque seus amigos eram simplesmente hilários, mas ele não tinha coragem de falar que não importava o que eles fizessem, ele ainda se lembraria de Yoongi de alguma forma por causa de algum detalhe besta.
Se Taehyung reclamava do clima frio, Jimin se lembrava de como Yoongi preferia o verão e reclamava do tempo também.
Se Hoseok comentava sobre um hambúrguer que ele havia comido um dia desses, Jimin se lembrava de todas as vezes que ele e Yoongi se entupiram de comidas gordurosas depois do trabalho, sentados dentro do carro no estacionamento.
Se Jungkook falava de algo engraçado que tinha visto na academia, Jimin se lembrava da vez que tinha ajudado Yoongi a comprar roupas de ginástica online, porque aparentemente ele precisava de mais para frequentar suas aulas de pilates.
Jimin era patético, mas era porque Yoongi havia o deixado assim.
“Senhor Min, já é meu horário de sair.” Jimin entrou na sala de Yoongi depois de bater, mantendo seu olhar fixo no chão para evitar encarar seu chefe. “O senhor precisa de mais alguma coisa?”
“Não, Park.” Yoongi respirou fundo e Jimin tentou ignorar a dor que sentiu ao ouvir seu sobrenome. “Pode ir para casa.”
Ele acabou voltando sozinho porque tanto Hoseok quanto Jungkook ainda estavam muito ocupados, desviando suas atenções por apenas dois segundos antes de voltarem a trabalhar como se Jimin nem tivesse os feito uma pergunta. Taehyung nem pôde atender ao telefone, enviando apenas uma mensagem de texto padrão dizendo que ligaria mais tarde. Jimin suspirou e começou o trajeto até sua casa com passos lentos, sem pressa nenhuma. Talvez se deixasse a vida o guiar por alguns segundos, sua mente descansaria e ele não pensaria em coisas que não devia.
Sábado voltaria à tradição de ir para a casa de Hoseok fofocar, sexta-feira podia sair para jantar com Taehyung no restaurante que havia aberto recentemente perto de onde eles moravam, quinta-feira precisava ir ao banco na hora do almoço para pagar uma conta de luz, quarta-feira podia cozinhar à noite depois de chegar em casa, terça-feira precisava lavar a roupa de cama. Agora, segunda-feira, Jimin podia fazer mil e uma coisas. Estava sozinho e ainda era cedo, bem mais cedo do que ele geralmente voltava. Se quisesse, podia saltar em uma estação diferente da sua e buscar a primeira loja de conveniência que achasse para comer sozinho.
Fazer coisas sozinho quando se está triste traz um conforto esquisito, como se estivesse colocando um rumo em sua vida de novo depois de algo acontecer. Então Jimin andou pelas ruas de um bairro que ele não conhecia muito bem, brincou com o cachorro de uma moça que passou ao seu lado, comeu em uma loja de conveniência como se fosse a melhor refeição de sua vida, e se sentiu extremamente renovado depois de apenas uma hora que tirou para pensar apenas em si mesmo. Parecia que os sons da cidade haviam se tornado mais agradáveis, e que a vida estava mais calma novamente.
Jimin se lembrava de ter pedido a Hoseok que ele o chacoalhasse no banheiro caso ele ficasse triste por causa de Yoongi de novo, então fez uma promessa para si próprio que iria separar as coisas e focaria em seu trabalho. Também se concentraria em virar a página, deixar aquela história para lá. Não podia chegar todo dia com cara de derrota no escritório, e principalmente não podia ficar triste para sempre. Era cansativo ficar daquele jeito por causa de uma única pessoa.
Quando chegou em casa, já se sentia mais leve. Taehyung também já havia chegado e o perguntou onde esteve, e Jimin respondeu tudo sem hesitar, quase como se estivesse desabafando. Era bom finalmente falar com detalhes tudo que havia acontecido, e era muito melhor ouvir seu amigo xingando Min Yoongi de tudo que era nome apenas pelo que ele havia feito. Fazia Jimin rir, mesmo que pouquinho, e ele também gostava de saber que tinha o apoio de seu amigo sempre que precisasse mesmo nas situações mais bobas.
Os dias foram correndo como todos os outros, sem interação nenhuma além da necessária entre Yoongi e Jimin. Era como se eles fossem completos desconhecidos, e quem assistia de fora não tinha noção do que tinha acontecido. Hoseok às vezes via os dois se cruzando pelos corredores sem trocar um olhar e suspirava, porque ele sabia – assim como todos os outros que sabiam da situação deles – que não precisava ser daquele jeito. Yoongi tinha feito a coisa errada; não precisava ter terminado tudo por qualquer motivo que fosse. Jimin também havia colocado a ideia na cabeça de que não valia mais a pena ficar triste; o que era verdade, mas ele podia pelo menos pedir uma explicação para ver se eles podiam se acertar ao invés de continuar brigados.
Quando Hoseok conversou com Taehyung sobre a ideia de convencer Jimin a ir falar com Yoongi, o homem mais novo fez uma careta e cruzou os braços, considerando a opção por alguns segundos antes de balançar a cabeça e dizer que talvez fosse uma má ideia. Hoseok pediu uma explicação e teve que concordar quando Taehyung respondeu que era sempre Yoongi que vacilava com Jimin, sempre ele que deixava ambos tristes, se tinha alguém que tinha que procurar para se explicar e dizer seus motivos, era ele. Até porque Jimin respeitaria o espaço que ele havia pedido e o deixaria sozinho.
Jimin fingia muito bem que não via os olhares preocupados de Hoseok, ou os chutes que Taehyung dava em Jungkook debaixo da mesa quando o homem mais novo do grupo mencionava Yoongi sem querer, mas era cansativo fazer até aquilo. Não era como se ele fosse começar a chorar e espernear sempre que ouvisse o nome de seu chefe, sabia muito bem se controlar e ele não estava tão arrasado assim. Talvez ele ainda ficasse triste quando fazia coisas mínimas da rotina, como se olhar no espelho de manhã, porque ele se lembrava dos dias que escovava os dentes ao lado de Yoongi e ambos ficavam fazendo caretas e rindo de seus reflexos.
Superar era um processo lento. Tudo bem, Jimin nunca teve nada sério com Yoongi, e só chegaram perto de ser realmente algo por um fim de semana. Mas todos os meses que passaram sendo só ‘amigos’ como diziam ser, os mesmos meses que passaram trocando toques íntimos pelos cantos do décimo primeiro andar, todos eles significaram alguma coisa. Só serviram para alimentar os sentimentos que Jimin tinha por Yoongi, e se soubesse que tudo ia terminar daquela maneira, teria saído fora daquele esquema o quanto antes.
Só que ele não podia ver o futuro, e se fosse para ser bem sincero, não sabe se teria mesmo acabado com tudo antes para evitar aquele término. Afinal de contas, se terminasse cedo demais nunca saberia como era acordar nos braços de Yoongi, ou como era ir a um encontro com ele. E por mais que Jimin estivesse triste agora, ele gostou muito de saber como seria namorar o homem pelo qual estava apaixonado.
“Jimin, você vai querer ajuda pra se esquecer do Yoongi?” Taehyung perguntou em um domingo qualquer, enquanto os dois estavam sentados no sofá tomando cerveja para sair um pouco do vinho.
“Se sua ideia de ajuda for me fazer sair com metade da Coreia do Sul de novo, então não, eu não quero.” Jimin disse com a expressão séria, mas não conseguiu evitar abrir um sorriso quando olhou para o lado e viu seu amigo com um biquinho formado no rosto. “Sinceramente, eu não estou com cabeça para conhecer pessoas agora. O que eu mais quero é voltar a curtir minha solteirice, e um dia quem sabe eu dou uma chance ao amor de novo.”
“Pelo menos você não começou com aquela baboseira de que vai desistir de homens e vai se mudar para o cu do mundo para achar a paz interior.” Taehyung rolou os olhos e Jimin quis rir, mas só de se lembrar de como havia ficado depois de terminar com seu namorado de anos atrás ele já fazia uma careta. “Ou aquela vez que você disse que ia virar o lorde dos gatinhos e ia adotar todos que visse. Também teve a vez que você–”
“Ok, Kim Taehyung.” Jimin disse com a voz um pouco alta, interrompendo o amigo antes que ele continuasse a falar. “Às vezes eu não reajo tão bem depois de um término, já entendi o recado. Será que a gente pode cortar esse assunto?”
“Eu só ia dizer que a vez que você disse que ia virar traficante para começar a viver a vida perigosamente ao invés de ficar sofrendo por amor foi a mais engraçada.” Taehyung deu de ombros e Jimin bateu com a mão na testa, infelizmente sendo lembrado da semana mais constrangedora de sua vida. “Ainda bem que eu te achei na rua naquele dia, imagina se você tivesse feito a tatuagem que disse que ia fazer?”
“Então eu teria que remover a laser.” Jimin deu uma risada fraca e se espreguiçou no sofá, sentindo o sono causado pela cerveja pesar suas pálpebras um pouco. “Nada disso aconteceu, ok? E eu não tive uma reação ruim dessa vez.”
“Ainda.” Taehyung arqueou suas sobrancelhas, dando a entender que sabia que Jimin não estava cem por cento ainda. E poderia estar? Fazia apenas duas semanas desde o término, nenhuma dor passava tão rápido assim. “A qualquer momento você pode levantar e dizer que vai nadar com os golfinhos no Havaí.”
“Nadar com golfinhos no Havaí não seria uma má ideia.” Jimin murmurou, claramente ofendido com o nível de conhecimento de seu amigo sobre ele.
“Park Jimin.”
“Certo, eu não vou fazer nenhuma dessas besteiras!” Jimin disse com a voz alta querendo mostrar irritação, mas acabou rindo junto de Taehyung. “Só vai demorar um tempo, tudo bem? Eu gosto bastante do Yoongi, e ele terminou comigo do nada. Eu não tive tempo para me preparar, não teve um sinal de que ele ia–”
“Eu sei.” Taehyung interrompeu com a voz suave, querendo evitar que seu amigo falasse tanto sobre o ocorrido porque ele sabia que Jimin ainda ficava chateado. “Parecia que vocês realmente iam dar certo. Até eu achei isso.”
Se parecia tanto que eles iam dar certo, Jimin queria saber o que tinha acontecido para darem errado. Queria saber em qual ponto entre domingo à tarde e segunda-feira de manhã Yoongi havia decidido que o que eles tinham não era legal, que era um erro como ele próprio disse. E se Jimin tivesse feito algo que ele não gostou? Tentou buscar em sua memória algum momento que poderia ter falado a coisa errada, mas não conseguiu pensar em nada. Era frustrante porque ele nem sabia o que tinha acontecido para as coisas terminarem daquele jeito.
No meio da semana, Jimin chegou ao trabalho e viu um bolinho de notas fiscais em cima de sua mesa, e logo ao lado um bilhete escrito na grafia péssima de Yoongi pedindo que ele fizesse ‘o de sempre’. Algo na escolha de palavras fez o sangue de Jimin borbulhar, irritado porque era para esquecer de tudo que eles tinham vivido menos a parte do trabalho. Tudo bem, era lógico que não era para ele se esquecer da parte do trabalho, mas ele estava com humor para levar as coisas mais para o lado irracional e deixar a irritação controlar suas ações. Sério, algum dia ele acabaria quebrando seu teclado de tanto que descontava a raiva no objeto.
Daquela vez, Jimin não estava pronto para lidar com as coisas que sentiria enquanto verificava as notas fiscais. Ele não tinha se dado conta de que reviveria em um pequeno pedaço de papel todas as coisas que eles dois tinham feito juntos no último mês, como quando foram para o usual fast food e comeram seus hambúrgueres dentro do carro, onde fizeram perguntas sobre pessoas de seus passados. Jimin deu uma risada fraca quando viu o preço da rosa que ele havia ganhado, definitivamente cara demais para uma simples flor. Talvez na concepção de Yoongi, quanto mais caro fosse, melhor. Sua consciência pesou um pouco quando viu quanto eles tinham gastado no restaurante onde comeram, sabia que devia ter insistido um pouco mais para pagar por tudo.
Estava sendo difícil ver todas aquelas notas que guardavam momentos que eles dois viveram juntos, mas se Jimin queria superar seus sentimentos, o primeiro passo seria tratar aquilo puramente como trabalho e não deixar seus pensamentos o levarem de volta para aquele fim de semana que eles passaram juntos. Então ele continuou como se nada estivesse acontecendo, como se seu coração não estivesse apertando dentro de seu peito. Sua vontade naquele momento era de se sentar na cadeira de Yoongi, espera-lo voltar de uma reunião e pedir para ele reconsiderar a ideia de eles serem um erro. Eles não tinham sido um erro, funcionaram tão bem quando começaram a tentar de verdade, como aquilo poderia ser um erro se teve tudo para dar certo?
Enquanto aquelas perguntas rondavam sua cabeça, Jimin começou a reparar mais nos gastos de Yoongi depois que eles terminaram. Mercado, sorveteria, coisas de seu dia-a-dia que não faziam muita diferença. Só que, depois de um tempo, ele notou a compra de uma passagem para Daegu. Normal, Yoongi era de lá e quase sempre viajava para sua cidade natal para cuidar de seus problemas. Porém Jimin sentiu seu sangue borbulhando novamente quando viu que seu querido e amado chefe havia feito compras em uma loja de bijuteria, e também havia ido ao salão e pagado por uma manicure cara até demais.
Jimin jurou para si próprio que nunca mais choraria no banheiro do décimo primeiro andar, mas quando ligou os pontos e começou a entender porque Yoongi havia terminado com ele, precisou sair correndo para se esconder e não ser pego chorando em sua mesa. Por sorte, todas as cabines estavam vazias e ele não precisou pensar muito antes de entrar em uma, trancar-se, e deixar que as lágrimas caíssem livremente como havia acontecido duas semanas antes. Ele sentiu toda aquela dor voltar de uma vez só e socou a parede com a lateral de sua mão, irritado consigo mesmo e com a vida que nunca parava de pregar peças com ele, sempre o deixando triste quando ele começava a ver uma luz no fim do túnel.
“Jimin?”
A voz suave de Jungkook ecoou pelo banheiro e, por um momento, Jimin pensou em ignora-lo porque não estava com cabeça para ver ninguém agora. Só que sua necessidade de um afago falou mais alto e ele destrancou a porta, esperando alguns segundos antes que Jungkook entrasse na cabine apertada e o encarasse com os olhos arregalados. Geralmente, quando Jimin tinha suas crises de choro, era Hoseok que ia ajuda-lo no banheiro e logo depois daria conselhos bons que ele nunca seguiria. Mas dessa vez era Jungkook que estava ali, parecendo mais assustado do que pronto para cuspir sabedorias divinas que fariam Jimin engolir as lágrimas e voltar a trabalhar.
“Hyung, o que houve?” Jungkook disse com a voz suave e se ajoelhou no chão pegajoso, sem se importar se sujaria sua calça. “Foi alguma coisa que o Yoongi hyung fez?”
“Jungkook, se eu te fizer uma pergunta, você promete só me responder e não questionar nada?”
“Se tiver alguma coisa a ver com assassinato, eu vou ser obrigado a fazer perguntas, hyung.” Jungkook disse em uma tentativa de fazer Jimin pelo menos sorrir, e conseguiu. Foi um sorriso bem pequeno que não durou muito, mas foi alguma coisa. “Pode perguntar.”
“Você sabe se o Yoongi anda saindo com outra pessoa, ou saiu com alguma pessoa em um passado não muito distante?”
“Jimin hyung, por que–”
“Jungkook.”
O homem mais novo suspirou e tentou pensar nas coisas que Yoongi o contava. Eles eram amigos, sim, mas Jungkook não ouvia muito da vida do homem mais velho. Ele diria até que Hoseok tinha muito mais intimidade, e o que ele sabia, sabia apenas porque seu marido o contava e insistia para que ele não contasse para mais ninguém. Então Jungkook ficou ali, ajoelhado na cabine em frente à Jimin, tentando se lembrar de algum detalhe importante de uma de suas inúmeras conversas com Hoseok. Ele até fechou os olhos como se aquilo fosse ajuda-lo e se concentrar, e por algum milagre se lembrou de uma vez que Hoseok deixou seu celular no viva-voz para que ambos pudessem ouvir o que Yoongi estava falando ao telefone.
“Teve uma vez que ele nos ligou pedindo ajuda para escolher uma roupa para um encontro, mas isso já tem um tempo, foi depois de vocês brigarem, mas antes de começarem essa coisa que vocês tinham, bem naquela época que vocês eram só amigos...” Jungkook disse coçando a nuca, sem saber se aquilo poderia ser de grande ajuda. “Ele nunca mais falou nada sobre, depois disso tudo que a gente ouvia dele era sobre você.”
Jimin congelou visivelmente em seu lugar e abriu sua boca em um formato oval. Então ele estava certo, Yoongi realmente estava saindo com alguém. Esse tempo todo ele estava saindo com alguém e escondeu de Jimin e dos amigos, deixou-o de segundo plano. Talvez tivesse tentado alguma coisa com ele apenas para fazer um teste, e quando viu que não foi como ele queria que fosse, voltou para a outra pessoa com quem ele estava saindo antes. Então Yoongi era capaz sim de trair, ao contrário do que Jimin tinha achado antes quando começou a suspeitar de tudo.
De repente, ele parou de sentir falta de tudo que tiveram e começou a sentir nojo.
“Jimin hyung?” Jungkook franziu o cenho e balançou uma mão em frente ao rosto do amigo, preocupado com a forma que ele havia reagido. “O que houve?”
“Nada.” Jimin sacudiu a cabeça e pegou um pouco de papel higiênico para limpar seu rosto, sentindo já seu cenho franzido e a raiva percorrendo cada centímetro de seu corpo. Jungkook o olhava assustado, até se levantou e deu espaço para o homem mais velho sair da cabine. “Depois eu falo com você, Jungkook.”
Com passos fortes, Jimin saiu do banheiro e caminhou até a sala de Yoongi e agradeceu aos céus por ver o homem do lado de dentro, sentado em sua cadeira encarando a tela do computador com a expressão confusa. Jimin não pediu licença quando entrou pela porta da frente e fechou a persiana, querendo o mínimo de privacidade agora que estava ali dentro e sua raiva estava ditando suas ações. Quando voltou a olhar para seu chefe, ele estava ainda mais confuso do que antes, até se levantou da cadeira para se aproximar e perguntar o que estava acontecendo.
“Jimin, o que–”
Ele não teve tempo de fazer sua pergunta porque Jimin o segurou pela gravata e o puxou para mais perto, aproximou-o de seu rosto e fez com que Yoongi olhasse bem no fundo de seus olhos para que visse o quão irritado o homem mais novo estava.
“Você vai me dizer agora, olhando no meu olho, de homem para homem, porque terminou comigo.” Jimin disse com a voz bem baixa, mas nada calma. Yoongi estava com os olhos arregalados e até com um pouco de medo, mas não falou nada. “E acho bom você falar a verdade porque eu não estou de bom humor.”
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