Notas iniciais
Oi pessoal! O primeiro capitulo está ai! Quem ainda nao apareceu, n se preocupe, aparecerá em breve. E lembrando que ainda há duas vagas masculinas restando: quem ainda n se inscreveu e queira se inscrever, envie uma ficha como comentário neste ou no prólogo! Boa leitura!

Alguém, certa vez, disse que uma rosa só é capaz de manter seu esplendor por ter espinhos. E, por alguma razão, elas, rosas, sempre me chamaram a atenção: tanto suas pétalas quanto seus espinhos. Talvez seja uma ideia bem clichê uma garota se atrair por flores. Mas, não. Não são todas as flores que chamam a minha atenção, são rosas, somente... Rosas.

– O idealismo é uma corrente filosófica que foi muito bem expressa com o pensador Friedrich Hegel, que estudou Filosofia e Teologia. – explica a professora, me retirando dos meus próprios pensamentos. – Sua origem, por outro lado, veio com Descartes e sua frase: “Penso, logo existo”.

Estamos na aula de Filosofia, a primeira aula do ano letivo que acabou de começar. Fevereiro de 2014, o ano em que concluirei o Ensino Médio caso tudo corra bem. E eu sei que correrá tudo bem.

Mas, enfim... Não que eu não goste de Filosofia, pelo contrário. A verdade é que não consigo me concentrar na aula, não agora...

– Tem como ponto de partida do seu desenvolvimento o conceito de que tudo o que existe provem de um pensamento sobre tal existência. – explica a professora, Sakura Kozakura.

Ela é bonita e excelente profissional. Seus olhos são serenos e castanhos. Seus cabelos, sempre arrumados em um coque, são de um vermelho róseo que lembra muito a cor de flores de cerejeira. Sua pele é clara e suas roupas, como sempre, são padronizadas e muito cultas. Sua postura em si é o esperado da de qualquer professor do Rosa Cruz.

Enquanto eu tento me concentrar nas palavras que saem da boca de Kozakura-sensei, meus pensamentos me forçam a ir para outro foco: o canteiro de rosas vermelhas que embelezam o jardim da escola, qual pode ser muito bem apreciado das janelas da minha sala de aula. Por acaso, estou assentada no primeiro lugar da fila dessas janelas.

– Elas estão chamando tanto assim a sua atenção, Kagura? – questiona quem está ao meu lado direito, tornando-se, por consequência, o novo alvo do meu olhar.

É Nathaniel Skyes, meu melhor amigo. Já tem seus 17 anos, completos mês passado. Magro, alto e de pele clara, ele é dono de cabelos negros lisos e olhos profundamente negros. E, apesar de não gostar muito de estudar, é um dos melhores alunos da turma desde o 1º ano.

– Você deve amar mesmo rosas, né? Nunca vi ninguém perder tanto tempo olhando para flores... – comenta ele, suspirando e dando de ombros enquanto continua me encarando com o seu típico “sorriso idiota”.

Um sentimento antigo, que venho lacrando em meu coração há anos, de uma hora para outra toma conta de mim. Foi o comentário dele que acabou desencadeando esse fenômeno. É quando, sem me dar conta, acabo declarando:

– Rosas não são como as outras flores. E outra coisa: as pessoas podem pensar que rosas me chamam a atenção por que as admiro, mas é o contrário. – sem conseguir me controlar, arregalo meus olhos, sentindo meu coração acelerar-se sem controle. – Elas me chamam a atenção pelo meu ódio e pavor que simbolizam.

– Estou entrando. – pede alguém, com firme tom de voz, entrando de uma hora para a outra na sala.

Essa interrupção – que também interferiu na explicação da matéria que Kozakura-sensei estava realizando – faz com que eu volte ao meu “estado natural”. Percebo que Nathan está surpreso com os meus dizeres e, por isso, peço:

– Desculpe-me, Nathan. Não queria ser grosseira.

– Desencana. – fala ele, voltando a sorrir. – Não foi nada. Mas deveria me chamar de Nath, não gosto de “Nathan”.

– Te chamarei sempre de Nathan e ponto final. – declaro, cruzando meus braços e fazendo bico.

Nós dois voltamos nossos olhares para quem chegou à sala. É Dante Sazami, meu namorado. Ele tem lisos cabelos vermelhos, pele bem branca, olhos de um verde muito escuro e um par de brincos prateados na orelha direita. Mesmo com a pinta de badboy, as outras garotas sempre estão de olho nele. Não me importo, na realidade, pois confio na fidelidade dele.

– Esses são modos, Sazami? – questiona Kozakura-sensei, parando bem diante dele, com os braços cruzados e uma expressão reprovadora.

– Posso entrar? – indaga ele, com a mochila nas costas, arqueando sua sobrancelha direita sem deixar de encarar a professora.

Ela suspira, desanimada. Dando as costas para Dante, articula:

– Você já entrou...

Enquanto ele vem andando em direção à carteira vaga atrás de mim, noto o “olhar fatal” de Nathan sobre Dante. Meu grande amigo sempre deixou claro que o detesta, mas ultimamente, o clima entre os dois está ficando cada vez mais arredio. Gostaria de saber qual a razão disso...

– Bom dia, linda. – fala Dante, se assentando atrás de mim, com um grande e encantador sorriso estampado no seu rosto.

Volto-me para trás. Sorrindo, digo:

– Bom dia. Por que sempre se atrasa logo no primeiro dia de aula?

– Sabe como é, né? – sugere, abrindo sua mochila e retirando seu material da mesma. – Levo tempo para me acostumar com mudanças drásticas de horários.

Instantes em seguida, Kozakura-sensei volta a explicar a matéria de Idealismo. Após o término deste horário e dos outros dois em seguida, o intervalo do dia é declarado com o sinal, qual ecoa por todo o colégio. Com isso, Dante e eu descemos juntos para o andar térreo – sim, eu gostaria que Nathan viesse conosco, mas sei que ele sente-se incomodado quando está na presença de Dante. Por consequência, ele se separa de nós e desce depois.

O colégio Rosa Cruz possui quatro andares. O primeiro é onde ficam localizados pontos importantes como o auditório, o pátio, a sala de professores e a sala de direção. Os demais andares são onde ficam as salas do primeiro, segundo e terceiro ano, respectivamente. É uma instituição de ensino de grande renome, um internato no qual passamos a semana letiva inteira na escola, sendo que saímos daqui durante os fins de semana. Estudam aqui somente bolsistas com notas de primeiro nível e integrantes de famílias importantes e poderosas. Meu caso é o segundo, apesar das minhas notas também não serem nada ruins.

– Sabia que até mesmo no uniforme, sua beleza não é nem um pouco suprimida? – questiona Dante, olhando para mim, enquanto descemos as escadas e nos aproximamos do andar térreo, assim como os demais alunos da nossa classe.

– Bobo. – conceituo, entre poucos risos.

O uniforme feminino é composto por um par de sapatilhas vermelhas, uma blusa branca de mangas longas e traços vermelhos nas bordas, gola circular, uma vermelha saia rodada que ultrapassa metade das coxas e um par de meias brancas que vão até a região próxima dos joelhos. O detalhe marcante do uniforme é o emblema do colégio: uma cruz envolta por uma rosa vermelha na blusa, sobre o seio esquerdo. Embaixo do símbolo, o nome da instituição.

Já o masculino é composto por um blazer vermelho com traços brancos nas mangas – blazer qual Dante sempre traz apoiado nos ombros, mas nunca devidamente vestido –, uma camisa branca, calças negras e um par de sapatos sociais pretos. Da mesma forma que o uniforme feminino, há o emblema e o nome do colégio no blazer e na camisa, na região do coração.

– Princesinha-chan... – alguém se comunica comigo, colocando-se perante a mim.

Há pouco, Dante e eu chegamos ao andar térreo. E, passos depois, uma certa pessoa se colocou em nosso caminho. Digamos que é a única pessoa que consegue me tirar do sério desde o primeiro ano: Kazume Tatsagaiyo.

– Este ano será diferente. – afirma ela, de braços cruzados, encarando-me com furor. – Você será esmagada!

– Não tenho a pretensão de esmagar ou de ser esmagada. – falo, com calma, interrompendo meu caminhar. – Tudo o que quero é completar o Ensino Médio e seguir adiante com os meus objetivos de vida. Nada mais.

Kazume está em outra das três classes do terceiro ano. Assim como eu, muitos a veem como uma aluna exemplar. E, de certa forma, temos posturas e opiniões parecidas. A grande divergência entre nós – que para mim, nem é tão grande assim – é que ela é bolsista e eu não. Talvez seja por isso que ela sempre me considerou como uma rival, mas o mesmo não parte de mim.

– Você nunca precisou entender como é batalhar pelo melhor. Tudo de bom já lhe foi oferecido de bandeja! Mas como eu disse: este ano tudo será diferente! – declama ela, confiante no que diz. – Este ano, esmagarei você. Não permitirei que me supere em nada.

– Não entendo a razão por qual nutre tanto ódio por mim. – admito, encarando-a com calma, apesar de tudo.

Noto que muitos dos presentes estão olhando para nós. Estamos sendo o centro das atenções. Entretanto, esse fato parece não incomodá-la – e, na verdade, nem a mim.

– Dissimulada! – ela grita.

Não há tempo para me defender. Kazume ergue sua mão direita e acerta o meu rosto com um tabefe, um tapa “dos bem ardidos”. Quando Dante vê isso, me passa para trás, colocando-se entre nós duas. E esbraveja:

– Faça isso de novo e esquecerei que você é uma garota!

– É melhor não se meter em confusões, Tatsagaiyo-san. – recomenda alguém, se aproximando de nós.

Com minha mão esquerda, esfrego o lado da minha face que fora atingido pela pesada mão de Kazume. Redirecionando meu rosto para frente, percebo que ela deu meia volta e agora encara quem se aproximou de nós: Ivan Voltaire.

– Ivan!? – Kazume se surpreende, assim como eu, devo admitir.

Ivan sempre foi uma das pessoas que mais me chamam a atenção neste colégio, desde o primeiro ano. Dono de negros e bagunçados cabelos até os ombros – quais possuem um feixe de fios brancos, quase prateados, na franja –, pele pálida, olho esquerdo vermelho e olho direito branco – na verdade, ele usa um tapa-olho com uma cruz dourada neste, mas já vi seu olho escondido certa vez –, além de um corpo coberto por cicatrizes e queimaduras, é uma pessoa que me atrai de um modo que nem mesmo eu sei explicar direito. Além de um dos mais altos por aqui, é também um dos garotos mais enigmáticos.

– Você é uma bolsista. Se criar confusões, pode ser convidada a se retirar da instituição. – declara ele, diante de nós. – Bem, nem mesmo eu sei por qual razão estou falando isso para você... Portanto, faça o que bem entender.

E, desse modo, ele dá as costas para nós. Com passos largos, vai se afastando, sendo observado por todos. E eu devo admitir:

– Sinto algo de diferente por ele... – penso, um pouco confusa.

Kazume, repentinamente, se volta para mim, chamando minha atenção – sendo que mantenho uma expressão de surpresa desde a aparição de Ivan. Encarando-me por alguns momentos, ainda irritada, somente vira para sua esquerda e começa a afastar-se. Suspiro fundo. E Dante me pergunta:

– Você está bem?

– É claro. – confirmo. – Ela precisa de muito mais que aquilo se quiser me derrubar.

Fecho minhas pálpebras por alguns segundos. E quando as reabro, volto meu rosto para ele. Esboçando um sorriso, digo:

– Vou ao banheiro. Escolha uma mesa para nós na cantina que logo me junto a você.

– Certo. – diz ele, me dando um breve beijo. – Não demore.

Ele me dá as costas, trilhando um caminho reto. Os outros estudantes que estavam com todos os olhares para nós começam a se dispersar. Em poucos segundos, escolho o mesmo caminho que, há pouco, foi tomado por Kazume. Em nenhuma hipótese quero me encontrar com ela de novo. Não menti quando disse que ia ao banheiro. E estou indo.

– As aulas mal começaram e o ritmo das coisas só acelerou... – imagino, suspirando e andando.

Por alguns instantes, caminho. E, no trajeto, vou pensando na minha vida. Como tudo está diferente, finalmente entrando nos eixos. Quando coloquei meus pés no Rosa Cruz pela primeira vez, estava eu completamente destruída. Eu havia acabado de sair de uma série de dilemas que deixaram marcas em mim. Se eu não tivesse conhecido o Dante – por mais ríspido que ele costuma ser com muitas pessoas –, talvez minhas perspectivas teriam se perdido faz tempo. Agradeço por ele ter entrado na minha vida. Mesmo sem saber, fez muito por mim.

– Gordo ridículo!

– Baleia assassina!

– Elefante inchado!

Paro imediatamente de andar ao ouvir três diferentes vozes masculinas esbravejando tudo quanto é xingamento. Redireciono meu rosto para a minha esquerda. E vejo um garoto da minha turma cercado por três outros, da classe C do terceiro ano.

– Você mais parece uma bola do que uma pessoa! – exclama o mais alto do trio, debochando do garoto menor.

O alvo dos três é Yuki Yukida. É um garoto baixinho e gordinho, com cabelos castanhos curtos e sardas claras pelo rosto. Os olhos, que são acompanhados por seus óculos, são negros. Sua pele é clara e sua autoestima, lá em baixo.

– O que estão fazendo com ele? – questiono, com as mãos na minha cintura, após me aproximar o suficiente.

– Olha só quem apareceu... – comenta quem parece ser o líder do bando, o mesmo que fez o comentário anterior, virando-se para mim com um sorriso desprezível. – A gatinha da Kagura!

– Está t-tudo b-bem, K-Kagura-san. – garante Yuki, com uma voz trêmula.

– Não precisa mentir. – digo, olhando-o por alguns momentos com um sorriso o mais gentil possível. – Não tenha medo deles.

– Por acaso você irá defendê-lo? – questiona o mesmo sujeito, cruzando os braços.

Percebo que ele me olha de cima a baixo. Com uma expressão lasciva, diz sem nem mesmo ouvir algumas palavras que senti vontade de proferir:

– Quando eu tiver a oportunidade, vou te pegar de jeito, gostosa. Vou te dar um trato daqueles.

– Cale-se. – exijo.

– E vou te usar por horas e horas para que entenda qual é o lugar de uma vadia. – completa.

Não me seguro. E acerto um chute, esquerdo, bem naquele lugar do imbecil. Forte o suficiente para fazê-lo urrar de dor e cair, aos gemidos e prantos, ao chão. Os outros dois, percebendo a minha falta de temor diante deles, me encaram. Um deles pergunta:

– Ficou louca?

O outro, de uma só vez, vem contra mim. Novamente, não me seguro. E, então, desvio dele e lhe dou uma rasteira, fazendo-o cair de costas no piso. Ao outro, simplesmente dou uma boa joelhada nas costas. Ele cai também.

– Que violenta... – diz o segundo que derrubei, ainda no chão.

– Devem ter esquecido que sou a presidenta do clube de kendô. – comento, de costas para eles. – De qualquer modo, mereciam muito mais por serem tão imbecis.

Me volto para eles, nervosa. Os três se levantam, mas o primeiro que caiu ainda sente dificuldades devido o golpe que levou. E declamo:

– Odeio lidar com pessoas tão torpes! Saiam da minha vista!!

Ambos os três correm. Com isso, suspirando, me acalmo e me redireciono para Yuki, menor do que eu. Sorrindo, indago:

– Tudo bem com você?

– S-sim. – articula, com o rosto levemente corado. – O-obrigado. Fiquei impressionado pelo que fez. Muito obrigado mesmo.

Yuki Yukida é da mesma sala que eu desde o primeiro ano. Na verdade, estudamos juntos desde os anos finais do Ensino Fundamental, pois ambos viemos de uma mesma escola para cá. Sempre notei, inclusive, que ele era uma pessoa muito fechada e reservada. É perceptível o quanto Yuki se sente inferior aos outros por causa do seu físico e da sua aparência. Pensando em tudo isso, me sinto mal por não ter tentado me aproximar dele antes.

– Não precisa agradecer, não fiz nada demais. – digo. – Além disso, preciso te falar algo.

– O que é? – ele questiona, engolindo seco. Nem mesmo parece ter o mínimo de segurança para conversar com uma garota.

– Não deixe as pessoas pisarem em você. – articulo. – Aprendi, da forma mais dura, que todas as pessoas têm valor. Você também tem o seu, não pode permitir que os outros menosprezem isso.

Ouvindo isso, ele abaixa o rosto. Eu, por minha vez, me curvo e aproximo meu rosto do dele. Com ambas as mãos, retiro os óculos dele, fazendo-o olhar para mim. O rosto de Yuki cora mais ainda, o que me faz rir um pouco.

– Ouvi dizer que você vai sair da escola. – conto. – Mas acho que deveria, antes mesmo disso, mudar um pouco.

– Sim, eu sairei, mas voltarei no fim do ano. – ele me revela. – Não sei se voltarei para a escola, mas voltarei para a cidade. Minha família vai para o exterior. – e pausa por alguns momentos. – Mas... Me ajudar como?

Sorrio ainda mais. E respondo:

– Fazendo-o você entender que não precisa ser o estereótipo de garoto popular para ser feliz, nem para ser bonito. Na verdade, a beleza está nos olhos de quem vê. É mais uma questão de postura do que de aparência propriamente dita.

– Não sei não... – fala ele, desviando o olhar. – Sempre fui rejeitado pelas garotas e ridicularizado pelos outros garotos. – retorna seus olhos para mim. – É a primeira garota que fala comigo sem estar pedindo cola para uma prova ou meus exercícios de classe para copiar.

– Então a mudança será permanente. – garanto. – Seremos amigos de agora em diante, ok?

– O-ok... – corresponde ele, sorridente, finalmente.

Por que estou me interessando em ajudá-lo? Bem... Não sei se posso ser vista como uma boa pessoa. Se realmente fosse, talvez, eu o teria ajudado antes. Então... Bem... Creio que é porque meus olhos se abriram para Yuki. Já não conseguiria mais considerar o caso dele como algo desimportante. Aliás, nem sei se um dia considerei como desimportante ou não. Enfim... Sou complicada!

– Vou te ajudar a se encontrar, Yuki. – digo. – Quero mostrar para você as infinitas possibilidades que a vida tem para nos oferecer.

Com minha mão direita, vou puxando-o pelo corredor. E, sem nem entender, ele vem sendo levado por mim. Sim, deixei Dante de lado por ora. Sim, deixei o banheiro de lado por ora. Afinal, mesmo não sendo o tipo de pessoa que se vê no direito de ser chamada de heroína, também não sou o tipo que ignora a angústia de uma pessoa que tem medo do próprio sorisso...